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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O ELEGANTE MESTRE DO CONTRABAIXO



Reverenciado no meio musical como um dos mais refinados, versáteis e influentes contrabaixistas da história do Ron Carter é como vinho de ótima safra: a cada ano que passa ele parece tocar ainda melhor. Poucos músicos participaram de tantas gravações quanto Carter – estima-se que tenha atuado em cerca de 2.000 delas – o que o torna o baixista mais requisitado do jazz, ultrapassando os veteranos Milt Hinton e George Duvivier, cujas atuações nos estúdios também chegam à casa dos milhares.

Nascido no dia 4 de maio de 1937, em Ferndale, estado do Michigan, este notável instrumentista, arranjador, compositor, educador e regente teve o seu interesse pela música despertado aos dez anos de idade, quando iniciou os estudos do violoncelo. Algum tempo depois, mudou-se com a família para Detroit, onde deu continuidade aos estudos na Cass Technical High School.

Após a conclusão do ensino médio, matriculou-se na Eastman School of Music, tendo feito parte da orquestra filarmônica daquela instituição. Graduou-se bacharel em 1959, com apenas 22 anos e até então se dividia entre a música erudita e o jazz. Ainda naquele, casou-se com a professora de literatura e ativista Janet C. Carter, que no futuro seria fundadora e curadora do Studio Museum, no Harlem.

Carter era bastante consciente das dificuldades e do preconceito racial que enfrentaria para se consolidar como músico erudito. No final dos anos 50, uma conversa que teve com o temperamental regente inglês Leopold Stokowsky acabou por encaminhá-lo definitivamente em direção ao jazz. O maestro, que na época comandava a Orquestra Sinfônica de Houston, disse-lhe certa vez, após ouvi-lo tocar: “Rapaz, você toca contrabaixo maravilhosamente bem. Mas eu trabalho em Houston e a minha orquestra jamais o contrataria”.

Em 1960, mudou-se para Nova Iorque, onde fez mestrado em performance de contrabaixo, na Manhattan School of Music, obtendo o título de mestre no ano seguinte. Para se manter, Carter começou a atuar como sideman do pianista Jaki Byard e do baterista Chico Hamilton, além de Eric Dolphy (com quem fez as suas primeiras gravações) e do trompetista e bandleader Don Ellis.

Ao mesmo tempo, foi se consolidando como um dos mais confiáveis músicos de estúdio, registrando participações em discos de Randy Weston, Bobby Timmons, Thelonious Monk, Wes Montgomery e Cannonball Adderley. Seu primeiro disco como líder, “Where?”, foi gravado em 1961, para a Prestige, e apresenta Carter dividindo-se entre o contrabaixo e o violoncelo. O álbum conta com as participações de Eric Dolphy, Charles Persip, George Duvivier e Mal Waldron.

Em 1963, Carter assumiu o contrabaixo na banda do trompetista Art Farmer e, nessa posição, despertou o interesse de Miles Davis, que na época estava montando um novo grupo. Convidado por Davis, Carter disse que só sairia da banda se o patrão concordasse com a sua saída. Miles não se fez de rogado e conseguiu convencer Farmer a liberar o baixista.

O quinteto de Davis, do qual Carter fez parte, é considerado um marco na história do jazz. Além do baixista e do líder, o time era completado por Herbie Hancock, Tony Williams e George Coleman (posteriormente substituído por Wayne Shorter). À frente desse grupo, um dos combos mais influentes de todos os tempos, Miles lançou álbuns espetaculares, como “E. S. P.” (1965), “Miles Smiles” (1966) e “Nefertiti” (1967). Daquela época, ele guarda apenas boas recordações: “Sabíamos que estávamos criando algo diferente do que todos os outros músicos faziam naquele momento, mas ainda não tínhamos idéia do nível (de qualidade) daquela música”

O elegante Carter jamais tornou pública qualquer desavença que possa ter tido com Miles. Ao contrário, suas palavras em relação ao temperamental trompetista são sempre elogiosas, tendo declarado em uma entrevista recente: “Jamais tive algum tipo de problema com Miles, que sempre foi um bom amigo. Eu adorava tocar com ele e, com certeza, todos sentiam um enorme prazer em tocar naquele quinteto. Tivemos muita sorte ao sermos escolhidos para tocar com um músico tão especial. Miles foi capaz de perceber que poderíamos levar sua música na direção que ele desejasse.”

E os elogios não param por aí. Em outra oportunidade, Carter se manifestou nos seguintes termos: “Suponha que você trabalhe num laboratório cujo cientista responsável pedisse para você criar uma fórmula diferente por dia. Com Miles, era assim. Ele nos dava espaço para criar e fazer experimentações a cada noite. E deve ter gostado muito do meu trabalho, pois nunca chamou minha atenção”.

A parceria com Davis se encerraria em 1968, quando Carter resolveu se dedicar a outros projetos, deixando em seu lugar um jovem contrabaixista inglês chamado Dave Holland. Apesar de não ser mais um membro efetivo da banda de Miles, Carter ainda participaria de mais algumas gravações com o ex-patrão nos anos seguintes, geralmente tocando contrabaixo elétrico, embora o instrumento nunca tenha sido o seu preferido.

