Amigos do jazz + bossa

sábado, 9 de outubro de 2010

O BARTÓK DO TROMPETE


Béla Viktor János Bartók é um dos homens que faz com que o século XX tenha valido a pena. Nascido em 25 de março de 1881, na cidade de Nagyszentmiklos, então pertencente à Hungria, desde muito cedo demonstrou especial aptidão para a música. Aos cinco anos já recebia as primeiras aulas de piano, sob a generosa supervisão da mãe. Em 1894, a morte do pai, diretor de uma escola de agronomia, obrigou o garoto e a mãe a se mudarem para Pozsony, um importante pólo cultural da época.

Ali estudou teoria musical com Ladislas Erkel, que o apresentou à obra dos grandes compositores europeus, em especial Mozart, Bach, Wagner, Liszt e Brahms. Em 1898 ingressou na prestigiosa Academia Real de Música de Budapeste. Na academia, uma das mais conceituadas da Europa, o convívio com músicos de outros países e a descoberta da obra de Debussy modificaram a compreensão musical do compositor. Após um período na França, Bartók decidiu se debruçar sobre as canções folclóricas húngaras, tarefa empreendida na companhia do amigo Zoltan Kodaly, também compositor.

A publicação das obras colecionadas pela dupla mereceu enormes elogios por parte da crítica européia. Animado com o resultado de suas pesquisas, Bartók passou a se interessar pela música popular de países como Romênia, Bulgária, Egito e Turquia. Suas composições mesclavam elementos dessas culturas e paradigmas caros à tradição européia, resultando em uma obra absolutamente original. Passou a ser um dos mais badalados compositores do primeiro terço do século XX e, nessa condição, fez a sua primeira viagem aos Estados Unidos, em 1924.

Ali, descobriu uma nova forma de expressão musical, completamente diferente de tudo o que ouvira até então e que combinava a riqueza rítmica da música africana com a instrumentação típica da música erudita e acrescida de uma dose peculiar de balanço – chamado swing. Bartók encantou-se pelo jazz e tornou-se um entusiasta do estilo. Não é por outra razão que foi uma das poucas vozes a se levantar contra a visão preconceituosa que grassava na “alta cultura”, que via o jazz como uma forma musical bárbara e pouco sofisticada.

Em 1936, o ministro da Educação Popular e Propaganda Nazista, Joseph Goebbels, organizou em Berlin uma exposição intitulada “Música degenerada”, onde constavam obras de Igor Stravinsky, Arnold Schönberg e Darius Milhaud. O corajoso Bartók, sem hesitar um único instante, escreveu uma carta ao tenebroso ministro, pedindo-lhe que incluísse o seu nome entre os artistas que o nazismo considerava degenerados. Bartók era um ferrenho defensor da liberdade e um adversário implacável de toda e qualquer forma de preconceito. Preocupado com a perseguição aos judeus na Alemanha, em 1938 converteu-se ao judaísmo, como forma de demonstrar sua solidariedade àquele povo, tão covardemente perseguido.

Após a eclosão da II Guerra Mundial, o compositor resolveu se fixar, de maneira definitiva, nos Estados Unidos. Ali, entre muitas outras honrarias, recebeu o título de Doutor Honorário, concedido pela Universidade de Columbia. Certa feita, recebeu do clarinetista Benny Goodman, um pedido para que compusesse um tema para clarinete. Conta-se que, ao receber a partitura com os três movimentos da peça, Goodman teria comentado com o autor: “Vou precisar de três mãos para tocar isso, senhor Bartók. É a coisa mais difícil que já vi em toda a minha vida”.

Gravada pela Columbia, “Contrasts For Violin, Clarinet And Piano” se tornou um dos pontos altos da carreira fonográfica de Goodman, que ainda teve a honra de contar, na gravação, com as presenças do violinista Joseph Szigeti e do próprio Bartók no piano. O compositor faleceu no dia 26 de setembro de 1945, em decorrência da leucemia, mas seu amor pelo jazz jamais arrefeceu. E um grande músico de jazz, também compositor de grandes recursos, teve a honra de ser comparado ao mestre húngaro, merecendo inclusive o título de “Bartók do trompete”. Seu nome: Thad Jones.

Thaddeus Joseph Jones pertence a uma das mais ilustres linhagens de jazzistas de todos os temps. Irmão do pianista Hank e do baterista Elvin Jones, Thad nasceu no dia 28 de março de 1923 em Pontiac, no Michigan, para onde a família, originária do Mississipi, havia migrado em busca de melhores condições de vida. O pai era operário da General Motors e diácono de uma igreja batista, daí o contato dos jovens Jones com o gospel e os spirituals.

Não obstante, os Jones eram proibidos de tocar jazz em casa, pois o pai associava a música a maléfica influência de Satanás. Ali, portanto, somente música religiosa ou erudita, executada ao piano pelos irmãos mais velhos Hank e Olive, uma talentosa pianista que faleceria na adolescência e cuja perda seria bastante traumática para toda a família. O jazz era ouvido de maneira quase clandestina e as interpretações de Louis Armstrong que chegavam pelas ondas do rádio despertaram no pequeno Thad o desejo de se tornar trompetista.

Apesar da oposição paterna, o autodidata Thad começou a aprender trompete ainda na infância, em um instrumento de segunda mão que lhe foi presenteado pelo tio William. Com muita determinação e seriedade, o garoto logo se revelou um exímio trompetista e com inacreditáveis 13 anos elaborou o seu primeiro arranjo. Aliás, composição e arranjo sempre foram aspectos dos mais relevantes em sua futura carreira profissional, embora tenha sido um intérprete de primeira grandeza. O insuspeito Charles Mingus teria dito, certa vez, que “Thad é o maior trompetista que eu já ouvi tocar em toda a minha vida. Ele é o Bartók do trompete”.

O trompetista iniciou a carreira profissional aos 16 anos, tocando em bandas da região de Detroit e Pontiac. Uma delas foi a Arcadia Club Band, integrada também pelo irmão Hank e pelo então iniciante Sonny Stitt. Em 1941, Thad foi contratado por Connie Connell para atuar em sua banda. Após quase dois anos com Connell, o trompetista tocou por alguns meses com Red Calhoun, até ser convocado para o serviço militar, em dezembro de 1943.

Servindo em lugares como Camp Walters, Texas, ou Des Moines, Iowa, o trompetista não teve dificuldade em se juntar às inúmeras orquestras militares que pululavam nos Estados Unidos, merecendo destaque a sua participação na 8th Air Force Special Service Division. Dispensado em abril de 1946, Jones logo se juntou à banda de Charles Young, sediada em Oklahoma City. Sobre o patrão, Jones certa vez disse “Charles Young foi o músico mais talentoso que eu já encontrei. Ele tocava trompete, clarineta, sax barítono e piano com um swing fantástico, além de cantar como um pássaro e escrever arranjos como um demônio”. Todavia, o jovem multiinstrumentista faleceu repentinamente, com apenas 26 anos, e Thad ficou desempregado.

Em virtude da perda do emprego e também porque a saúde do pai não andava nada bem, Thad decidiu retornar a Pontiac, em 1947, e recomeçar a carreira. Tocou com músicos de pouca expressão, como Candy Johnson, Jimmy Taylor e Larry Steele até que, no início dos anos 50, integrou-se à banda do saxofonista Billy Mitchell, que tocava como atração fixa do clube Blue Bird Inn, em Detroit. O trabalho com a banda de Mitchell, onde também atuavam o seu irmão Elvin Jones e Roland Hanna, deu alguma visibilidade ao trompetista e o seu nome passou a ser mais conhecido no meio musical.

A auspiciosa cena local incluía pianistas como Barry Harris e Tommy Flanagan, baixistas como Doug Watkins e Paul Chambers, saxofonistas como Yusef Lateef e Pepper Adams, além de muitos outros músicos de primeira linha. Alguns deles, como Milt Jackson e o próprio Hank, seu irmão mais velho, haviam trocado Detroit por Nova Iorque, mas costumavam voltar à Cidade dos Motores para tocar e as jams costumavam ser fenomenais.

Com um nome relativamente conhecido na região, não foi surpresa para Thad o convite feito por ninguém menos que Count Basie, para que se juntasse à sua legendária orquestra, em substituição a Joe Wilder. Corria o ano de 1954 e Jones, que não era mais um garoto, integrou-se a uma das mais azeitadas e poderosas usinas de swing. A locomotiva sonora capitaneada por Basie incluía luminares como os saxofonistas Frank Wess e Frank Foster, os trombonistas Henry Coker e Benny Powell e o trompetista Joe Newman.

No meio de tantas feras, Thad, então estabelecido em Nova Iorque, conseguiu cavar seu espaço, não apenas como solista, mas também como um respeitado arranjador e compositor. Alguns de seus temas ficaram bastante conhecidos, como é o caso de “The Deacon”, “Mutt And Jeff” e “H.R.H. (Her Royal Highness)”, esta última composta em homenagem à Rainha Elizabeth II, que teve a honra de ouvir a orquestra tocá-la em Londres. Jones participou de gravações antológicas, como as dos álbuns “April In Paris”, de 1955, “Basie in London”, de 1956 e “Count Basie Plays, Joe Williams Sings”, de 1957. O prestígio de Jones pode ser medido pelo prêmio de “New Star”, que lhe foi conferido pela revista Down Beat.

A partir daí, Jones também começou a desenvolver uma alentada carreira solo, gravando para selos como Debut, Prestige e Blue Note. Além disso, estabeleceu-se como um respeitado músico de apoio, tocando em discos de gente como Charles Mingus, Al Cohn, Manny Albam, Osie Johnson, Miles Davis, Milt Jackson, Kenny Burrell, Sammy Davis Jr., Sonny Rollins, Frank Wess, Gene Quill, Bing Crosby, Curtis Fuller, Sarah Vaugham, Bob Brookmeyer, Tony Bennett, Quincy Jones, Shirley Scott, Johnny Smith, McCoy Tyner, Ben Webster, Ernestine Anderson, Herbie Hancock e muitos outros.

