Amigos do jazz + bossa

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CHARLIE PARKER, O MAIOR IMPROVISADOR DA HISTÓRIA DO JAZZ (um texto de José Domingos Raffaelli)



“Charlie Parker? Charlie Parker é Deus”. Essa afirmação do saxofonista Gigi Gryce, publicada na extinta revista Metronome, em 1960, dimensiona devidamente a estatura de Parker, o músico que revolucionou o jazz nos anos 40, quando criou o bebop ao lado de Dizzy Gillespie e outros luminares, dando-lhe novas formas e estruturas como nenhum outro jamais contribuiu para a chamada música dos músicos. A revolução do bebop foi total em termos de melodia, harmonia, ritmo, fraseado, timbres, sonoridade, composição, arranjo, concepção orquestral e de pequeno conjunto. Parker também introduziu no jazz a troca de quatro compassos entre os solistas – que logo tornou-se lugar-comum – e popularizou as gravações de um solista à frente de uma orquestra de cordas.

Parker foi um genial saxofonista-alto e compositor, criador de uma linguagem totalmente original, um autêntico gigante do jazz, um fenômeno musical que até hoje intriga e desafia análises, estudos e debates entre musicólogos, pesquisadores e  historiadores. Além de Parker, somente outros revolucionários como Louis Armstrong, Coleman Hawkins, Art Tatum, Lester Young e John Coltrane provocaram um grande impacto sobre os demais músicos de suas respectivas épocas.

As novas gerações pouco conhecem a respeito de Parker e pouca atenção dão à sua obra, que figura entre as maiores realizações estéticas da história da música, independente de épocas, estilos ou escolas. As opiniões dos músicos, críticos e historiadores deram a Parker a quase unanimidade pelas realizações de uma carreira que não foi longa, porém suficiente para deixar a marca indelével de sua genialidade como o maior improvisador da história do jazz.

Sua trajetória foi pontilhada de realizações excepcionalmente criativas, desde os primeiros discos com a orquestra de Jay McShann, denotando um potencial raro, até tornar-se o companheiro ideal do trompetista Dizzy Gillespie ao traçarem as diretrizes da escola bebop, que deu início à Era Moderna do jazz.

A vida e obra de Parker foi contada e romanceada em livros, artigos em revistas e jornais de todo o mundo e no filme "Bird", depois da sua morte. Até então, fora do círculo jazzístico, poucos se interessavam por ele e sua obra. Tal como ocorreu com a cantora Billie Holiday, sua personalidade despertou o interesse de pessoas que pouco ou nunca ouviram seus discos, vislumbrando ganhar dinheiro explorando sua vida e obra tumultuada. Como quase sempre acontece, quanto mais escândalos amorosos, prisões, problemas existenciais e envolvimento com drogas, mais interesse despertam em certo tipo de pessoas para as quais o valor do artista fica relegado ao segundo plano. A vida de Parker foi um prato cheio, repleta de episódios envolvendo casamentos, drogas, ligações com várias mulheres, tentativa de suicídio e outras ocorrências ao gosto dos sensacionalistas. Mas, o que interessa é a sua música genial, revolucionária e única.

A obra de Parker é uma das maiores realizações estéticas da história do música do Século 20. Extremamente criativa - dos primeiros discos com a orquestra de Jay McShann até a prolífica associação com Dizzy Gillespie, com quem definiu as diretrizes da escola bebop, culminou na sua rica produção a partir dos discos com seu quinteto, especialmente entre 1947 e 1949. Sua contribuição foi das mais notáveis. Seu estilo absolutamente original foi revolucionário em todos os sentidos. O fraseado de técnica incomparável, a descontinuidade rítmica, a substituição e extensão de acordes, a riqueza melódico-harmônica das improvisações sedimentaram um estilo novo e completamente original no jazz.

Charlie Christopher Parker Jr., cujo apelido era Bird, abreviação de Yardbird, nasceu em 29 de Agosto de 1920, em Kansas City, Missouri. Seu pai abandonou o lar muito cedo, cabendo à sua mãe, Addie Parker, criá-lo e estimular seu gosto pela música. Aos 11 anos ganhou um sax-alto, mas começou tocando tuba na bandinha da sua escola. Logo ficou claro que ele possuía uma imensa vocação musical, e aos 15 anos mostrava suas habilidades no sax-alto, participando de jam sessions com músicos mais experientes que ele, embora sua presença não fosse bem-vinda. Ele referiu-se a isso com certa amargura: "Lembro da primeira vez que toquei numa jam session. Estava me saindo bem até que tentei dobrar o andamento em Body and Soul. O pessoal caiu na gargalhada e retirei-me na mesma hora. Fui para casa, chorei bastante e durante três meses não peguei no meu instrumento".

As primeiras influências de Parker foram Rudy Vallee, que também foi ator de cinema, e Buster Smith, um músico de Kansas City. Mais tarde, também foi influenciado por Lester Young, um dos maiores saxofonistas do jazz.

A habilidade instrumental de Parker possibilitou-lhe conseguir seu primeiro trabalho profissional aos 16 anos na orquestra do pianista Lawrence Keyes. A essa altura, já casado e pai, tornou-se um escravo das drogas, vício que jamais conseguiu livrar-se, levando-o à auto destruição. Depois integrou a orquestra do pianista Jay McShann, teve uma passagem pela orquestra de Harlan Leonard e atuou na banda do seu ídolo Buster Smith.

Parker resolveu tentar a sorte em New York, em 1939, quando conheceu Dizzy Gillespie. Como era desconhecido, foi-lhe difícil conseguir trabalho, ganhando a vida como lavador de pratos, mas nas horas vagas dava canjas em clubes de jazz para manter a forma. Voltou a tocar com McShann, em 1940, com quem gravou seus primeiros discos no ano seguinte: “Hootie Blues” e “Swingmatism”. Seus solos em “Sepian Bounce” e “The Jumpin' Blues”, ainda com McShann, em 1942, intrigaram sobremaneira os músicos da época.

Um grupo de pioneiros do bebop reunia-se no clube Minton's Playhouse, na Rua 118, no Harlem, em New York, em 1941, entre eles os trompetistas Dizzy Gillespie, Joe Guy e Vic Coulsen, pianistas Bud Powell, Thelonious Monk e Kenny Kersey, bateristas Kenny Clarke e Max Roach, aos quais Parker passou a unir-se compartilhando as descobertas do novo idioma desenvolvendo as novas idéias que germinaram o bebop. Entre outras, naquelas noitadas desenvolveram novas idéias em contraposição à música da Era do Swing. Durante o dia, Gillespie e Monk preparavam uma série de acordes complexos para assustar os indesejáveis que apareciam à noite para tocar. Segundo o crítico Leonard Feather, sempre que um estranho subia ao palco, o grupo tocava as frases e ritmos mais difíceis para fazer o "invasor" bater em retirada. A contribuição desses pioneiros foi decisiva para plantar as sementes do bebop, que cristalizou-se a partir de 1943/44, mas Parker e Gillespie foram os mais importantes para o desenvolvimento e a influência do estilo.

Deixando a orquestra de McShann, em 1942, Parker passou pelas fileiras de Noble Sissle, além de tocar brevemente com Andy Kirk e Cootie Williams. Em 1943 integrou a banda do pianista Earl Hines ao lado de Gillespie e Benny Harris (trompetes), Benny Green (trombone), Wardell Gray (sax-tenor) e Shadow Wilson (bateria), além dos cantores Billy Eckstine e Sarah Vaughan. Quando Eckstine formou sua orquestra, em 1944, que foi um celeiro de músicos bebop, levou Parker e Gillespie para suas fileiras, além de recrutar Fats Navarro, Miles Davis e Howard McGhee (trompetes), Benny Green e Jerry Valentine (trombones), Sonny Stitt, Dexter Gordon, Lucky Thompson, Gene Ammons e Leo Parker (saxes), John Malachi (piano), Tommy Potter (baixo) e Art Blakey (bateria). Deixando Eckstine, Parker passou a integrar alguns conjuntos da Rua 52, depois oficialmente denominada Swing Street, que abrigava muitos clubes de jazz em seus dois  quarteirões.

