
O jazz nasceu da amálgama entre diversos ritmos afro-americanos, como as work songs, os spirituals, o blues e o ragtime – este, por sua vez, foi concebido sob forte influência da música européia. Aliás, a música européia – assim como a caribenha – também pode ser encontrada na origem remota do jazz, seja pela influência que ritmos como o minueto, a polca e a valsa exerceram sobre os primeiros jazzistas, seja pela utilização, dentro do ambiente do jazz, de instrumentos intimamente ligados à tradição da música erudita, como o piano e o cornet (espécie de precursor do trompete).
Geograficamente, Nova Orleans, que no início do século XX era um importante centro de comércio do sul dos Estados Unidos, é considerada o berço do jazz. A cidade, fundada em 1718 por Jean Baptiste le Moyne e localizada às margens do Rio Mississipi, era a capital da Luisiana, até então colônia francesa na América do Norte e que, por conta do Tratado de Paris, passou ao domínio espanhol em 1763. A presença de franceses, espanhóis, ingleses e afrodescendentes fez dali um caleidoscópio de culturas, que interagiam e assimilavam elementos umas das outras, como em nenhum outro lugar dos Estados Unidos.
Poucos músicos se dedicaram tanto à compreensão e ao estudo das raízes africanas do jazz quanto Randolph Edward Weston. Pesquisador incansável e dono de uma das personalidades mais singulares do universo jazzístico, Randy Weston pertence àquela raríssima estirpe de artistas que transcende as fronteiras da música como forma de expressão artística. Para esse verdadeiro esteta do piano, a música é mais que uma forma de arte: é uma maneira de ver o mundo, de expressar os sentimentos de um povo e uma das mais poderosas formas de comunhão entre os homens.
Nascido em uma família extremamente ligada à música – é primo do pianista Wynton Kelly – Weston veio ao mundo no dia 06 de abril de 1926, em Nova Iorque. Seus pais eram imigrantes jamaicanos e moravam em Bedford-Stuyvesant, um distrito do Brooklyn, onde o garoto cresceu em uma vizinhança cercada de futuros astros do jazz, como Max Roach, Ahmed Abdul-Malik, Cecil Payne, Duke Jordan, Ray Copeland e Eddie Heywood, entre outros.
O pai, Frank Weston, era um barbeiro apaixonado pelo jazz e pela música caribenha, que costumava ouvir em casa, para deleite do pequeno Randy, que se dividia entre o desejo de ser jogador profissional de basquete e a carreira musical. Frank também costumava levar o filho para assistir às grandes orquestras que se apresentavam no Harlem, em especial as de Fletcher Henderson e Duke Ellington, e essas apresentações sedimentaram a opção do garoto pela música. O interesse pela história da África também lhe foi despertado pelo pai, que o estimulava a conhecer mais sobre suas origens e sobre a cultura africana.
Graças à influência do pai, o garoto começou a ter as primeiras aulas de piano clássico, ainda na infância. A transição para o jazz foi algo bastante natural para quem tinha Coleman Hawkins, Fats Waller, Duke Ellington e Count Basie como verdadeiros heróis. Posteriormente, Weston conheceria Thelonious Monk, que acabaria por se tornar amigo da família – ele morava nas cercanias e costumava visitar o apartamento dos Weston – e sua maior influência musical.
Os anos quarenta, quando Monk, Bird e Dizzy capitaneavam a chamada “revolução do bebop”, representaram um momento bastante especial para o garoto negro e bastante orgulhoso de suas origens africanas. Era a primeira vez que os negros reclamavam para a si a paternidade do jazz e lhe impunham uma nova e desafiadora direção e Weston estava bem ali, no meio dos acontecimentos. Sempre ouvira seu pai lhe dizer: “Você é um africano nascido na América”.
O bebop, para além da afirmação da cultura afro-americana, tinha a importância simbólica de ser uma maneira de se comunicar com os seus ancestrais. Randy assistia com freqüência a concertos e jams nos clubes nova-iorquinos, cada vez mais convencido de que seu futuro estava intimamente ligado à música – e não havia outro tipo de música que mais lhe tocasse a alma que aquela nova e revolucionária forma de jazz.
Em 1945, ainda durante a II Guerra Mundial, Weston foi convocado e serviu ao exército, tendo chegado ao posto de sargento, servindo em bases no Japão e nas Filipinas. No ano seguinte, ao retornar à vida civil, ele abriu, juntamente com o pai, um restaurante no Brooklyn, freqüentado pela nata dos bopperes da época, e continuou seus estudos musicais. A carreira como pianista profissional somente se consolidaria no início da década seguinte, primeiramente em bandas de rhythm’n blues bands, como as de Bull Moose Jackson, Frank “Floorshow” Culley e Eddie Cleanhead Vinson.