Em 1963, após quase nove anos com Basie, Jones deixou a orquestra do pianista. Ele já era bastante conhecido nos meios musicais, fez diversos trabalhos para o rádio e a televisão, além de continuar a atuar como freelancer, especialmente como arranjador. Nessa qualidade, elaborou arranjos para orquestras em álbuns de Thelonious Monk, Harry James e Gerry Mulligan. No ano seguinte, excursionou pela Europa com o pianista e bandleader George Russell e participou de gravações importantes de Oliver Nelson e Gil Evans. Por indicação do irmão Hank, foi trabalhar na orquestra da rede de TV CBS, emprego que lhe daria uma considerável estabilidade financeira.

Em 1965, Thad e o baterista Mel Lewis criaram a Thad Jones / Mel Lewis Orchestra, que começou como uma brincadeira, a fim de reunir em animadas jam sessions alguns músicos que trabalhavam nos estúdios de rádio e TV. Em fevereiro de 1966, o Village Vanguard promoveu uma temporada com a orquestra e a receptividade foi tamanha que eles se tornaram atração fixa do clube, sempre às segundas-feiras .

Reunindo a nata dos músicos de Nova Iorque, a Thad Jones / Mel Lewis Orchestra conseguiu reunir em suas fileiras, durante os mais de doze anos de sua existência, jazzistas do quilate de Frank Foster, Bill Berry, Roland Hanna, Jon Faddis, Richard Davis, Bob Brookmeyer, Jerome Richardson, George Mraz, Joe Farrell, Jimmy Knepper, Pepper Adams, Hank Jones, Cecil Bridgewater, Al Porcino, Lew Soloff, Terell Stafford, Julius Watkins, Joe Lovano, Chris Potter, Harold Danko, Kenny Werner e muitos outros.

A orquestra receberia o Grammy, pelo album “Live in Munich”, em 1978, mas no final daquele mesmo ano, e por motivos até hoje não esclarecidos, Thad resolveu deixar o grupo. Segundo alguns, o trompetista teve uma séria discussão com Lewis, após uma apresentação da big band no festival de jazz de Cascais, em Portugal, inclusive presenciada pelo produtor Luís Villas Boas. Outros dizem que Jones recebeu um convite irrecusável por parte da Danish Radio Orchestra e simplesmente resolveu se mudar para a Dinamarca.

De qualquer forma, a orquestra manteve-se em atividade, agora liderada por Mel Lewis e Bob Brookmeyer, mudando o nome para Mel Lewis And The Jazz Orchestra. Com a morte do baterista em 1990, nova mudança no nome, desta feita para Vanguard Jazz Orchestra, que continua firme a tradição das apresentações no Village Vanguard, enchendo de música de qualidade as segundas-feiras de Nova Iorque.

Ainda nos anos 60, Thad entrou para o quadro de professores do William Paterson College, em Nova Jérsei. Em 1966, formou, juntamente com o saxofonista Pepper Adams, outro ilustre integrante da turma de Detroit, o Thad Jones / Pepper Adams Quintet, cuja existência foi breve e que deixou registrado apenas um único álbum, o excelente “Mean What You Say”. Gravado em três sessões distintas, nos dias 26 de abril, 04 e 09 de maio de 1966, para a Milestone, o disco traz, além de Jones (que toca exclusivamente o flugelhorn) e Adams, uma trinca de peso: Duke Pearson no piano, Ron Carter no contrabaixo e Mel Lewis na bateria.

Composta pelo trompetista, a faixa que dá nome ao álbum também abre os disco e, como qualquer trabalho que envolva os talentos de Jones e Adams, é um tema sofisticado e de muita classe. A execução de Pearson é fluida, sem arestas, e Lewis, com um uso primoroso das escovas, contribui para manter a atmosfera envolvente. Os solos dos dois líderes são concisos, com frases curtas, porém eloqüentes.

“H And T Blues” é uma intrincada leitura do blues, com diálogos incandescentes entre os líderes, enveredando, em alguns momentos, pelo hard bop mais energético. O som grave de Adams, com algumas breves citações à música árabe, contrasta com a sonoridade mais limpa do flugelhorn de Jones. Ótima performance de Carter, seguro no acompanhamento e dinâmico nos solos.

Burt Bacharach e Hal David vêem a sua “Wives And Lovers” ganhar um arranjo dos mais criativos, fugindo bastante da estrutura melódica original, salpicada de blues. O solo de Pearson é nada menos que arrebatador, surpreendente a cada acorde e de uma excelência técnica primorosa. Adams é extremamente original em suas intervenções, transitando com maestria pelas sempre desafiadoras sendas do bebop.

Fazendo um passeio discreto pelos ritmos brasileiros, a sacolejante “Bossa Nova Ova” guarda alguma semelhança com o trabalho de Sérgio Mendes da época. É indubitável que o tema não possui a riqueza harmônica de uma obra de Jobim, mas a sua audição é mais que agradável. A ousadia do trompetista faz com que, no rico universo da sua obra composicional, a faixa mereça um lugar de destaque, por retrabalhar as estruturas bossanovísticas sem lançar mão de clichês.

“No Refil” é sinuosa, com referências à música oriental. O discurso de Jones, autor do tema, é dos mais articulados, e a interação com o amigo Adams é soberba. “Little Waltz” é uma composição de Carter, uma balada com tinturas de valsa e atmosfera impressionista. Percussão discreta e o comedido lirismo que exala do sax de Adams são os seus pontos altos.

Pearson é um dos compositores mais reverenciados dos anos 60 e a sua “Chant” só reafirma a pertinência de tamanho prestígio. Com um arranjo que reforça as qualidades orquestrais do tema, Adams produz alguns dos momentos mais instigantes do disco, com uma interpretação árida, que transmite abandono e distanciamento. Por outro lado, o sopro de Jones é caloroso, vibrante. Destaque também para a extraordinária performance de Lewis, dosando leveza e contundência com enorme precisão.

A versão de “Yes Sir, That’s My Baby” é uma grande brincadeira levada a cabo pelo quinteto e que encerra o disco com o astral mais elevado possível. Os músicos se divertem à larga – e o ouvinte também – com uma interpretação temperada com ragtime e outras formas de jazz pré-swing e é até possível ver o sorriso estampado no rosto de cada músico. Uma gema preciosa, que merece ser descoberta, mesmo no seio de uma obra tão rica quanto a de Thad.

Nos anos 70, além de levar adiante a Thad Jones / Mel Lewis Orchestra (que chegou a se apresentar na então fechada União Soviética), o trompetista participou de dezenas de álbuns como freelancer, sob a liderança de artistas como Hermeto Pascoal, Sonny Stitt, Houston Person, Lena Horne, Kenny Drew, Carmen McRae, Jimmy Smith, Yusef Lateef, Grover Washington, Dexter Gordon e outros, rotina que somente foi quebrada com a mudança para a Europa.

Jones permaneceu em Copenhagen entre 1978 e 1984, tocando com a Danish Radio Orchestra e ensinando no Royal Danish Conservatory. Também estudou composição e fundou a banda Eclipse, integrada por músicos dinamarqueses e norte-americanos residentes no país e seguiu a vida, tocando com músicos expatriados, como o pianista Horace Parlan e Eddie Lockjaw Davis ou fazendo arranjos para gente como o pianista Claude Boling. Em fevereiro de 1985, retornou aos Estados Unidos para uma tentativa de restauração da orquestra do velho patrão Count Basie, empreitada que levou a cabo com o antigo colega Frank Foster.

Após fazer a direção musical e os arranjos para o disco “Vocalese”, do grupo vocal Manhattan Transfer, Jones, cuja saúde não ia nada bem, resolveu voltar para a Dinamarca. No país que o havia acolhido de forma tão carinhosa, Jones faleceu, no dia 21 de agosto de 1986, após uma longa e dolorosa batalha contra o câncer. Seu corpo foi enterrado no Western Churchyard Cemetery, em Copenhagen.

A família doou ao William Paterson College boa parte dos arquivos pessoais, fotos, gravações e partituras de Thad, que compõem atualmente o Living Jazz Archives daquela instituição. No dia 28 de agosto, os amigos do músico fizeram um culto ecumênico em sua memória, na St. Peter's Lutheran Church. Entre os muitos amigos presentes, Frank Foster, Tommy Flanagan e Roland Hanna, que prestaram-lhe a última homenagem, tocando durante a cerimônia. O trombonista Benny Powell, seu companheiro na orquestra de Count Basie, disse acerca do falecido amigo: “A música de Thad era muito sofisticada. E, por vezes, também era dissonante. Mas era uma música que fazia muito sentido, sobretudo para os músicos que a executavam”.

Felizmente, deixou uma obra relativamente bem documentada, com participação em centenas de gravações, álbuns em seu próprio nome e diversos discos à frente da Thad Jones / Mel Lewis Orchestra. Em seu currículo se destaca, ainda, a autoria do standard “A Child Is Born”, composta em 1969, em parceria com o letrista Alec Wilder, que foi gravada por gente como Charlie Rouse, Oscar Peterson, Sheila Jordan, Joe Lovano, Diane Reeves, Benny Carter, Toots Thielemans, Stanley Turrentine, Bill Evans, Kenny Burrell, Stan Getz, Tommy Flanagan, Jon Faddis e muitos outros.

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terça-feira, 5 de outubro de 2010

OS TRÊS TENORES



Na noite de 07 de julho de 1990, quando a Itália vivia a euforia de sediar mais uma Copa do Mundo, subiam no palco montado nas Termas de Caracalla, em Roma, três dos mais conhecidos e reverenciados cantores líricos do século XX: o italiano Luciano Pavarotti e os espanhóis Plácido Domingo e José Carreras. Com regência do maestro Zubin Mehta, que conduziu as orquestras do Maggio Musicale Fiorentino e do Teatro dell'Opera di Roma, o trio realizou um concerto que entrou para a história da música.

Mesclando repertório erudito – árias de óperas como Tosca e Turandot – e canções populares, como as tradicionalíssimas “O Sole Mio”, “Granada” e “Cielito Lindo”, o concerto foi transmitido ao vivo para os quatro cantos do mundo. Posteriormente, o álbum “The Three Tenors In Concert”, gravado naquela noite, se tornaria um fenômeno de vendas, alcançando a inacreditável marca de 12 milhões de cópias vendidas.

