Amigos do jazz + bossa

terça-feira, 16 de agosto de 2011

MUITO ALÉM DE KIND OF BLUE


Um personagem marcante na vida de um ator ou de uma atriz pode ser uma faca de dois gumes. Se, por um lado, um papel inesquecível pode levá-lo(a) ao estrelato, também pode marcá-lo(a) de tal maneira que, muitas vezes, o personagem se torna maior que o próprio intérprete. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Mark Hamill, que viveu nas telas o bravo Luke Skywalker, personagem principal dos três primeiros filmes da série Guerra nas Estrelas, mas que jamais teve outro papel de igual destaque.

E alguém poderia associar o nome de William Shatner a outro personagem que não James Kirk, o eterno capitão da nave Enterprise, na série televisiva – e, posteriormente, cinematográfica – Jornada nas Estrelas? Nenhum outro ator parecia mais talhado para viver o Super-Homem que Christopher Reeve, cuja carreira jamais decolou, embora ele tenha tido excelentes atuações em “Monsenhor”, “Em algum lugar do passado” e “Armadilha mortal”, este último ao lado do genial Michael Caine.

O circunspecto pistoleiro Shane, de “Os brutos também amam”, marcou a vida de Alan Ladd de tal maneira que ele jamais conseguiu se livrar do personagem e morreu em 1964, em conseqüência de uma overdose de álcool e antidepressivos, desiludido com a carreira artística. Outros atores encaram com bom humor e uma certa dose de resignação a armadilha do personagem único.  Até hoje Adam West colhe os louros por sua atuação como o Batman da série televisiva exibida pela ABC entre 1966 e 1968 e, sem qualquer constrangimento, costuma aparecer em convenções de histórias em quadrinho, vestindo o uniforme do personagem.

A maldição parece pesar com mais intensidade em atores jovens ou crianças. Jennifer Gray e Macaulay Culkin até que tentaram, mas jamais conseguiram se livrar dos papéis vividos em “Dirty Dancing” e “Esqueceram de mim”, respectivamente. Ricky Schoder emocionou o mundo nos anos 70, ao viver o filho de um boxeador decadente em “O campeão”, mas, depois disso, a sua carreira se limitou a papeis inexpressivos no cinema e na TV. Ralph Macchio será sempre lembrado como o garoto franzino que se torna um mestre das artes marciais, no clássico oitentista “Karate Kid”, mas o único papel de algum relevo que fez depois foi no fraco “Meu primo Vinnie”, com o insuportável Joe Pesci.

Claro que há inúmeros exemplos de grandes atores que souberam redirecionar suas carreiras e conseguiram vencer o desafio de ter vivido um personagem extremamente carismático. 007 poderia ter aprisionado Sean Connery para sempre, como fez, por exemplo, com Roger Moore. Mas o escocês soube se reinventar e em sua carreira despontam outros personagens tão inesquecíveis quanto o charmoso espião britânico, como o frade William de Baskerville, em “O nome da rosa”, ou o incorruptível Jim Malone, em “Os intocáveis”, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Harrison Ford está presente em duas das mais bem-sucedidas franquias do cinema: “Guerra nas estrelas” e “Caçadores da arca perdida”. Mas jamais se acomodou com os louros do sucesso e deixou para trás o cínico Han Solo, que havia escancarado as portas da fama, e o impagável Indiana Jones, que o elevou à categoria de superstar, para encarar personagens de grande carga dramática, como o detetive Ricky Deckard, no extraordinário “Blade Runner”, e o policial John Book, em “A testemunha”, pequena obra-prima de Peter Weir.

Hannibal Lecter era um brilhante psiquiatra, que costumava ajudar a polícia em investigações sobre assassinos seriais. Mas escondia um segredo terrível: o insaciável apetite por carne humana. Lecter também poderia tragar o seu intérprete para o perigoso limbo do personagem único, se esse intérprete não fosse o exuberante Anthony Hopkins, cuja versatilidade permitiu-lhe evitar a tentação da auto-indulgência e viver novos desafios. Seu talento deu uma nova dimensão a figuras históricas como o pintor Pablo Picasso, no filme “Os amores de Picasso” e os ex-presidentes norte-americanos Quincy Adams e Richard Nixon, respectivamente, em “Amistad” e “Nixon”, além de ter criado personagens inesquecíveis, como o obsessivo Van Helsing, em “Drácula”, e o fleumático Mr. Stevens, o mordomo dividido entre o amor e as obrigações profissionais em “Vestígios do dia”.

Ainda que muitos queiram reduzir Jimmy Wilbur Cobb a “músico de um álbum só”, esse fabuloso baterista também soube, a exemplo dos citados Harrison Ford, Sean Conery e Anthony Hopkins, se livrar dos estigmas e chegou aos oitenta anos esbanjando saúde, vitalidade e muita alegria de viver. É claro que seu nome está fortemente associado a Miles Davis, cuja banda integrou por quase seis anos. Mas por mais que alguns fãs do jazz queiram rotulá-lo, ele é muito mais do que o simples baterista de “Kind Of Blue”.

Nascido no dia 20 de janeiro de 1929 em Washington, D.C. Autodidata, começou a tocar bateria por brincadeira, ainda na infância. Em pouco tempo, já possuía um ótimo domínio técnico do instrumento e somente na adolescência é que realizou alguns estudos formais, com Jack Dennett, um percussionista da cidade, envolvido com a música erudita. Jimmy se tornou profissional no final dos anos 40 e tocou com Charlie Rouse, Leo Parker, Frank Wess, Billie Holiday e Pearl Bailey, sempre na região de Washington.

Em 1949 foi contratado pelo saxofonista Earl Bostic, ao lado de quem fez as suas primeiras gravações. Bostic fazia muito sucesso na época, e sua banda foi uma das pioneiras no R&B. Durante aquele período, Cobb conheceu um jovem saxofonista em início de carreira, chamado John Coltrane, com quem voltaria a trabalhar alguns anos depois, já na banda de Miles Davis.

Insatisfeito com o tipo de música que Bostic fazia, Cobb, já profundamente seduzido pela batida do bebop, deixou a banda em 1951, para acompanhar a cantora Dinah Washington. Foram cerca de quatro anos de uma relação que extrapolou o âmbito musical, e o baterista viveu um rápido, porém intenso, romance com a temperamental cantora. Os dois chegaram a dividir um apartamento na 7ª Avenida, em Nova Iorque, no mesmo prédio em que moravam o pianista Erroll Garner e o casal Dizzy e Lorraine Gillespie.

Com o fim da parceria amorosa e musical, em 1955, Cobb continuou em Nova Iorque e tocou com uma infinidade de grandes músicos. Clark Terry, Dizzy Gillespie e Stan Getz foram alguns deles. No ano seguinte, faria parte do quinteto de Cannonball Adderly, onde pontuavam o irmão deste, Nat, o pianista Junior Mance e o baixista Sam Jones. O grupo foi desfeito naquele mesmo ano, mas Cannonball e Cobb continuaram amigos.

Em 1958, por indicação de Adderley, Jimmy foi contratado por Miles Davis, para substituir o excelente Philly Joe Jones. Embora o estilo de Cobb seja menos expansivo que o de Jones, ele se adequou perfeitamente à sonoridade da banda e a parceria com Davis se estendeu por vários anos. Além de “Kind of Blue”, de 1959, Cobb participou de muitos outros álbuns do trompetista, como “Sketches of Spain”, “Someday My Prince Will Come”, “Live at the Blackhawk” e “Porgy and Bess”.

A associação com Miles encerrou-se em 1963, quando Jimmy foi substituído por Tony Williams. Ele então formou um trio com dois ex-companheiros da banda de Davis, o pianista Wynton Kelly e o baixista Paul Chambers, um dos melhores pequenos conjuntos dos anos sessenta. O trio gravou extensivamente para a Vee Jay e está presente em álbuns de gente do calibre de Kenny Burrell, J. J. Johnson e, sobretudo, Wes Montgomery.