O ano de 1944 foi importante para Parker, que gravou quatro músicas com o guitarrista Tiny Grimes, das quais “Red Cross” e “Tiny’s Tempo” abrigam o embrião do seu estilo pioneiro. A essa altura, ele e Gillespie tocavam juntos constantemente, causando verdadeiro furor pelas suas inúmeras inovações. Em Fevereiro e Maio de 1945, eles gravaram para o selo Guild (mais tarde reeditadas pela Savoy) as faixas que sedimentaram o bebop: “Groovin' High”, “Dizzy Atmosphere”, “All the Things You Are”, “Hot House”, “Salt Peanuts” e “Shaw Nuff”, ainda que as seções rítmicas não tivessem afinidades com suas inovações. Uma faixa complementar – “Lover Man” - foi o veículo para Sarah Vaughan, que também despontava como uma das grandes vozes do jazz.

Anteriormente, em Janeiro de 1945, Parker e Gillespie participaram de uma sessão liderada pelo pianista Clyde Hart, com o cantor Rubberleg Williams, Trummy Young (trombone), Don Byas (sax-tenor) e outros; Parker e Gillespie tocam pequenos solos nos quais seus lampejos de gênio aparecem em doses homeopáticas. Em Maio, eles participaram de gravações com Sarah Vaughan para o selo Continental, e, no mês seguinte, de uma sessão com o vibrafonista Red Norvo para a Comet, com solos cintilantes de Parker e Gillespie em “Slam Slam Blues” e “Congo Blues”, na companhia de Teddy Wilson (piano), Flip Phillips (sax-tenor), Slam Stewart (baixo) e Specs Powell (bateria), músicos da Era do Swing. Todavia, foram os discos para a Guild que definiram a temática bebop, estabelecendo as regras fundamentais para a improvisação do então novo jazz. Esses discos tiveram impacto fulminante sobre a confraria jazzística, especialmente os jovens músicos, que viam em Parker e Gillespie os ídolos e arautos do bebop que desencadearam as inovações sonora, melódica, harmônica e rítmica. Nascia uma nova era. Jamais o jazz fora transfigurado em todos os seus elementos e aspectos.

A partir desses discos, a influência de Parker e Gillespie alastrou-se ainda mais. Foi quando Parker decidiu formar seu próprio quinteto com Miles Davis, Curley Russell (baixo), Max Roach e alguns músicos revezando-se no piano.

Em 26 de novembro de 1945, foi perpetuada a sessão definitiva do bebop, produzida por Herman Lubinsky para a Savoy. A formação do quinteto nessa sessão suscitou inúmeras controvérsias. Tudo ficou esclarecido quando o pianista Sadik Hakim (então usando seu verdadeiro nome Argonne Thornton) declarou ter participado da sessão. Foram perpetuados os clássicos “Ko-Ko”, “Now's the Time” e “Billie's Bounce”, além de “Thriving From A Riff”, “Warming Up A Riff” e “Meandering”. A fabulosa atuação de Parker selou definitivamente sua influência. Raras vezes sua força inventiva foi tão prolífica. Nos três choruses de “Now’s the Time”, um blues de 12 compassos, Parker toca um dos três ou quatro melhores solos de blues de toda história do jazz, que foi transcrito várias vezes para seções de saxofones completas, pois são considerados perfeitos em construção, inspiração e execução, tão perfeitos quanto a falibilidade humana pode ser. “Billie's Bounce”, outro blues, possui uma linha melódica intrincada de difícil execução, cujas características rítmicas são altamente sincopadas, mas que ele domina com espantosa facilidade.

“Ko-Ko”, baseado nas harmonias de “Cherokee”, é virtualmente inenarrável porque seu solo de 127 compassos desafia a análise: a descontinuidade rítmica, a fertilidade imaginativa pela sucessão avassaladora de idéias num andamento supersônico, as acentuações deslocadas precisamente colocadas e a cascata de notas alinhavadas com sua proverbial lógica deram à peça a inequívoca conotação de uma suprema obra-prima. “Ko-Ko” inscreveu-se ao lado de “West End Blues” (de Louis Armstrong), “Body and Soul” (de Coleman Hawkins), “Concerto for Cootie” (de Duke Ellington), “These Foolish Things” e “I Can’t Get Started” (de Lester Young) e “Round Midnight” (de Thelonious Monk) entre as maiores realizações da história do jazz de todos os tempos.

Devido às deficiências da execução de Miles Davis, desprovido da técnica indispensável exigida para um músico bebop, além da sua embocadura deficiente, sem conseguir tocar a dificílima linha melódica de “Ko-Ko”, obrigou Dizzy Gillespie (que estava no estúdio) a executá-la em uníssono com Parker.

A partir dessas gravações, a importância de Parker foi definitivamente estabelecida, mas seus problemas pessoais e a indisciplina da sua vida particular, inteiramente oposta à sua rígida disciplina musical, foram minando sua saúde. A vida desregrada, o abuso do álcool, as noitadas em companhia de mulheres e toda sorte de extravagâncias minaram suas resistências, acumulando inexoravelmente um desgaste que trouxe conseqüências tragicamente desastrosas.

Em dezembro de 1945, Parker foi para a Califórnia com o sexteto de Dizzy Gillespie, mas a receptividade à sua música foi mínima. Desanimados, Parker e Gillespie conseguiram algum trabalho com o grupo Jazz At the Philarmonic, mas o trompetista logo regressou a New York. Parker ficou em Los Angeles e, em Março de 1946, iniciou uma associação com Ross Russell, dono da gravadora Dial, para a qual gravou uma série de discos históricos com Miles Davis, Lucky Thompson (sax-tenor), Dodo Marmarosa (piano) e outros, originando jóias do quilate de “A Night in Tunisia”, “Moose the Mooche”, “Ornithology” e “Yardbird Suíte”; as três últimas, de autoria de Parker, tornaram-se clássicas.

Em “A Night in Tunisia”, Parker realizou o “impossível” no primeiro break do tema, inserindo uma torrente de 64 notas em apenas quatro compassos, colocadas com total sentido musical, abrigando a centelha fulgurante do seu gênio; como a gravação foi rejeitada, Parker lamentou-se: "Nunca mais tocarei aquele break de quatro compassos". Por esse motivo, e reconhecendo o que Parker fizera, Russell editou aqueles quatro compassos separadamente com o título "Famous Alto Break".

Ainda em Los Angeles, Parker organizou um quinteto com o trompetista Howard McGhee, gravando outra sessão para a Dial, em Julho de 1946. Durante a sessão, Parker teve um colapso nervoso logo depois de gravar “Lover Man”, sendo removido para o Hospital Camarillo, onde ficou internado sete meses. O solo de Parker em “Lover Man” é o retrato de um homem doente, inteiramente perturbado. Segundo alguns historiadores, Parker jamais perdoou Russell por haver editado esse disco.

Liberado do hospital em perfeita forma física, otimista e de bem com a vida, Parker estava preparado para novas façanhas. Voltou ao estúdio para gravar com o trio do pianista Erroll Garner, em 19 de Fevereiro de 1947, nascendo o clássico “Cool Blues”; apesar das diferenças de estilo entre Parker e Garner, o entendimento entre eles foi notável. Por insistência de Parker, mas contra a vontade de Russell, no mesmo dia um cantor chamado Earl Coleman gravou duas músicas com eles: “This Is Always” e “Dark Shadows” (o solo de Parker neste último foi transcrito para a seção de saxes da orquestra de Woody Herman no arranjo de “I’ve Got News For You”). Por ironia do destino, “This Is Always” foi um sucesso instantâneo, rendendo bom dinheiro a Parker, Garner e Coleman.

Uma semana depois, em 26 de Fevereiro de 1947, Parker voltou ao estúdio, desta vez com um hepteto extraordinário integrado por McGhee, Wardell Gray (sax-tenor), Dodo Marmarosa, Barney Kessel (guitarra), Red Callender (baixo) e Don Lamond (bateria). Dos quatro números, “Relaxin' At Camarillo” (alusão ao hospital onde foi internado), um blues ritmicamente intrincado, tornou-se outro clássico de Parker. O baterista Kenny Clarke assim o definiu: "Relaxin' At Camarillo” diz tudo, mostra exatamente como Bird sentia os blues e a original colocação das suas acentuações rítmicas provam que ele conhece mais sobre os blues do que qualquer outro músico".