Na época, Carreras havia vencido a luta contra a leucemia e o objetivo do concerto era arrecadar dinheiro para a sua fundação, criada para dar apoio a outras vítimas da doença. O sucesso foi tão estrondoso que os três tenores passaram a se reunir periodicamente e excursionar juntos. Na Copa Mundo de 1994, os três se apresentaram em Los Angeles, e na de 1998, fizeram uma apresentação em Paris. Em ambas as ocasiões, a regência ficou a cargo do maestro húngaro Tibor Rudas.

Em julho de 2000 o trio esteve no Brasil, para um concerto no estádio do Morumbi, ao lado da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, regida pelo maestro Marco Armiliato. Cantando composições brasileiras como “Manhã de carnaval”, de Luís Bonfá, ou “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, os três foram aplaudidos de pé por mais de 40 mil pessoas. A morte de Pavarotti, em 2007, impediu a continuidade da saga dos Três Tenores, que apesar de bastante criticados por alguns, sob o argumento de mercantilização da música erudita, teve o mérito de retirar o canto lírico do gueto e de levá-lo a milhões de pessoas.

No jazz também tivemos lá os nossos três tenores. É claro que com uma repercussão infinitamente menor que tiveram os originais. De qualquer forma, um disco gravado em 1991 reuniu três dos mais talentosos e criativos tenoristas contemporâneos, sob a regência do extraordinário James Williams, um dos maiores nomes do piano dos anos 80 e 90: George Coleman, Joe Henderson e Billy Pierce. Coincidentemente, a morte de um deles – Henderson, em 2001 – impede uma nova reunião. Mas tanto em um caso quanto em outro, restam os deliciosos registros gravados pelos trios e que deixam no ouvinte algum consolo. Vamos conhecer um pouco sobre o maestro que patrocinou essa alentada reunião de talentos?

O pianista James Williams nasceu em Memphis, no Tenessee, no dia 08 de março de 1951. Na infância, seus heróis musicais eram caras como Ray Charles, Booker T., Marvin Gaye e Stevie Wonder. Ouvindo compulsivamente álbuns de R&B, soul e funk, especialmente aqueles lançados pela gravadora Motown, o garoto cresceu cercado por aquilo que de melhor havia na música pop negra. Posteriormente, descobriu a música feita pelo saxofonista King Curtis e pelo pianista Ramsey Lewis, uma forma nada ortodoxa de jazz, embalada em fartas doses de soul music.

Era uma música ao mesmo tempo desafiadora e acessível, que não renegava a tradição da música negra, mas tampouco era meramente reverencial. O melhor de tudo é que trazia novos ouvintes para as fileiras dos admiradores do jazz e o garoto Williams foi um deles. Depois vieram os discos de soul jazz da Blue Note, em especial do organista Jimmy Smith e do saxofonista Lou Donaldson e o mergulho nas águas do jazz se deu de maneira mais que natural.

Dois fatos contribuíram para que esse mergulho fosse o mais intenso possível: as aulas de piano, que começou a aprender com 13 anos, e a audição dos discos de Phineas Newborn, verdadeira lenda do jazz de Menphis e que, a partir de então, tornou-se uma verdadeira obsessão na vida do jovem aprendiz. Williams também enriqueceu seu conhecimento sobre a música negra norte-americana – especialmente o gospel e os spirituals – tocando órgão em uma igreja batista da cidade. Tornar-se músico profissional passou a ser o seu maior desejo.

Aos 18 anos ingressou na Memphis State University, e acrescentou ao seu considerável leque de influências os extraordinários Harold Mabern, Hank Jones, Tommy Flanagan, Red Garland e Ahmad Jamal. Na universidade, foi colega de alguns dos mais importantes pianistas contemporâneos, como Mulgrew Miller e Donald Brown. Durante o período universitário, o pianista participava ativamente do movimentado cenário jazzístico local, tocando com músicos como Frank Strozier, Jamil Nasser ou George Coleman.

Em 1972, já com o diploma nas mãos, o pianista decidiu tentar a sorte em Boston. Com o nome em evidência no meio jazzístico, não foi difícil ingressar no grupo do baterista Alan Dawson. No ano seguinte, o prestigioso Berklee College of Music o contratou como professor e ali Williams passaria os próximos cinco anos. Graças a seu trabalho como integrante da banda de Dawson, Williams pôde tocar com figuras de primeiríssima linha, como Milt Jackson, Pat Martino, Arnett Cobb, Red Norvo, Art Farmer, Sonny Stitt, Woody Shaw, Clark Terry, Benny Carter, Joe Henderson, Chet Baker, Thad Jones e muitos outros.

A notoriedade do pianista cresceu a ponto de chamar a atenção de Art Blakey, que o convidou a se unir aos Jazz Messengers, em 1977, ano em que lançou o seu primeiro álbum como líder, “Flying Colors”, pelo pequeno selo ZIM e que conta com a participação especial do trombonista Slide Hampton. Por conta da nova condição de membro dos celebrados Jazz messengers, Williams mudou-se para Nova Iorque, o que lhe abriu novos horizontes profissionais.

O pianista permaneceria com Blakey até 1981 e participaria de diversos álbuns dos Messengers, tendo como colegas de banda os talentosos irmãos Brandford e Wynton Marsalis e futuros astros como Terence Blanchard, Donald Harrison e Bobby Watson. Nesse período, participou de gravações ou concertos ao lado de craques como Tal Farlow, Curtis Fuller, Jack Walrath, Dizzy Gillespie, George Duvivier, Freddie Hubbard, Tony Williams e Sadao Watanabe.

Importante registrar a sua associação com o trompetista Art Farmer, formalizada após a saída dos Messengers, e que rendeu alguns dos mais belos álbuns do trompetista, como “Something To Live For” (1987), em homenagem à música de Billy Strayhorn, ou “Blame It On My Youth” (1988). Atendend a um convite do saxofonista Jackie McLean, Williams foi professor da Hartt School of Music entre 1985 e 1986. Também atuou como músico residente ou ministrou oficinas e seminários em diversas universidades dos estados Unidos, como Hartt School of Music, Dartmouth College Eastern Illinois University, Cornish College, New England Conservatory, e Harvard University.

Na segunda metade da década de 80, Williams criou o renomado The Magic Trio, ao lado do baixista Ray Brown e do próprio Art Blakey, substituídos, respectivamente, por Charnett Moffett e por Elvin Jones (que um pouco depois daria seu lugar a Jeff Tain Watts). Também montou o grupo James Williams & The Intensive Care Unit, por onde passaram , entre outros, Billy Pierce, Steve Wilson, Javon Jackson, John Lockwood, Christian McBride e Yoron Israel.

A fim de manter vivo o legado do ídolo Phineas Newborn, Williams criou o Contemporary Piano Ensemble, no final da década de 80. O coletivo incluía, além do próprio Williams, Harold Mabern, Mulgrew Miller e Geoff Keezer e chegou a gravar um álbum – “Four For Phineas”, de 1989 (Concord) – inteiramente dedicado ao repertório de Newborn. Além dos quatro pianistas, participaram do álbum o baixista Bob Cranshaw e o baterista Billy Higgins. Compositor inventivo e prolífico, sés temas podem ser ouvidos em álbuns de gente como Art Farmer, Tony Reedus, Kenny Barron, Tommy Flanagan, Victor Lewis, Gary Burton, Benny Golson e Roy Hargrove.

Outra faceta importante foi a de produtor, tendo produzido discos dos pianistas Geoff Keezeer e Donald Brown, dos saxofonistas Bill Easley e Billy Pierce e do antigo ídolo Harold Mabern (“Straight Street”, de 1989, e “The Leading Man”, de 1993). Um dos seus trabalhos mais recompensadores, como produtor, certamente foi o álbum do grupo “The Boys Choir Of Harlem”, integrado apenas por crianças do bairro do Harlem e que Williams apoiava, inclusive dando aulas e fazendo arranjos.

Sua carreira solo lhe permitia convidar músicos do gabarito de Tony Reedus, Billy Higgins, Richard Davis, Ray Drummond, Clark Terry, Ron Carter, Nicholas Payton, Mark Whitfield, Christian McBride, Russell Malone, John Patitucci, Joe Lovano, Steve Nelson, Houston Person, Peter Washington, John Clayton e incontáveis outros . Como acompanhante, merece destaque o seu trabalho em álbuns de Nnenna Freelon, Javon Jackson, Jon Faddis, Tom Harrell, Milt Hinton, Bobby Watson, Karrin Allyson, Gary Burton, Eddie Gomez, Kevin Mahogany, Greg Osby, Kenny Burrell, entre outros.

Veio a década de 90 e seu prestígio não parou de crescer. O pianista foi convidado para se apresentar no Smithsonian Jazz Masterworks Orchestra and Contemporary Piano Ensemble e em 1996, participou da aclamada série “Maybeck Recital Hall”, lançada pela Concord. Outro sinal claro de sua importância no mundo do jazz foram os diversos convites para participar do programa “Marian McPartland's Piano Jazz”, apresentado pela veterana pianista inglesa e transmitido pela Rádio NPR.

Um dos pontos altos de sua discografia é, sem dúvida alguma, o ótimo “James Williams Meets The Saxophone Masters”, gravado para a Columbia no dia 23 de setembro de 1991 e que conta com um elenco estelar: George Coleman, Joe Henderson e Billy Pierce tocam o sax tenor, James Genus se encarrega do contrabaixo e Tony Reedus assume a bateria.

A vertiginosa “Fourplay”, que abre o disco, é de autoria de Williams e possui uma estrutura nada convencional, embora não chegue a propor uma ruptura com os cânones bop. Os diálogos entre os três saxofonistas são sensacionais. Coleman e Henderson, especialmente, se sentem muito à vontade em contextos sinuosos e desafiadores. A abordagem de Pierce é mais ortodoxa mas não menos criativa e serve de contraponto aos outros dois. A poderosa percussão de Reedus e o dedilhado frenético do líder também merecem ser destacados.