A separação se deu por motivos eminentemente musicais e os dois continuaram amigos. Carter revela que “aquele tipo de música não me interessava. Não havia nela algo que eu sentisse que poderia contribuir para eu me tornar um músico melhor”. Ademais, continua o baixista, “a banda de Miles estava viajando muito e, depois de passar cinco anos na estrada, achei que já estava na hora de ficar mais em casa, para ver meus filhos crescerem. Além disso, já havia muitas sessões de gravação em Nova York, onde eu teria a chance de ganhar a vida, ficando ao lado de minha família”.

No início dos anos 70, Carter acumulou as funções de produtor e diretor artístico da CTI Records, companhia fundada por Creed Taylor. Ali, lançou vários álbuns em seu próprio nome e atuou em dezenas de gravações acompanhando artistas como Wes Montgomery, Herbie Mann, Paul Desmond, George Benson, Milt Jackson, Jim Hall, Nat Adderley, Antonio Carlos Jobim, J. J. Johnson, Kai Winding, Eumir Deodato, Esther Phillips, Freddie Hubbard, Stanley Turrentine, Kenny Burrell, Chet Baker, Herbie Hancock e uma infinidade de outros.

Ainda naquele período, entrou para o departamento de música do City College of New York, onde lecionaria por mais de duas décadas, aposentando-se no cargo de Professor Emérito. Dentre os seus alunos mais célebres, estão os hoje celebrados David Wong (da banda de Jimmy Heath), David Williams (que substituiu o próprio Carter no Sweet Basil Trio, liderado pelo pianista Cedar Walton), Victor Bailey (que substituiu o “insubstituível” Jaco Pastorius no Weather Report) e Larry Grenadier (baixista do trio de Brad Mehldau).

Carter participou de diversos projetos ou grupos allstar, como o New York Jazz Sextet, o New York Jazz Quartet, o V.S.O.P. Tour (integrado pelos ex-membros do quinteto de Miles Davis Herbie Hancock, Tony Williams e Wayne Shorter, com Freddie Hubbard assumindo o trompete), o Great Jazz Trio (sob a liderança de Hank Jones em uma formação que incluía Tony Williams na bateria) e o Milestone Jazzstars. O baixista também participou das trilhas sonoras dos filmes “Round Midnight”, de 1986, e “Bird”, de 1988.

A lista de nomes com os quais Carter tocou é gigantesca e inclui luminares como Tommy Flanagan, Gil Evans, Yusef Lateef, Bill Evans, Cecil Payne, Dexter Gordon, Benny Golson, Sonny Rollins, Billy Cobham, Stan Getz, Coleman Hawkins, Joe Henderson, Horace Silver, Shirley Scott, Helen Merrill, Dizzy Reece, Houston Person, Junior Mance, Red Garland, Sadao Watanabe, Sam Rivers, Lee Morgan, McCoy Tyner, Freddie Hubbard, Cedar Walton, Jim Hall, Lou Donaldson, George Duke, Chick Corea, Lena Horne, Luiz Bonfá, Joe Henderson, Barry Harris, Oliver Nelson, Woody Shaw, Andrew Hill, Duke Pearson, Gary Bartz, Quincy Jones e Aretha Franklin, apenas para citar alguns.

Além do violoncelo e do contrabaixo convencional, muitas vezes Carter utiliza sua técnica impecável para tocar o contrabaixo piccolo, instrumento que possui uma sonoridade mais aguda e menos encorpada. Em suas aparições como líder Carter, freqüentemente, incorpora outro contrabaixista a seu grupo, a fim de assegurar uma base rítmica mais sólida.

Versátil como poucos, o baixista consegue se adaptar a qualquer contexto, indo da soul music de Roberta Flack ou do rock do Jefferson Airplane, passando pela bossa nova de Astrud Gilberto e chegando ao hip hop da banda A Tribe Called Quest. Sobre o fato de ser um dos músicos mais requisitados do planeta é encarado por ele com muito bom humor: “Às vezes eu me surpreendo com o fato de artistas e bandas famosas saberem que eu ainda estou vivo”.

E mesmo sendo tão respeitado, Carter não perde a humildade: “Toda vez que músicos como Paul Simon ou Aretha Franklin me chamam para participar de seus projetos, eu me sinto muito agradecido. É ótimo saber que James Brown ou a banda Kiss, para a qual gravei com um naipe de cordas, pensaram que eu poderia contribuir para que seus projetos musicais fossem bem sucedidos.”

Sempre conciliando o trabalho como sideman, com a liderança de seus próprios conjuntos, Carter vem construindo, nos últimos quarenta anos, uma alentada obra, que se encontra espalhada em selos como Atlantic, CTI, Milestone, Timeless, EmArcy, Galaxy, Somethin’ Else, Elektra, Concord, Prestige e Blue Note, sendo que em alguns discos ele se dedica ao repertório clássico, interpretando peças de Bach, Grieg e Ravel.