Mesmo com o apoio de Ross Russell e dos músicos com quem tocava, Parker queria regressar a New York. Logo juntou algum dinheiro e voltou ao seu habitat musical formando o quinteto que ficou para a história do jazz com Miles Davis (trompete), Duke Jordan (piano), Tommy Potter (baixo) e Max Roach (bateria). Os solos superiormente construídos de Parker e a afirmação de Duke Jordan como pianista original, criando introduções que foram exaustivamente copiadas e improvisações com maravilhosas frases melódicas altamente inventivas, aliadas a uma execução repleta de swing, embora sempre bastante relax, além dos progressos de Miles Davis em relação a dois anos antes, mais o apoio rítmico impecável de Tommy Potter e Max Roach, contribuiram para o quinteto gravar uma legião de obras-primas, ganhando um status que poucos combos alcançaram em toda a história do jazz.

Entre outras, ficaram para a posteridade “Donna Lee”, “Chasing the Bird”, “Cheryl”, “Dewey Square”, “Bird of Paradise”, “Scrapple from the Apple” (com solos soberbos de Parker e Duke Jordan), “Embraceable You” (obra maestra de Parker em balada, cujo solo supera em beleza e graça melódica a célebre composição de George Gershwin), “My Old Flame”, “Out of Nowhere” e “Don’t Blame Me”. Nas quatro últimas, Miles Davis preconiza uma nova direção pela frieza das suas linhas melódicas improvisadas, embora extremamente líricas, mais tarde definida nas gravações da série The Birth of the Cool, que estabeleceram a linguagem do cool jazz. Outras obras importantes foram “Blue Bird”, “Parker’s Mood”, “Steeplechase”, “Half Nelson” e “Milestones”; nas duas últimas, originalmente editadas em nome de Miles Davis, Parker toca sax-tenor. Em algumas gravações desse período, foi agregado ao quinteto o trombonista J. J. Johnson.

O ano de 1948 trouxe mudanças para o grupo. Jordan deixou o quinteto no início do ano, sendo substituído por Bud Powell e John Lewis em algumas sessões. No fim do ano, Miles Davis decide tentar a sorte como líder, sendo substituído por Kenny Dorham, Max Roach deu lugar a Roy Haynes e Al Haig ocupou a vaga de Jordan. Parker tocou com essa formação no I Salon du Jazz, em Paris, em 1949, mas logo Red Rodney substituiu Dorham.

Contratado pelo empresário e produtor Norman Granz, Parker gravou uma série de canções standards acompanhado por uma seção de cordas, um contexto que foi copiado à exaustão, cujos discos alcançaram surpreendente sucesso de vendas. Ainda em 1949 foi fundado o clube Birdland, na Rua 52, em sua homenagem, onde ele tocou com freqüência, tornando-se o grande point jazzístico de New York. No ano seguinte, Parker apresentou-se nos países escandinavos e no seu regresso grava outra sessão acompanhado por cordas, cujo sucesso tornou seu nome conhecido por um público alheio ao jazz.

Parker decide começar a segunda metade do Século XX sem liderar um conjunto regular. Sua saúde fica mais abalada, especialmente após o falecimento de sua filha Kim, de dois anos, entregando-se novamente à bebida e aos tóxicos. Ele realizou turnês pelos Estados Unidos, tocando com seções rítmicas das cidades onde se apresentava, mas sempre convocando Duke Jordan, Tommy Potter e Roy Haynes quando tocava em New York.

Em Maio de 1953, o baixista Charles Mingus forma um quinteto de astros para tocar no Massey Hall, em Toronto, no Canadá, reunindo Parker, Gillespie, Bud Powell e Max Roach. O histórico concerto foi brilhante, com todos em forma excepcional. Lançado originalmente pelo selo Debut, foi reeditado inúmeras vezes, marcando o último encontro de Parker e Gillespie em disco. Parece que os dois compadres musicais sabiam ser a última vez que gravavam juntos, deixando para a posteridade atuações  inesquecível. Segundo a grande maioria de conhecedores, Jazz at the Massey Hall é um dos 20 discos para a ilha deserta. Ainda em 1953, Parker gravou para a Prestige tocando sax-tenor ao lado de Miles Davis e Sonny Rollins, este iniciando sua marcha para o estrelato.

Em 1954, um pouco mais animado, Parker tentava levar uma vida normal, porém seu estado físico era precário. Em Julho realizou-se o primeiro Festival de Jazz de Newport (mais tarde sucessivamente denominado Newport-New York Jazz Festival, Kool Jazz Festival e finalmente JVC Jazz Festival), mas ele não foi convidado, uma omissão imperdoável por parte dos organizadores. Enquanto isso, suas apresentações no Birdland eram o ponto alto da vida jazzística nova-iorquina.

Em Agosto daquele ano ouvi Charlie Parker no Birdland, e dessas noites guardo a mais grata das recordações. Chegando a New York, soube que dois dias depois ele iniciaria uma semana no Birdland, dividindo a programação com o quinteto de Dizzy Gillespie (integrado por Hank Mobley no sax-tenor, Wade Legge no piano, Lou Hackney no baixo e Charlie Persip na bateria) e com a cantora Dinah Washington (com Junior Mance no piano, Keeter Betts no baixo e Ed Thigpen na bateria). Foi com certa apreensão que desci as escadas do Birdland, pois lera sobre sua propalada decadência. Após os sets de Gillespie e Dinah Washington, aguardava ansioso o momento de ouvir o grande monstro sagrado do jazz moderno, acompanhado por Duke Jordan, Tommy Potter e Roy Haynes e uma seção de cordas.

Recebido calorosamente pelo público, recordo-me que Bird tinha excelente aspecto. Bastante sorridente e alegre, brincava com a platéia, que não lhe regateava aplausos. Era evidente sua satisfação pela acolhida que recebia. Quando começou a tocar, imediatamente notei que ele estava na plena posse das suas faculdades criativas com a fluência, continuidade e inventividade que marcou o seu gênio. Entretanto, mesmo com a seção de cordas fornecendo o background ideal para aquele contexto, não era exatamente o que o público queria. No início do segundo set, percebendo que o público não aprovava as cordas, ele interrompeu “What Is This Thing Called Love” para indagar se desejavam ouví-lo somente com a seção rítmica. Uma vibração indescritível tomou conta da platéia e imediatamente Bird dispensou as cordas, atacando em andamento avassalador sua composição “Kim”, deixando atônitos os que acreditavam na sua decadência. Seguiram-se, entre muitos outros, “Scrapple From the Apple”, “Au Privave”, “The Song Is You” (em andamento supersônico), “Red Cross”, “Bird Lore”, culminando com o inenarrável “She Rote” (baseado nas harmonias de “Beyond the Blue Horizon”), com Bird a todo vapor num andamento talvez ainda mais rápido que o de “Ko-Ko”, gravado para a Savoy). Em estado de graça, eu me deliciava com os vôos inacreditáveis de Parker, em forma exuberante.

Não era para menos. Seus discos não passavam dos 3 minutos de duração, mas ao vivo, as interpretações se estendiam entre 8 e 12 minutos. Em vários números, ele e Roy Haynes trocaram infindáveis quatro compassos repletos de idéias e interação mágica. Nunca ouvira nada parecido e o público gritava mais alto a cada troca de quatro compassos. O impacto dessa primeira noite foi tão grande que, ao regressar ao hotel sob o efeito daquela experiência única e fantástica, não consegui dormir. Aquela e as cinco noites seguintes ficaram gravadas para sempre na minha memória. Foram os melhores e mais inolvidáveis momentos da minha vida de jazzófilo inveterado, e, acreditem, ouvi centenas dos melhores músicos de jazz do mundo, mas nenhum outro igualou-se a Parker. Naquela semana, eu era o primeiro a chegar ao Birdland, ocupando um cadeira na primeira fila em frente ao palco. Ao chegar para o que seria a noite de encerramento daquela semana memorável, fui informado que Parker tentara o suicídio injetando iodo na veia e estava hospitalizado em estado crítico. Chocado e muito triste, voltei ao hotel. Nunca mais o vi.

Parker reapareceu num concerto no Town Hall, em 30 de Outubro de 1954. Gravou pela última vez, em Dezembro daquele ano, uma sessão com músicas de Cole Porter. Essas gravações inspiraram Norman Granz a realizar a série de songbooks com Ella Fitzgerald interpretando canções dos grandes compositores americanos. Ele fez sua última apresentação no Birdland em 5 de Março de 1955.