Com uma atmosfera que remete ao Wayne Shorter da época dos Jazz Messengers, “Lo Joe” é a mais subversiva das faixas do álbum. Composto por Coleman, o tema revela a afinidade do autor com a obra de Shorter, que, de qualquer modo, sempre foi muito patente – não é à toa que o segundo substituiu o primeiro no quinteto de Miles Davis nos anos 60. As alternâncias harmônicas, a fuga dos lugares-comuns e a total ausência de linearidade exigem dos músicos doses consideráveis de audácia e dinamismo. O solo de Williams, brilhante, conjuga essas características de forma admirável.

“Centerpiece” é uma viagem ao âmago do blues. Sua abordagem é confessional, repleta daquela sentimentalidade profunda de tristeza e abandono que tão bem demarcam as fronteiras do estilo. Escolado na tradição do blues, o fraseado de Williams é denso, quase lamentoso, acentuando as notas mais graves. Aqui Henderson se mostra o mais sentimental dos três saxofonistas, entregando um solo pungente e de enorme intensidade dramática.

Extraída do cancioneiro tradicional norte-americano, “Calgary” flerta com o blues, mas não renega sua origem folk. “The Song Is You”, da dupla Oscar Hammerstein e Jerome Kern, ganha um arranjo animado e caloroso, com bastante espaço para improvisos inspirados, muitas dissonâncias e harmonias alucinantes. Coleman, sempre muito criativo, se destaca entre os saxofonistas e os efeitos que extrai do seu instrumento são completamente concatenados, jamais resvalando na obviedade ou no mero exibicionismo. A formidável performance de Williams, um primor de desenvoltura e originalidade, também deve ser ouvida com muita atenção.

Mais um standard, “Old Folks”, composta em 1938 por Dedette Lee Hill e Willard Robison é a única balada do álbum. Com quase 14 minutos, é a faixa mais longa do disco e a mais reverencial delas. Na tradição dos grandes baladeiros como Lester Young ou Ben Webster, Henderson, Coleman e Pierce se esmeram para reproduzir a atmosfera intimista que a canção exige. A atuação do líder é soberba e seu fraseado sutil, ao invés de esmiuçar a melodia, apenas sugere os contornos melódicos a serem explorados pelo ouvinte, tornando a audição um verdadeiro exercício de cumplicidade.

Um álbum precioso e que, em muitos aspectos, resgata o clima espontâneo e descontraído de uma jam session. Williams descreve a sua intenção ao gravar o disco nos moldes como foi feito: “Eu queria criar algo que as pessoas pudessem ouvir em casa, mas que trouxesse a mesma atmosfera que havia no Birdland em 1963. É bacana ouvir alguns talentos separadamente, mas quando eles se juntam, esse contato e essa interação fazem muito bem, como ocorre em uma boa reunião familiar”.

A partir de 1999, Williams passou a ser diretor musical e professor do William Paterson College, em Wayne, Nova Jérsei. Responsável pelo programa de estudos de jazz, ocupou um lugar que, anteriormente, havia pertencido a Thad Jones e Rufus Reid. Também criou o selo Finas Sounds, para poder lançar ali os seus próprios discos. Em fevereiro de 2004, fez uma elogiada temporada no Birdland, em Nova Iorque, dividindo o palco com dois dos mais renomados pianistas da atualidade: Cyrus Chestnut e Bill Charlap.

Poucos meses depois, em 20 de julho daquele mesmo ano, Williams veio a falecer, em conseqüência de um câncer no fígado. De acordo com o jornalista Bill Kohlhaase, do Los Angeles Times, “demonstrando um profundo conhecimento da tradição pianística, Williams tocava com a elegância de um Red Garland e a intensidade rítmica de um Ahmad Jamal”. Membro da International Association of Jazz Educators (IAJE), Williams tinha apenas 53 anos e sua morte deixou uma enorme lacuna no jazz contemporâneo, que dificilmente será suprida.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

SE O QUE NOS CONSOME FOSSE APENAS FOME...


O saxofonista, compositor, arranjador e educador musical Julian Edwin “Cannonball” Adderley veio ao mundo no dia 15 de setembro de 1928, em Tampa, Flórida, em uma família extremamente musical. O avô paterno era músico, o pai era trompetista e educador musical e o irmão, Nat Adderley, foi um dos mais importantes cornetistas do bebop e do hard-bop. O apelido de infância – Cannonball, que significa “bala de canhão” – não se deveu, como pode parecer à primeira vista, às formas rechonchudas do futuro saxofonista. De fato, o apelido era mais prosaico – Cannibal, isto é, canibal – por conta do aparentemente insaciável apetite do garoto.

Por influência paterna, Cannonball iniciou os estudos no sax alto com apenas oito anos de idade, e o talento musical logo se revelou verdadeiramente descomunal. Tanto é que o garoto tocava, também, trompete, clarineta, sax tenor e flauta. A educação musical formal veio, primeiramente, nos bancos da Dillard High School, em Fort Lauderdale, Flórida, onde a família passou a residir. No início da década de 40, nova mudança, desta feita para Tallahassee, no mesmo estado, pois o pai do saxofonista deveria assumir um emprego como professor na Florida A&M University e levou a família junto.

Em Tallahassee, os garotos Julian e Nat conheceram o grande Ray Charles, que, embora ainda não fosse famoso, despontava como um dos mais talentosos pianistas da cena local, capaz de dominar como poucos os idiomas do blues, do jazz e tudo quanto se relacionasse à música negra norte-americana. Os garotos tocaram durante algum tempo com o cantor e pianista e foram firmando reputação no cenário local. A música gospel e os spirituals faziam parte da formação dos irmãos Adderley, que freqüentavam a Igreja Protestante Episcopal.

As influências de Cannonbal eram, basicamente, Lester Young, Coleman Hawkins, Budd Johnson e Buddy Tate, que ouvia com devoção. Depois, encantou-se com a sonoridade sofisticada e aconchegante de Benny Carter, que firmou a sua convicção de se dedicar ao sax alto. Por fim, aos 14 anos, conheceu Charlie Parker, que então tocava na orquestra de Jay McShann, que despertou no garoto a necessidade de buscar novos horizontes estético-musicais.

No final dos anos 40, Cannonball e o irmão já tinham uma quilometragem considerável, como respeitados músicos da Flórida, tocando com inúmeras orquestras locais. Além disso, o saxofonista havia iniciado uma promissora carreira como educador musical, sendo que de 1948 a 1950 deu aulas de música e dirigiu a banda da mesma Dillard High School em que havia estudado alguns anos antes. Em 1952, Julian foi estudar teoria musical na U. S. Naval School Of Music, em Washington.

Pouco tempo depois, foi convocado para o exército, onde passou cerca de dois anos e chegou ao posto de sargento. Desnecessário dizer que o saxofonista participou ativamente das bandas e orquestras da corporação, tendo servido em diversos lugares, como Fort Knox, Kentucky. Alguns dos músicos com quem fez amizade naquele período foram o pianista Junior Mance e o trombonista Curtis Fuller, que serviam na mesma companhia.

Dispensado, continuou a trabalhar como freelancer no estado natal e a ensinar para sobreviver. A vida seguia sem muitos sobressaltos para os irmãos Adderley, até que Cannonball decidiu tentar a sorte em Nova Iorque. O ano era 1955 e o mês, junho. Ele e o irmão alugaram um pequeno apartamento em Corona, no bairro de Queens e partiram para a luta.

Sem conhecer ninguém e armado apenas com a cara e a coragem, o saxofonista começou o périplo pelos clubes da cidade, para ouvir os grandes músicos da época e, também, para se divertir nas inúmeras jams que rolavam com habitualidade. Durante uma passagem pelo Cafe Bohemia, Cannonball, que sempre levava consigo seu sax alto, foi convidado para subir ao palco. No momento, era o grupo de Oscar Pettiford que fazia sua apresentação e o convite, segundo alguns relatos, partiu do saxofonista Charlie Rouse, que participava de uma jam com o baixista.

Aos 27 anos, ele não era mais nenhum garoto e, deixando a timidez de lado, simplesmente arrebentou com tudo naquela noite. Sua interpretação de “I Remember April” foi tão sensacional que o grande Jerome Richardson, que tocava sax tenor no grupo de Pettiford, custou a crer no que seus olhos viam e no que seus ouvidos escutavam. Ficou perplexo, assim como toda a audiência, que incluía dois dos mais reputados altoístas da cena novaiorquina: Phil Woods e Jackie McLean.

A performance foi tão extraordinária que, na semana seguinte, ele já era uma espécie de integrante informal da banda de Pettiford. A sensação causada por Cannonball despertou toda espécie de especulação e logo houve quem o comparasse a Charlie Parker – inclusive alcunhando-o de “The New Bird”. A morte de Parker, alguns meses antes, abrira um vácuo enorme na cena jazzística e as pessoas tinham a necessidade de preencher esse vazio, buscando, desesperadamente, o Novo Messias.

Cannonball foi um dos pretensamente ungidos como Novo Bird, mas, sabiamente, jamais deu crédito às comparações ou buscou, de alguma forma, delas tirar proveito. Ao contrário, continuou a tocar a sua carreira de forma tranqüila e os acontecimentos foram se sucedendo de forma bastante natural. Tanto é que em julho daquele mesmo ano, entrava no estúdio para gravar o seu primeiro álbum como líder, chamado apenas “Julian Cannonball Adderley”, para a EmArcy. A seu lado, uma banda simplesmente fenomenal: J. J. Johnson, Cecil Payne, Jerome Richardson, Jimmy Cleveland, Paul Chambers, John Williams, Max Roach, Kenny Clarke e o indefectível irmão Nat Adderley.

Parker era, certamente, uma referência das mais evidentes, como ocorria, virtualmente, com todos os altoístas surgidos nos anos 50 e 60. Mas Cannonball também apontava o elegante Benny Carter como sua influência mais imediata. Além disso, a esmerada educação musical lhe permitia conhecer desde as mais elementares manifestações da música popular até as mais sofisticadas harmonias da música européia. Bach e Robert Johnson, Stockhausen e Earl Hines, tudo era processado e digerido pelo apetite musical voraz do ex-canibal.

A reputação crescia na mesma proporção em que a agenda do saxofonista se enchia de compromissos. Passou a ser um disputado acompanhante, tocando com gente como Kenny Clarke, Sarah Vaughan, Louis Smith, Milt Jackson, Quincy Jones, Machito, Dinah Washington e muitos outros. Também passou a liderar seus próprios grupos, mas, misteriosamente, não obteve o sucesso esperado, mesmo considerando os modestos padrões do jazz.