A partir de 1951, formou seus primeiros trios e começou a trabalhar como atração fixa em importantes clubes de Nova Iorque, como o Cafe Bohemia, o Birdland, o Five Spot e o Playroom, de propriedade do compositor e também pianista Cy Coleman. Em 1953 foi convidado por Kenny Dorham a se juntar ao seu grupo e no mesmo ano atuou, por algum tempo, sob a liderança do velho amigo Cecil Payne.
Em 1954, passou uma temporada como atração fixa do clube Music Inn, em Lenox, Massachusetts, sendo que durante o dia trabalhava como cozinheiro em um restaurante local, a fim de complementar o orçamento doméstico. No mesmo ano, foi contratado pela Riverside Records e gravou o seu primeiro álbum como líder, chamado “Cole Porter In a Modern Mood”. O álbum teve ótima repercussão junto à crítica e em 1955 Weston foi eleito pianista revelação pela Down Beat Magazine.
Ao mesmo tempo, suas composições, em especial “Saucer Eyes”, “Pam's Waltz”, “Gingerbread”, “Little Niles” “Berkshire Blues” e “Hi-Fly” começavam a ser conhecidas no meio jazzístico e seriam gravadas por músicos como Cecil Payne, Hank Jones, Cannonball Adderley, Monty Alexander, Kenny Burrell, Ron Carter, Dexter Gordon, Jimmy Heath, Oscar Pettiford, Max Roach, Mel Tormé e, suprema honraria, pelo velho ídolo Coleman Hawkins.
Também em meados dos anos 50, Weston iniciou uma profícua parceria musical com a trombonista Melba Liston, que resultaria em uma profusão de álbuns, como “Little Niles” (Blue Note, 1958), “Destry Rides Again” (United Artists, 1959), “Highlife: Music From the New African Nations” (Colpix, 1963) e “Tanjah” (Polydor, 1973), por exemplo. Além das gravadoras já mencionadas, o pianista lançou álbuns por selos como Riverside, Milestone, Sunnyside, Denon, Roulette, CTI, Jazzland e Enja.
Ao longo da carreira, Weston atuou ao lado de alguns dos nomes mais importantes do jazz, seja na qualidade de líder, seja como sideman. Dentre eles, destacam-se Dizzy Gillespie, Art Blakey, Johnny Coles, Ray Copeland, Idrees Sulieman, Charles Mingus, Johnny Griffin, Charlie Persip, Slide Hampton, Elvin Jones, Coleman Hawkins, Freddie Hubbard, Julius Watkins, Wilbur Little, Pharoah Sanders, Booker Ervin, Clifford Jarvis, Roy Haynes, David Murray e muitos outros.
Em sua discografia, um álbum chama especial atenção: “Get Happy With The Randy Weston Trio”, onde o pianista está acompanhado por Sam Gill (contrabaixo) e pelo baterista Wilbert Granville Theodore Hogan, mais conhecido nos meios jazzísticos como G. T. Hogan. Gravado para a Riverside no estúdio do mago Van Gelder, em Hackensack, no dia 21 de março de 1956, o álbum revela um músico em pleno amadurecimento, mas nem um pouco intimidado com a responsabilidade.
Ainda depurando o estilo percussivo e cheio de dissonâncias que iria caracterizar a sua obra a partir dos anos 50, Weston apresenta um repertório eclético, que inclui composições próprias, standards, ritmos caribenhos e até um tema baseado no folclore russo. A primeira faixa, que dá nome ao álbum, é uma saborosa versão de “Get Happy” (Harold Arlen e Ted Koehler), na qual Weston faz uso vigoroso das notas graves, mas não deixa de imprimir ao tema uma elevada dose de swing.
Em seguida, vem o calipso “Fire Down There”, que posteriormente Sonny Rollins tomaria emprestado do folclore caribenho para criar a sua famosa “St. Thomas”. Aqui a percussão de Hogan merece os maiores encômios. O standard “Where Are You” recebe uma interpretação bastante emotiva, sombria em alguns trechos, traduzindo o desespero de alguém em busca da amada mas que tem a certeza de que ela não está mais lá.
“Under Blunder” é um blues assimétrico e cheio de dissonâncias, de autoria do líder. A influência de Monk é bastante evidente, tanto no estilo percussivo que Weston usa em sua execução como na própria estrutura harmônica do tema, com direito a um ótimo trabalho de Gill.
O baixista também é o grande destaque da versão arrebatadora de “Dark Eyes”, colhida do folclore russo e que é executada uma energia contagiante. “Summertime”, talvez o standard mais gravado de todos os tempos, ganha uma versão calcada no blues, com uma atmosfera lúgubre, que remete aos rigores do trabalho nos campos de algodão do Sul dos Estados Unidos.
