Raymond Matthews Brown nasceu no dia 13 de outubro de 1926, em Pittsburgh. Com apenas oito anos de idade, começou a estudar piano clássico, mas sem nenhuma empolgação. Também tentou aprender trombone, ainda na infância, mas sem qualquer sucesso. Na adolescência, resolveu se integrar à orquestra da escola e escolheu então o único instrumento disponível: o contrabaixo. Além da permuta de instrumentos, trocou também de ídolo: sai Fats Waller e entra Jimmy Blanton, que na época causava sensação na orquestra de Duke Ellington, graças à sua maneira revolucionária de tocar.
Tocando em gigs na cidade local, seu nome começou a ficar conhecido no meio jazzístico. Não obstante, somente começou a tocar profissionalmente depois de concluir o colegial, atendendo aos sábios conselhos da mãe. O primeiro emprego foi no sexteto de Jimmy Hinsley, com quem tocou por cerca de oito meses, passando a atuar na banda de Snookum Russell, sempre em Pittsburgh.
Pouco tempo depois, Brown decidiu tentar a sorte em Nova Iorque, onde chegou em 1945. Os deuses do jazz deviam gostar muito dele, pois logo em seu primeiro dia na Meca do Jazz participou de uma jam session, a convite de seu amigo Hank Jones, da qual participavam, simplesmente, Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Bud Powell, uma espécie de Santíssima Trindade do bebop.
Encantado com a técnica e a habilidade do jovem contrabaixista, Gillespie não perdeu tempo e o contratou para tocar em sua orquestra e em seus pequenos conjuntos. Na época, Ray já havia adicionado Oscar Pettiford e Slam Stewart ao rol de influências. Tocando com Dizzy, Brown conheceu Milt Jackson e John Lewis e com eles, e mais Kenny Clarke, participou da primeira formação do Modern Jazz Quartet.
Convidado por Norman Granz, integrou a caravana do Jazz At The Philharmonic, o que lhe deu enorme visibilidade. Tanto que chamou a atenção de Ella Fitzgerald, que o quis não apenas como contrabaixista, mas também como marido. Brown formou um trio (com Hank Jones no piano e Charlie Smith na bateria) para acompanhar a mulher, mas o casamento não não se sustentaria por muito tempo – os dois ficaram juntos de 1947 a 1952. Reza a lenda que nas gigs de que participava, ele chamava a atenção de todos, com seus alinhados ternos de 400 dólares (uma fortuna na época).
Separado de Ella, Ray se dedicou à carreira com ainda mais afinco. Tornou-se um dos mais requisitados músicos da época, gravando incessantemente com nomes como Frank Sinatra, Blossom Dearie, Stan Getz, Louis Armstrong, Charlie Parker, Coleman Hawkins, Sonny Rollins, Herb Geller, Hampton Hawes, Buddy DeFranco, Teddy Edwards, Tony Bennett, Phineas Newborn, Roy Eldridge, Tal Farlow, Sonny Stitt, Ben Webster, Billy Eckstine, Joe Venuti, Sonny Rollins, Sarah Vaughan, Lester Young, Fred Astaire, Lionel Hampton, Lee Konitz e muitos outros.
Sua associação mais profícua e, certamente, mais importante, foi com um pianista canadense que havia conhecido durante as excursões do projeto Jazz At The Philharmonic: o ultravirtuose Oscar Peterson. Foram cerca de 15 anos tocando no trio de Peterson, de 1951 até 1966, quando a parceria foi amigavelmente desfeita. No final dos anos 50, foi um dos professores da célebre School Of Jazz, em Lenox, Massachussetts e também dedicou-se ao aprendizado do violoncelo, gravando para a Verve o excelente álbum “Jazz Cello” (de 1960).