Entretanto, se a sonoridade calcada no blues não era propriamente uma novidade, a exuberância técnica de Cannonball era muito bem recebida por crítica e público. Não foi por outra razão que o esperto Miles Davis o convidou, em outubro de 1957, para integrar o seu sexteto, onde pontuava também os extraordinários John Coltrane, Paul Chambers, Philly Joe Jones e Red Garland. A parceria perdurou por quase dois anos e Adderley participou de álbuns fundamentais da discografia do trompetista, como “Milestones”, “Miles And Coltrane”, “Porgy And Bess” e “Kind Of Blue”. Miles retribuiu os bons trabalhos prestados, participando do fabuloso “Somethin’ Else”, considerado uma verdadeira obra-prima da discografia de Adderley e lançado em 1958.

No ano seguinte, o saxofonista pediu dispensa do emprego, para se dedicar exclusivamente à carreira solo e a seus próprios combos, por onde passariam nomes fundamentais – alguns em início de carreira – como os trompetistas Blue Mitchell e Joe Newman, os pianistas Bobby Timmons, Bill Evans, Victor Feldman, Barry Harris, Joe Zawinul, Junior Mance, Hal Galper e Wynton Kelly, os baixistas Milt Hinton, Sam Jones, Walter Booker e Victor Gaskin, os bateristas Jimmy Cobb, Louis Hayes e Roy McCurdy e os saxofonistas Charles Lloyd e Yusef Lateef.

No mesmo ano em que deixou Miles, Adderley foi contratado pela Riverside, do produtor Orrin Keepnews (com quem havia trabalhado no antes, tendo lançado ali os discos “Things Are Getting Better”, onde dividia os créditos com Milt Jackson, e “Portrait of Cannonball”, ambos em 1958), e lançou pela gravadora alguns belíssimos discos. O primeiro deles – que fez bastante sucesso comercial – foi “The Cannonball Adderley Quintet In San Francisco”. Gravado ao vivo em outubro de 1959, o álbum trazia o hit “This Here”, composição do pianista da banda, Bobby Timmons.

A moral do saxofonista na Riverside era tanta que ele chegou a produzir diversos discos, como, por exemplo, “Sounds Of The Wide Open Spaces”, de James Clay e David Fathead Newman, “Jazz Brothers”, de Chuck Mangione, “Budd Johnson And The Four Brass Giants”, do antigo ídolo Budd Johnson, e “The Resurgence Of Dexter Gordon” todos de 1960. Este último, lançado pelo selo associado Jazzland, marcou a volta de Dex aos estúdios, após um longo período de hibernação, e foi decisivo para alavancar a carreira do tenorista.

Relembrando os tempos de professor, Adderley fez a narração do álbum “The Child's Introduction to Jazz”, também para a Riverside. Como se não bastasse, foi ele quem levou para a gravadora o fenomenal Wes Montgomery, que em pouco tempo se tornaria um dos mais retumbantes sucessos comerciais do selo e um dos mais importantes e influentes guitarristas dos anos 60. Em sua futura gravadora, a Capitol, o generoso Cannonball faria algo semelhante pela cantora Nancy Wilson, com quem chegou a dividir os créditos do álbum “Nancy Wilson & Cannonball Adderley”, de 1961.

Grandes álbuns, como “Know What I Mean” (1961), onde Bill Evans comanda o piano, “African Waltz” (de 1961, no qual o saxofonista empreende um mergulho profundo nas raízes africanas do jazz) e “Nippon Soul” (1963) marcaram a tabelinha entre Cannonball e a Riverside. Em 1963, com a falência da Riverside, o saxofonista iniciaria uma prolífica associação com a poderosa Capitol, sem que houvesse qualquer oposição por parte do ex-patrão Keepnews que, gentilmente, concordou em ceder à nova gravadora do pupilo os originais de diversos discos que, devido à quebra da empresa, corriam o risco de ficar no limbo. Tanto é que em vários desses discos, Keepnews aparece como produtor.

A parceria com a Capitol renderia alguns dos mais bem-sucedidos discos da carreira de Adderley – tanto do ponto de vista artístico quanto comercial. Um deles é o delicioso “Cannonball Adderley And The Poll-Winners”. As gravações transcorreram nos dias 21 de maio e 05 de junho de 1960, nos estúdios United Recording, em Los Angeles. Na produção, estava o amigo e protetor Orrin Keepnews e o líder estava acompanhado por uma verdadeira constelação: Wes Montgomery na guitarra, Victor Feldman, no piano e no vibrafone, Ray Brown no contrabaixo e Louis Hayes na bateria.

A faixa de abertura é “The Chant”, de autoria de Feldman e que traz um groove infeccioso, calcado no blues. A performance de Cannonball é um verdadeiro deleite, com solos efusivos, às vezes lancinantes e cheios de efeitos, lembrando Eric Dolphy. A sessão rítmica é bastante coesa, com destaque para a maleabilidade de Brown, um colosso de precisão e swing. Surpreendentemente, Montgomery se mostra bastante discreto, dando mais ênfase ao acompanhamento que aos solos.

Em “Lolita”, Feldman pilota o vibrafone e Montgomery, agora sim, começa a se soltar, com solos atrevidos e de muita fluência. O intenso diálogo entre os dois é o ponto alto da faixa, uma composição de Barry Harris impregnada de influências caribenhas. Grande atuação de Hayes, cuja batida reproduz, com sucesso, a contagiante atmosfera da música afro-cubana. Aqui, o líder é quem se apresenta de maneira mais comedida, para que seus parceiros Wes e Victor possam brilhar com toda intensidade.

De volta ao piano, Feldman é o autor de mais um tema: “Azule Serape”, bebop de excelente safra, com destaque absoluto para a convulsiva atuação do líder. Fazendo jus à fama de músico intuitivo e de enorme gabarito técnico, Adderley reinventa a melodia e explora, com enorme paixão, as possibilidades harmônicas da composição e lhe reveste de uma saborosa pitada de soul. O pianista entrega um solo irrequieto, com as notas se sucedendo a uma velocidade estonteante. Montgomery é garantia de virtuosismo e inteligência e aqui não desaponta seus inúmeros fãs.

As comparações seriam inevitáveis e, corajosamente, Adderley inclui um tema do sobrenatural Charlie Parker no repertório: “Au Privave”. O líder não cai no erro de tentar reproduzir os acordes inventados por Bird e nem tenta macaquear o seu estilo. Ao contrário, demonstrando possuir enorme personalidade, sua abordagem é mais “suja” e bem mais calcada no blues, embora se mostre reverente à tradição parkeriana. Vale ressaltar, ainda, os momentos soberbos de protagonizados por Montgomery e Brown, que manda ver um solo devastador.

A belíssima composição de Franz Lehar, “Yours Is My Heart Alone”, mostra a atuação mais delicada do quinteto. O dedilhado de Montgomery é uma sofisticada tapeçaria melódica, com um swing discretíssimo e muito feeling. Bons momentos de Brown e de Feldman, aqui mais uma vez a bordo do vibrafone. Adderley incorpora a elegância do ídolo Benny Carter e extrai do sax uma sonoridade redonda, sem nenhuma aresta.

De volta à agitação, “Never Will I Marry”, de Frank Loesser, merece uma interpretação alegre e entusiasmada. O quinteto interage telepaticamente, com enorme força criativa e inapelável perícia técnico. O tempero bop e a animação contagiante se devem, em grande parte, ao arrojo do líder, que chuta para escanteio o bom mocismo e a obviedade. Seu toque é voluptuoso, quase selvagem. Os indomáveis Feldman e Montgomery acrescentam doses anabolizadas de swing e energia e Brown, fazendo uso do arco, dá à rapaziada toda a segurança necessária para vôos cada vez mais arriscados.

Uma segunda interpretação de “Au Privave”, tão empolgante quanto a primeira, é a faixa-bônus que encerra o álbum em altíssimo astral. Um disco que, se não é considerado revolucionário e nem provocou cataclismos junto à crítica especializada, é certamente um dos momentos mais formidáveis e criativos de um saxofonista que soube, como poucos, equilibrar inquietação criativa e reconhecimento popular, sem jamais abrir mão da indispensável integridade artística.

A trajetória de Cannonball na Capitol foi repleta de sucessos comerciais. O maior deles, sem dúvida, foi “Mercy, Mercy, Mercy”, composta por seu pianista, Joe Zawinul, e incluída no álbum homônimo, de 1966, que vendeu, somente no ano de lançamento, a astronômica quantia de 600.000 cópias – e isso apenas no mercado norte-americano. Outro grande momento foi o álbum “Cannonball’s Bossa Nova”, gravado em 1962, no qual interpreta temas brasileiros como “Corcovado”, “Minha saudade” e “O amor em paz”, ao lado de uma banda espetacular: Sérgio Mendes, Paulo Moura, Pedro Paulo, Dom Um Romão, Durval Ferreira e Otávio Bailey.

Então na crista da onda, sua apresentação na edição do Monterey Jazz Festival de 1968 foi consagradora. Muito embora não seja considerado um inovador, Adderley sempre foi reconhecido como um músico de técnica superior e um mestre na improvisação. Sua abordagem sem experimentalismos e altamente energética ajudou a manter a popularidade do jazz nos anos 60, apesar de todo o bombardeio do pop e do rock. Muitos jovens músicos devem a ele a primeira oportunidade em suas carreiras e um dos seus grandes prazeres era freqüentar escolas e universidades para mostrar aos alunos a história do jazz, suas vertentes e seus heróis.

Nos anos 70, influenciado pelo antigo patrão Miles Davis, Adderley também enveredou pelo fusion, usando recursos como contrabaixo elétrico e sintetizadores. O pianista George Duke, conhecido por sua ligação com a música pop e o funk, fez parte da banda do saxofonista e álbuns como “The Price You Got to Pay to Be Free”, de 1970, “The Soul Zodiac”, de 1972, ou “The Happy People”, de 1973, são bastante representativos dessa fase.