Uma pequena jóia se esconde no meio dessa discografia repleta de álbuns premiados, como “All Blues” (CTI, 1973) ou “Dear Miles” (Blue Note, 2007). Trata-se de “Third Plane”, um disco pouco badalado, mas que traz a arte superior de Carter em toda a sua plenitude. Acompanhado pelos velhos parceiros Herbie Hancock ao piano e Tony Williams na bateria, o disco foi lançado pela Milestone e as gravações ocorreram em uma única sessão, no dia 15 de julho de 1977, em San Francisco, na Califórnia. Para que se tenha uma idéia da qualidade do material, basta dizer que os rigorosos Richard Cook e Brian Morton qualificam o álbum como “a mais impressionante aparição de Carter como líder”.

A faixa que dá nome ao disco, e que também abre os trabalhos, é uma composição do líder. Trata-se de uma curiosa valsa-bop, com uma batida que em algumas passagens lembra a estrutura sincopada do nosso samba – cortesia do sempre inventivo Williams. Atenção para o trabalho de Hancock, que cria as chamadas “patterns” (repetições sucessivas de acordes) com extrema perícia. O baixista trafega pelos registros mais graves do seu instrumento, despejando uma sonoridade que o mestre Luiz Orlando Carneiro chama de “ressonante e oblonga”.

“Quiet Times”, também de autoria de Carter, é uma balada de contornos impressionistas. Sua melodia é pouco convencional, dissonante, quebradiça e repleta de alternâncias. O líder tem uma atuação antológica, investigando minuciosamente todas as possibilidades harmônicas do contrabaixo, equilibrando-se entre o classicismo de Milt Hinton ou Oscar Pettiford e a abordagem ousada de seus contemporâneos Gary Peacock ou Charlie Haden. Williams e Hancock fazem a ancoragem rítmica com sutileza e discrição.

Williams contribui com a vibrante “Lawra”, a mais animada do disco. É um bebop contemporâneo, com algumas passagens assimétricas, que lembram os temas complexos de Wayne Shorter, outro egresso do célebre quinteto de Miles. O baterista produz aqui alguns dos seus solos mais empolgantes, e a interação entre os três se dá ao nível do inconsciente, em um exercício de telepatia que junta intuição e técnica em doses formidáveis.

Único standard do disco, “Stella By Starlight” ganha uma interpretação introspectiva, com direito a uma atuação soberba de Hancock. O pianista enfatiza os aspectos melódicos com enorme sensibilidade e lirismo, sublinhando as passagens mais densas com uma primorosa utilização dos registros agudos. Carter agrega profundidade ao tema, enquanto Williams se mostra um verdadeiro mestre com as escovas.

Terceira composição de Carter incluída no álbum, “United Blues” é uma subversiva releitura dos cânones do blues, com um leve flerte com o jazz de vanguarda. Os solos do líder são vigorosos e fluentes, merecendo atenção também as luxuriantes intervenções de Hancock e a percussão repleta de nuances de Williams.

Em “Dolphin Dance”, uma das mais belas composições de Hancock, o trio cria uma atmosfera onírica e envolvente, perpetrando um verdadeiro tributo à elegância e à sobriedade. O contrabaixo musculoso do líder se curva à languidez da melodia e derrama acordes de genuína emoção. Um encerramento à altura do disco, que “apresenta excelentes solos de contrabaixo e onde tudo faz sentido, sendo muito bem construído e executado”, nas palavras dos já citados Richard Cook e Brian Morton.

Além do jazz e da música erudita, Carter é um apaixonado pela música brasileira, tendo tocado com dezenas de artistas brasileiros, como Hermeto Pascoal, Flora Purim, Milton Nascimento, Airto Moreira, Rosa Passos e os já citados Tom Jobim, Luiz Bonfá e Astrud Gilberto. A paixão pelo Brasil é tanta que no encarte do disco “The Golden Striker” o baixista veste uma camisa do Botafogo, além de ter dedicado um álbum inteiro, “Orfeu” (Blue Note, 1999), à música brasileira. Para o baixista, “se alguém do Brasil ligar para mim agora, querendo que eu contribua com seu projeto, ficarei muito feliz se puder participar.”

Ao longo da carreira, Carter tem recebido uma infinidade de prêmios, além de ter vencido, sistematicamente, as eleições para “melhor baixista do ano” promovidas por revistas especializadas como a Down Beat e a Metronome. Já chegou a ser considerado “The Most Valuable Acoustic Bass Player”, pela National Academy of Recording Arts and Sciences e recebeu a denominação de “Outstanding Bassist of the Decade”, pelo jornal Detroit News.

Ele também exerceu, durante vários anos, o cargo de diretor artístico do Thelonious Monk Institute of Jazz Studies. O título de Jazz Master, maior honraria a que um músico de jazz pode aspirar, lhe foi concedido pela NEA - National Endowment for the Arts em 1998. Carter também recebeu do governo da França o título de “Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras”, a mais importante comenda na área artística daquele país.

Carter abocanhou vários prêmios Grammy. O primeiro deles foi em 1993, na categoria “Best Jazz Instrumental Group”, quando integrava o Miles Davis Tribute Band. Em 1998 foi a vez de receber o prêmio de melhor composição, para “Call ‘Sheet Blues”, que acabou incluída na trilha sonora do filme “Round Midnight”, de Bertrand Tavernier. O baixista também barticipou da trilha de outro filme dirigido pelo francês, “The Passion of Beatrice”.