Outra associação importante, embora esporádica, foi com o guitarrista Barney Kessel e o baterista Shelly Manne, em um trio apropriadamente denominado “The Poll Winners”, que lançou alguns ótimos álbuns pela Contemporary, entre o final dos anos 50 e o início dos 70. Em 1964, Ray ganhou o Grammy de melhor composição de jazz por “The Gravy Waltz”, uma parceria com o pianista Steve Allen. Em 1966, mudou-se para Los Angeles, onde atuou como músico de estúdio, fazendo trabalhos para o cinema e a televisão.
Um dos seus trabalhos mais conhecidos foi a trilha sonora do desenho animado “O tamanduá e a formiga” (1969/1970), onde integrava uma banda all-star, que incluía Billy Byers, Pete Candoli, Shelly Manne e Jimmy Rowles. Também produziu shows no Hollywood Bowl e criou, juntamente com Jack Ackerman e Stanley Wilson, a trilha sonora para o filme “Husbands” (1970), de John Cassavetes, estrelado pelo próprio diretor e mais Ben Gazzara e Peter Falk.
Aliás, os anos 70 foram de intensa atividade para o baixista. Foi o escolhido por Duke Ellington para acompanhá-lo no fenomenal álbum “This One’s For Blanton”, um emocionante tributo a Jimmy Blanton, em 1972. Também foi um dos fundadores do grupo L. A. Four, com quem gravaria e excursionaria com regularidade entre 1974 e 1982. A seu lado, o guitarrista Laurindo Almeida, o saxofonista Bud Shank e o velho parceiro Shelly Manne, que em 1977 seria substituído pelo talentoso Jeff Hamilton (hoje muito conhecido, por integrar a banda da cantora Diana Krall).
Escreveu vários livros didáticos, sendo que um deles, “Ray Brown's Bass Method - Essential Scales, Patterns and Excercises”, é considerado obra de referência sobre o contrabaixo jazzístico. Também participou, como sideman, de inúmeros álbuns para a Concord e a Pablo, gravadora fundada e dirigida por Norman Granz. Reencontrou o antigo parceiro Oscar Peterson em vários concertos na edição do Festival de Montreux de 1977, onde ambos acompanharam nomes como Clarke Terry, Eddie Lockjaw Davis e Roy Eldridge. Todas essas apresentações foram lançadas em vídeo, pela série “Norman Granz' Jazz in Montreux”.
Um dos mais fantásticos discos do baixista é “Something For Lester”, que muitos críticos consideram um trabalho de transição entre aquilo que Ray fazia nos trios de Oscar Peterson e aquilo que viria a fazer em seus próprios trios nas décadas de 80 e 90. Curiosamente, o álbum foi gravado nos dias 22 e 24 de junho de 1977, mas somente foi lançado em 1979, como uma homenagem ao produtor Lester Koenig, fundador da Contemporary e falecido em 1977.
Ao lado de Brown, dois dos mais espetaculares músicos de qualquer era: Cedar Walton no piano e Elvin Jones na bateria. Walton, que também é um talentoso compositor, contribui com dois temas de sua autoria: a incendiária “Ojos de Rojo”, que abre o disco, e a não menos eletrizante “Something In Comon”.
Na primeira, que pode ser descrita como um bebop ortodoxo com discretas tintas latinas, são perceptíveis os ecos de Bud Powell e na segunda, cuja abordagem é mais contemporânea, há algo de Horace Silver, especialmente na forma como Walton percute as teclas do seu piano. Em ambas, a qualidade técnica dos músicos chega às raias da perfeição – Elvin chega a usar as escovas em “Something In Comon”, mas não abre mão de sua proverbial vitalidade e Brown é um portento, tanto no acompanhamento como nos admiráveis solos que comete.
No blues “Slippery”, de autoria do líder, o baixista fica à vontade para esticar as notas ao máximo, o que acarreta uma sonoridade volumosa e articulada. Sua fluência encontra eco na abordagem funky de Walton, forjada por anos nos Jazz Messengers. Jones revela a sua faceta lírica, priorizando o aspecto melódico em detrimento do rítmico, com um resultado surpreendente.