Outra mudança em sua sonoridade foi a adoção do sax soprano, que passou a usar com bastante freqüência. Além disso, fez algumas participações no cinema e na televisão, como, por exemplo, no suspense “Play Misty For Me” (no Brasil, “Perversa paixão”), dirigido e estrelado por Clint Eastwood em 1971, e no seriado televisivo “Kung Fu”, um dos maiores sucessos da TV nos anos 70 e que lançou o ator David Carradine ao estrelato.

Infelizmente, Adderley sofreu um acidente vascular cerebral durante uma turnê, no dia 08 de agosto de 1975, em Gary, Indiana. O saxofonista sofria de diabetes e não se cuidava, mantendo até o fim a rotina de exageros à mesa dignas de um Pantagruel. Seu corpo foi enterrado Southside Cemetery, Tallahassee, Florida. Sua morte causou comoção não apenas no mundo do jazz. Em reconhecimento, seu nome foi postumamente incluído no Down Beat Jazz Hall of Fame, no final daquele mesmo ano.

Músicos e fãs de diversas nacionalidades choraram sua perda. Hermeto Pascoal tinha uma enorme admiração pelo saxofonista, em cuja homenagem compôs “Cannon”, incluída no álbum “Missa dos Escravos”, de 1977. Outro que lhe prestou homenagem foi o velho amigo Joe Zawinul, que escreveu para ele “Cannon Ball”, gravada por seu grupo Weather Report no disco “Black Market”, de 1976.

O crítico Ted Gioia foi bastante preciso ao analisar a importância de Cannonball para o mundo do jazz: “Se Adderley falhou em se tornar o novo Messias do bebop que os fãs estavam buscando, fez, por outro lado, um trabalho admirável, capaz de agradar tanto os puristas do jazz quanto os ouvintes casuais, que adoravam suas performances e sua abordagem funky, como se pode ouvir em “Dis Here”, “Work Song” e, sobretudo, “Mercy, Mercy, Mercy”.”

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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

HOJE NÃO TEM CACILDA BECKER

Relutei bastante para publicar este post e peço aos amigos que compreendam as minhas razões. De fato, o JAZZ + BOSSA é um espaço democrático e plural, que reúne uma verdadeira confraria de amigos e que tem me dado muitas alegrias. De maneira alguma este é um blog político. É um blog dedicado à música, à celebração da alegria que essa forma de arte, tão universal e tão íntima de cada um de nós, proporciona.

Mas a própria existência humana é calcada na política. Ainda que não queiramos, ainda que tentemos dela escapar, a política está presente em cada momento de nossas vidas. Quando meu filho Guilherme me pede para jogar no computador e eu condiciono o atendimento desse pedido a boas notas e bom comportamento - e apenas nos fins de semana ou feriados - estamos, pai e filho, travando um debate político. A máxima aristotélica de que o homem é um animal essencialmente político é mais que verdadeira.

Daí porque sentir a intensa necessidade de mudar o foco do blog, pelo menos uma vez, para a importância do momento político que vivemos. As eleições se aproximam e entendo que é minha obrigação como cidadão expor os motivos que me fizeram decidir por uma candidatura, mais especificamente, da ex-ministra Dilma Rousseff. Estão em jogo duas alternativas para o país e que, nos últimos dezesseis anos, pautaram as discussões políticas aqui travadas.

Ambas são distintas em seus propósitos. Uma, francamente alinhada com o pensamento neoliberal e que não responde aos anseios e necessidades da sociedade brasileira, eis que excludente e privatista. A outra, que tem conseguido enormes avanços no campo do desenvolvimento econômico-social, com ganho real do salário mínimo da ordem de 67% acima da inflação, capitalização recorde da Petrobras, acúmulo de reservas em um patamar próximo de 300 bilhões de dólares, papel incisivo na política externa e tantas outras conquistas.

É no eixo da disputa entre esses dois modelos que entendo ser mais que pertinente externar a minha posição. Afinal de contas, desejo muito que o potencial de crescimento econômico - conjugado com o necessário desenvolvimento social - seja explorado em toda a sua magnitude. Espero que meus filhos cresçam em um país que não lhes sonegue oportunidades. Espero que meus filhos cresçam em um país socialmente justo e capaz de oferecer a todos as mesmas chances. O modelo representado pela candidatura da oposição não corresponde a estes anseios. Embora o seu candidato seja um homem com uma belíssima trajetória de combate ao arbítrio, de luta contra a ditadura que se instalou no país em 1964, atualmente ele se encontra em um campo distinto e defende idéias contrárias àquelas que o ex-presidente da UNE, com o ardor de sua juventude, defendia nos anos 60.

O Brasil tem mudado bastante. Nos últimos tempos, tive a oportunidade de ver com meus próprios olhos - de norte a sul, de leste a oeste - como uma administração desenvolvimentista e nacionalista (jamais xenofóbica, que fique bem claro) pode estimular o crescimento e fomentar a índole criativa do povo brasileiro. Políticas públicas de fomento à atividade industrial - da qual o renascimento da indústria naval é o exemplo mais emblemático - barateamento do crédito habitacional, investimento em obras de infraestrutura, enfim, o país parece ter entrado em uma nova era, bastante auspiciosa.

Há ainda muito por fazer e muitas são as críticas que podem ser feitas ao atual governo Lula - figura por quem, diga-se de passagem, tenho a maior admiração, como ser humano capaz de vencer a miséria e a desigualdade social e como político capaz de aglutinar em torno de um novo projeto de nação quase 80% da população nacional - mas não vejo na candidatura oposicionista nem estatura moral e nem arrojo político para corrigir os (poucos) pontos negativos do atual governo e aprofundar os (muitos) pontos positivos da administração petista.

Tomo a liberdade de reproduzir abaixo dois textos, extraídos de dois blogs que admiro muito. Um apela para o coração e ao final de sua leitura lágrimas escorreram da minha face. O segundo apela à racionalidade. A autora do primeiro deles é a Conceição Oliveira, historiadora, educadora, autora de coleções didáticas, ativista da educação para igualdade étnico-racial e feminista, que comanda o ótimo blog Maria Frô ( www.mariafro.com.br ). O segundo texto foi escrito pelo sociólogo Celso Rocha de Barros, que comanda o blog NPTO – Na Prática a Teoria É Outra, um dos mais lúcidos e instigantes da blogsfera brasileira ( http://napraticaateoriaeoutra.org
) e é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Espero que os amigos leiam, reflitam, discordem, manifestem-se. Mas, como é a característica do blog desde seu nascedouro, que tudo seja feito de maneira respeitosa e que as eventuais divergências se mantenham apenas no campo das idéias.


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Mídia que vota em Serra tenta de tudo para levar eleição ao segundo turno. Você vai deixar?

O PT foi fundado em fevereiro de 1980. Lembro-me como se fosse hoje do debate que tomou a militância petista para escolha de candidatos para as primeiras eleições ao governo do estado de São Paulo em 1982, após a lei da Anistia e a volta das eleições nos estados (as eleições diretas para presidente só retornariam em 1989, pois perdemos a luta em 1984, no movimento Diretas- Já).

Em 1982 a disputa era entre o metalúrgico Lula e o jurista Hélio Bicudo. Venceu Lula ao menos nas disputas internas para a escolha do candidato a disputar o pleito para governo do estado.

Houve um comício em Cubatão, na praça Princesa Isabel, lugar pequenino onde foi posto um caminhão pequeno e o comício se desenrolou sobre ele com megafones. À época eu ainda não tinha idade para me filiar, talvez tenha sido por isso que acabei não formalizando minha filiação até hoje. Eu estava lá, em cima do caminhão, meio assustada no meio de lideranças que eu já admirava: além de Lula lembro da presença de Suplicy que antes da marola verde do PV já nos acompanhava em Cubatão em várias ocasiões na luta contra a poluição e as péssimas condições de vida e trabalho na cidade.

Fazíamos reuniões nas igrejas, éramos vigiados e intimidados pela polícia ainda fortemente repressiva, forjada num período de censura, torturas da Ditadura Militar. Debatíamos com a população em geral, os trabalhadores das indústrias cubatenses, as mães desesperadas com a saúde frágil de seus filhos. Denunciávamos a escandalosa poluição daquela cidade que chegou a ser conhecida na imprensa internacional como Vale da Morte.

Em Cubatão, em princípio da década de 1980, trabalhadores do pólo siderúrgico e petroquímico morriam de câncer no pulmão, de pele, envenenados por enxofre e outros produtos químicos, morriam ou ficam inutilizados para o trabalho devido aos acidentes de trabalho. Todas as indústrias tinham uma placa com uma espécie de contador que vivia zerando, informando a quantos dias não havia acidentes de trabalho. Morriam devido a uma saúde debilitada por uma jornada desumana em turnos sem fim.

Lembro-me que ainda estava no colegial e participei como auxiliar de pesquisa de uma grande estudo levado a cabo pela Faculdade de Medicina da USP, pelo grupo da professor Marcília da saúde pública e medicina preventiva.

Durante o projeto, apliquei vários questionários aos trabalhadores do pólo petroquímico e siderúrgico. De um deles jamais vou me esquecer: realizei a primeira bateria de questionários e ele foi selecionado para a segunda fase e quando retornei para fazer as perguntas ele havia falecido. Saí e sentei na calçada na frente de sua casa e comecei a chorar. Para uma adolescente com razoável consciência do que acontecia ao meu redor, que vivia naquele inferno de cidade esquecida por todos, este era um nível de violência que beirava o insuportável.

Também sentei e chorei, anos depois quando já estava na USP e minha mãe ligou para informar que a cidade foi tomada por um incêndio de proporções inimagináveis e que depois de ser aplacado, os cubatenses se deram conta de que um bairro inteiro, o mais pobre e mais abandonado da cidade, tinha sumido do mapa e com ele muitos amigos queridos que eu havia feito quando perambulava pela Vila Socó (como era chamada a favela que oficialmente tinha o nome de Vila São José) passando o filme “O homem que virou suco” e discutindo política pura de resistência.

Para uma adolescente que ainda estava no Ensino Médio, viver em uma cidade que se morria pelas péssimas condições de trabalho e pela intensa poluição para gerar riquezas que não ficavam na cidade (sequer no país) são experiências que modelam nossa vida. Os poluentes jogados no ar e nas águas da cidade eram tão danosos que em Cubatão nasciam crianças anencefálicas, peixes deformados. Para chamar a atenção do mundo para as nossas péssimas condições de vida fizemos uma exposição com fotos dos peixes monstruosos que encontrávamos no Rio Pilões.

