Estamos nos primeiros dias de novembro de 1963. Após anos de estrada (ele se profissionalizou em um longínquo 1947), Joe Gordon parecia ter, finalmente, encontrado o caminho do sucesso. Com dois discos gravados como líder (“Introducting Joe Gordon”, de 1955, e “Lookin’ Good”, de 1961), além de participações avassaladoras em álbuns como “Some Like It Hot” (de Barney Kessel), “West Coast Blues” (de Harold Land) e “Awakening!!”, (do amigo e parceiro Jimmy Woods, gravado no ano anterior), ele começava a chamar a atenção do público e da crítica, para o seu fraseado altamente energético e seu som melodioso e incisivo.
Aos trinta e cinco anos, vindo de atuações bastante consistentes ao lado de Dizzy Gillespie, Shelly Manne e Thelonious Monk – além de uma breve, porém marcante passagem pelos Jazz Messengers, numa formação que incluía Gigi Gryce e Walter Bishop Jr. – esse verdadeiro musician’s musician caminhava a passos largos para se tornar um dos mais importantes e influentes trompetistas dos anos 60. Mas o destino lhe foi inclemente. Dolorosamente inclemente. E ele jamais teria o reconhecimento que outros músicos da mesma geração – como Miles Davis ou o precocemente falecido Clifford Brown – tiveram.
Mas voltemos um pouco no tempo, a fim de conhecer um pouco da vida e da carreira de Joseph Henry Gordon. Ele nasceu em Boston, Massachussetts, no dia 15 de maio de 1928. Desde muito cedo, o pequeno Joe lego desenvolveu uma especial predileção pelas árias de ópera, cantadas pela mãe, uma cantora amadora. Na adolescência, descobriu o jazz, pelas hábeis mãos do pianista Count Basie, através do qual viria a descobrir a descobrir a sua primeira influência musical: o trompetista Harry “Sweets” Edison.
No início da década de 40, o jovem Gordon assistiu, extasiado, a um concerto de Coleman Hawkins, onde tocavam o saxofonista Don Byas e o trompetista “Little” Benny Harris, que impressionou o rapaz com sua performance incendiária. Matriculou-se, pouco depois, no New England Conservatory e começou a tomar lições de trompete com um renomado professor local chamado Fred Berman. Para sobreviver e pagar as contas, vendia sanduíches nos trens que ligavam Boston a Albany.
Embora tivesse tocado algumas vezes nos clubes e casas noturnas da cidade natal, a primeira oportunidade profissional surgiu em 1947, quando foi convidado para se juntar ao combo do vibrafonista Pete Diggs. Em seguida, aceitou o convite do pianista Sabby Lewis para integrar a sua orquestra e ali conheceu o saxophonista Charlie Mariano, que em 1951 o convidaria para atuar em seu histórico álbum “Boston All-Stars”.
Quando Charlie Parker fez alguns shows em Boston, em Dezembro de 1952, arregimentou alguns músicos locais, como o pianista Dick Twardzik, o baterista Roy Haynes e o próprio Gordon ao trompete (o baixista Charles Mingus completava o quinteto). Tocar com o lendário Bird foi a glória para o jovem trompetista e os concertos, realizados no clube Hi-Hat, seriam lançados em disco apenas muitos anos depois, em 1996, no álbum “Boston 1952”, pela Original Jazz Classics.
A partir daí, o nome de Gordon passou a ser conhecido para além do circuito jazzístico de Boston e trabalho foi o que não faltou ao trompetista. Tocou com Lionel Hampton, Georgie Auld, Don Redman, Benny Carter, Thelonious Monk, June Christy, Art Blakey, Helen Humes e outros. Em 1955 gravou seu disco de estréia, “Introducing Joe Gordon”, ao lado do saxofonista Charlie Rouse, do pianista Junior Mance, do baixista James Schenk e do baterista Art Blakey.
No ano seguinte, foi convidado a integrar a orquestra de Dizzy Gillespie, ao lado de quem excursionou pela Europa, América do Sul e Oriente Médio. No meio do ano, descontente com a falta de oportunidade na banda de Gillespie, Gordon (que também tinha problemas com heroína) resolveu sair da orquestra e atuar como músico freelancer.
Tocou com a orquestra de Herb Pomeroy, em Boston, e integrou, por algum tempo, o combo de Horace Silver, em Nova Iorque. Em 1958 mudou-se para Los Angeles, onde gravou com muitos músicos ligados ao West Coast Jazz, como Shelly Manne (atuou no célebre “Shelly Manne & His Men at the Blackhawk”, Vols. 1 a 5, gravados pela Contemporary em 1959), Russ Freeman, Dexter Gordon, Richie Kamuca, Victor Feldman, Harold Land, Barney Kessel e Scott LaFaro.
Também pela Contemporary, Joe lançou o disco pelo qual merece ser lembrado por todos os amantes do jazz: o extraordinário “Lookin’ Good”. As gravações, com produção de Lester Koenig, aconteceram entre os dias 11 e 18 de julho de 1961 e o resultado surpreende pela enorme qualidade e pelo fabuloso espectro de influências trazidas pelo líder – do bebop à música erudita, passando pelo hard bop e pela música latina.