Mais uma vez o blues está presente, em “Bass Knows”, outra composição de Weston. Como de hábito, o pianista foge das formas tradicionais e ortodoxas do blues, temperando a sua interpretação personalíssima com elementos de extrema ousadia. Um tema cheio de singularidades e alternâncias harmônicas, certamente um dos mais intrigantes do álbum.
O maestro Duke Ellington também é reverenciado, em uma calorosa interpretação de sua “C Jam Blues”. Aqui a integração do trio é total, merecendo especial atenção o excepcional trabalho de Hogan com os pratos e a velocidade inebriante de Weston. Gill mantém-se na retaguarda, mantendo intacta a coesão do grupo. A próxima faixa, aliás, é do próprio Gill, a delicadíssima “A Ballad”, um poema sonoro rico em ternura e encantamento. Encerrando os trabalhos, a vibrante “Twelfth Street Rag”, com sua estrutura de ragtime com pegada bop, ajuda a fazer deste disco uma das melhores maneiras de se mergulhar no personalíssimo universo de Randy Weston.
Nos anos 60, Weston incorporou, definitivamente, elementos da música africana em seu repertório. Compôs a suíte “Uhuru Africa”, que contou com a participação do poeta Langston Hughes. Seu álbum “Highlife: Music From the New African Nations”, com arranjos de Melba Liston e com forte influência da música do Caribe, recebeu muitos elogios por parte da crítica especializada.
Em 1961, realizou a sua primeira turnê pela África, tendo visitado a Nigéria e em 1963, repetiu a dose. Voltou ao continente africano em 1967, a convite do Departamento de Estado dos Estados Unidos e, ao chegar ao Marrocos, destino final da excursão, Weston decidiu estabelecer-se naquele país. A primeira providência foi abrir um clube de jazz em Tânger, chamado “African Rhythms Club” e que manteve em funcionamento entre 1967 e 1972.
No Marrocos, mergulhou fundo no estudo da tradição musical africana, inclusive com a colaboração de músicos da etnia Gnawa. Sua curiosidade acerca das raízes da música o levou a realizar pesquisas em países como Togo, Costa do Marfim, Gana, Libéria e Tunísia. Também continuou a se apresentar em festivais ao redor do mundo, muitas vezes acompanhado pelo filho, o baterista Niles Weston. Em meados dos anos 70, mudou-se para a Europa, fixando residência em Paris.
Nos anos 80, Weston retornou ao Marrocos, onde passou mais alguns anos, mas jamais abandonou os palcos, fazendo inúmeras apresentações, ao lado do baixista Jamil Nasser e do baterista Idris Muhammad. Embora tenha gravado relativamente poucos álbuns, pelo menos dois merecem ser destacados: “Well, You Needn’t” (Verve, 1989), um emocionado tributo ao ídolo Thelonious Monk, e “The Spirits Of Our Ancestors” (Verve, 1991), que contou com a perticipação de ninguém menos que Dizzy Gillespie.
As homenagens recebidas ao longo dos últimos anos são praticamente incontáveis. Em 1986, o Brooklyn Academy of Music promoveu a Randy Weston Week, uma semana de concertos em sua homenagem. Em 1989, foi convidado para ser artista residente no New England Conservatory. Foi indicado compositor do ano, pela Downbeat Magazine em 1994, 1996 e 1999. Em 1997 recebeu, do governo francês, o título de Cavaleiro da ordem das Artes e das Letras. Em 1999 foi convidado para atuar como músico residente na Universidade de Harvard, com direito a concertos e palestras para estudantes e professores.
Em 2001, recebeu o honroso título de Master Of Jazz, concedido pela National Endowment for the Arts. Em 2006 o Brooklin College lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causae. Outro momento emocionante foi a participação no concerto que marcou a inauguração da Biblioteca de Alexandria, no Egito, em 2002. Naquele mesmo ano, Weston se apresentou, juntamente com músicos Gnawa na Catedral de Canterbury.
Weston continua ativo e, embora já tenha ultrapassado a casa dos 80 anos, continua inquieto e desafiador. Seu interesse pela música africana não arrefeceu e a sua influência perante as novas gerações de jazzistas é cada vez maior. Suas palavras podem traduzir melhor a importância de sua devoção à causa da música: “Onde quer que eu vá, tento explicar que, se você ama a música, tem que entender de onde ela veio. A música é construída a partir de valores espirituais. Em outras palavras, não pode existir civilização sem música. As sociedades africanas tradicionais possuem músicas para cada atividade e essa tradição chegou até a América com os escravos. Assim, em qualquer lugar que estajamos – Cuba, Brasil ou Jamaica – a África está presente. Não importa o nome que se dê à música – blues, bossa nova, salsa, samba – todos esses ritmos são contribuições africanas à civilização ocidental. Se você retirar os elementos africanos da música, você não terá nada”.
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