Amigos do jazz + bossa

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

UMA PONTA DE CIGARRO ACESA. E UMA TRAGÉDIA.


Estamos nos primeiros dias de novembro de 1963. Após anos de estrada (ele se profissionalizou em um longínquo 1947), Joe Gordon parecia ter, finalmente, encontrado o caminho do sucesso. Com dois discos gravados como líder (“Introducting Joe Gordon”, de 1955, e “Lookin’ Good”, de 1961), além de participações avassaladoras em álbuns como “Some Like It Hot” (de Barney Kessel), “West Coast Blues” (de Harold Land) e “Awakening!!”, (do amigo e parceiro Jimmy Woods, gravado no ano anterior), ele começava a chamar a atenção do público e da crítica, para o seu fraseado altamente energético e seu som melodioso e incisivo.

Aos trinta e cinco anos, vindo de atuações bastante consistentes ao lado de Dizzy Gillespie, Shelly Manne e Thelonious Monk – além de uma breve, porém marcante passagem pelos Jazz Messengers, numa formação que incluía Gigi Gryce e Walter Bishop Jr. – esse verdadeiro musician’s musician caminhava a passos largos para se tornar um dos mais importantes e influentes trompetistas dos anos 60. Mas o destino lhe foi inclemente. Dolorosamente inclemente. E ele jamais teria o reconhecimento que outros músicos da mesma geração – como Miles Davis ou o precocemente falecido Clifford Brown – tiveram.

Mas voltemos um pouco no tempo, a fim de conhecer um pouco da vida e da carreira de Joseph Henry Gordon. Ele nasceu em Boston, Massachussetts, no dia 15 de maio de 1928. Desde muito cedo, o pequeno Joe lego desenvolveu uma especial predileção pelas árias de ópera, cantadas pela mãe, uma cantora amadora. Na adolescência, descobriu o jazz, pelas hábeis mãos do pianista Count Basie, através do qual viria a descobrir a descobrir a sua primeira influência musical: o trompetista Harry “Sweets” Edison.

No início da década de 40, o jovem Gordon assistiu, extasiado, a um concerto de Coleman Hawkins, onde tocavam o saxofonista Don Byas e o trompetista “Little” Benny Harris, que impressionou o rapaz com sua performance incendiária. Matriculou-se, pouco depois, no New England Conservatory e começou a tomar lições de trompete com um renomado professor local chamado Fred Berman. Para sobreviver e pagar as contas, vendia sanduíches nos trens que ligavam Boston a Albany.

Embora tivesse tocado algumas vezes nos clubes e casas noturnas da cidade natal, a primeira oportunidade profissional surgiu em 1947, quando foi convidado para se juntar ao combo do vibrafonista Pete Diggs. Em seguida, aceitou o convite do pianista Sabby Lewis para integrar a sua orquestra e ali conheceu o saxophonista Charlie Mariano, que em 1951 o convidaria para atuar em seu histórico álbum “Boston All-Stars”.

Quando Charlie Parker fez alguns shows em Boston, em Dezembro de 1952, arregimentou alguns músicos locais, como o pianista Dick Twardzik, o baterista Roy Haynes e o próprio Gordon ao trompete (o baixista Charles Mingus completava o quinteto). Tocar com o lendário Bird foi a glória para o jovem trompetista e os concertos, realizados no clube Hi-Hat, seriam lançados em disco apenas muitos anos depois, em 1996, no álbum “Boston 1952”, pela Original Jazz Classics.

A partir daí, o nome de Gordon passou a ser conhecido para além do circuito jazzístico de Boston e trabalho foi o que não faltou ao trompetista. Tocou com Lionel Hampton, Georgie Auld, Don Redman, Benny Carter, Thelonious Monk, June Christy, Art Blakey, Helen Humes e outros. Em 1955 gravou seu disco de estréia, “Introducing Joe Gordon”, ao lado do saxofonista Charlie Rouse, do pianista Junior Mance, do baixista James Schenk e do baterista Art Blakey.

No ano seguinte, foi convidado a integrar a orquestra de Dizzy Gillespie, ao lado de quem excursionou pela Europa, América do Sul e Oriente Médio. No meio do ano, descontente com a falta de oportunidade na banda de Gillespie, Gordon (que também tinha problemas com heroína) resolveu sair da orquestra e atuar como músico freelancer.

Tocou com a orquestra de Herb Pomeroy, em Boston, e integrou, por algum tempo, o combo de Horace Silver, em Nova Iorque. Em 1958 mudou-se para Los Angeles, onde gravou com muitos músicos ligados ao West Coast Jazz, como Shelly Manne (atuou no célebre “Shelly Manne & His Men at the Blackhawk”, Vols. 1 a 5, gravados pela Contemporary em 1959), Russ Freeman, Dexter Gordon, Richie Kamuca, Victor Feldman, Harold Land, Barney Kessel e Scott LaFaro.