“Haraka” (1980), dirigido pelo nigeriano Ola Balogun e “A Gathering of Old Men” (1987), estrelado por Richard Widmark, Holly Hunter e Louis Gossett Jr. são outros trabalhos cinematográficos que contam com a participação de Carter em suas respectivas trilhas. Ele também realizou trabalhos para a TV, podendo ser ouvido na trilha sonora da série “Twin Peaks”, do cultuado diretor David Lynch.

Na área da educação musical, seus livros “Building Jazz Bass Lines”, “Comprehensive Bass Method” (este na area da música erudite), “Ron Carter’s Bass Lines” e “The Music of Ron Carter” (que contém partituras de cerca de 130 de suas composições. Em 2004, o baixista recebeu o doutorado honorário da tradicional Berklee College of Music, juntando-se a outros títulos da mesma natureza, concedidos pelo New England Conservatory of Music e pela Manhattan School of Music.

Outra premiação outorgada por uma instituição de ensino de renome foi o “Hutchinson Award”, concedido em 2002 pela University of Rochester. Desde 2008 ele exerce a função de professor de contrabaixo na Juilliard School, em Nova Iorque. Em 2009, lançou a sua autobiografia, “Ron Carter: Finding the Right Notes” (Artist Share), escrita em parceria com o jornalista Dan Oullette.

Para V. A. Bezerra, do site Ejazz, as principais características do instrumentista Ron Carter seriam “som encorpado, rico timbre “de madeira”, afinação perfeita, improvisos bem desenvolvidos e swing impecável”. Carlos Calado observa que “diferentemente da maioria dos baixistas, que se limitam a marcar o ritmo com notas básicas, ele é um solista criativo, que usa esse instrumento para improvisar”.

Carter reverencia a tradição, mas com o olhar voltado para o futuro e sempre sob uma perspectiva coletivista. Embora seja um excepcional solista, ele é incapaz de sacrificar a harmonia do grupo e jamais utiliza o seu assombroso talento para ter mais visibilidade que seus companheiros de banda. Essa postura fica bastante evidente quando ele descreve a importância do jazz em sua vida: “Essa é a música que eu sempre quis tocar. O jazz permitiu que eu pudesse participar de muitos trabalhos, nesses anos todos, tocando com pessoas das quais acabei me tornando amigo. É um privilégio poder tocar boa música todas as noites

O Brasil tem sido parada obrigatória para as apresentações do baixista nas últimas décadas. A última vez em que esteve em nosso país foi em outubro deste ano, liderando o quarteto Foursight, do qual fazem parte a pianista canadense Renée Rosnes, o baterista Payton Crossley e o percussionista Rolando Morales-Matos. O grupo se apresentou no Sesc Pinheiros, em São Paulo, durante quatro noites, sempre com casa lotada. O repertório foi baseado no álbum “Dear Miles” (Blue Note, 2007), e incluiu standards como “My Funny Valentine” e “Bye Bye Blackbird”, alguns dos temas preferidos de Miles Davis.

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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O PROFETA ESCARNECIDO


 
Seus olhos estão fixos sobre as águas caudalosas

O gosto do pão dormido permanece em sua língua

E suas gengivas ardem como uma antiga fornalha

Os olhos brilham e a bruma distorce as velas dos barcos

Que passam ao longe

Os barcos estão distantes,

Mais distantes que a pequena cidade onde ele nasceu

Ele não desejava a coroa de espinhos,

Nem reinos deste ou de outro mundo

Queria viajar e ver o mar

Ouvir o ruído avassalador das ondas...

A liberdade foi conseguida a fórceps,

Dentro do olho do furacão,

Sentiu o hálito perverso da fera

Havia dezenas delas em cada esquina

Mas ele não se importava

Bêbado de luz, dançava ao som dos passarinhos

E seu corpo vibrava sob a luz prateada da lua

Não há ninguém para dizer adeus

E nenhum lugar é longe demais para seu passo tranqüilo

Recusou todos os futuros brilhantes

Que outros imaginaram para ele

E mesmo perseguido e caluniado,

Mantinha a leveza dentro de si

Não perdia a sobriedade quando lhe atiravam pedras

E continuava a dança pagã,

Tendo a lua como única testemunha

O claustro foi-lhe como uma lufada de ar essencial

O enleio da aurora furta-cor fustigava-lhe a memória

Ele esperava pelas manhãs enquanto os dias pareciam não ter fim

O tempo reluzia, mas era uma luz de eterno mistério

O tempo era um catre deserto

E ele se sentia solitário como o campônio

Que se enamora da estrela mais longínqua...