Para acompanhar o trompetista, foram escalados o underrated Jimmy Woods (saxofonista alto, que tocou com Horace Tapscott, Gerald Wilson e Chico Hamilton), Dick Whittington (pianista pouco conhecido, mas fortemente influenciado por Bill Evans e que atuou como acompanhante de Ernestine Anderson e Dinah Washington, além de ter produzido os concertos da série “Live At Maybeck Recital Hall”), Jimmy Bond (baixista de larga experiência, vindo de atuações com Chet Baker, Art Pepper, Elmo Hope, George Shearing e outros) e Milton Turner (baterista com larga quilometragem, que inclui trabalhos com Ray Charles, Paul Horn, Hank Crawford, Phineas Newborn, Teddy Edwards e muitos outros).
Demonstrando um excepcional talento também do ponto de vista composicional (todas as oito faixas são de sua lavra), Joe Gordon também se revela um músico superior no aspecto da execução, com um domínio técnico impressionante do seu instrumento. Quer ouvir um solo acrobático, digno de um Gillespie ou de um Brown (de quem Gordon era grande amigo)? O que você procura está em “You're The Only Girl In The Next World For Me”. Quer ouvir um som cool, com um trompete assurdinado, típico de um Miles Davis? Então escute “A Song For Richard”.
Abrindo os trabalhos em grande estilo, temos a ótima “Terra Firma Irma”, dedicada à esposa do trompetista. Trata-se de um delicioso hard bop, executado em tempo rápido, com uma interação telepática de Gordon e Woods. Whittington, se não é dos mais conhecidos pianistas do universo, mostra-se bastante à vontade, atacando as teclas com fluidez, desenvoltura e muito swing. Digna de menção também é a fenomenal atuação de Turner, um dínamo de ritmo e vitalidade.
A surdina usada pelo líder em “A Song For Richard” magnetiza o ouvinte, capturando-o pelos ouvidos e pelo coração, neste que é o momento mais emotivo do álbum. Não é propriamente uma balada, mas os ecos de Miles são perceptíveis – cool jazz de primeiríssima linha, à altura do que melhor foi feito no estilo, em qualquer época. Woods emenda um solo delicado e terno, demonstrando ser um saxofonista bastante criativo e melodioso, enquanto o incansável Turner, mais uma vez, dá um show de técnica e versatilidade.
Títulos pouco ortodoxos são uma característica do álbum e “Non-Viennese Waltz Blues” é um dos mais curiosos. A interessante mistura de valsa e blues, à qual se somam elementos de soul jazz e R&B, é um excelente veículo para o virtuosismo de Woods, cujo solo é antológico. Whittington revela um ótimo conhecimento de blues e Gordon atua aqui como um verdadeiro sideman, deixando que seus convidados brilhem à vontade.
A estonteante “You're The Only Girl In The Next World For Me” celebra a volta ao hard bop, de forma bastante efusiva. Woods é um saxofonista de enormes recursos, capaz de extrair do seu instrumentos diversas nuances, ora fazendo-o soar de maneira dócil, ora agressiva. Gordon produz alguns dos solos mais bem elaborados e complexos do álbum, enquanto as irrepreensíveis performances de Bond e Turner mantém a estrutura coesa do quinteto.
A temperatura se mantém elevada em “Co-Op Blues”, na qual, mais uma vez, o fraseado inebriante e articulado do líder faz a diferença, construindo uma miríade sonora plena de beleza e uma boa dose de paixão. Woods, soberbo, intervém de modo mais sóbrio, contrapondo-se de forma quase comedida à exuberância polifônica de Gordon, ao tempo em que a competentíssima sessão rítmica trabalha com a precisão de um relógio suíço.
“Mariana” transita pelos ritmos latinos, mas também remete aos mistérios do Oriente, sobretudo durante o solo de Woods. O trabalho de Turner é espetacular, sendo ele o maior responsável pela diversidade harmônica do tema, mas essa caleidoscópica colagem de ritmos não seria tão rica sem o entusiasmo de Gordon. “Heleen” é outro ponto alto do disco – uma balada ensolarada, porém sensível e de elevado conteúdo emocional, na qual o sopro do líder emula o paradigmático Art Farmer (e com sucesso, diga-se de passagem).
Whittington é o grande destaque de “Diminishing”, faixa que encerra o disco em grande estilo. Seu piano é a força motriz que conduz as atuações de Woods e Gordon, ambas bastante engenhosas. Um álbum que merece ser descoberto e degustado, testamento de um músico de alta personalidade e que possuía aquela qualidade mágica que diferencia um instrumentista competente de um fora de série: uma voz própria. Ouçamo-la, pois, em toda a sua plenitude.
Estamos de volta a 1963. Noite de 03 de novembro. Exausto por mais uma maratona de concertos, Joe Gordon retorna à casa onde morava, em Venice, Califórnia. Deita-se na cama e acende um cigarro para relaxar – o último que fumaria em sua vida. O corpo cansado o traiu: ele deixou que a ponta acesa do cigarro caísse sobre a cama. Levado às pressas para o Hospital de Santa Mônica, Gordon não resistiu. O incêndio pôs fim à vida e à carreira de um dos mais promissores trompetistas da época e, no dia 04 de novembro, ele faleceu, em decorrência dos graves ferimentos provocados pelas chamas.