O trio foi desfeito no final dos anos 60 e Cobb foi trabalhar com Sarah Vaughn, com quem permaneceu por nove anos. O baterista esteve no Brasil em várias ocasiões, acompanhando a cantora. Numa delas, participou de um show histórico em Vitória, no dia dia 23 de outubro de 1977, no Teatro Carlos Gomes. Produzido pelo notável Marien Calixte e pelo amigo e blogueiro Rogério Coimbra, o show foi um dos momentos mais marcantes do jazz no Espírito Santo. A banda da cantora era integrada, então, pelo pianista Carl Schroeder e pelo baixista Walter Booker.

Coimbra relembra, com muito humor, o que se passou naqueles dias, incluindo um passeio de Fusca “envenenado” e um jantar em homenagem à Diva: “Houve resistência por parte do grupo, mas, diante de insistência minha e de Arlindo Castro, embarcamos no meu fusquinha. Eu dirigindo, Sassy ao meu lado e, no banco atrás, aquela montanha de carne: Walter Brooker e Jimmy Cobb esmagando Arlindinho. Mr Booker providenciou outra cigarrilha mágica. Com os vidros cerrados, para não poluir a cidade, ficamos a passear pela Praia do Canto e Camburi, num tempo que parecia não terminar. De repente, Mrs. Vaughn sentenciou: “I’m hungry, let’s eat”. Lembrei que em Vitória não tinha nada aberto àquela hora. Ponderei sobre o jantar e que seria simpático comparecermos; o ambiente seria agradável, sem tietagem e tudo mais que a convencesse a ir. A larica falou mais alto”.

Chegando na casa da anfitriã, Sarah matou o apetite e, depois, sentou-se ao piano para tocar e cantar até o dia amanhecer. Rogério relembra que naquela noite não desgrudou de Cobb, a fim de “ouvir as histórias de Miles Davis e John Coltrane. Ele portava no bolso de sua camisa um pente que a cada minuto tirava e passava no cabelo. E contava histórias como se estivesse executando um longo solo de bateria. Schroeder não apareceu no jantar”.

Jimmy permaneceu com Sarah até 1979, quando deixou a banda para montar um novo trio, desta feita em parceria com o pianista Joe Albany. Como sideman, seu nome pode ser lido nas capas de álbuns de feras como Ricky Ford, Nancy Wilson, Dave Holland, Gil Evans, Sonny Stitt, Nat Adderley, Hank Jones, Ron Carter, George Coleman, David “Fathead” Newman, Geri Allen, Nick Brignola, Jimmy Cleveland, Red Garland, Joe Henderson, Ernie Royal, Billy Mitchell, Bobby Timmons, Jerome Richardson, Tito Puente, Ernie Watts, Bill Evans, Julian Priester, Richard Wyands, Von Freeman, Richie Cole, David Amram, apenas para citar alguns.

Jimmy tem uma discografia relativamente pequena, para um artista há tanto tempo na Estrada. São cerca de 20 álbuns, distribuídos por selos como Sound Hills, Milestone, Concord, Philology, Nagel Hayer Records e JVC. Nesses discos, o baterista conta com as presenças de alguns dos maiores nomes do jazz, das mais diversas gerações, tais como Freddie Hubbard, Dave Leibman, Michael Brecker, Eddie Gomez, Jon Faddis, Christian McBride, Javon Jackson, Cedar Walton, Hank Jones e Eric Alexander.

Em meados da década de 90, ele montou o “Jimmy Cobb's Mob”, banda com a qual lançou alguns ótimos álbuns. Um deles é o excelente “Only for the Pure of Heart”, gravado para a Fable Records, no dia 19 de janeiro de 1998. Ao lado do baterista, atuam Richard Wyands no piano, Peter Bernstein na guitarra e John Webber no contrabaixo.

“Delilah” é uma composição de Victor Young e faz parte da trilha sonora de “Sansão e Dalila”. A versão do quarteto explora as sonoridades latinas como o bolero e a salsa e é bastante diferente da célebre interpretação de Max Roach e Clifford Brown. A percussão de Cobb é discreta e permite que Wyands e Bernstein construam solos longos e eloqüentes. O guitarrista tem uma atuação tranqüila e relaxada, e sua sonoridade se mantém próxima à de Jim Hall.

Andrew Tex Allen é um trompetista pouco conhecido, mas é um grande compositor e comparece com três temas: “Say Little Mama Say”, a faixa-título e “Ma Turk”. Na primeira, o bebop é a principal referência, com direito a improvisações exuberantes por parte de Webber, Bernstein e Wyands e a um poderoso suporte rítmico por parte de Cobb, especialmente na parte final do tema. A segunda é uma valsa executada em tempo médio e que conta com uma atuação de gala do guitarrista. A última é uma balada contemplativa, na qual fulgura a guitarra inebriante de Bernstein e a classe do líder, um engenhoso artesão de texturas.

“Stars Fell on Alabama” foi composta por Frank Perkins e Mitchell Parish e é um standard dos mais conhecidos. O quarteto faz uma releitura sóbria, arrimada na sonoridade elegante e límpida de Bernstein. Dentre as inúmeras virtudes de Cobb, está a sua capacidade de criar nuances sonoras hipnóticas e sua destreza no uso dos pratos. Nesta faixa, essas características se evidenciam e mostram a importância do silêncio e do senso de tempo para um baterista.

O saxofonista Jimmy Heath é o autor de “Gingerbread Boy”, na qual se pode perceber com maior nitidez a excelência da arte percussiva de Cobb. Ele prefere uma abordagem equilibrada à opulência rítmica, embora saiba fazer rufar os tambores com muita energia, como demonstra o seu exuberante solo. Outro destaque é a vigorosa performance do guitarrista, que se entrega às harmonias com a ferocidade e a urgência de um Grant Green.

A enigmática “Johhny Red” foi composta pelo baixista John Webber, que tem aqui uma excelente oportunidade para exibir suas qualidades como solista. Impecável no acompanhamento, ele demonstra igual perícia ao improvisar e uma profunda intimidade com o blues. O tema possui dissonâncias tipicamente monkianas e as oscilações de ritmo e andamento são soberbamente captadas pelo líder, com o auxílio sempre empolgante de Bernstein.

“Smile” é resultado da parceria entre Charlie Chaplin, Geoff Parsons e John Turner e a interpretação do quarteto é vibrante e extrovertida. Wyands tem aqui a sua atuação mais exuberante, com direito a solos atrevidos e de enorme expressividade. Cobb e o pianista dialogam em altíssima temperatura, no estilo pergunta-e-resposta, e Webber brilha em uma interpretação musculosa.

Peter Bernstein compôs “Vida Blue”, um blues sincopado e reflexivo, no qual o guitarrista transborda emotividade e ardor, com uma interpretação calorosa e de grande intensidade. Apoiado pelo contrabaixo volumoso e ritmado de Webber e pelo piano visceral de Wyands, Bernstein faz uma belíssima ponte entre o blues eletrificado de Chicago, estridente e urbano, e o blues do Delta do Mississipi, rural e cadenciado. Discreto, Cobb usa os pratos com maestria e parcimônia.

“Riverside” é a segunda composição de Webber incluída no álbum e foi escolhida para encerrar os trabalhos. Bebop cadenciado e melódico, possui uma levada irresistível, especialmente por conta das incendiárias performances de Bernstein e do líder. A velocidade e a precisão de Wyands também empolgam. Um disco que encanta e confirma todas as qualidades de Cobb como executante e bandleader.

O baterista mantém uma longa e prolífica associação com a Chesky Records, desde 2002, quando gravou o elogiado álbum “Four Generations of Miles”, onde se reúne com outros três ex-integrantes das bandas de Miles Davis, o guitarrista Mike Stern, o baixista Ron Carter e o saxofonista George Coleman. Em 2007, foi a vez de “Cobb’s Corner”, que conta com as participações de Roy Hargrove no trompete, Ronnie Mathews no piano e Peter Washington no contrabaixo. Em 2009 Jimmy se reuniu mais uma vez com Hargrove, para as gravações do sensacional “Jazz In The Key Of Blue”, onde também atuam o guitarrista Russell Malone e o baixista John Webber.

Uma das facetas menos conhecidas de Cobb é a de respeitado educador musical. Todos os anos, ele ministra cursos na Stanford University, dentro do seu programa University’s Jazz Workshop. Ele já deu aulas na Parsons New School for Jazz and Contemporary Music, em Nova Iorque, na University of Greensboro, na Carolina do Norte, na San Francisco State University, e na badalada Berklee’s College of Music, em Boston, além de realizar oficinas e seminários ao redor do mundo.