Parker morreu em 12 de Março de 1955 enquanto assistia televisão no apartamento da Baronesa Pannonica de Koenigswarter, vitima de congestão e pneumonia, segundo a autópsia. Tinha 34 anos, mas o médico que assinou seu atestado de óbito declarou que "o falecido teria presumivelmente 53 anos". Sua vida agitada, febril, repleta de angústia e tragédia foi romanceada pelo escritor Elliott Grennard num conto intitulado "Sparrow's Last Jump". Nos anos 80, sua vida foi focalizada no filme "Bird", em que muitos fatos foram aleatoriamente fantasiados, como acontece na maioria das produções de Hollywood.

Parker casou e viveu com várias mulheres, teve diversos filhos, foi amigo dos seus amigos, mas não ganhou dinheiro. A época dos festivais ainda não começara e ele não se beneficiou da publicidade e da projeção que esses eventos proporcionam. Tudo que ganhava ia embora com bebidas, mulheres e drogas.

A contribuição de Parker ao jazz foi das mais notáveis. Seu estilo foi revolucionário em todos os sentidos; sua técnica, incomparável; suas idéias, inesgotáveis. Suas frases vertiginosas, a descontinuidade rítmica, a substituição e extensão dos acordes e a riqueza melódico-harmônica das suas improvisações sedimentaram uma nova linguagem rica e original. Sua concepção ousada abriu as portas para as inovações que ele criou. Sua execução nos andamentos rápidos incluía acordes de passagem disseminados entre fragmentos melódicos. Nas baladas incluía frases de notas abundantes com sua harmonia implícita, realizando a sublimação da melodia.

Sua influência sobre milhares de músicos e seus discípulos - do obscuro Dean Benedetti (que o seguiu por todos os Estados Unidos gravando suas apresentações) aos mais famosos, entre eles Sonny Stitt, Jackie McLean, Cannonball Adderley e Phil Woods, além dos cinco saxofonistas que organizaram o conjunto Supersax com o objetivo de recriarem a sua música e os seus solos – espargiu a sua grandeza.

O jazz percorreu longos caminhos desde a morte de Charlie Parker, conheceu outra revolução - a do free jazz -, cambaleou nos anos 60 com o advento do rock - nascendo uma inexpressiva fusão híbrida do chamado indevidamente jazz-rock (com muito de rock e quase nada de jazz), que nada acrescentou em termos artísticos -, mas revigorou-se a partir da década de 80 com o renascimento da sua linguagem mais autêntica, atravessando desde então uma fase de amplo fastio em todo o mundo. Mas, a despeito de haver mudado tanto desde os tempos de Parker, sua influência continua inspirando músicos das novas gerações, e sua música é ouvida em todo o mundo. Até hoje o jazz não conheceu um músico que o tenha superado ou sequer igualado.

Dizzy Gillespie declarou, em 1963: "Bird era como meu irmão gêmeo. É um gênio do nosso século. No futuro, será citado ao lado de Beethoven, Bach e outros como um dos melhores músicos de todos os tempos". O saxofonista Ornette Coleman, um dos arautos do free jazz, declarou: "Penso que somente a cada 100 anos nasce um gênio como Charlie Parker. Ele foi o melhor de todos".

O crítico Ben Caldwell escreveu em 1990: "Não existe nada melhor no jazz do que foi tocado pelos inovadores da revolução do bebop. Até que um saxofonista supere Charlie Parker, um trompetista supere Dizzy Gillespie ou um pianista supere Bud Powell, nada melhor existirá no jazz".

E eu assino embaixo.

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José Domingos Raffaelli (crítico, professor, escritor e autor de mais de 35.000 artigos sobre jazz e música instrumental em jornais e revistas nacionais e estrangeiros).

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É com muita honra que o Jazz + Bossa publica o texto acima, escrito pelo mais importante crítico de jazz em atividade no país. Sobre José Domingos Raffaelli, qualquer coisa que se diga poderá resvalar no óbvio: sua importância para a evolução do jazz no Brasil é capital. Não apenas por seus escritos e relatos. Não apenas porque assistiu, ao vivo, a todos os grandes nomes do jazz. Não apenas porque seu conhecimento do idioma jazzístico é virtualmente ilimitado. Mas, sobretudo, por causa do grande ser humano que é:  generoso, bem-humorado e dono de uma simplicidade comovente, Raffaelli é querido pelo meio musical como poucos.

Sua postura serena faz com que todos à sua volta prestem a mais absoluta atenção a tudo quanto diga. Raffaelli se assemelha a um homem da Renascença ou a um filósofo grego, a distribuir pelo mundo afora doses generosas de candura, humildade e conhecimento. Conhecimento sobre os mistérios do jazz... Conhecimento sobre os mistérios da vida... Ler seus textos ou conversar com ele - como pude fazê-lo na semana passada - é uma experiência marcante e duradoura. Jamais esquecerei a sua elegância ao falar, a sua memória prodigiosa, a sua absoluta cordialidade no trato com as pessoas. 

A meu lado, naquela noite encantada, meus amigos Sérgio Sônico e Maurício Einhorn. Juntaram-se a nos, ainda, a cantora Áurea Martins (que tinha outros compromissos e não pôde ficar muito tempo) e meus queridos tios Têca e Faria (que chegaram depois mas que puderam se emocionar com as palavras do Mestre Raffaelli). Por tudo o quanto ele nos tem dado ao longo de sua brilhante trajetória, José Domingos Raffaelli faz parte daquele seletíssimo grupo de pessoas que, pelo simples fato de existir torna melhor esse mundo tão cheio de violência, ganância e insensibilidade. Parafraseando Tom e Vinícius: Mestre, se todos fossem iguais a você, que maravilha seria viver...

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

FOGO NAS MÃOS



Guitarrista, compositor, arranjador e educador musical, Jimmy Bruno é um dos grandes nomes do jazz contemporâneo, embora não seja tão famoso e nem tenha tido reconhecimento proporcional ao seu fulgurante talento. Nascido no dia 22 de julho de 1953, na Filadélfia, estado da Pensilvânia, começou a tocar guitarra aos sete anos, quando ganhou do pai uma vistosa Gibson L4. Estimulado pela família, em pouco tempo já exibia uma destreza capaz de assombrar os mais experientes músicos.

Seu pai, Jimmy Sr., também era guitarrista e havia participado da gravação de “Guitar Boogie Shuffle”, do violinista Frank Virtue, que fez enorme sucesso em 1958. A mãe era cantor e o garoto costumava praticar oito horas por dia. Na adolescência, Jimmy foi estudar improvisação com o baixista Al Stauffer, um dos mais renomados da Filadélfia. Concluído o ensino médio, o jovem oscilou entre a música e a medicina, mas a vocação musical falou mais alto e ele seguiu carreira no jazz.

Ouvia compulsivamente os discos de Johnny Smith, Hank Garland, Joe Pass, Tal Farlow, Wes Montgomery, Kenny Burrell, Barney Kessel, Jimmy Raney, Jim Hall e Pat Martino, que até hoje aponta como suas maiores influências. Aos dezenove anos começou sua auspiciosa carreira musical, na big band do exigente Buddy Rich. Jimmy costumava tocar em gigs na cidade de Wildwood, em Nova Jérsey, e suas atuações chamaram a atenção de Rich. Consta que o baterista costumava atirar baquetas nos músicos de sua orquestra, quando o desempenho destes não correspondia ao esperado, mas Bruno jamais foi agraciado com esse “mimo”.

Depois de excursionar com Rich pelo país, Bruno participou das bandas de Frank Sinatra, Wayne Newton, Lena Horne, Tommy Tedesco, Anthony Newley e Doc Severinsen, entre outros. Em busca de melhores oportunidades de trabalho, Bruno se mudou para Las Vegas em meados da década de 70. Também morou em Los Angeles, tocando em orquestras de hotéis e cassinos, atuando em programas de TV e participando de gravações de artistas de vários estilos, indo do country ao pop.