Também pela Contemporary, Joe lançou o disco pelo qual merece ser lembrado por todos os amantes do jazz: o extraordinário “Lookin’ Good”. As gravações, com produção de Lester Koenig, aconteceram entre os dias 11 e 18 de julho de 1961 e o resultado surpreende pela enorme qualidade e pelo fabuloso espectro de influências trazidas pelo líder – do bebop à música erudita, passando pelo hard bop e pela música latina.

Para acompanhar o trompetista, foram escalados o underrated Jimmy Woods (saxofonista alto, que tocou com Horace Tapscott, Gerald Wilson e Chico Hamilton), Dick Whittington (pianista pouco conhecido, mas fortemente influenciado por Bill Evans e que atuou como acompanhante de Ernestine Anderson e Dinah Washington, além de ter produzido os concertos da série “Live At Maybeck Recital Hall”), Jimmy Bond (baixista de larga experiência, vindo de atuações com Chet Baker, Art Pepper, Elmo Hope, George Shearing e outros) e Milton Turner (baterista com larga quilometragem, que inclui trabalhos com Ray Charles, Paul Horn, Hank Crawford, Phineas Newborn, Teddy Edwards e muitos outros).

Demonstrando um excepcional talento também do ponto de vista composicional (todas as oito faixas são de sua lavra), Joe Gordon também se revela um músico superior no aspecto da execução, com um domínio técnico impressionante do seu instrumento. Quer ouvir um solo acrobático, digno de um Gillespie ou de um Brown (de quem Gordon era grande amigo)? O que você procura está em “You're The Only Girl In The Next World For Me”. Quer ouvir um som cool, com um trompete assurdinado, típico de um Miles Davis? Então escute “A Song For Richard”.

Abrindo os trabalhos em grande estilo, temos a ótima “Terra Firma Irma”, dedicada à esposa do trompetista. Trata-se de um delicioso hard bop, executado em tempo rápido, com uma interação telepática de Gordon e Woods. Whittington, se não é dos mais conhecidos pianistas do universo, mostra-se bastante à vontade, atacando as teclas com fluidez, desenvoltura e muito swing. Digna de menção também é a fenomenal atuação de Turner, um dínamo de ritmo e vitalidade.

A surdina usada pelo líder em “A Song For Richard” magnetiza o ouvinte, capturando-o pelos ouvidos e pelo coração, neste que é o momento mais emotivo do álbum. Não é propriamente uma balada, mas os ecos de Miles são perceptíveis – cool jazz de primeiríssima linha, à altura do que melhor foi feito no estilo, em qualquer época. Woods emenda um solo delicado e terno, demonstrando ser um saxofonista bastante criativo e melodioso, enquanto o incansável Turner, mais uma vez, dá um show de técnica e versatilidade.

Títulos pouco ortodoxos são uma característica do álbum e “Non-Viennese Waltz Blues” é um dos mais curiosos. A interessante mistura de valsa e blues, à qual se somam elementos de soul jazz e R&B, é um excelente veículo para o virtuosismo de Woods, cujo solo é antológico. Whittington revela um ótimo conhecimento de blues e Gordon atua aqui como um verdadeiro sideman, deixando que seus convidados brilhem à vontade.

A estonteante “You're The Only Girl In The Next World For Me” celebra a volta ao hard bop, de forma bastante efusiva. Woods é um saxofonista de enormes recursos, capaz de extrair do seu instrumentos diversas nuances, ora fazendo-o soar de maneira dócil, ora agressiva. Gordon produz alguns dos solos mais bem elaborados e complexos do álbum, enquanto as irrepreensíveis performances de Bond e Turner mantém a estrutura coesa do quinteto.

A temperatura se mantém elevada em “Co-Op Blues”, na qual, mais uma vez, o fraseado inebriante e articulado do líder faz a diferença, construindo uma miríade sonora plena de beleza e uma boa dose de paixão. Woods, soberbo, intervém de modo mais sóbrio, contrapondo-se de forma quase comedida à exuberância polifônica de Gordon, ao tempo em que a competentíssima sessão rítmica trabalha com a precisão de um relógio suíço.

“Mariana” transita pelos ritmos latinos, mas também remete aos mistérios do Oriente, sobretudo durante o solo de Woods. O trabalho de Turner é espetacular, sendo ele o maior responsável pela diversidade harmônica do tema, mas essa caleidoscópica colagem de ritmos não seria tão rica sem o entusiasmo de Gordon. “Heleen” é outro ponto alto do disco – uma balada ensolarada, porém sensível e de elevado conteúdo emocional, na qual o sopro do líder emula o paradigmático Art Farmer (e com sucesso, diga-se de passagem).