Único remanescente do sexteto de Davis, Jimmy escreveu, em 2000, o prefácio do livro “Kind of Blue – The Making of the Miles Davis Masterpiece”, do jornalista Ashley Kahn. Ele também tem recebido uma vasta gama de homenagens ao longo dos seus mais de sessenta anos de carreira. Em junho de 2008, recebeu o Don Redman Heritage Award e em outubro do mesmo ano a National Endowment for the Arts (NEA) o agraciou com o título de Jazz Master, a mais alta honraria concedida a um músico de jazz.

No ano seguinte, Cobb viajou pelo mundo, liderando a poderosa “So What Band”, com a qual fez uma infinidade de concertos em homenagem aos cinqüenta anos de “Kind of Blue”. A seu lado, os talentos de Javon Jackson (sax tenor), Wallace Roney (trompete), Buster Williams (contrabaixo), Larry Willis (piano), Vincent Herring (sax alto). A turnê se estendeu por 25 países, entre eles Canadá, Inglaterra, Espanha, Suécia, França, Portugal, Áustria, Bélgica e Suíça. No Brasil, o show foi realizado nos dias 14 e 15 de maio, em São Paulo, durante a edição de 2009 do Bridgestone Music Festival.

O baterista continua a atuar com regularidade e a fazer shows pelo mundo, incluindo países como China, Japão, África do Sul e Austrália. Seu prestígio como músico e educador se mantém intacto e recentemente, em maio de 2011, recebeu a The President Medal, honraria concedida pela San Francisco State University, cujo programa de estudos jazzísticos Cobb ajudou a montar.

Exímio acompanhante, Jimmy se destaca pela capacidade de imprimir grande coesão aos grupos em que toca e não vê problema algum em abrir mão do brilho individual em prol da atuação coletiva. Segundo o crítico Richard Cook, ele “é preciso como um relógio, muito paciente e possui pouco interesse em solos, preferindo empurrar a banda e, geralmente, o faz com muito swing”.
 

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

YO TENGO TANTOS HERMANOS, QUE NO LOS PUEDO CONTAR



Considerado o maior nome do piano jazzístico argentino, Enrique Villegas nasceu no dia 03 de agosto de 1913, no bairro de Palermo, em Buenos Aires. Quando tinha apenas seis meses, perdeu a mãe, vitimada por um derrame cerebral. Começou os estudos do piano clássico aos sete anos e chegou a realizar vários concertos na capital portenha, notabilizando-se pelas excelentes interpretações de Mozart, seu compositor favorito.

Foi criado por suas tias, pois o pai, um dentista que abandonou a profissão para criar galos de briga, era pouco presente em sua vida. Sobre a infância, declarou certa vez: “fui criado por umas tias condescendentes, que nunca me obrigaram a nada. Fui um garoto feliz, que decidia por sua própria conta o que ia fazer a cada dia”.

Continuou seu aprendizado musical com o compositor Alberto Williams, que lhe apresentou à música folclórica argentina e ao tango. Freqüentou a Escola Nacional Mariano Acosta, onde estudou teoria musical e composição. Em 1930 arranjou o primeiro emprego, na orquestra de Eduardo Armani, atração fixa do elegante Alvear Palace. Dois anos depois, quando tinha apenas 19 anos, executaria o “Concerto para piano e orquestra” de Maurice Ravel, no Teatro Odeon, em Buenos Aires.

Já era, então, profundamente apaixonado pelo jazz e Art Tatum, Earl Hines, Fats Waller e Duke Ellington exerceram sobre ele enorme influência. No futuro, pianistas modernos como Thelonious Monk e Bill Evans ajudariam a moldar o seu estilo e seriam decisivos na formação do seu repertório. A relação entre a música erudita e o jazz encontrou em George Gershwin uma de seus primeiros e mais talentosos cultores e ainda em 1932 Villegas fez uma temporada no Conselho Nacional de Mulheres, apresentando sua versão para “Rhapsody in Blue”, do genial compositor norte-americano.

Em 1935 o pianista foi contratado para atuar na big band da rádio El Mundo e se tornou amigo de outros grandes nomes da música argentina, como o pianista Adolfo Ábalos e o bandeonista Aníbal Troilo. No início da década de 40, já consolidado como um confiável músico de estúdio, Villegas pôde desenvolver a sua enorme paixão pelo jazz, tocando em clubes como o Casino e o Bop Club, do qual foi um dos fundadores.

Em 1941 montou uma banda ao lado do guitarrista Carlos García Montoya, grupo considerado uma espécie de celeiro dos melhores jazzistas argentinos da época. Data desse período a sua composição “Jazzeta: primer movimiento”, que se tornaria uma espécie de marca registrada. A partir daquela década, também participaria de trilhas sonoras de várias películas argentinas, como “Con el dedo en el gatillo”, de 1941 (no qual também faz uma ponta) “Madre Alegría”, de 1950, e “De turno con la muerte”, de 1951.

Em 1943 montou o Santa Anita Sextet, reunindo sob sua liderança o trompetista John Salazar, o saxofonista Chino Ibarra, o clarinetista Panchito Cao, o contrabaixista Tito Krieg e o baterista Adolfo Castro. No ano seguinte, juntamente com Salazar, montou uma nova banda, que recebeu o nome de Los Punteros, e que contava com as presenças do saxofonista Bebe Eguía, do guitarrista Jaime Rodriguez Anido, do contrabaixista Nicolini Nene e do baterista Kid Poggi.

Villegas já era conhecido do círculo musical argentino como Mono (Macaco), quando, em 1949, tornou-se o pianista do duo Martinez-Ledesma, onde entrou em substituição a Horacio Salgán. No grupo, liderado pelo cantor Rodolfo Martinez e pelo guitarrista Victor Ledesma, Enrique travou um contato muito mais profundo com a música popular do seu país, como as zambas  e as chacareras, e essa imersão acabaria por se refletir na sua própria maneira de encarar o jazz.

No ano seguinte, influenciado pelo trabalho com o duo, o pianista apresentou-se no Teatro Odeón, onde tocou música criolla, tango, peças de Brahms, de Bartok e diversos standards do jazz. Ainda com um repertório baseado na música criolla e usando instrumentos típicos para acompanhar o piano, Villegas gravou naquele ano um álbum para o selo Music Hall.

Em 1953, Mono compôs o score da peça “Um bonde chamado desejo”, do dramaturgo Tennessee Williams, encenada pela companhia de Mecha Ortiz e que ficou um longo período em cartaz no Teatro Casino. Buenos Aires havia ficado pequena demais para o pianista que sonhava em ser reconhecido fora do seu país.

Por essa razão, em 1955 mudou-se para Nova Iorque, onde provocou grande interesse por parte de crítica e público. Mereceu até uma resenha na revista Vogue. Após uma elogiada temporada no Cafe Bohemia, foi contratado pela poderosa Columbia Records e em seus dois discos gravados naquela companhia, “Introducing Villegas” (gravado em setembro de 1955) e “Very, Very, Villegas” (gravado entre abril e maio de 1957), o pianista estava acompanhado dos notáveis Milt Hilton, no contrabaixo, e Cozy Cole, na bateria.

De olho no mercado “latino” a gravadora propôs que ele gravasse um álbum apenas com boleros do compositor cubano Ernesto Lecuona. Villegas recusou a proposta e perdeu o emprego na Columbia. Nas palavras do pianista, “me puseram para fora e me colocaram em uma lista negra. Tornei-me um freelancer, então. Eu toquei com os melhores músicos do mundo, com os piores, mas sempre do jeito que eu queria”.

Para sobreviver, viu-se obrigado a tocar apenas em pequenos clubes e a realizar trabalhos ocasionais como músico contratado. Apesar dos elogios de gente como Cole Porter, Count Basie, Nat King Cole e Coleman Hawkins, que costumavam freqüentar seus shows, a carreira nos Estados Unidos não progrediu da maneira desejada.