Minhas experiências na luta pela qualidade de vida, contra a poluição e a morte das pessoas provocadas pela poluição e pelas péssimas condições de trabalho e ambientais forjou a pessoa que sou hoje.

O PT da década de 1980 nasceu e se fortaleceu na cidade de Cubatão sem dissociar a qualidade de vida das pessoas das questões ambientais e da super-exploração a que estavam expostos os trabalhadores. Talvez seja por isso que até hoje eu não entenda um Partido Verde que fala de manutenção das florestas, mas que não faz a crítica a um Tietê poluído ou ao córrego do meu bairro onde nas proximidades eu topo com ratos mortos como mostrei aqui.

Naquele comício junto ao Lula e ao Suplicy, na praça Princesa Isabel, eu fiz mais do que falar pelas mulheres e o nosso papel no sistema capitalista, eu eduquei os meus pais operários para a luta contra a exploração.

Vivíamos no contexto das greves no ABC que ajudaram a derrubar a ditadura militar. Na minha fala assustada ao lado de Lula, eu buscava estimular as mulheres a serem companheiras de seus companheiros na luta contra a exploração. Eu falava com propriedade sobre a minha própria condição feminina de adolescente trabalhadora, pois desde os 14 anos eu já trabalhava oito horas por dia.

Sabia muito bem do que falava. Passei a estudar à noite quando entrei no primeiro ano do Ensino Médio. Enfrentei os primeiros surtos de uma educação deteriorada com professores amedrontados, muitas greves e faltas. Se não fosse uma ótima aluna jamais teria saído do Afonso Schmidt e teria entrado na USP. Muitas vezes saí da escola porque não havia aparecido nenhum professor e ia para a Vila Socó fazer política. Meus pais ficavam aterrorizados de eu chegar de madrugada em casa, mesmo que eu viesse acompanhada pelo seu Manuel, estivador, quase um segundo pai, que pegava a sua bicicleta e me acompanhava até em casa.

Minha mãe ficava possessa e um dia quis me bater. Meu tio Gerson, metalúrgico da Mercedes, amigo do Lula, estava em casa e me salvou da surra. Ele disse a minha mãe e ao meu pai que eles deveriam se orgulhar de mim. Eu, só disse que se meus pais quisessem saber o que eu fazia quando não estava na escola que fossem às 15 horas na Praça Princesa Isabel.

Estava lá no Comício, num sábado calorento do clima abafado de Cubatão, argumentado sobre a função da mulher operária no sistema capitalista. A metáfora que usei foi a do elástico: a mulher operária tinha de esticar o salário e segurar o marido para não ir às greves. De repente, no meio da pequena multidão, vejo o meu pai, me ouvindo atentamente.

Meu pai votava em Jânio Quadros, na direita mais conservadora do país. Ele foi um motorista e a vida toda abaixou a cabeça para os seus patrões. A partir dali, diversificamos o tema de nossas conversas para além do Timão. Meu pai passou a ler, a ficar mais atento à política partidária.

No comício eu ganhei um abraço do Lula, era a mascote daquela turma de craques. Ele me deu um pequeno livro e fez uma dedicatória que me lembro até hoje: “Se todos os jovens fossem como você as mudanças viriam mais cedo, com um abraço, Lula“. Procurei o livro para scanear e não o encontrei, mas ele continua a ser tão valioso quanto era quando o ganhei há quase 30 anos.

Olho o meu Brasil e a Cubatão de hoje, também governada por uma administração petista e feminina e tenho um orgulho tamanho do que de algum modo, exercendo a minha cidadania diária, eu ajudei a construir.

O Brasil de hoje apesar dos problemas que ainda tem deu um salto qualitativo sem precedentes e não é apenas em sua economia que faz com que o presidente Lula seja aclamado internacionalmente e que equipe da Al Jazeera inglesa se desloque até o interior de Pernambuco para conhecer um progama modelo para o mundo de combate a fome. O salto qualitativo passa pela consciência de muitos brasileiros que aprenderam que a política é um bem de todos e que uma boa política pode salvar vidas e uma má política pode nos levar a morte.

O Brasil de hoje dá muito mais chances ao jovens de periferia como as que eu não tive.

Diego Casaes é só um exemplo do Brasil de hoje: um jovem negro que saiu da periferia de Salvador, falando inglês com fluência foi para Copenhague cobrir a COP15. Diego além de trabalhar com cultura digital é colaborador do Global Voices e toca um projeto com as dimensões do Eleitor 2010. Ele é só um dos meninos que conheço que não teve seu talento e todas as suas potencialidades assassinadas pela falta de oportunidade de um Brasil que, anterior ao governo Lula, era só exclusão. Diego Casaes foi aluno do Prouni, o mesmo programa que o DEM, partido da coligação do PSDB, quer acabar e para isso entrou com ação de inconstitucionalidade no STF.

O Brasil de hoje do PROUNI está formando mais de 400 médicos filhos de faxineira, empregadas domésticas e uma infinidade de outros trabalhadores braçais que nunca sonharam em ter seus filhos na universidade.

O Brasil de hoje é um Brasil que nos faz ter orgulho de ser brasileiros, apesar de toda a tentativa perversa de uma mídia monopolizada e partidária desmoralizar o presidente mais popular da história do país.

O Brasil de hoje fez a maior capitalização da história mundial de uma empresa, a Petrobras, que cada dia é mais brasileira e que garantiu as riquezas do pré-sal para o povo brasileiro.

O Brasil de hoje tem a chance de eleger em primeiro turno uma mulher com uma história de vida e uma história pública de decência, voltada para a luta contra a ditadura militar e que foi presa e torturada por isso.

Por isso e por todas as realizações do governo Lula – as quais Dilma representa a manutenção e a ampliação dos avanços deste governo transformador – que a cada e-mail perverso que recebo contra Dilma, a cada manchete vergonhosa que leio na mídia que vota em Serra, a cada site fascista, proselitista, reacionário onde leio postagens mentirosas, a cada mensagem estúpida e detratora que leio no twitter, apesar de fazer o meu estômago revirar (nem nos meus piores pesadelos acharia que os adversários pudessem fazer uma campanha tão baixa), aumenta a minha gana para sair às ruas, conversar com as pessoas, discutir política, ouvi-las e dizer porque minha candidata é Dilma Rousseff.

Meu pai e minha mãe estavam de viagem marcada para Salvador para o final de setembro e adiaram-na para o dia 04/10. Eles votarão em Dilma Rousseff. A Ana, mensalista aqui de casa, vai se deslocar até a sua cidade pra votar em Dilma Rousseff.

Quanto a mim, mantenho viva aquela adolescente do comício da praça Princesa Isabel, a mesma adolescente que lutou por melhores condições de vida e trabalho, que ia para Vila Socó discutir política com os trabalhadores, que se indignou e brigou para que Cubatão deixasse de ser o Vale da Morte. Por isso, nos próximos cinco dias até a eleição vou continuar ligando e conversando com todos os que conheço, convidando-os a refletir sobre a importância de suas escolhas para o futuro do nosso país.

A mídia que vota em Serra e que durante oito anos fez oposição ferrenha ao presidente Lula, chamando-o até de estuprador (sem sofrer qualquer tipo de censura por parte do presidente) está fazendo seu trabalho. Está defendendo seu projeto neoliberal, privatizador, excludente, porque a vitória de Serra assegura seus interesses econômicos. Esta mídia não mediu e não medirá esforços pra conseguir seu objetivo. Ela não tem ética alguma, publica notícias e documentos falsos, como a Folha de São Paulo fez quando publicou, em primeira página, a ficha falsa de Dilma produzida por um blog de extrema-direita.

Resta-nos, portanto, a mim e a todos os brasileiros que fazem oposição a este projeto conservador e reacionário, com nosso trabalho de formiguinha, resistir, ir à luta e garantir a vitória de um Brasil mais inclusivo e cidadão. À luta, companheiras e companheiros e até a vitória sempre.

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Porque votarei em Dilma Rousseff


Os três principais candidatos nessa eleição presidencial são muito bons. A terceira colocada deve ser Marina Silva, e Marina Silva seria melhor presidente que 90% dos presidentes do mundo. Levando em conta só os competitivos, nos últimos dezesseis anos só Garotinho (que a The Economist traduzia como “Little Kid”) avacalhou nosso currículo, onde, na minha modesta opinião, devemos ter orgulho de ostentar Lula e FHC.

Mas é preciso escolher, e, no que se segue, argumentarei que a melhor opção para o Brasil no momento é uma ex-guerrilheira nerd.

1. Um bom governo, na minha opinião, deve (a) ser democrático, (b) não avacalhar a estabilidade econômica, e (c) combater a pobreza e a desigualdade. Por esses critérios, o governo Lula foi indiscutivelmente bom.

O governo Lula, tanto quanto o governo FHC, foi um governo democrático. Quem lê jornal no Brasil não apenas percebe que é permitido falar mal do governo, mas pode mesmo ser desculpado por suspeitar que falar mal do governo é obrigatório por lei. Os partidos de oposição atuam com plena liberdade, os movimentos sociais, idem, e, aliás, eu também. O Olavo de Carvalho se mandou para os Estados Unidos, dizem que com medo de ser perseguido politicamente, mas, se tiver sido por isso, foi só frescura. De qualquer modo, nunca antes nesse país exportamos tantos Olavos de Carvalho.

A economia foi muito bem gerida durante a Era Lula, a despeito do que falam muitos petistas (talvez preocupados com a falta de oposição competente). Companheiros, deixemos de falar besteira: a política econômica foi um sucesso. Mantivemos o bom sistema de metas de inflação implantado por Armínio Fraga no (bom) segundo governo FHC, e acrescentamos a isso: uma preocupação quase obsessiva por acumular reservas internacionais, a excelente ideia de comprar de volta nossa dívida em dólar, e medidas de incentivo fiscal quando foi necessário. A dívida como proporção do PIB caiu consideravelmente, e só voltou a subir quando foi necessário combater a crise. Certamente voltará a cair já agora.