Seu envolvimento com esses estilos, todavia, jamais arrefeceu seu amor pelo jazz. Sua maior frustração era, exatamente, não poder tocar o estilo que com a freqüência que gostaria. Decidido a retomar, com maior intensidade, a carreira jazzística, ele voltou à cidade natal em 1988 e nunca mais deixou de se apresentar em pequenos clubes, geralmente em formato de trio, tanto é que declarou em uma entrevista: “Em Los Angeles eu estava ganhando uma boa grana, mas não conseguia tocar jazz de forma alguma. Num cenário musical como aquele, você acaba perdendo a qualidade e a concentração. Depois que eu retornei a Filadélfia, toco jazz pelo menos cinco vezes por semana e nunca passei um único final de semana sem me apresentar”.

No início de 1991, o produtor Carl Jefferson, da Concord Records, descobriu o guitarrista e se encantou com suas habilidades. Contratou Bruno imediatamente e somente então, quando já estava com 38 anos, é que pôde gravar o seu primeiro álbum como líder, o feérico “Sleight of Hand”. Depois dele vieram outros petardos, como “Burnin’”, “Like That” e “Polarity” (um duo com o não menos talentoso guitarrista Joe Beck).

A visibilidade dada por seus discos fizeram de Bruno figurinha fácil em concertos e festivais pelo mundo, destacando-se a sua participação no JVC Jazz Festival, Concord Jazz Festival e Pescara Jazz Festival, na Itália. Atuou, como líder ou sideman, ao lado de feras do gabarito de Joe Beck, Bobby Watson, Jack Wilkins, Tal Farlow, Howard Alden, Christian McBride, Frank Vignola, Kurt Elling e muitos outros. Também marcou presence em concertos em homenagem a grandes mestres da guitarra, como Barney Kessel, Kenny Burrell, Herb Ellis e Johnny Smith.

Em meados dos anos 90, o guitarrista passou a se dedicar à educação musical, tendo criado, em 2007, o Jimmy Bruno Guitar Institute, onde leciona teoria musical, composição, arranjo e improvisação. Ele foi um dos pioneiros no ensino através da internet e arrebanhou uma legião de alunos virtuais, pelo mundo afora e até hoje dá cursos e oficinas nos Estados Unidos e em diversos outros países.

Um dos pontos altos de sua discografia é o álbum “Live at Birdland II”, gravado no célebre clube novaiorquino, nos dias 15 e 16 de dezembro de 1996. Ao lado do guitarrista, os habituais parceiros Craig Thomas no contrabaixo e Vince Ector na bateria e em cinco das dez faixas, Jimmy conta com a excelsa participação do virtuose Scott Hamilton no sax tenor.

“Reticulation”, composição do próprio Bruno, abre o disco de maneira explosiva. O guitarrista é fluente, articulado e extremamente melodioso, lembrando Wes Montgomery em seus melhores momentos. A velocidade do seu dedilhado e as frases extremamente bem construídas revelam um artista de enorme talento e imaginação. O mesmo sucede com seus acompanhantes, em especial o baixista Thomas, um verdadeiro ás em seu instrumento.

Em seguida, é a vez de “Chesapeake Blues”, de autoria de Thomas. Trata-se de um blues ensolarado e cheio de nuances, onde o trio se vale da delicadeza e da inteligência, ao invés da força e da contundência habitualmente associadas ao estilo. Acordes tranqüilos e relaxados por parte do líder, uma sensacional performance do contrabaixista (que durante boa parte da execução usa o arco) e a sobriedade percussiva de Ector tornam esta faixa uma das mais atraentes do disco.

Verdadeiro clássico de Clifford Brown, “Joy Spring” é um dos temas preferidos pelos guitarristas e a atmosfera alegre e primaveril sugerida pelo título é plenamente incorporada pelo trio. Improvisador de recursos aparentemente inesgotáveis, Bruno elabora um labirinto de harmonias em seus solos, mas jamais perde a concatenação.

“Poinciana”, de Buddy Bernier e Nat Simon, foi imortalizada pelo pianista Ahmad Jamal. O arranjo do trio é lânguido, sincopado e impregnado de um charmoso acento latino. O trabalho de Ector é decisivo na construção do clima, equilibrando-se entre a malemolência e a candura. A interpretação de Bruno ganha ainda mais importância porque esse é um tema freqüentemente associado ao piano, sendo um dos poucos guitarristas a tê-lo gravado.

“I Can't Give You Anything But Love” é fruto da parceria entre Dorothy Fields e Jimmy McHugh. Aqui, o baixista e o baterista saem do palco, para que Bruno possa brilhar em um solo emocionante. Com uma sonoridade encorpada, com bastante ênfase nos graves – ao estilo Kenny Burrell – o guitarrista percorre a melodia com sobriedade e altivez, sem recorrer a malabarismos e evitando o exibicionismo gratuito.

Composta a seis mãos por Billy Bird, Sir Henry Joseph Wood e Teddy McRae, “Broadway” é uma espécie de hino não oficial do showbizz norte-americano e marca a entrada em cena do fabuloso Scott Hamilton. A versão do quarteto é veloz, assentada na tradição bop e mostra o duelo entre dois dos mais fulgurantes solistas da atualidade. Custa crer que Hamilton e Bruno jamais tenham tocado juntos antes e, de acordo com as informações do disco, escolheram o repertório poucos minutos antes da apresentação, isto é, nem sequer ensaiaram previamente. 

Todos os encômios também para a devastadora performance do endiabrado baterista.
“Lover Man”, de Jimmy Davis e Jimmy Sherman e Roger "Ram" Ramirez, ganhou o mundo na voz de Billie Holiday e a versão do disco, apenas com o sax e a guitarra, é primorosa. O tema serve para dar uma refrescada no clima e dá espaço para que Bruno exiba seu lado romântico. O guitarrista exala lirismo e elabora delicadas texturas sonoras, muito bem replicadas pelo saxofonista, cuja proverbial sensibilidade evoca os grandes mestres do passado, em especial Ben Webster, Lester Young e Stan Getz.

Thomas e Ector retornam para a admirável interpretação de “I Hear a Rhapsody”, belíssima composição de Dick Gasparre, George Fragos e Jack Baker. Ector tem uma atuação primorosa, com um admirável senso de tempo e uma pulsação contagiante. Hamilton é uma usina de swing e de idéias muito bem concatenadas, sempre executando suas frases com um bom gosto e uma potência invejáveis. Bruno é uma força da natureza e arrebata o ouvinte com acordes apaixonados, energia e uma boa dose de impulsividade.

Eddie DeLange e James Van Heusen assinam a comovente “Darn That Dream”, que ganha um arranjo impressionista, sobretudo por conta da interpretação apaixonada de Hamilton. O som que ele extrai do saxofone, rouco e arrastado, reverbera como um lamento de amor não correspondido. Bruno tem uma atuação igualmente marcante e seu dedilhado evoca um misto de elegância e desamparo. A percussão fantasmagórica de Ector também merece ser ouvida com bastante atenção.

Para encerrar, uma soberba interpretação de “I Want To Be Happy”, da dupla Irving Caesar e Vincent Youmans. Hamilton e Bruno duelam com ferocidade e provocam um verdadeiro frenesi na platéia, que vibra ruidosamente a cada intervenção daqueles. Dois solistas em estado de graça, improvisando com fúria, energia e criatividade, produzindo sonoridades arrebatadoras e chegando aos limites das possibilidades rítmico-harmônicas dos respectivos instrumentos. Ótimos solos de Thomas e de Ector ajudam a tornar o programa ainda mais sensacional. Um disco para ser degustado muitas e muitas vezes e que, a cada audição, se torna ainda mais delicioso.

Bruno deixou a Concord em 2001, quando lançou “Midnight Blue”. Sobre sua saída, comentou: “a gravadora cresceu muito e começou a ter necessidade de manter em seu cast artistas de um perfil mais popular, como Barry Manilow ou Ray Charles”. A separação se deu de forma amigável e Jimmy não guarda mágoas: “a Concord vai sempre produzir música de qualidade. Os caras que estão à frente da gravadora – John Burk e Glen Barros – são realmente apaixonados por música e não dois engravatados que só se importam com números e vendas”.