Mesmo diante de tantos percalços, Villegas pôde saborear muitos momentos inesquecíveis. Um deles ocorreu em 1957, quando pôde assistir, ao vivo, a orquestra de Duke Ellington, em Cleveland. Durante algumas noites, os dois dividiram o palco, um set para cada um, e certa feita o próprio Ellington sentou-se ao piano com o argentino para que, juntos, interpretassem uma versão de “Stardust”.

Nas palavras de Enrique: “Graças a Duke eu comecei no jazz. Me identifico muito com sua forma de tocar e, como ele, procuro jamais repetir a mesma interpretação, ainda que esteja tocando o mesmo tema. Tanto ele quanto eu achamos que o jazz, como a conversa, deve ser espontânea”. Em suas andanças pelos Estados Unidos, Villegas também chegou a dividir o piano com outra lenda, o grande Erroll Garner, com quem realizou uma apresentação a quatro mãos.

Em 1958, foi uma das atrações do Festival Casals, realizado na Universidade Federal do Rio Piedras, em Porto Rico, tendo sido o único músico de jazz a se apresentar no festival. De qualquer forma, com poucas perspectivas profissionais nos Estados Unidos e com o coração despedaçado por uma desilusão amorosa, Villegas acabou por retornar à Argentina em 1963. De volta a Buenos Aires, montou um trio nos moldes daquele que havia liderado em Nova Iorque, com o baixista Jorge Lopez Ruiz e o baterista Eduardo Casalla.

Com essa formação, gravou “Al Gran Pueblo Argentino, Pianos!”, registro fonográfico de um concerto realizado no Teatro Astral, em 1964. Em 1967, gravou o elogiado “Tributo A Monk”, para o selo portenho Trova. O álbum, curiosamente, apresenta apenas três composições de Thelonious, “Blue Monk”, “Bemsha Swing” e “Round Midnight”, sendo complementado com standards como “It Might As Well Be Spring” e “It’s Only A Paper Moon”, além de “St. Thomas”, de Sonny Rollins.

Um dos momentos mais sublimes da discografia de Villegas é o álbum “Encuentro”, gravado no dia 15 de setembro de 1968, para o selo Trova. Por uma dessas coincidências extraordinárias que só o os deuses do jazz podem conceber, a orquestra de Duke Ellington estava de passagem por Buenos Aires, para fazer uma série de concertos.

Aproveitando a oportunidade, o pianista convidou dois dos mais proeminentes solistas da big band, o saxofonista Paul Gonsalves e o trompetista Willie Cook, que aceitaram o convite sem pestanejar e se mandaram para o estúdio. Ali, na companhia do baixista Alfredo Remus e do baterista Eduardo Casalla, Villegas, Gonsalves e Cook produziram um disco magistral.

“Perdido” foi a faixa escolhida para abrir o disco e o quinteto revisita com graça e muito swing o velho hit de Ervin Drake, Hans Lengsfelder e Juan Tizol. O sax tenor de Gonsalves poucas vezes soou tão robusto e envolvente. Villegas possui uma técnica preciosa e seu acompanhamento é sucinto, com a utilização de poucas notas e seu poder de síntese evoca o estilo de Count Basie, o pianista que fez da concisão uma arte. Nos solos, todavia, o argentino é bem mais generoso e seu em dedilhado loquaz cabem influências de Bud Powell e Art Tatum.

Na balada “I Cover the Waterfront”, de autoria de Edward Heyman e Johnny Green, o clima é de absoluto romantismo. Bateria minimalista, linha de baixo cativante e um comovente diálogo entre sax e trompete são os grandes destaques. Villegas, como bom anfitrião, atua exclusivamente na sessão rítmica, se abstendo de solar.

Gonsalves é o autor de “Blues For B. A.”, faixa que traz uma das mais sensacionais atuações de Remus. O contrabaixo parece ganhar vida em suas mãos, e faltam adjetivos para qualificar o seu solo. Com a surdina, Cook realiza intervenções fluidas e bastante eloqüentes, mostrando perícia e muita personalidade. Villegas faz uma originalíssima leitura do blues, imprimindo em seu toque a força e a dramaticidade do tango.

“St. Louis Blues”, clássico de W. C. Handy, recebe um arranjo onde precisão e irreverência caminham de mãos dadas. O piano de Villegas é dissonante, imprevisível, com ecos de Monk, e suas harmonias são quase subversivas. Cook e Gonsalves possuem uma abordagem mais ortodoxa, mas a fidelidade à melodia em momento algum resvala para a acomodação ou a irrelevância.

Pausa para o medley “Gone With the Wind / Tenderly / Ramona”, onde o lirismo escorre em proporções amazônicas. Villegas, Cook e Gonsalves se desdobram em delicadezas e extraem dos respectivos instrumentos sonoridades transcendentes. Elevando a temperatura, é a vez de “Just Friends”, composição de John Klenner e Sam M. Lewis, executada com um discreto acento latino, obra e graça da percussão esperta de Casalla. O pianista possui muita versatilidade e aquela malemolência que, no Brasil, damos o nome de malandragem.

Para encerrar, uma assombrosa interpretação de “I Can´t Get Started”, fruto da parceria entre Ira Gershwin e Vernon Duke. Cook exercita a sua veia romântica, com um sopro hipnótico, que transmite a sensação de fragilidade e abandono. Gonsalves tem aqui a mais lesteriana de suas performances, e se a sua abordagem é mais encorpada que a do trompetista, a atmosfera criada por suas frases lânguidas não é menos sutil. Villegas prefere deixar que seus convidados brilhem e suas intervenções discretas são uma perfeita demonstração que acompanhar é uma arte. Sem qualquer sombra de dúvida, trata-se de um dos mais belos e pungentes álbuns de jazz gravados ao sul do Equador.

Em 1971 atuou pela primeira vez no mítico Teatro Colón, o mais importante da Argentina, para um programa que incluía música erudita, jazz e a indefectível “Rhapsody in Blue”. Villegas foi o primeiro jazzista a se apresentar no teatro e foi acompanhado pela Filarmónica de Buenos Aires, sob a regência do maestro Pedro Ignacio Calderón.

Ele comemorou a passagem dos seus 60 anos, em 1973, com uma temporada no Teatro Municipal e, no ano seguinte, interpretou “Rhapsody in Blue” no estádio do Vélez Sarsfield, para uma platéia estimada em 20.000 espectadores. Em 1975 fez uma nova temporada no Teatro Colón, agora interpretando apenas um repertório jazzístico, e no mesmo ano gravou “Ara Tokatlian Meets Enrique Villegas”, que marca o seu encontro com o saxofonista Tokatlian, um dos principais nomes do rock argentino dos anos 70.

Seu trio dos anos 70, formado por Oscar Alem (contrabaixo) e Osvaldo López (bateria), era descrito pelos críticos da época como “uma sociedade mágica”. Gravou vários discos para o selo argentino Melopea, com destaque para “Tributo A Jerome Kern”, de 1977. Apaixonado pelas mulheres, costumava dizer: “Aprecio, antes de mais nada, a música e o amor. Se eu fosse um hermafrodita e tivesse um órgão sexual em cada mão, passaria a vida aplaudindo”.

Mono abriu um boliche em Buenos Aires, ainda durante a década de 70, mas o estabelecimento foi fechado pelas autoridades, por causa do barulho que o pianista e seus clientes costumavam fazer durante as madrugadas. Frustrada a experiência como empresário, o pianista passou boa parte dos anos seguintes como atração do clube La Peluquería, no tradicional bairro de San Telmo.

Irreverente, Enrique era um frasista genial. Certa feita, ao lhe perguntarem o porquê do apelido Mono, saiu-se com esta: “Deve ser porque imito os humanos com perfeição”. Num país eminentemente católico, não se incomodava em expressar seu ateísmo: “Não acredito em Deus, mas se ele realmente deseja existir, que exista. Eu não me oponho. Agora, se eu fosse Jesus Cristo não me deixava crucificar de jeito nenhum”.

Leitor compulsivo e homem de vasta cultura, Villegas foi amigo de  escritores como Jorge Luis Borges e Macedonio Fernández, do pintor Xul Solar e do bandoneonista Astor Piazzolla, que compôs “Villeguita” em homenagem ao pianista. Recebeu muitas homenagens em seu país ao longo dos anos, como o Premio Konex de Platino, na categoria “Jazz”, concedido pela conceituada Fundacion Konex.