Caminhou por montanhas e por vales,

Bebeu nuvens como se fora um sonho

Venceu pelo cansaço aqueles que o queiram um mártir,

Não era líder de ninguém,

Não arrebatava multidões

Não tinha nome, mas aprendeu a ler

E a palavra se fez sua amiga e confidente

A selvageria foi sua única professora

E a névoa do crepúsculo esculpiu-lhe o rosto de pedra

Seu riso era turbulento e só as estrelas pareciam entendê-lo

Enquanto a espuma do mar lambia sua face

Com a docilidade de um cão

Dividiu o pão adormecido com os fracos e os doentes

E passava horas a fitar o horizonte escorregadio,

Uma vez pediram-lhe conselhos

Mas ele não os tinha para dar

Escarneceram dele, mas continuou a cultivar seu jardim,

A música era bálsamo

E dava sentido às cores e às formas

Acariciava o cachorro adormecido

E lia sonetos que falavam sobre o mar

Ignorava a razão cartesiana

Preferia a singeleza das hortas cultivadas

Dos choupos insubmissos

Campo e litoral eram seus paraísos

E não mais havia o rosto dela para perturbá-lo

A luz provinha do mar e não do sol,

Do rio e não dos lampiões...

Ele era belo em sua imperfeição...

Seus olhos continuam fixos sobre as águas caudalosas

E o gosto do pão dormido ainda permanece em sua língua...

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Considerado um dos principais operários do hard bop, o saxofonista Herman “Junior” Cook é hoje um nome pouco lembrado.  Nascido em Pensacola, na Flórida, no dia 22 de julho de 1934, travou desde cedo contato com o meio musical, pois o pai e o irmão mais velho eram trompetistas. Iniciou-se na profissão tocando em bandas de R&B da cidade natal e seus primeiros ídolos eram Wardell Gray, Sonny Rollins e Sonny Stitt.

Estimulado pelo conterrâneo Gigi Gryce, Junior mudou-se para Nova Iorque em 1957, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Seu primeiro emprego foi na banda da contrabaixista Gloria Bell, com quem permaneceu de julho a dezembro daquele ano. No início de 1958 ganhou alguma visibilidade por conta do seu trabalho com Dizzy Gillespie.

Naquele mesmo ano, foi contratado por Horace Silver para integrar o seu célebre quinteto, um dos mais badalados dos anos 50 e 60. Silver conta como foi o encontro com Cook: “eu estava tocando em Baltimore e fui a Washington assistir a um concerto de Lou Donaldson. Cook também estava na cidade, tocando com uma banda de rock que se apresentava no Howard Theater. Naquela noite, estávamos os dois no clube onde Lou tocava e ele nos convidou para subir ao palco. Eu ainda não conhecia Cook e ouvi-lo foi uma agradável surpresa para mim”.

Quando o saxofonista Clifford Jordan deixou a banda de Silver, o pianista lembrou-se de Cook e não hesitou em chamá-lo para seu quinteto. Juntamente com o amigo Blue Mitchell, outro músico nascido na Flórida, Cook foi um dos principais responsáveis pela sonoridade funky, vibrante e agressiva de Silver. Seu sopro poderoso está presente em alguns dos melhores álbuns do pianista, como “Blowin’ the Blues Away” (1959), “Horace-Scope” (1960), “Tokyo Blues” (1962) e “Silver’s Serenade” (1963), todos da Blue Note e sua performance na banda levou o crítico John Tynan, da Down Beat, a descrever Cook como “um solista intenso e imaginativo, um artífice que não tem pressa em elaborar as suas construções musicais, sempre repletas de sentido.”

A parceria com Silver se dissolveu em 1964, quando Cook decidiu se unir a Blue Mitchell, que havia deixado a banda para montar seu próprio quinteto. A saída dos dois se deu maneira tranqüila e Cook foi substituído por Joe Henderson, com quem havia dividido um apartamento no início da década de 60. Interessante é que os dois – Cook e Henderson – participaram das gravações de “Song For My Father” (1964), o álbum mais bem sucedido, comercialmente falando, do pianista.

Silver recorda com carinho a época em que Mitchell e Cook atuaram em sua banda: “Nós amávamos muitos uns aos outros, tínhamos uma incrível afinidade musical e adorávamos tocar juntos. Uma das razões pelas quais permanecemos juntos por tanto tempo e fizemos registros memoráveis ​​é que era uma banda muito entrosada. Eu tive outras bandas, onde havia excelentes músicos, mas este grupo em particular era fantástico. Eles podiam tocar tudo, bebop, funk, blues, baladas. Os caras eram perfeitos em sua abordagem musical”.

A união com Mitchell também foi bastante longa e frutífera, rendendo discos clássicos como “The Thing To Do” (1964), “Bring It On Home To Me” (1965), “Down With It” (1965) e “Boss Horn” (1966), lançados pela Blue Note. A dupla se separou em 1969 e Cook partiu para o trabalho como freelancer, embora tenha liderado seus próprios grupos. O ambiente musical, todavia, era bastante desfavorável a um músico tão ligado ao hard bop, pois o mundo do jazz gravitava, então, basicamente em torno do chamado free jazz, vertente com a qual o saxofonista jamais teve qualquer identificação.

Não obstante, Cook se manteve como um disputado sideman, tendo participado de gravações sob a liderança de Kenny Burrell, Dave Bailey, Freddie Hubbard, Big John Patton, Elvin Jones, Barry Harris, George Coleman, Louis Hayes, Kenny Drew, Steve Turre, Larry Gales, Cedar Walton, Bill Hardman, Louis Smith, McCoy Tyner e muitos outros. Por outro lado, sua discografia como líder é bastante esparsa, com trabalhos para Jazzland, Catalyst, Muse e SteepleChase.