De qualquer maneira, Jimmy tem gravado com regularidade ao longo dos últimos anos e fez algumas gravações, como líder, para as pequenas Sinistral Records e Mel Bay Records. Atualmente ele faz parte da Affiliated Artists Records, por onde lançou o elogiado “Maplewood Avenue”, considerado um dos melhores álbuns de 2008 pela revista Downbeat. Gravado em sua própria casa, o disco flagra Jimmy, que também atuou como engenheiro de som e produtor, ao lado do baixista Jeff Pedraz e do vibrafonista Tony Miceli.

O repertório traz apenas composições originais e sobre suas opções, o guitarrista foi enfático: “Eu sempre quis fazer algo parecido com o que Red Norvo Trio fazia. Quanto à não inclusão de standards, isso também foi uma decisão consciente. Fazer um disco apenas com composições originais me pareceu uma ótima idéia desde o princípio e eu fiquei muito contente com o resultado. À medida em que íamos compondo, os novos temas que surgiam eram cada vez melhores e por isso tivemos um amplo material para trabalhar”. Em 2009, quando completou seu 75º aniversário, a Downbeat indicou Bruno como um dos 75 melhores guitarristas de todos os tempos.

Além da música, Jimmy tem uma outra grande paixão: o tiro esportivo. A aproximação com as armas de fogo se deu por causa de uma tentativa de assalto. Certa noite, após sair de um clube onde havia acabado de se apresentar, seu carro, um Mercedes-Benz novinho em folha, foi cercado por dois automóveis e os ladrões, armados, anunciaram o roubo.

Jimmy manteve o sangue frio e acelerou, conseguindo escapar do cerco, antes que os bandidos pudesse machucá-lo. Mas ficou extremamente abalado e procurou uma loja de armas, decido a não correr mais riscos dessa natureza. Ele comprou uma pistola automática Glock e se inscreveu em um curso prático de tiro. Ficou tão fascinado com o tiro esportivo que hoje sua ligação com as armas põe em segundo plano até mesmo a questão da defesa pessoal. Para Jimmy, o mais importante é que o esporte o ajuda a manter a concentração e melhora o equilíbrio.

Bruno passou por outro susto em 2008, agora relacionado à saúde. Naquele ano recebeu o diagnóstico da síndrome do túnel do carpo, uma doença neurológica que afeta o nervo mediano, localizado em uma região do punho chamada túnel do carpo. A compressão desse nervo causa dormência, formigamento, dor e compromete os movimentos das mãos. Felizmente, o tratamento cirúrgico foi bem sucedido e após alguns meses de fisioterapia ele recuperou completamente a capacidade de tocar e a doença não deixou seqüelas.

O guitarrista continua morando na Filadélfia, com a esposa Peg, e só sai de lá para ministrar cursos ou realizar concertos. Na cidade natal, é figurinha carimbada nos principais clubes de jazz, espe ialmente no Ortlieb's no Chris' Jazz Café, onde costuma encontrar com outro nativo ilustre, o ídolo Pat Martino. Recentemente, foi uma das estrelas da Jazz Improv Convention, realizada em Nova Iorque, onde suas oficinas estavam entre as mais concorridas. A Grande Maçã, alias, é um dos destinos mais freqüentes do guitarrista, que costuma se apresentar com habitualidade no Birdland e no Iridium, seus clubes favoritos, juntamente com o Blues Alley, em Washington DC.

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

EU TENHO A FORÇA!



Não, ele não é o He-Man, o célebre personagem dos desenhos animados, cujo bordão ecoa até hoje na cabeça de quem tem mais de 30 anos. Mas ele também tem a força. Segundo Pedro Cardoso, Illinois Jacquet é “um dos mais significativos representantes da tradição do sax tenor texano, com seu toque fogoso, ebuliente, robusto, denso, vibrato bem forte, inesgotável em seu fraseado”. Esse saxofonista possui, ainda de acordo com o Apóstolo do Jazz, um estilo “tecnicamente muito bem estruturado, com amplo domínio da digitação e da respiração, exuberante e até “prolixo” nas apresentações para o público, chegando ao paroxismo no “up tempo” quando utiliza fartamente os harmônicos e os sobre-agudos que excitam a platéia, para atingir surpreendente lirismo e cálida ternura na execução das baladas.  Podemos afirmar que poucos tenoristas, ai incluídos Dexter Gordon e Eddie Chamblee, que de alguma forma “escaparam” de sua influência”.

Jean-Baptiste Jacquet, saxofonista tenor e flautista norte-americano, nasceu no dia 31 de outubro de 1922, na cidade de Broussard, na Louisiana, estado sulista que abriga em seu território nada menos que New Orleans, considerada o “Berço do Jazz”. Sua mãe pertencia à brava tribo Sioux e seu pai, Gilbert Jacquet, era “creole”, isto é, negro de ascendência francesa. Jean-Baptiste foi educado em Houston, estado do Texas, para onde a família se mudou em meados da década de 20. Na nova cidade, o garoto recebeu o apelido de Illinois, por causa da dificuldade que alguns colegas tinham para pronunciar corretamente o seu nome.

Gilbert era ferroviário de profissão, mas adorava música e atuava como contrabaixista na pequena orquestra da companhia ferroviária local. O sangue musical corria nas veias dos Jacquet, pois além do pai, o tio Frank Jacquet tocava trombone na banda de Don Albert, o irmão mais velho, Russell, era trompetista e líder de banda, outro irmão, Julius, era saxofonista e, por fim, mais um irmão, Linton, era baterista. Não foi surpresa quando o garoto se encaminhou para a música, dedicando-se inicialmente à bateria e logo passando ao sax alto.

Bem antes disso, entretanto, Illinois já havia experimentado o gostinho da ribalta, pois quando tinha apenas três anos se apresentou em um programa de calouros promovido por uma rádio de Galveston, também no Texas. Na época o garotinho não tocava nenhum instrumento e se limitou a cantar, acompanhado pelos irmãos. Aos seis anos, começou a tomar lições de sapateado e costumava se apresentar com a banda em que seu pai tocava.

Como baterista, tocou em bandas escolares, mas foi com os saxofones que ele pôde explorar todo o seu potencial musical. Estudou com um renomado professor local, o saxofonista Bob Cooper, e participou de diversas apresentações da orquestra paterna. Tocando sax alto, ele estreou profissionalmente aos 17 anos, na “territory band” do trompetista texano Milt Larkin. Sua técnica refinada e sua tenra idade deixavam boquiabertos seus colegas de banda, muitos deles bem mais velhos e muito mais experientes.

O jovem Illinois permaneceu na orquestra de Larkin de 1939 a 1940 e ali fez amizade com outro jovem saxofonista, Arnett Cobb. Em seguida, passou uma temporada na banda de Floyd Ray, com a qual realizou suas primeiras temporadas além das fronteiras do Texas. Nessa época já havia passado para o sax tenor e foi tocando este instrumento que, em 1941, foi contratado por Lionel Hampton.

Naquele ano, ele havia se mudado, juntamente com o irmão Russell, para Los Angeles, em busca de melhores oportunidades de trabalho, e juntos os irmãos Jacquet montaram uma banda chamada “The California Playboys”. Illinois chamou a atenção da comunidade musical da cidade após uma performance incendiária na Parada do Dia do Trabalho, tocando com sumidades da estirpe do pianista Nat “King” Cole, do guitarrista Charlie Christian, do contrabaixista Jimmy Blanton e do baterista “Big” Sid Catlett. Foi graças à sua atuação nessa gig que Hampton soube de sua existência e não hesitou em convidá-lo para a sua banda.

Em pouco tempo, tornou-se o expoente máximo da orquestra do vibrafonista e ali Jacquet teve a oportunidade de entrar em um estúdio de gravação pela primeira vez. Uma dessas sessões entrou para a história do jazz, quando ele desenvolveu a inolvidável série 64 compassos sobre a harmonia do clássico “Flying Home”, na célebre gravação para o selo “Decca Records”, em Nova Iorque, no dia 26 de maio de 1942. O disco vendeu centenas de milhares de cópias em pouco tempo, seu solo se tornou referência obrigatória entre os tenoristas e o garoto de apenas 20 anos adquiria o status de estrela incontestável da banda de Hampton.