Whittington é o grande destaque de “Diminishing”, faixa que encerra o disco em grande estilo. Seu piano é a força motriz que conduz as atuações de Woods e Gordon, ambas bastante engenhosas. Um álbum que merece ser descoberto e degustado, testamento de um músico de alta personalidade e que possuía aquela qualidade mágica que diferencia um instrumentista competente de um fora de série: uma voz própria. Ouçamo-la, pois, em toda a sua plenitude.

Estamos de volta a 1963. Noite de 03 de novembro. Exausto por mais uma maratona de concertos, Joe Gordon retorna à casa onde morava, em Venice, Califórnia. Deita-se na cama e acende um cigarro para relaxar – o último que fumaria em sua vida. O corpo cansado o traiu: ele deixou que a ponta acesa do cigarro caísse sobre a cama. Levado às pressas para o Hospital de Santa Mônica, Gordon não resistiu. O incêndio pôs fim à vida e à carreira de um dos mais promissores trompetistas da época e, no dia 04 de novembro, ele faleceu, em decorrência dos graves ferimentos provocados pelas chamas.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

SINTAXE PERPLEXA





Donde há de vir esse intrínseco arrefecimento?

Essa exaustão descompassada,

Esse enfado absoluto,

Se calo o poema de métrica claudicante

Ou se o digo a plenos pulmões,

Tanto faz,

Vivendo a angústia desapaixonada de qualquer instante,

Esperando o resultado do conclave inútil,

Saboreando a inquietude imóvel dos tempos oblíquos,

Permaneço aqui,

Exatamente nesse aqui de um quase agora

Onde vagueiam a decrepitude e a caducidade,

Vida que não pulsa,

Paixão que não lateja,

Hábito galvanizado,

História mínima e deserta,

Não,

Não conheci da vida

Sei apenas de entremeios e subterfúgios,

De borrifos e apalpadelas,

Inalo partículas de ar e não as almejadas golfadas de brisa tépida,

Não,

Nunca ouvi o chamado da vida,

Nem o som e nem a melodia que ela produz,

Só vivi as emoções de almoxarifado,

Conferidas e protocoladas,

Só transitei pela cartografia de sentimentos comezinhos,

Nada sei de recôncavos ou falésias, istmos ou cordilheiras,

Nem imagino quando florescem as acácias,

Sequer sei o que são acácias ou cerejeiras,

Mas sei da desesperança e do padecimento,

Reconheço o desabrigo e a indiferença,

Compreendo a instável permanência do quando

O átimo eterno e irresistível,

A sofreguidão ciclotímica da hora anterior,

O meu é um tempo encapsulado

Que não transcorre e nem deixa de se ir


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Mais um excelente músico de Chicago, Jack Wilson nasceu em 03 de agosto de 1936. No início da década de 40, mudou-se com a família para Fort Wayne, onde iniciou os estudos do piano aos 12 anos. Profundamente influenciado por George Shearing, aos 17 anos já tocava profissionalmente na banda de James Moody. Posteriormente, acompanhou durante um bom tempo a cantora Dinah Washington, além de haver tocado com músicos renomados, como Sonny Stitt e Gene Ammons. Formado em música pela Universidade de Indiana, mudou-se para Los Angeles em 1962. Tocou com Gerald Wilson, Roland Kirk, Johnny Griffin, Roy Ayers, Lee Morgan e Jackie McLean, entre outros.


Dentre seus discos, destaca-se o ótimo “The Two Sides Of Jack Wilson”. Gravado em 1964, para a Atlantic, encontra Wilson secundado pelos ótimos Leroy Vinnegar (baixo) e Philly Joe Jones (bateria). O título decorre do fato de que na época do LP, este álbum continha dois lados distintos: um com temas mais acelerados e outro com temas mais lentos. Inclui gemas de Tadd Dameron (“The Scene Is Clean”), Bud Powell (“Glass Enclousure”) e Michel Legrand (“Once Upon A Summertime”), além de duas composições do líder, as ótimas “Kinta” e “Good Time”. Wilson possui um toque refinado e bastante melódico. Vinnegar e Jones, como sempre, são uma atração à parte. “The End Of A Love Affair”, executada com grande sutileza e criatividade, revela que o pianista ouviu bastante Erroll Garner em seus anos de formação. Uma excelente porta de entrada para conhecer um pouco da arte desse talentoso pianista.


Wilson é reconhecido como um dos mais completos acompanhantes que atuaram entre os anos 60 e 90. Apesar de baseado em Los Angeles, não é tão imediatamente associado à West Coast quanto pianistas como Jimmy Rowles ou Carl Perkins, talvez por haver acompanhado muitos vocalistas em sua carreira – além de Dinah Washington, atuou ao lado de Lou Rawls, Sammy Davis Jr., Eartha Kitt, Sarah Vaughan e do trio Lambert, Hendricks & Ross. Possui um toque elegante e bastante refinado, com ecos de Red Garland, outra influência confessa. Faleceu no dia 05 de outubro de 2007.

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