Durante a década de 70, Cook deu aulas na Berklee School of Music, em Boston. Na década seguinte, sua parceria mais duradoura foi com o trompetista Bill Hardman, outro egresso das hostes de Horace Silver. No início dos anos 90, Junior co-liderou um quinteto com o saxofonista Clifford Jordan, mas jamais obteve o reconhecimento merecido.

Desencantado com o meio musical e fortemente deprimido, o saxofonista morreu no dia 03 de fevereiro de 1992, sozinho, em seu apartamento em Nova Iorque. A causa da morte não foi revelada pela família. Para o crítico britânico Richard Cook, seu xará norte-americano era “um músico nem um pouco ambicioso, que dominava com autoridade o seu ofício e que estava sempre disposto a olhar mais além. Sua sonoridade residia em algum ponto entre Dexter Gordon e Joe Henderson”.

Um dos seus raros momentos como líder pode ser conferido no disco “Junior’s Cookin’: The Junior Cook Quintet Featuring Blue Mitchell”. Trata-se do primeiro disco em seu próprio nome, lançado pela Jazzland, com produção de Orrin Keepnews e Russell Jacquet. As gravações foram feitas em duas sessões, sendo que a primeira foi realizada no dia 10 de abril de 1961, em Long Beach, Califórnia, no Gold Star Studio, do produtor Phil Spector. A segunda ocorreu no dia 04 de dezembro do mesmo ano, em Nova Iorque.

Ao lado de Cook, além do amigo Mitchell, estavam o contrabaixista Gene Taylor, o baterista Roy Brooks e os pianistas Ronnie Mathews e Dolo Coker. O álbum abre com a misteriosa “Myzar”, hard bop musculoso que possui um indisfarçável acento oriental. Composta por Roland Alexander, a faixa apresenta o sofisticado piano de Mathews em um estimulante duelo com os sopros. A afinidade entre o líder e o trompetista é mais que evidente e seus solos possuem uma vitalidade e uma energia contagiantes.

“Turbo Village”, de Charles Davis, dá outra poderosa amostra dos predicados de Cook. Improvisador inteligente e lúcido, ele é um perito nos tempos rápidos, inflamando a sessão com um sopro luxuriante e fluido. Inspirado pelo amigo, Mitchell se mostra particularmente explosivo e suas intervenções são como furiosas lâminas sonoras, com direito a uma breve, porém tórrida, citação a “Woody N’ You”, de Dizzy Gillespie. O metrônomo Brooks dita o ritmo com precisão enquanto Mathews imprime pitadas de blues ao tema.

Em “Easy Living”, balada de Leo Robin e Ralphf Reigner imortalizada por Billie Hollyday, pode-se perceber o lado lírico e sensível de Cook. Adotando uma sonoridade tranqüila e relaxada, ele se mostra um ótimo executante de baladas. Acompanhante seguro, Mathews elabora uma ancoragem melódica refinada, à altura da execução do líder. Mitchell aparece apenas na parte final do tema e sua breve intervenção acrescenta um discreto brilho à faixa.

“Blue Farouq”, de Mitchell, traz Dolo Coker ao piano e é a primeira das três faixas em que o pianista participa. Trata-se de um blues intenso e caudaloso, com atuações memoráveis de Coker, cuja abordagem calcada nos registros mais graves remete ao grande Red Garland, e de Mitchell. Seu trompete é ácido, estridente, furioso, indomável. O saxofone robusto do líder é responsável por improvisos surpreendentemente relaxados, que contrastam com a velocidade impressa pelo trompetista.

“Sweet Cakes” possui alguns elementos de música afro-caribenha em sua introdução, mas progride como um hard bop vigoroso. Mitchell, autor do tema, tem amplo espaço para solar e o faz com a perícia de sempre. O piano volátil de Coker alinhava os acordes com energia e convicção, misturando-os com a poderosa percussão de Brooks. Os solos do líder rivalizam, em consistência e inventividade, com o que de melhor fizeram seus contemporâneos – e, de alguma forma subestimados – George Coleman, Clifford Jordan e Hank Mobley.

“Field Day” é uma composição de Coker e possui uma atmosfera alegre, sendo quase uma fanfarra. O pianista é o responsável pela contagiante introdução e pelos riffs infecciosos que tornam o tema irresistível. O líder tem uma atuação ousada e constrói frases velozes, mas sempre muito articuladas. Mitchel também se mostra bastante à vontade, catapultando os agudos do seu trompete à estratosfera.

A ensolarada “Pleasure Bent” promove a volta de Mathews ao piano e encerra o disco em altíssimo astral. Apesar da voltagem elevada, em momento algum o pianista tenta soar como Horace Silver ou copiar-lhe o estilo percussivo. A solidez da sessão rítmica, que ainda por cima garante a Taylor seu único solo em todo o disco, permite a Cook e a Mitchell mais uma formidável exibição de sincronia e entrosamento, numa relação sinergética onde o resultado final é bem mais notável que a mera soma das partes.