Para o escritor e crítico argentino Sergio Pujol, Villegas foi “o melhor do seu tempo, o mais original e o menos apegado a fórmulas. Conseguia soar diferente, mesmo tocando o standard mais conhecido e em seu repertório havia espaço tanto para canções obscuras quanto para sucessos do momento. Ele se atrevia a experimentar sempre, indo além do convencional. Misturava ‘Caminito’ com blues, Chopin com Duke Ellington, free jazz com Ara Tokatlian”.

Em meados dos anos 80, o pianista sofreu um acidente doméstico e fraturou o quadril, o que o obrigava a se submeter a longas sessões de fisioterapia. Ausente dos palcos e estúdios, Villegas morreu na mesma cidade em que nasceu, no dia 11 de julho de 1986. Pouco antes de falecer, declarou em uma entrevista: “Estou chegando ao fim e posso dizer que jamais me prostituí com a música. Desde que ouvi Duke Ellington pela primeira vez, escolhi o jazz e sempre me lixei para o dinheiro”. Aliás, o seu desapego ao dinheiro era folclórico e pode ser medido por mais uma de suas frases geniais: “Para viver, me basta ter 30 amigos e que cada um deles me convide para comer em sua casa, uma vez por mês”.

O velório de Villegas foi uma festa. O pianista Manolo Juárez, que esteve presente, rememora: “Eu nunca vi um funeral assim. Havia motoristas de ônibus, taxistas, intelectuais, músicos, pessoas do bairro. As canecas de café iam e vinham, junto com tortas e bolos. As pessoas contavam histórias e morríamos de rir. De vez em quando um choro baixo e solene interrompia a conversa. No entanto, o clima continuou alegre até o fim, como, naturalmente, ele teria querido”. Outro grande amigo seu, o ilustrador (e clarinetista amador) Hermenegildo Sábat, vaticinou: “Villegas não morreu. Apenas cansou de ser livre”.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

III LENÇÓIS JAZZ & BLUES FESTIVAL




O “Lençóis Jazz e Blues Festival: Circuito São Luís” não será feito só de música. Nos dias 9 e 10 de agosto, as 19h, no teatro Arthur Azevedo, em São Luís, as programações serão abertas com o lançamento da obra “CONFESSO QUE OUVI”, pelo Juiz do Trabalho e jazzófilo, Érico Renato Serra Cordeiro. Na oportunidade o magistrado e professor, apaixonado por música, fará uma sessão de autógrafos de seu novo livro que, repleto de metáforas, envolve o leitor em uma atmosfera poética que resgata o passado em um minucioso trabalho de pesquisa.
Em 396 paginas o autor esclarece inúmeras curiosidades e faz descrições históricas de obras de setenta jazzistas, entre eles os consagrados Duke Ellington, Dave Brubeck, Dizzy Gillespie, Lester Young, Gerry Mulligan, Charles Mingus, Art Blakey e Wynton Marsalis, Benny Golson, Freddie Hubbard, Cannonball Adderley, Jimmy Heath, Bud Powell, Bill Evans e Clark Terry e também de outros artistas não tão famosos como Bernard Wilen, Freddie Redd, Eden Ahbez, Lou Blackburn, Hampton Hawes e a pianista alemã Jutta Hipp. Muitos desses músicos retratados no livro fazem parte da gerações que cultivaram o bebop, o cool jazz e o hard bop nas décadas de 1940 e 1950.

“CONFESSO QUE OUVI” é fruto de muitas resenhas e artigos virtuais escritos por Érico Cordeiro publicados, anteriormente, no blog Jazz+Bossa+Baratos (http://ericocordeiro.blogspot.com) produzido pelo autor. Um espaço virtual por onde circulam músicos e muitos admiradores de jazz. Charlie
Segundo o jornalista e crítico musical Carlos Calado o livro “Confesso que Ouvi” (Editora Azulejo), traz “um texto conciso e elegante, o autor traça perfis de quase 70 jazzistas, de mestres do gênero, como Charles Mingus, Dizzy Gillespie e Lester Young, a instrumentistas menos conhecidos do grande público, como o saxofonista Lucky Thompson, o trompetista Joe Gordon ou a pianista alemã Jutta Hipp”, explicou. Além disso, a obra “enriquece a ainda reduzida bibliografia sobre o jazz em língua portuguesa”, elogiou Calado. 



Serviço:
O que: Lançamento do livro: "CONFESSO QUE OUVI", do Juiz do Trabalho e jazzófilo, Érico Renato Serra Cordeiro (Editora Azulejo, p.396)
Quando: 9 e 10 de agosto                   
Hora: 19h
Onde: Teatro Arthur Azevedo 
Preço: R$30,00  À venda: no local, nas livrarias Tambores e Poeme-se, em São Luis, ou pelo site: (http://www.estantevirtual.com.br)



PROGRAMAÇÃO OFICIAL DO LENÇÓIS  JAZZ E BLUES FESTIVAL:

CIRCUITO SÃO LUÍS:

Local: Teatro Arthur Azevedo
Data: 09 de agosto de 2011       

19:00h- Lançamento do livro: "CONFESSO QUE OUVI",  Juiz do Trabalho e jazzófilo, Érico Renato Serra Cordeiro.
20:00h- Mila Camões e Banda
21:00h- Ithamara Koorax e Victor Biglione
22:00h- Cristina Braga (harpista) e Trio

Data: 10 de agosto de 2011


19:00h- Lançamento do livro: "CONFESSO QUE OUVI",  Juiz do Trabalho e jazzófilo, Érico Renato Serra Cordeiro.
20:00h- Marcelo Carvalho e quarteto
21:00h- Taryn Szpilman e Trio
22:00h-Yamandu Costa

PROGRAMAÇÃO DO CIRCUITO BARREIRINHAS:

LOCAL: GRAN SOLARE LENÇÓIS RESORT

Data: 12 de agosto de 2011

21:00h-Taryn Szpilman e Trio
22:00h- Gilson Peranzetta e Mauro Senise
23:00h- Artur Menezes e Banda


Data: 13 de agosto de 2011

20:30h- Sávio Araujo e Banda
21:30h- Nelson Faria e Ney Conceição
22:30h- Jefferson Gonçalves e Banda
23:30h- Edson Travassos e Banda



Lençóis Jazz e Blues Festival Aberto ao Público:
Data: 14 de agosto de 2011  (aberto ao público)                Local: Beira Rio da Cidade de Barreirinhas
       

Shows de:
17:00h- Robertinho Chinês e Trio
17:45h- Quarteto Cazumbá
18:30h- Andréa Canta e banda          
19:30h- Jair Torres e Trio


PROGRAMAÇÃO DAS AÇÕES DE RESPONSABILIDADE SOCIAL:

EM SÃO LUÍS- “Ensaios Fechados”:

Local: Teatro Arthur Azevedo      Horário: 16h as 18h.
Dia 09/08/ 2011:
Mila Camões, Itamara Koorax e Victor Biglione e Cristina Braga;

Dia 10/08/ 2011:                           Horário: 16h as 18h.
Marcelo de Carvalho e quarteto, convidado especial Zé Américo, Taryn Szpilman e Yamandu Costa.

EM BARREIRINHAS:

“OFICINAS MUSICAIS”:
Local: Salão de Convenções do Hotel Gran Solare Lençóis Resort .

Dia 12/08/ 2011:
Horário: 9h as 11h.
·         Oficina de Gaita- ministrada por Jefferson Gonçalves.