Por essas e outras, fomos os últimos a entrar e os primeiros a sair da maior crise econômica desde 1929. Os tucanos se consideravam uma espécie de Keynes coletivo por terem sobrevivido à crise do México. Com muito menos custo, sobrevivemos à crise dos EUA. E isso se deu porque a economia durante a Era Lula foi muito mais bem administrada do que durante o primeiro governo FHC. No segundo governo FHC, aí sim, a economia foi bem gerida, e Lula fez muito bem em copiar seus métodos de gestão.

E, na área social, o Lula realmente se destaca na história brasileira, e na conjuntura econômica mundial. FHC não merece nada além de parabéns por ter copiado o Bolsa-Escola do governo petista do Distrito Federal (cujo governador havia idealizado o programa ainda na década de 80), e o PT merece críticas por ter atrasado sua adoção insistindo no confuso “Fome Zero” por tempo demais; mas, uma vez re-estabelecida a sanidade, o programa foi implementado com imenso sucesso, e, associado à política de recuperação do salário mínimo, e à boa gestão da economia, geraram resultados que não estavam nas projeções do mais otimista dos petistas em 2002. Para ser honesto, eu sempre votei no Lula, mas nunca achei que fosse dar tão certo.

A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.

Não é à toa que o economista Marcelo Neri, um dos mais respeitados estudiosos da pobreza no Brasil, fala no período de 2003-2010 como “A Pequena Grande Década”. Tanto quanto sei, Neri não é petista.

Por outro lado, há algumas semanas, o sociólogo Demétrio Magnoli escreveu um balanço crítico do governo Lula, que considera um desastre. O artigo praticamente não tem nenhum número. I rest my case.

2. Seria idiota dizer que isso não é, em nenhum grau, motivo para votar na Dilma. Dilma participou ativamente disso tudo, e, no mínimo, apoiou isso tudo. Marina Silva, é verdade, apoiou quase tudo isso. José Serra não o fez, e muitos de seus simpatizantes continuam convictos de que os últimos oito anos, em que a renda dos brasileiros mais pobres cresceu no ritmo da economia chinesa, foi uma era das trevas da qual a nossa elite bem pensante (hehehe) acordará em breve, chorando de felicidade porque era só um pesadelo.

Mas, até aí, eu considero que a Era FHC também foi boa para o país, por outros motivos, e mesmo assim foi bom que Lula fosse eleito em 2002 (como irrefutavelmente provado acima). Por que não seria esse o caso, agora?

Em primeiro lugar, porque não acho que será bom para o Brasil se o governo Lula tiver sido só um intervalo. Se Serra ganhar a eleição, eis o que se tornará a versão oficial sobre esse período: uns caras com diploma governavam muito bem o Brasil por muitas décadas, aí surgiu um paraíba muito carismático que acabou % ganhando a eleição, mas não fez nada demais, por isso eventualmente a turma do diploma retomou o controle da coisa toda. Coloquei um sinal de porcentagem no meio da frase para que ela tivesse pelo menos um erro que não fosse também papo furado.

É importante compreender que os novos atores que compõem o PT vieram para ficar, pois são sócios-fundadores de nossa democracia, e que, de agora em diante, o Brasil é um país com uma esquerda que sabe ser governo. Isso quer dizer que agora a direita, para vencer eleições, precisa apresentar boas candidaturas (de preferência sem roubar nossos sociólogos, ou economistas heterodoxos) e, o mais crucial de tudo, apresentar propostas para os mais pobres, que acabam de descobrir que podem melhorar imensamente suas vidas com o voto. A direita brasileira ainda não fez esse trabalho: continua pensando como se fosse um direito natural seu governar o país, e esperando que algum movimento legitimista re-estabeleça a ordem nesta budega.

Enquanto a justiça eleitoral não fizer o voto do Reinaldo Azevedo ter peso 50 milhões, a estratégia de fingir que o governo Lula não desmoralizou os anteriores, diminuindo a pobreza sem desestabilizar a economia, não vai ganhar eleição. Enquanto não tiver um projeto para o país (o que, diga-se, o Plano Real foi), a oposição não merece voltar ao governo. Como o PT dos anos 90, por exemplo, não merecia ganhar a presidência, pois seu programa era o que, no jargão sociológico, era conhecido como “nhenhenhém”. O PT venceu quando reconheceu que o papo agora era outro, e era preciso partir das conquistas já alcançadas. Não há sinal que consciência semelhante exista na oposição como bloco político, embora, sem dúvida, o candidato Serra o tenha compreendido.

3. Mas esse tampouco é o melhor motivo para se votar na Dilma. O melhor motivo para se votar na Dilma é a Dilma.

Dilma tem uma trajetória política muito singular, como, aliás, tinham FHC e Lula. Quem tiver lido seu perfil recente na revista Piauí pode notar que há tantos fatos interessantes na sua vida que o jornalista mal teve espaço para falar dela, como pessoa. Dilma foi guerrilheira, foi torturada, e, durante a democratização, entrou para o PDT. Quando visitou, recentemente, o túmulo de Tancredo, a turma de sempre reclamou que o PT não o havia apoiado no Colégio Eleitoral. Bem, Dilma, como o PDT, apoiou Tancredo. Eventualmente, foi parar no PT, onde cresceu fulminantemente, e foi beneficiada pela decisão da oposição de queimar um por um dos quadros petistas mais famosos, algo pelo que, suspeito, já começam agora a se arrepender. Estariam pior agora se o candidato do Lula fosse, digamos, o Dirceu?

Tem gente que, com temor ou esperança, acha que Dilma mudará o rumo da economia. Eu posso estar errado, mas, baseado no que vi até agora, acho o seguinte: Dilma está singularmente posicionada para fazer com que, sob essa mesma política econômica, e com o mesmo compromisso com a justiça social, o país comece a crescer bem mais rápido do que cresceu nos últimos dezesseis anos.

Eu gosto de dizer o seguinte sobre política econômica: é verdade, o Banco Central desacelera o crescimento quando mantém os juros altos (e segura a inflação). Mas, a essa altura, o crescimento econômico já levou uma surra; antes de chegar no Banco Central, o carro do crescimento já tomou batidas da nossa falta de política de inovação, da baixíssima capacidade de investimento do Estado, da pobreza (que diminuiu, mas, para nossa vergonha, ainda está aí), do nosso abissal nível de qualificação educacional, dos entraves inacreditáveis para se abrir ou fechar um negócio, dos problemas gravíssimos da nossa urbanização. Essa desacelerada que o Banco Central dá é porque, depois de tomar tanta batida, ou nosso carro desacelera ou ele desmonta na pista.

Nossa visão deve ser a seguinte: queremos ter produção tecnológica como a Índia, mas com muito mais preocupação com a justiça social, e queremos ter o crescimento da China, mas com a mais absoluta democracia e com as garantias ambientais necessárias. Se esses limites nos atrasarem um pouco, paciência, somos, em nossos melhores momentos, um país que leva essas coisas a sério. O que não é admissível é que qualquer coisa que não nossos princípios atrase nosso progresso.

Muita gente diz que Lula entregou a candidatura à Dilma de mão-beijada, mas, aproveito para advertir, muita calma nessa hora, meu povo. Lula também lhe entregou uma roubada incrível, que foi também um teste. Quando Dilma foi colocada na direção do PAC, experimentou em primeira mão o quão ineficiente é nosso Estado como indutor do investimento: uma legião de entraves burocráticos, pressões políticas e uma história de más prioridades tornaram nosso Estado incapaz de investir e de oferecer infra-estrutura (tanto física quanto legal quanto humana) para o investimento privado.

A beleza da coisa é que Dilma é uma c.d.f. obcecada por políticas públicas. Quem leu sua entrevista no livro organizado pelo Marco Aurélio Garcia e pelo Emir Sader não pode ter deixado de se divertir com a diferença entre as coisas que os entrevistadores querem perguntar e as coisas que ela quer responder: os caras lá falando do liberalismo, de não sei o que mais, e ela animadona com um jeito de furar poço de petróleo, com um jeito qualquer de administrar hospital. Respeito muito o Marco Aurélio, que foi meu professor, mas a Dilma sai da entrevista muito melhor que ele e o Sader.

Me anima especialmente que, em vários momentos, tenha visto Dilma puxando o assunto das políticas de inovação. O Brasil não vai dar um salto qualitativo em termos de desenvolvimento enquanto não produzir tecnologia. Tecnologia é o tipo de coisa que depende de bons arranjos entre governo e setor privado, e, a crer nos relatos até agora a respeito de sua passagem pelo ministério de Minas e Energia, Dilma tem uma postura pragmática saudável nessas questões.

Lula deu ao capitalismo brasileiro milhões de novos consumidores, e essa descendência política exigirá de Dilma compromisso forte com a inclusão social. Mas agora é hora de dar ao capitalismo brasileiro a competitividade necessária para que ele gere os empregos de que precisam os novos ex-miseráveis, os formandos do ProUni, ou das novas Universidades Federais, inclusive; é hora de montar um Estado que entregue aos cidadãos as cidades necessárias à boa fruição da vida moderna, e montar um sistema de inovação tecnológica que tire da direita o monopólio do discurso moderno.

Por conhecer melhor do que ninguém o tamanho desse déficit, e pelo que se depreende de sua postura até agora diante desses problemas, Dilma Rousseff é a melhor opção para a presidência do Brasil nos próximos oito anos.

Até porque, contará com um recurso que só o PT tem: uma imprensa tão hostil que o sujeito realmente, realmente tem que prestar atenção para não fazer besteira. Superego é uma coisa útil, senão você trava.

4. Certo, mas deve ter gente pensando, ah, mas ela é só uma tecnocrata, vai ser engolida pelos políticos (o bom é que essa mesma turma dizia que o Lula, por não ser um tecnocrata, ia ser engolido pelos políticos). Deve ter gente, à direita e à esquerda, com esperança de manipular a Dilma. A Dilma, no caso, é aquela menina que, aos vinte e poucos anos, inspirava respeito até nos caras do Doi-Codi, como se depreende dos documentos da época. Se quiser ir tentar manipular essa dona aí, rapaz, boa sorte, vai lá. Depois você conta pra gente como é que foi.


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