Uma das mais belas – e menos conhecidas – composições dos irmãos Gershwin, “Love Walked In” é uma balada em tempo médio, com uma extraordinária performance de Walton, que possui um domínio quase sobrenatural das 88 teclas. Brown e Elvin atuam com discrição, mas sem qualquer acanhamento, sendo que o vigoroso solo do líder merece uma audição mais atenta. Talvez a mais relaxada faixa do álbum, cuja inclusão foi sugerida pelo próprio Lester Koenig.
Dois standards dos mais notáveis – “Georgia On My Mind”, de Hoagy Carmichael, e “Little Girl Blue”, de Richard Rodgers e Lorenz Hart – ganham versões excepcionalmente belas. Na primeira, Brown conduz a melodia com a delicadeza de um ourives, até o momento em que o trio começa a subverter a harmonia da canção, impondo-lhe um andamento mais acelerado. Jazz da melhor estirpe, com improvisações ensolaradas e um Elvin Jones em estado de graça, enquanto a graciosidade do toque de Walton é inexprimível em palavras.
Na segunda, a introdução elaborada por Brown diz tudo acerca dos seus predicados técnicos: ele é, sem dúvida alguma, um dos maiores baixistas que o jazz já produziu em qualquer época. Meticuloso, o líder constrói cuidadosamente o arcabouço melódico, enquanto o piano e a bateria vão se insinuando pelas frestas da canção – decerto é a faixa mais lírica do disco.
Para encerrar, uma devastadora versão de “Sister Sadie”, clássico do hard bop de autoria de Horace Silver. O início é fabuloso, com Brown dialogando ora com Jones e ora com Walton. O trio atua com tamanho entusiasmo – o termo avidez seria mais apropriado – que dá uma nova dimensão à palavra groove. Pode parecer heresia, mas o ouvinte não chega a sentir falta dos metais em brasa de Junior Cook e Blue Mitchell, que dividiram o palco com Silver na versão original, no álbum “Blowin' the Blues Away”. Simplesmente fantástico!
Nos anos 80 e 90 Brown continuou a trabalhar compulsivamente, excursionando e gravando com a energia e o ânimo de um iniciante. Acompanhou com regularidade a cantora Ernestine Anderson e integrou a big band do pianista Gene Harris, que por sua vez retribuía a gentileza gravando diversos discos como sideman no Ray Brown Trio. Em 1992, recebeu o título de Jazz Master, conferido pela NEA – National Endowment for the Arts.
Seus trios, a bem da verdade, eram um celeiro de novos talentos. Por ali passaram, entre outros, pianistas como Benny Green, Monty Alexander e Geoff Keezer, bateristas como Jeff Hamilton, Karriem Riggins e Greg Hutchison, e guitarristas como Ron Eschete, Ulf Wakenius e Russell Malone. Os álbuns desse período foram lançados basicamente pela pela Concord e pela Telarc, que lançaria o formidável “Superbass” (1997), onde Brown, secundado pelos fiéis escudeiros Benny Green e Greg Hutchison, atua com dois de seus mais talentosos discípulos: John Clayton e Christian McBride.
Não é exagero afirmar que Brown elevou o contrabaixo jazzístico a um novo patamar de excelência e estendeu as possibilidades harmônicas do instrumento, tanto quanto o ídolo Jimmy Blanton havia feito na década de 40. Além disso, tocava com um prazer e uma entrega contagiantes. Tanto é que praticamente morreu sobre o palco: no dia 02 de julho de 2002 um ataque cardíaco fulminante abateu-o enquanto descansava, antes de um concerto, em Indianápolis. Por sua enorme folha de serviços prestados ao jazz, Brown foi indicado, postumamente, para o Jazz Hall of Fame da revista Down Beat, em 2003.
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