Um disco despretensioso e extremamente bem realizado, que mereceu do crítico Jim Todd, do site Allmusic, a seguinte observação: “Embora não seja uma audição obrigatória, é um set honesto e bastante satisfatório, que traz Cook e Michell, figuras de ponta no desenvolvimento do hard bop, em ótima forma”. Não é à toa que o bem-humorado Ira Gitler, autor do texto de apresentação, sugere que em breve Cook (cozinheiro, em inglês), deverá ser promovido a Chef!

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

UM LUXUOSO SERVIÇO DE ACOMPANHANTE. MAS NÃO É NADA DISSO QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO...




Em 1949 James George Rowles já era um músico mais que experiente, tendo acompanhado verdadeiros monstros sagrados do jazz, como Peggy Lee, Woody Herman, Benny Goodman e Billie Holiday – era, inclusive, apontado por muitos críticos e colegas como o pianista preferido de Lady Day. Conhecido no meio musical como Jimmy Rowles, seu conhecimento musical era enciclopédico e seu repertório, virtualmente ilimitado.

Morando em Culver City, cidade vizinha a Los Angeles, o pianista costumava receber, logo pela manhã, a visita de um jovem trompetista em início de carreira, com quem havia feito amizade e a quem costumava levar para gigs. O trompetista franzino e com pinta de galã de cinema chegava cedo na casa de Rowles e, se o dono da casa ainda estivesse dormindo, apertava a campainha até tirá-lo da cama.

Em seguida, Jimmy preparava o café, acendia um cigarro e sentava-se ao piano. O trompetista ouvia, fascinado, os acordes ecoando pela casa e, logo em seguida, tentava repetir, no próprio instrumento, o som que acabara de ouvir. Essas lições foram fundamentais para que o então jovem Chet Baker, aos 20 anos, se destacasse no concorrido mercado jazzístico californiano. Mas Rowles também não deixava de se impressionar com o talento e a musicalidade do atrevido Chet: “Fiquei pasmo com seu talento. Ele pegava as coisas muito rápido”.

Rowles não era apenas um simples pianista. Ele também era cantor, compositor, arranjador e, por puro hobby, caricaturista. Nascido no dia 19 de agosto de 1918 na pequena Spokane, estado de Washington, seu primeiro interesse na música se deu através do canto. Ainda na infância, resolveu se dedicar ao piano, cujos rudimentos aprendeu no Gonzaga College, onde estudou, e também com alguns professores particulares da cidade natal.

Com a conclusão do ensino médio, ingressou na “University of Washington” e participou de algumas bandas da região de Seattle. Já era então um aplicado discípulo de Teddy Wilson, Duke Ellington e Billy Strayhorn, seus grandes ídolos, e conhecia vastamente o chamado “American Songbook”. Em 1940 mudou-se com a família para Los Angeles e ali se juntou às orquestras de baile de Garwood Wam e de Mouse Marsalino. Não demorou a chamar a atenção do meio musical da cidade, tendo tocado em diversos clubes da Central Avenue, sob a liderança de Slam Stewart, Lester Young, Slim Gaillard, Lucky Thompson e Ben Webster.

Em 1941, surgiu a oportunidade de trabalhar com Billie Holiday, e Rowles saiu-se tão bem na empreitada que a temperamental cantora, durante os anos seguintes, contaria com o pianista em vários de seus discos. Em 1942 passou cerca de cinco meses na orquestra de Benny Goodman e, ainda naquele ano, foi contratado por Woody Herman. Recrutado pelo exército em 1943, Jimmy foi obrigado a suspender a carreira musical, voltando a trabalhar com Herman em 1946, logo após seu desligamento das forças armadas.

O pianista deixaria a orquestra de Herman no ano seguinte, emendando trabalhos com Les Brown, Tommy Dorsey, Butch Stone, Jerry Gray e, novamente, com Benny Goodman. O cantor, bandleader e apresentador Bob Crosby (irmão de Bing Crosby) contratou-o para atuar em seus programas radiofônicos como “Fitch Bandwagon”, “Club Fifteen” e “The Bob Crosby Show”, e a associação perduraria até 1951. A orquestra de Crosby era um luxo só e por ela passaram instrumentistas do calibre de Matty Matlock, Bob Haggart, Billy Butterfield, Charlie Spivak, Jess Stacy e Mugsy Spanier, arranjadores como Paul Weston, Henry Mancini e Ray Conniff, e vocalistas do gabarito de Doris Day, Kay Starr e Anita O’Day.

Após sua saída da orquestra de Crosby, Jimmy passa a trabalhar quase que exclusivamente como músico de estúdio, acompanhando pesos pesados como Teddy Edwards, Chet Baker, Barney Kessel, Jimmy Giuffre, Dexter Gordon, Harry “Sweets” Edison, George Auld, Buddy DeFranco, Bill Harris, Bud Shank, Shorty Rogers, Gerry Mulligan, Buddy Rich, Benny Carter, Louie Bellson, Anita O’Day, Al Cohn, Bob Brookmeyer, Gene Krupa, Conte Candoli, Zoot Sims, Carmen McRae, Tony Bennett, Julie London, Sarah Vaughan, Red Norvo, Pepper Adams, Gerald Wilson, Mel Tormé, Sonny Stitt, Marty Paich e muitos outros.