Dia 13/08/ 2011:
Horário: 9h as 11h
·         Oficina de sax e flauta- ministrada por Gilson Peranzetta e Mauro Senise


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SERVIÇOS:
I Lençóis Jazz e Blues Festival- Circuito São Luís:
Data: 09 e 10 de agosto de 2011 - Horário: 20:00h
Local: Teatro Arthur Azevedo
Ingressos: R$40,00 (dias 9 ou 10) e R$60,00 (passaporte para os dias 9 e 10)
Locais de venda: nos dias do evento no Teatro Arthur Azevedo e antecipadamente na agência Uimar Jr Turismo (Avenida Coronel Colares Moreira, Ed. Multimpresarial, 10, São Luís – MA) Fones: (0xx)98 3227-2369 begin_of_the_skype_highlighting)  

III Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito Barreirinhas:
Data: 12 e13 de agosto de 2011 - Horário: 21:00h
Local: Gran Solare Lençóis Resort- Lençóis Maranhenses, Estrada de São Domingos, s/nº, Povoado Boa Vista, Barreirinhas/MA, Tel.: (55 98) 3349-6000 E-mail:reservas.lencois@gruposolare.com.br
(http://www.gruposolare.com.br)
Ingressos: R$40,00 (dias 9 ou 10) e R$60,00 (passaporte para os dias 9 e 10)
Locais de venda: nos dias do evento no Gran Solare Lençóis Resort e, antecipadamente, na agência Uimar Jr Turismo (Avenida Coronel Colares Moreira, Ed.Multiempresarial, 10, São Luís – MA) Fones: (0xx)98 3227-2369  begin_of_the_skype_highlighting / 98 3227-2369)  
Data: 14 de agosto de 2011 - Horário: 17:00h  (ABERTO AO PÚBLICO) Local: Av. Beira Rio (às margens do rio Preguiças, em  Barreirinhas.

REALIZAÇÃO: Tutuca Viana Produções
APRESENTAÇÃO: Rede ICEP

INFORMAÇÕES:
Equipe de Produção- Tutuca-9976-3087- tutucaviana@yahoo.com.br
Ivaldo Guimarães-8722-5541 - ivaldo_guimaraes@yahoo.com.br

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O MESTRE-SALA DOS MARES



Há muito tempo, nas águas da Guanabara, um homem ousou combater as humilhantes práticas vigentes na marinha brasileira. Pelas regras de então, era permitido aos oficiais aplicar castigos físicos e torturas aos seus subordinados. Era uma prática ancestral e que jamais havia sido questionada pelos escalões superiores, que não só toleravam como estimulavam essa selvageria.

João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, tinha a dignidade de um mestre-sala e, nos primórdios do século XX, liderou a Revolta da Chibata, que contrapôs os marinheiros de baixa patente àquele sistema cruel e obscurantista. Ele e seus homens tomaram de assalto o encouraçado Minas Gerais e ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro, se o decreto que permitia os castigos físicos na marinha não fosse revogado.

Logo em suas primeiras horas, marinheiros de outras embarcações, como os encouraçados São Paulo e Deodoro e o cruzador Bahia, aderiram ao movimento. A população mais pobre do Rio de Janeiro ficou ao lado dos revoltosos e quando circulou a notícia de que os amotinados estavam ficando sem mantimentos, foi feita uma grande arrecadação de víveres, onde as maiores contribuições vieram, exatamente, das camadas mais modestas.  

O movimento perdurou de 22 a 27 de novembro de 1910, quando houve a promessa de que o Presidente Hermes da Fonseca aboliria os castigos físicos e anistiaria os revoltosos. Os amotinados depuseram as armas, mas foram traídos pelo Governo Federal, que imediatamente mandou prender os líderes do movimento. Haveria uma segunda revolta, reprimida com violência e na qual perderam a vida cerca de 200 marinheiros, massacrados pelas tropas federais. Ao final do episódio, mais 2.000 revoltosos seriam expulsos da marinha e cerca de 150 foram desterrados para o Amazonas, a fim de trabalhar nos seringais.

João Cândido e outros dezoito companheiros foram levados para a Fortaleza de São José, da Ilha das Cobras, e recolhidos a uma cela escavada na rocha. Poucos dias depois da prisão, a cela foi revestida de cal virgem e, em 24 horas, estavam todos mortos, exceto João Cândido e um soldado conhecido como Pau de Lira. Durante o longo período no cárcere, o líder da rebelião foi expulso da marinha e seu julgamento somente ocorreu em dezembro de 1912. Ele foi absolvido das acusações, mas nunca foi reintegrado à corporação.

O Almirante Negro teve que sobreviver como vendedor de peixes, no Rio de Janeiro. No fim da vida, foi morar em São João de Meriti, onde faleceu de câncer, completamente esquecido, no dia 06 de dezembro de 1969. Somente em 2008, 39 anos depois de sua morte, João Cândido Felisberto e seus companheiros foram anistiados pelos incidentes ocorridos durante a Revolta da Chibata, nos termos da Lei Nº 11.756/2008.

Poucos músicos foram tão importantes na luta contra o racismo e o preconceito quanto William Marcel Collette. Saxofonista, flautista, clarinetista, compositor, arranjador e educador musical, ele é considerado o mentor de músicos como Eric Dolphy e Charles Lloyd. Ele também foi um dos desbravadores no cobiçado mercado das trilhas sonoras para o cinema e televisão, território majoritariamente reservado aos músicos brancos.

Incansável defensor dos direitos civis, seu ativismo não se resumia à causa dos músicos negros e seus embates junto aos sindicatos dos músicos da Califórnia redundaram no fim das práticas segregacionistas e em melhores condições de trabalho para todos, independentemente de raça, credo ou nacionalidade. Por sua coragem e por sua dignidade, ele certamente mereceria um apelido tão nobre quanto “Mestre-sala dos mares” e sua luta o torna, de certa forma, um irmão espiritual do nosso João Cândido.

Mais conhecido como Buddy Collette, ele nasceu no dia 06 de agosto de 1921, em Watts, distrito de Los Angeles, na Califórnia, em uma família bastante musical. A mãe, Goldie Marie, cantava no coral da igreja freqüentada pela família e o pai era pianista e saxofonista amador. Aos dez anos ele iniciou os estudos de piano com a avó, mas pouco depois de assistir a uma apresentação da banda de Louis Armstrong, optou pelo saxofone tenor.

Com apenas 12 anos, Buddy já era um músico habilidoso e, mais que isso, tinha bastante atitude. Umas de suas primeiras providências naquele tempo foi formar, em 1933, uma banda com alguns garotos do bairro. Entre eles, um jovem violoncelista de 11 anos chamado Charles Mingus. A amizade entre os dois duraria por toda a vida e o temperamento explosivo de Charlie encontrava na personalidade afável e tranqüila de Collette uma espécie de alma gêmea.

A influência de Collete sobre Mingus era tamanha que o saxofonista foi o grande responsável por Charlie ter desistido do violoncelo para se concentrar no contrabaixo. Na banda formada pelos dois, havia espaço, ainda, para outra futura estrela do jazz: o trombonista Britt Woodman, então com 13 anos e que, no futuro, brilharia ao lado da orquestra de Duke Ellington.

Collete passou a adolescência dividido entre o estudo formal na Jordan High School e a música, até abraçar esta última, profissionalmente, em 1939. Ele era um assíduo participante das jams realizadas na região da Central Avenue, com a sua enorme quantidade de clubes, boates, salões de dança e casas noturnas. Ali era possível esbarrar com os então jovens Dexter Gordon, Chico Hamilton e Gerald Wilson, figuras que, juntamente com Buddy, ajudaram a moldar as feições do jazz californiano e que plantaram as sementes do chamado West Coast Jazz.

Em 1941, depois de tocar em diversas orquestras locais, como as de Al Adams e Les Hite, Collette foi contratado pelo baterista Cee Pee Johnson, cuja banda era uma das mais populares da região de Los Angeles e que costumava participar de trilhas sonoras dos filmes da RKO, uma das mais importantes companhias cinematográficas daquela época. Buddy ganhava então assombrosos 65 dólares semanais, quase o triplo do que o pai, motorista de caminhão, fazia no mesmo período – apenas 25 dólares.

Após cerca de um ano de parceria com o bandleader, o Collette foi recrutado pela marinha, sendo lotado primeiramente em Oakland e, em seguida, em San Francisco. No mesmo destacamento, também servia o saxofonista Marshall Royal, que havia sido membro da orquestra de Cee Pee, e os dois se tornaram amigos e parceiros, atuando em uma gama de bandas da corporação.

Foi durante o seu período na marinha que Collette aprendeu a elaborar arranjos e também pôde estudar teoria musical mais profundamente. Dispensado em 1946, formou uma banda com o amigo Royal, chamada The Stars of Swing, onde também atuava o formidável Lucky Thompson, além dos velhos amigos de infância Charlie Mingus e Britt Woodman. Infelizmante, o grupo, que era atração fixa do clube Downbeat, não deixou gravações e foi desfeito em 1947.