Seu solo é tido como uma espécie de precursor do R&B e abusa da técnica chamada honking, onde o sax reproduz o grasnado de um pato. Para o crítico Gary Giddins, “Ele não foi exatamente o inventar do honking, mas com aos dezenove anos, nos poucos minutos que a orquestra de Lionel Hampton levou para gravar “Flyin’ Home”, ele colocou essa técnica no mapa do jazz. Finalmente o jazz poderia soar tão erótico e vulgar como a revista feminina “Ladies Home Journal” sempre alertou. As multidões que vinham ouvir Jacquet tocar com Hampton, com o Jazz At The Philharmonic ou com Basie esperavam nada menos do que uma injeção de testorterona”.

O catedrático Pedro “Apóstolo” Cardoso ensina que o elemento histórico-geográfico foi de capital importância na formação musical do saxofonista: “é importante assinalar que a educação musical na geografia texana impunha um estilo de “blues” bem regional, carregado de sensibilidade que podemos cunhar como tendente a erótica, mas sempre com som robusto. Illinois absorveu o “blues” texano, geograficamente encravado entre a vida campestre e o desenvolvimento industrial, o que o levou a assumir as linguagens do “country blues” e do “urban blues”, em uma mistura que alcançou um cruzamento harmônico autônomo, original”.

Outro célebre bandleader da época, Cab Calloway, gostou tanto da sonoridade de Jacquet que o contratou para a sua banda, em 1943 – para substituí-lo, Hampton optou por outro texano, o ótimo Arnett Cobb. Illinois permaneceria com Calloway até o ano seguinte e nesse ínterim fez uma ponta no longa metragem “Stormy Weather”, estrelado pela bela Lena Horne e que contava com as participações de Fats Waller, Bill “Bojangles” Robinson, Benny Carter e Nat “King” Cole. Estabelecido em Los Angeles, o saxofonista participou ativamente do cenário jazzístico local, influenciando diversos jovens músicos com a sua sonoridade potente e sua abordagem agressiva.

Em 1944, o saxofonista participa do documentário “Jammin’ The Blues”, um dos mais importantes já realizados sobre o mundo do jazz. Produzido para a Warner, com direção de Gjon Mili e supervisão de Norman Graz, o filme é um verdadeiro clássico e conta com as presenças de Harry Edison (trompete), Lester Young (sax tenor), Barney Kessel (guitarra), Marlowe Morris e Garland Finney (piano), John Simmons e Red Callender (contrabaixo), “Big” Sidney Catlett e Jo Jones (bateria) e Mary Bryant (vocal).

Em julho daquele mesmo ano, Illinois marcou presença na primeira edição do “JATP – Jazz At The Phillarmonic”, também sob a batuta de Norman Granz, e a partir daí se revelou um dos mais destacados músicos a atuar naquele projeto, consolidando sua reputação no seio do público e da crítica. O primeiro concerto contou com as participações do saxofonista Jack McVea, do trombonista J. J. Johnson, do trompetista Shorty Sherock, do pianista Nat “King” Cole, do guitarrista Les Paul e do baixista Red Callender, entre outras sumidades.

1945 marca o início da parceria entre Illinois e o fabuloso Count Basie, que o contratou para o posto de Lucky Thompson. Ali, Jacquet entabulou uma auspiciosa dobradinha com outro texano, Buddy Tate, e o resultado dessa reunião pode ser conferido em gravações como “Rock-A-Bye-Basie”  que, como curiosidade, conta com  a presença do baterista Buddy Rich. Em 1946 Illinois deixou a orquestra de Basie para investir na carreira solo.

No ano anterior, ele havia gravado como líder, uma composição de sua autoria “Jammin’ The Blues”, para o selo Jubilee, à frente de um sexteto que incluía o trombonista Russell Jacquet, o altoísta John Brown e o pianista Bill Doggett. E em 1946 foi a vez de “Jumpin’ At Apollo”, também de sua autoria, que foi gravada com a seguinte formação: Joe Newman no trompete, Trummy Young no trombone, Ray Perry no sax alto, Bill Doggett no piano, Freddie Green na guitarra, John Simmons na contrabaixo e Denzil Best na bateria.

Animado com a repercussão do seu trabalho, Illinois decidiu partir para um novo – e audacioso – projeto: montar a sua própria big band. Era 1947 e ele, aos 25 anos, era um jovem veterano que havia integrado três das mais importantes orquestras do swing. Uma verdadeira seleção de craques passou por sua banda: Cecil Payne, Shadow Wilson, Joe Newman, Fats Navarro, Miles Davis, J. J. Johnson, Dickie Wells, Leo Parker, Bill Doggett, Sir Charles Thompson e Freddie Green.  

Com esse grupo, o saxofonista fez diversas gravações para o pequeno selo Aladdin, e várias delas fizeram bastante sucesso, como “Robbins Nest”, composta em parceria com o pianista Sir Charles Thompson, considerada uma peça emblemática do mainstream jazz, graças ao diálogo entre o sax tenor e o piano. O alto custo de manutenção da banda, todavia, obrigou o saxofonista a dissolvê-la, e ele voltou à sua atividade como freelancer. Sua influência, contudo, somente crescia e jovens saxofonistas texanos, como Joe Houston e Big Jay McNeely viam nele o modelo a ser seguido.

Como sideman, ele pode ser ouvido em álbuns de Kenny Burrell, Dinah Washington, Johnny Hartman, Sonny Stitt, Buddy Tate, Harry “Sweets” Edison, Howard McGhee e muitos outros. Como líder, Illinois deixou uma discografia tão robusta quanto o som do seu saxofone, com álbuns lançados por gravadoras como Savoy, RCA, Verve, Mercury, Delmark, Roulette, Universal, Epic, Argo, Storyville, Prestige, Black Lion, Black & Blue, JRC e Atlantic.

Norman Granz o recebeu de braços abertos e inúmeras apresentações no JATP se sucederam durante o final dos anos 40 e toda a década de 50. Nos início anos 60, Illinois mudou-se para Boston, onde liderou uma banda ao lado do respeitado saxofonista Jimmy Tyler, cujos concertos na cidade e na região de Cape Cod eram sempre muito concorridos.

Pouco depois, ele montou um trio que obteve bastante reconhecimento, juntamente com o baterista Alan Dawson (substituído por Jo Jones nas excursões para além de Boston, por conta de seus compromissos profissionais como professor da Berkeley School of Music) e o organista, pianista e compositor Milt Buckner, que possuía veia de blues similar à sua, com alta dose de “swing” que lhe facilitava bons momentos de interpretação. Estabeleceu uma prolífica associação com a Verve, onde se destaca o ótimo “Desert Winds”, de 1964, onde está secundado por Kenny Burrell na guitarra, Tommy Flanagan no piano, Wendell Marshall no contrabaixo, Ray Lucas na bateria e Willie Rodriguez na percussão.

A partir da segunda metade daquela década, bandeou-se para a Prestige, estabelecendo ali uma auspiciosa parceria que rendeu alguns dos mais elogiados álbuns de sua extensa discografia. Um deles é o formidável “Bottoms Up”, gravado em sessão única no dia 26 de março de 1968, em Nova Iorque, com produção de Don Schlitten. A seu lado, três músicos de altíssimo gbarito, todos de irremediável vocação bop: o pianista Barry Harris, o baixista Ben Tucker e o baterista Alan Dawson.

A música que abre e dá nome ao disco é uma composição de Illinois, baseada nas harmonias da célebre “Flying Home”. Contando com um riff poderoso e uma batida infecciosa, a faixa dá uma boa mostra das principais características do saxofonista: a exuberância do fraseado, a energia aparentemente inesgotável e a volúpia capaz de contagiar os acompanhantes ao extremo. Mestre na técnica do honking, Jacquet demonstra o quão exatas são as palavras do crítico Gary Giddins citadas anteriormente.

“Port Of Rico” é outro tema do saxofonista, que já havia gravado anteriormente em 1952, em uma sessão na qual estava acompanhado por ninguém menos que Count Basie. Nesta versão, o quarteto imerge nas pantanosas águas do blues, com vigor e histamina, produzindo uma interpretação pungente, sem ser lamentosa. Destaques para o infalível Dawson e para o sempre inspirado Harris.

O líder também compôs “You Left All Alone”, balada de grande conteúdo emotivo, na qual se permite explorar uma faceta menos conhecida do seu trabalho: a do intérprete lírico e profundamente romântico. Os coadjuvantes, em especial Harris, criam uma atmosfera de total cumplicidade, merecendo os maiores elogios o minimalismo repleto de sensibilidade de Harris, um fabuloso executante também nos andamentos mais lentos.

