Donald Byrd nasceu com o aristocrático nome de Donaldson Toussaint L'Ouverture Byrd II, no dia 09 de dezembro de 1932, na cidade de Detroit. Filho de um pastor metodista que também era músico amador, sua trajetória assemelha-se a de muitos outros jazzistas: recebe as primeiras lições de música no ginásio, muito cedo chama a atenção de uma lenda viva do jazz (no caso, Lionel Hampton, com quem chegou a se apresentar em um show em sua cidade natal), cumpre um período sabático nas forças armadas (onde, obviamente, fez parte da banda da Força Aérea) e, finalmente, se muda para Nova Iorque, em 1955.
Na Meca do Jazz, o trompetista não demora a firmar sua reputação como um dos mais confiáveis acompanhantes do mercado, sendo logo chamado a integrar os Jazz Messengers, substituindo o ídolo Clifford Brown. A partir de 1956, após deixar o célebre combo de Art Blakey, Byrd constrói um impressionante cartel de concertos e gravações com músicos como Max Roach, John Coltrane, Kenny Drew, Jackie McLean, Paul Chambers, Hank Mobley, Thelonious Monk, Kenny Clarke, Lou Donaldson, Red Garland, Phil Woods, Mal Waldron e Horace Silver.
Em uma de suas associações mais celebradas, fundou o Jazz Lab Quintet, ao lado do saxofonista Gigi Gryce. O grupo lançou alguns álbuns interessantes, mas teve uma vida bastante fugaz, entre 1957 e 1958, e seus líderes logo se separaram para se dedicar a outros projetos. Byrd então juntou forças ao velho amigo de Detroit, Pepper Adams, com quem levou adiante uma parceria das mais profícuas. Foram diversos álbuns lançados pela Blue Note entre 1958 e 1961 (quando a parceria foi amigavelmente desfeita) e todos são de altíssimo nível.
Um dos frutos mais estupendos da parceria Byrd-Pepper veio ao mundo no dia 31 de maio de 1959. “Byrd In Hand” foi o segundo álbum do trompetista para a Blue Note e da memorável sessão participaram, além do velho amigo de Detroit, Charlie Rouse no sax tenor, Walter Davis Jr. no piano, Sam Jones no contrabaixo e Art Taylor na bateria.
Dois motivos fazem com que o jazz tenha para com Byrd uma enorme dívida de gratidão: primeiro, porque foi ele quem descobriu o talento estelar de Herbie Hancock e o levou para sua banda; segundo, porque ele é o autor da extraordinária “Here Am I”, uma das composições mais arrebatadoramente belas de todos os tempos e que foi lançada neste álbum.
O disco é bastante homogêneo e reflete a enorme cumplicidade ente Byrd e Pepper, calcada no respeito mútuo e na comunhão entre concepções musicais semelhantes. O sopro viril e musculoso do trompetista se casa muito bem com o som encorpado e grave do sax barítono, proporcionando momentos de puro deleite - é o que se costuma definir como um casamento musical perfeito.
“Witchcraft”, composição de Cy Coleman e Carolyn Leigh eternizada por Frank Sinatra, é reelaborada de maneira bastante criativa, com a dupla Jones e Taylor atuando com uma coesão singular, tingindo essa balada com uma discreta textura de blues e liberando Davis, Byrd, Pepper e Rouse para que cometam ótimos solos.
“Here Am I” é uma jóia preciosíssima, apta a figurar na galeria dos maiores clássicos do jazz, como “Four”, “Daahoud”, “Oleo”, “Blue Train”, “Epistrophy”, “Confirmation”, entre outras mais. Uma canção impressionista, climática, insinuante, lírica, cheia de alternâncias harmônicas que inebriam os ouvidos e fazem com que quem a ouça não consiga concentrar sua atenção em outra coisa, até o fim de seus 8min26seg de beleza em estado puro. Destacar um único músico ou um único solo seria injusto com os demais – é um daqueles momentos tão sublimes, onde a integração entre os músicos é tão intensa e perfeita, que as palavras se tornam insuficientes ou inúteis. É ouvir para crer!
Davis, que além de habilíssimo pianista também é um compositor de mão cheia, contribui com duas músicas: “Bronze Dance” e “Clarion Calls”. A primeira é um engenhoso hard bop de contornos latinos, assentado sobre a pulsante bateria de Taylor. O portentoso sopro de Pepper é responsável por grandes momentos e Rouse, demonstrando a sua enorme capacidade como solista, presenteia o ouvinte com um solo nada menos que magistral. A segunda é bastante melódica, envolvente, centrada no diálogo entre o líder e Pepper.
Duas outras composições do trompetista completam o set. Na acelerada “Devil Whip”, ecos de Parker e dos mestres da Rua 52, em um bebop consistente e desafiador. A atuação do trompetista é soberba – uma combinação muito feliz de técnica e inventividade. Em “The Injuns”, baseada no clássico “Cherokee”, Byrd paga tributo aos primeiros habitantes dos Estados Unidos, adotando em algumas passagens uma batida quase tribal, bastante distinta e inteligente. Rouse constrói um solo arrasador e a sessão rítmica, como de praxe, atua simbioticamente. Um disco altamente recomendável e bastante representativo de um artista com uma folha de excelentes serviços prestados ao jazz e um dos seus mais bem dotados improvisadores.
Diga-se, ainda, que Byrd se destaca de boa parte dos seus pares por conta da educação formal – é graduado em música pela Wayne University e possui mestrado pela Manhattan School Of Music e doutorado pela Columbia Teachers College, além de ser formado em direito e em administração. Também possui uma sólida carreira como educador musical, tendo sido professor em diversas universidades e fundado o Departamento de Música Negra da Howard University. Em 1962 passou algum tempo na França, estudando com a célebre compositora Nadia Boulanger e esse convívio influenciou o trompetista a lançar o aclamado “A New Perspective”, um curioso mix de elementos do gospel, do jazz e da música erudita, com direito a coral e tudo.
Nos anos 70 aderiu à corrente fusion, lançando vários, e comercialmente muito bem sucedidos, álbuns sob esse formato. Recebeu muitas críticas por sua opção, mas pode se orgulhar de ter sido o primeiro músico do cast da Blue Note a vender mais de um milhão de cópias de um disco (“Black Byrd”, de 1972). Em 1974 criou o grupo Blackbyrds, também dedicado ao fusion e integrado por alguns de seus melhores alunos, que gozou de bastante sucesso na época.
Afastou-se dos palcos e estúdios no início dos anos 80, para se dedicar exclusivamente à advocacia e ao ensino, mas a partir de 1987, com o lançamento de “Harlem Blues”, retornou à vida artística, tocando com Joe Henderson, Kenny Garrett e com um companheiro dos tempos de Detroit, o guitarrista Kenny Burrell. A partir de então, seus álbuns voltaram ao bom e velho hard bop, mas não deixou de dialogar com estilos mais comerciais, como o funk e o rap (chegou a excursionar com o rapper Guru).
O trompetista também costuma se apresentar em festivais pelo mundo e não pensa em aposentadoria, ainda mais que agora pode ser chamado, literalmente, de “Jazz Master” – em 2000 foi agraciado com a mais prestigiosa honraria concedida aos músicos de jazz pela The National Endowment For The Arts. Fly away, big Byrd.