No ano seguinte, o saxofonista gravou pela primeira vez em seu próprio nome, um compacto contendo “It’s April” e “Collette”. As gravações foram feitas nos estúdios de John Dolphin e, assim como acontecia com outros músicos da época, chegaram a tocar em rádio e a vender uma boa quantidade de cópias.

Ocorre que o malsinado cidadão, foi um dos primeiros negros a comandar um selo independente na Califórnia e que fez gravações históricas na área do jazz, do blues e do R&B, tinha um problema sério: não costumava pagar seus músicos. Decidido a evitar um conflito desgastante, Collette, que já havia feito alguns trabalhos como freelancer no estúdio, deixou de prestar serviços ali e acabou no prejuízo. Mas a prática do calote iria custar caro a Dolphin, que seria assassinado a tiros, dentro do seu escritório, em 1958, pelo compositor Percy Ivy, um dos muitos a quem trapaceou.

No mesmo período em que fez as gravações para Dolphin, Buddy começou a ter uma atuação mais destacada como acompanhante, tocando com Louis Jordan, Benny Carter, Edgar Hayes e Gerald Wilson. Ele também decidiu mergulhar com extrema seriedade nos estudos musicais, tendo freqüentado instituições como o os Angeles Conservatory of Music, a California Academy of Music e o American Operatic Laboratory.

Outra referência bastante significativa, no campo dos estudos musicais, foi o bandleader e arranjador Lyle “Spud” Murphy, com quem Collette estudou arranjo e composição. Nascido na Sérvia, Murphy emigrou para os Estados Unidos e ali construiu uma sólida carreira, sendo considerado um inovador no campo da teoria musical. Buddy pode ser ouvido em vários de seus discos, bastante avançados para a época.  

Ainda em 1948, Buddy e o saxofonista Bill Green comandavam as gigs do Crystal Tea Room, que aconteciam nas tardes de domingo. Na época, embora músicos brancos e negros pudessem tocar juntos, não podiam se filiar ao mesmo sindicato. Para ajudar a combater o racismo, Buddy criou a Comunity Simphony Orchestra, que congregava negros e brancos no mesmo espaço. Após uma intensa e exasperante luta que durou quase três anos, finalmente as leis segregacionistas foram revogadas e a sonhada integração racial pode se desenvolver.

Buddy foi um dos primeiros músicos californianos a assimilar a sintaxe do bebop e exerceu uma forte influência sobre o cenário jazzístico local, onde pontuavam jovens talentos como Eric Dolphy, Hampton Hawes, Leroy Vinnegar, Frank Morgan, Wardell Gray, Sonny Criss, Teddy Edwards, Art Pepper e uma infinidade de outros. Chegou a tocar com Charlie Parker em uma das temporadas californianas de Bird – aliás, Charles Mingus chegou a declarar em uma entrevista: “meu amigo Buddy Collette consegue tocar tão bem quanto Bird”.

Em 1950, impressionado com as habilidades de Collette, Jerry Fielding, então diretor musical do show televisivo de Groucho Marx, convidou o saxofonista para fazer parte da orquestra do programa, chamado “You Bet Your Life”. Fielding chegou a receber ameaças por ter contratado o saxofonista negro, mas não enfrentou as adversidades e, pouco depois, levaria outros músicos negros para a TV, como o baixista Red Callender e o pianista Gerry Wiggins.

Collette era o único negro da orquestra e empreendeu os maiores esforços para modificar essa situação opressiva. Suas iniciativas encontraram resistência nos segmentos mais conservadores e ele enfrentou até mesmo o tenebroso macarthismo que obscurecia a sociedade norte-americana da época. Nesse embate, encontrou o apoio em alguns dos mais sólidos pilares da cultura americana, como Paul Robeson, Gerald Wilson, Frank Sinatra, Nat King Cole, Elmer Bernstein, Benny Carter e Mickey Rooney.

Ele relembra esses tempos difíceis: “Eu sabia que era preciso fazer alguma coisa. Eu havia servido na marinha e ali as bandas eram integradas. A escola em que eu estudei também era integrada. Na verdade, até então eu pouco sabia a respeito do racismo, mas era claro que aquilo não era correto. Músicos devem ser julgados por aquilo que eles tocam e não pela cor de sua pele”.

Em 1952 o mesmo Jerry Fielding resolveu montar uma orquestra de bailes e Buddy se juntou ao empreendimento. A banda fez bastante sucesso na região de Los Angeles e chegou a gravar alguns álbuns para os selos Radio Recorders e Discovery Records, com produção de Albert Marx, produtor que ficou famoso por ter gravado o lendário concerto de Benny Goodman no Carnegie Hall, em 1938. Buddy deixou a orquestra em 1954, a fim de liderar seu próprio grupo, onde atuavam o pianista Ernie Freeman, o baixista Buddy Woodson e o baterista Larry Bunker.

Embora tivesse tido algum reconhecimento local, o trabalho do quarteto não teve maior repercussão e ele foi desfeito alguns meses depois. No ano seguinte, veio a grande oportunidade que Collette estava aguardando: um quinteto com o baterista Chico Hamilton, com uma formação pouco usual, que incluía o violoncelista Fred Katz, o contrabaixista Carson Smith e o guitarrista Jim Hall. Nessa época, Collette já havia acrescentado ao seu portfólio, além do saxofone tenor, o sax alto, o sax barítono, a flauta e a clarineta e o grupo se tornou um dos mais prestigiados por público.

As apresentações no Stroller’s Club, em Long Beach, eram sempre muito concorridas e os álbuns do quinteto, gravados para a Pacific Jazz, conseguiram ótimas posições nas paradas de jazz. Em 1956, Buddy arrebatou o prêmio de “New Star on Clarinet”, concedido pela revista Down Beat e apesar de não ser tão novo assim – afinal, já estava com trinta e cinco anos – somente então começou a ganhar a visibilidade merecida no mundo do jazz.

Ainda naquele ano, gravou seu primeiro álbum como líder, “Man of Many Parts”, para a Contemporary. Apesar do sucesso, Collette queria explorar outras sonoridades e deixou o quinteto de Hamilton em 1956. Logo montou um quarteto, que se tornou atração fixa do clube Haig’s e por onde passariam os pianistas Don Friedman e Dick Shreve, os baixistas John Goodman e Gene Wright e os bateristas Larry Bunker, Joe Peter e Bill Richmond.

Durante esse período, ele começou uma auspiciosa carreira como educador musical e teve entre seus alunos figuras do calibre de Frank Morgan, Sonny Criss, James Newton, Charles Lloyd e Eric Dolphy, que seria seu substituto no quinteto de Hamilton. No final da década de 50, vários dos ex-companheiros ou ex-alunos de Collette se transferiram para Nova Iorque, em busca de novas oportunidades profissionais, mas ele preferiu continuar na Califórnia.

Talvez por isso sua carreira jamais tenha tido uma receptividade, por parte do público, proporcional ao seu talento, pois tirando o período no quinteto de Hamilton, onde teve uma exposição pública mais intensa, Collette sempre se pautou por uma enorme discrição. Isso não o impediu de participar, como acompanhante, de álbuns de gente como Barney Kessel, Buddy Rich, Red Norvo, Peggy Lee, Herbie Mann, Red Callender, Shorty Rogers, Benny Carter, Duke Ellington, Count Basie, Stan Kenton, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Louie Bellson, Thelonious Monk, Gil Evans, Al Hibbler e outros.

Ele jamais deixou de trabalhar em scores de filmes e programas de televisão, como os de Flip Wilson, Danny Kaye e Joey Bishop, e passou os anos seguintes dividindo-se entre concertos, gravações e salas de aula. Aperfeiçoou seu lado compositor, tendo atuado, inclusive, na área da música erudita. Também se manteve como um dos mais requisitados arranjadores da Costa Oeste.

Buddy liderou o curioso projeto “The Swinging Shepherds”, composto por quarto flautistas, sendo os outros três Bud Shank, Paul Horn e Harry Klee. O grupo deixou apenas um album gravado, “Buddy Collette's Swinging Shepherds”, para a Mercury (1958) e a sessão rítmica era composta por Bil Miller no piano, Joe Comfort no contrabaixo e Bill Richmond na bateria.