A sincopada “Sassy” é uma contribuição do antigo parceiro Milt Buckner e flerta com o blues, embora esteja fortemente impregnada de elementos do soul jazz. Jacquet é um solista arrojado e muito veemente na exposição de suas idéias. O fluente Harris usa com autoridade a técnica de acordes em bloco e brilha em um solo de grande impacto e Tucker, sempre muito discreto, impõe-se como um sustentáculo rítmico bastante confiável.

“Jivin' with Jack the Bellboy” é mais um tema da lavra de Illinois, que agora envereda, com maestria, pelas tortuosas veredas do bebop. Sua proverbial destreza é uma prova cabal de sua profunda intimidade com a sintaxe bop, embora ele tenha construído sua fama em contextos mais ligados – estética e cronologicamente – ao swing. À vontade em um ambiente tão desafiador, Harris trafega soberano por entre as harmonias quebradiças e instigantes inventadas pelo líder e dialoga com este em altíssimo nível, improvisando com inteligência e muita criatividade. Dawson funciona com a regularidade de um metrônomo e suas intervenções são sempre muito extrovertidas.

O primeiro standard interpretado pelo quarteto é a classuda “(I Don't Stand A Ghost Of A) Chance”, de autoria de Bing Crosby, Ned Washington e Victor Young e gravada por gente do gabarito de Benny Carter, Clifford Brown e Wes Montgomery. O líder tem atuação bastante introspectiva, impregnando o tema de um romantismo másculo e sem afetação. Essa balada havia sido gravada pela orquestra de Cab Calloway em 1940, tendo Chu Berry como principal solista. Curiosamente, Illinois viria substituir Berry, morto em um acidente automobilístico no ano seguinte, na mesma banda, em 1943.

Illinois capitaneia uma fulgurante versão de “Our Delight”, uma das mais conhecidas composições de Tadd Dameron. Mais uma vez a verve bopper do saxofonista se evidencia e sua performance é nada menos que memorável – uma verdadeira usina de criatividade. Tucker tem aqui seu momento mais destacado, entregando um solo complexo e instigante. O irrequieto Dawson faz o que quer com a bateria, acelerando o andamento, executando viradas estonteantes e dando uma aula magna de polirritmia.

Outro standard, “Don’t Blame Me”, de autoria de Dorothy Fields e Jimmy McHugh, fecha o disco com garbo e elegância. Illinois mostra que a sutileza não é um recurso por ele desconhecido. Seu sopro, embora viril, apresenta-se bastante contido e extremamente elegante. A interpretação de Harris segue o mesmo viés, criando um clima quase sombrio. Um disco que extasia fãs e não iniciados na obra imortal de um dos mais importantes e influentes saxofonistas de toda a história do jazz.

Voltemos à trajetória profissional de Jacquet. A união com Buckner permaneceu até 1974, paralelamente às apresentações com Wild Bill Davis e com os grupos de Lionel Hampton, com quem realizou diversas temporadas na Europa nas décadas de 60, 70 e 80, destacando-se o enorme sucesso que alcançado na “Gran Parade” de Nice, em 1976. Durante aquela década, Illinois acrescentou ao seu portfólio o fagote, instrumento pouco usual no jazz e que ele passou a usar com certa freqüência em concertos e gravações.

O saxofonista foi um dos destaques do especial televisivo “Monterey Jazz”, de 1968, ao lado de Ray Brown, Woody Herman, Louis Bellson, Dizzy Gillespie e muitos outros. O programa teve a produção de Ralph Gleason e Richard Moore. Outro documentário, desta feita realizado na França, também apresenta performances de Jacquet: “Swingmen In Europa”, de 1977, com direção de Jean Mazeas, onde podem ser vistas performances de diversos músicos norte-americanos em Paris e no “Salon-de-Provence”, tais como Milt Buckner, J. C. Heard, “Doc” Cheatham e Sammy Price, entre outros.

No final dos anos 70, Illinois montou um quinteto ao lado do lendário contrabaixista Slam Stewart. A década seguinte foi deveras auspiciosa. Entre 1983 e 1984, ele foi o primeiro músico de jazz a se tornar “artista residente” na prestigiosa Harvard University, ministrando ali uma série de palestras e oficinas. A experiência ali o inspirou a remontar a sua big band, que ao longo de sua existência fez concertos memoráveis em locais como o Lincoln Center e o Carnegie Hall. A banda excursionou pela Europa em 1986 e, no mesmo ano, foi um dos destaques nas comemorações do tradicionalíssimo Village Vanguard, em Nova Iorque.

Sobre a experiência, Illinois declarou em uma entrevista: “Eu percebi que podia fazer com que alunos de Harvard soassem bem, e isso me inspirou a retornar a Nova Iorque e escolher os melhores músicos disponíveis, a fim de montar a minha big band. Eu pensei: Duke Ellington se foi, Count Basie se foi, Jimmie Lunceford se foi, Cab Calloway não lidera mais a sua banda… Era como se fosse um chamado, para que eu montasse a minha própria orquestra”.

Em 1984, ele montou, juntamente com Buddy Tate e Arnett Cobb, o grupo “Texas Tenors”, mais tarde rebatizado como “Jazz Legends”. Em 1987, sua gravação “Jacquet’s Got It”, para o selo Atlantic, foi indicada para o prêmio Grammy. Liderando sua big band, Illinois teve a seu lado craques como o trompetista Jon Faddis, o trombonista Frank Lacy, o saxofonista Marshall Royal, o pianista Richard Wyands e o baixista Milt Hinton, entre outros. O documentário “Texas Tenor: The Illinois Jacquet Story”, produzido por Arthur Elgort, recebeu o prêmio Grammy em 1991.

Em 1993 ele executou em um saxofone tenor de ouro o clássico de Duke Ellington “C-Jam Blues”, na Casa Branca, para o Presidente Bill Clinton. No ano seguinte, Jacquet foi um dos destaques do álbum comemorativo dos quarenta anos do Modern Jazz Quartet (MJQ & Friends, Atlantic), interpretando “(Back Home Again In) Indiana” e “Memories Of You”. Em 1999, durante as comemorações do centenário de nascimento de Duke Ellington, Illinois atuou como solista convidado da “Lincoln Center Jazz Orchestra”, e suas performances estão registradas no documentário “Swinging With The Duke”. Em novembro do ano seguinte, o saxofonista receberia do Lincoln Center o “Award for Artistic Excellence”.

O saxofonista comemorou seus 80 anos apresentando-se no festival “Jazz Standard”, em Nova Iorque, à frente de sua big band. Por ocasião de seu 81º aniversário, Illinois foi capturado pela magia da cidade do Rio de Janeiro, quando aqui esteve para se apresentar no Tim Festival de 2003. Ele ficou embevecido com a estátua do Cristo Redentor, fato que, somado à sua imensa apreciação da música do Maestro Antonio Carlos de Almeida Jobim, levou-o a interpretar a música do nosso Maestro Soberano em sua apresentação no festival.
No dia 21 de maio de 2004, a prestigiosa  Juilliard School of Music lhe concedeu o título de “Honorary Doctorate of Music” e o saxofonista declarou que aquele seria o dia mais feliz de sua vida. Em 16 de julho de 2004, Illinois fez a sua derradeira apresentação ao vivo, liderando a sua “big band”, durante o “Midsummer Night Swing Series”, no Lincoln Center”, como atração final da noite. Ele faleceria seis dias depois dessa apresentação, no dia 22 de julho de 2004, aos 81 anos em sua residência no Queens, Nova Iorque, em conseqüência de ataque cardíaco fulminante. Seu corpo foi enterrado no “Woodlawn Cemetery”, no bairro do Bronx, naquela cidade.

Sobre ele, mais uma vez se recorre à excelência do Mestre Pedro Cardoso: “Se ouvirmos com bastante atenção todos os grandes tenoristas que o Texas legou ao jazz, aí incluídos Arnett Cobb, Booker Ervin, Jesse Powel, Herschel Evans, Buddy Tate e Budd Johnson, não é difícil perceber que Illinois foi o “mais texano” de todos eles, imprimindo sua marca pessoal em todos os grupos em que atuou”.

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