Antes disso, Buddy gravaria para a Contemporary aquele que é considerado por muitos o seu trabalho mais significativo: “Nice Day With Buddy Collette”. As sessões foram realizadas nos dias 06 e 29 de novembro de 1956 e 18 de fevereiro de 1957. No álbum, Buddy toca sax alto, tenor, flauta e clarinete, na companhia dos pianistas Don Friedman, Dick Shreve e Calvin Jackson, dos baixistas John Goodman e Leroy Vinnegar e dos bateristas Shelly Manne e Bill Dolney.

Tema composto por Collette, “A Nice Day” foi a faixa escolhida para abrir o disco.Com uma levada irresistível e um swing a toda prova, a canção tem uma estrutura melódica assobiável e um fabuloso trabalho do líder ao clarinete. O baixista Goodman faz intervenções muito consistentes e seu breve solo possui um acento de blues bem pronunciado. Friedman, ao piano, e Peters, na bateria, completam o time.

“There Will Never Be Another You”, composição de Harry Warren e Mack Gordon, recebe um arranjo mais acelerado que o habitual. O pianista Calvin Jackson, originalmente um músico mais ligado ao swing, se revela um notável discípulo de Bud Powell, com um ataque nervoso e veloz. Conduzindo o baixo, Vinnegar é sempre sinônimo de robustez e inventividade. A bordo do sax alto, Collette tem grande espaço para improvisar e sua abordagem, por vezes assimétrica e ondulante, indica um músico sempre disposto a explorar novos caminhos. Shelly Manne, com a habitual competência, pilota as baquetas.

O pianista Shreve comparece com “Minor Deviation”, um blues de tinturas Monkianas, dissonante e introspectivo. O tema cairia como uma luva em uma trilha sonora de um filme de mistério e o clarinete irrequieto do líder realça ainda mais essa atmosfera cinematográfica. Além de Collette e Shreve, o baixista Goodman e o baterista Dolney marcam presença.

Logo em seguida, o quarteto emenda uma encantadora versão de “Over The Rainbow”, clássico de Yip Harburg e Harold Arlen. Buddy exprime sua versatilidade, fazendo um ótimo uso da flauta. Sua execução é sutil e inebriante, e o som do seu instrumento constrói um diálogo adorável com o piano cheio de enlevo e doçura conduzido por Friedman. Baixo e bateria, respectivamente, a cargo de Goodman e Peters.

“Change It” é outra composição do líder, que costumava ser usada na abertura de seus concertos. Produto típico do jazz californiano, conjuga velocidade e leveza, sem a mesma urgência e fúria que caracterizam o bebop da Costa Oeste. O líder mais uma vez manipula o sax alto com maestria e uma inquestionável autoridade. Ótimas atuações de Shreve e Goodman, cujo solo prima pela virilidade e pela enorme disposição física. Na bateria, o discreto Dolney garante o aparato rítmico.

“Moten Swing”, um dos temas mais representativos da Era do Swing, recebe um arranjo ousado, que reelabora a melodia, tornando-a irreconhecível em alguns momentos. Excepcional atuação de Jackson, que faz o piano soar como um vibrafone e faz um uso formidável das notas agudas. Mais uma vez a bordo do clarinete, Collette . A performance de Manne, irrepreensível com as escovas, também é merecedora de uma audição atenta e sua interação telepática com Vinnegar é exemplar.

A bossa nova ainda nem tinha nascido, mas a interpretação de “I'll Remember April” antecipa algumas soluções harmônicas criadas por João Gilberto e Tom Jobim. Collette era muito amigo de Laurindo de Almeida e certamente absorveu alguns elementos do violonista brasileiro, imprimindo ao tema um discretíssimo tempero de samba. O líder se faz acompanhar por Shreve, Goodman e Dolney, e extrai do sax alto uma sonoridade arredondada e macia, que lembra em algumas passagens a do inimitável Paul Desmond.

As três últimas faixas são de autoria do líder. “Blues for Howard” é uma homenagem ao fotógrafo Howard Morehead, seu amigo pessoal e, como o título antecipa, é um blues em tempo médio. A clarineta ajuda a criar uma atmosfera menos densa e os discretos elementos do swing incorporados ao tema o aproximam do trabalho de um Edmond Hall. O solo de Goodman é primoroso e a performance de Shreve, que se vale da técnica do stride piano são os outros destaques. A bateria fica sob a responsabilidade de Bill Dolney.

A hipnótica “Fall Winds” conduz o ouvinte a uma viagem sombria e desafiadora. Com uma percussão tribal e uma estrutura que navega pelas ondas do jazz modal e da Third Stream – certamente por conta da influência de Lyle “Spud” Murphy – a faixa aponta os caminhos que o discípulo de Buddy, Eric Dolphy, trilharia, de maneira mais radical, no futuro. Experimentalismo que exige do ouvinte atenção e cumplicidade e que traz Collete na flauta, secundado por Shreve, Goodman e Dolney.

“Buddy Boo” traz o líder ao tenor, acompanhado por Jackson, Vinnegar e Manne, e remonta aos tempos do quinteto de Chico Hamilton. Buddy consegue amaciar a sonoridade vigorosa do tenor, mantendo a grande expressividade do seu toque. A sessão rítmica traz Vinnegar, soberbo, e os não menos inspirados Manne e Jackson. Um disco arrebatador que, como vaticina o crítico Scott Yanow, serve como “uma ótima vitrine para exibir os talentos de Collette, como executante e compositor”.

Os esforços de Collette para eliminar o racismo do meio musical lhe deram uma recompensa cujo valor simbólico é extraordinário. Em 1963, quando o negro Sidney Poitier ganhou o Oscar de melhor ator, por sua atuação no filme “Lilies of the Fields” (“Uma voz nas sombras”), Buddy estava presente na cerimônia de entrega do prêmio, tocando na orquestra da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. A seu lado outros músicos negros, como o saxofonista Bill Green e a harpista Toni Robinson-Bogart.

A carreira de educador musical se prolongaria por décadas, em instituições como a Loyola Marymount University, a Cal Poly Pomona e a Cal State Long Beach. Collette participou decisivamente do projeto “Central Avenue Sounds”, desenvolvido pela UCLA, através do seu Departamento de História, o qual busca registrar e resgatar a história do jazz na Califórnia.

Em 1995, Buddy participou do elogiado “Conversation Peace”, de Stevie Wonder. No ano seguinte, foi homenageado pela Biblioteca do Congresso e, na ocasião, regeu e uma big band que interpretou diversas de suas composições. Dentre os músicos que participaram do evento, velhos companheiros do cenário de Los Angeles, como Jackie Kelson, Britt Woodman e Chico Hamilton. O concerto foi lançado em disco em 2000, com o título “Live From The Nation’s Capital” (Bridge) e recebeu uma indicação ao Grammy do ano seguinte, na categoria “Best Large Jazz Ensemble Album”.

Buddy sofreu um sério derrame em 1998, que o deixou com sérias restrições motoras e o impediu de tocar. Não obstante, a doença não afetou sua capacidade de escrever arranjos e ele continuou a trabalhar, embora não mais pudesse tocar e naquele ano recebeu da prefeitura de Los Angeles o título de “Living Los Angeles Cultural Treasure”. Em 1999 ele produziu e dirigiu uma série de concertos em comemoração ao centésimo aniversário de nascimento de Duke Ellington. No ano seguinte, publicou sua autobiografia, intitulada “Jazz Generations: A Life in American Music and Society”, escrita com a colaboração do jornalista Steven Isoardi.

Collette faleceu no dia 19 de setembro de 2010, no Cedars-Sinai Medical Center, Los Angeles, em decorrência de uma insuficiência respiratória. Deixou uma obra que transcende as fronteiras da música e que constituiu um marco na conquista da cidadania e da igualdade por parte dos músicos negros da Califórnia. Nas palavras do escritor e jornalista Ermory Holmes II: “se eu tivesse que escolher um herói, cuja história seja emblemática da herança musical deixada pelo West Coast Jazz, tão subestimada em seu brilho, originalidade e tradição, dificilmente poderia encontrar um nome mais espetacular que o de Buddy Collette”.

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