No dia 05 de novembro de 1952 teve a honra de acompanhar ninguém menos que o genial Charlie Parker, em um concerto realizado na “University Of Oregon”. A formação era completada por Chet Baker, Carson Smith e Shelly Manne, sendo que parte da apresentação encontra-se disponível no estojo “Bird” (CD número 17, com 03 temas:  “Ornithology”, “Barbados” e “Cool Blues”) – a íntegra do show pode ser ouvida no CD “Chet Baker / Charlie Parker – Complete Jam Sessions” (Definitive Records).

Em 1954 nasceria a sua filha Stacy Rowles, trompetista e cantora, que morreria em 2009, em decorrência de um acidente automobilístico. Jimmy foi o pianista que acompanhou a formidável Ella Fitzgerald em sua estréia no clube “Mocambo”, em Hollywood no final de 1956. A temporada foi um sucesso e, encantada com a sensibilidade e a perícia do pianista, ao longo dos próximos anos, a cantora não hesitaria em chamá-lo para participar de diversos outros projetos, incluindo shows e gravações, como é o caso de “Whisper Not” (Verve, 1966) e “The Best Is Yet To Come” (Pablo, 1983). 

Como recompensa pelos ótimos serviços prestados, em 1958 o produtor Robert Scherman, do selo V. S. O. P., deu a Rowles carta branca para recrutar os músicos que desejasse, a fim de gravar um álbum em seu próprio nome. O resultado, “Let’s Get Acquainted with Jazz (…For People Who Hate Jazz)”, é considerado um marco na discografia do pianista e reúne alguns dos mais importantes nomes do West Coast Jazz, como o trompetista Pete Candoli, o saxofonista Harold Land, o guitarrista Barney Kessel, o contrabaixista Red Mitchell e o baterista Mel Lewis, entre outros.

Jimmy também trabalharia regularmente para estúdios cinematográficos como RKO, 20th Centuty Fox e Universal, e também para a rede de televisão NBC, destacando-se aqui a sua atuação na trilha sonora do seriado “M Squad”, estrelado por Lee Marvin e que foi ao ar de 1957 a 1960. Quando alguma atriz decidia enveredar pelo canto, como Marilyn Monroe, por exemplo, costumava solicitar a presença de Rowles para acompanhá-la.

Entre seus trabalhos para o cinema, podem ser citados   “Too Late Blues”, longa metragem de 1961, dirigido por John Cassavetes, com trilha sonora do autor do clássico “Laura”, David Raksin, “War Hunt”, também de 1961 e com direção de Denis Sanders, “Arabesque”, dirigido por Stanley Donen em 1966 e cuja trilha ficou a cargo de Henry Mancini, “Wait Until Dark”, de 1967, dirigido por Terence Young e “Gunn”, que Blake Edwards dirigiu em também em 1967.

Na televisão, o pianista pode ser visto em “The Swingin’ Singin’ Years”,  documentário produzido em 1960, dirigido por Barry Shear e que conta com as presenças de Woody Herman, Ella Mae Morse, Charlie Barnet e Stan Kenton, “Mark Murphy”, especial televisivo sobre o cantor Mark Murphy com direção de Steve Binder, de 1962, e também em um episódio do “The Sammy Davis Show”, daquele mesmo ano, onde acompanhava o cantor e apresentador, tendo como companheiros Victor Feldman no vibrafone, Bob Whitlock no contrabaixo e Kenny Dennis e bateria.

Em 1973, Rowles foi uma das atrações do “Newport Jazz Festival”  e ainda naquele ano decidiu se mudar para Nova Iorque, onde liderou seus próprios trios, sendo presença constante em clubes como Bradley's, Knickerbocker Saloon e Village Vanguard. Também atuou com regularidade nos grupos de Zoot Sims e Stan Getz, gravando vários discos com os dois lendários saxofonistas. Passou a se dedicar com maior freqüência aos concertos e festivais, tendo participado do “Monterey Jazz Festival” e da “Grande Parada de Nice”, em 1978.

Em setembro daquele mesmo ano, foi uma das atrações do I Festival Internacional de Jazz, realizado no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo. No dia seguinte à apresentação, participou de um animado bate-papo, no restaurante do Hotel Eldorado Higienópolis, com o radialista Luiz Carlos Antunes (o Mestre Lulla) e o trombonista Frank Rosolino, que também havia tocado no festival. Na ocasião, presenteou Lulla com caricaturas de diversos pianistas, como Art Tatum, George Shearing, Oscar Peterson e Erroll Garner, até hoje guardadas com carinho pelo grande decano do jazz.

Ainda em 1978 a CBS lançou no Brasil o LP duplo “I Remember Bebop”,  produzido por Henri Renaud, no qual oito dos maiores pianistas da história do jazz faz uma releitura de temas ligado às raízes do bebop. Gravado entre os dias 02 e 05 de novembro de 1977, em Nova Iorque, o disco reúne os talentos de Al Haig, Duke Jordan, John Lewis, Sadik Hakim, Walter Bishop Jr., Barry Harris, Tommy Flanagan e Jimmy Rowles, que interpreta temas do célebre noneto de Miles Davis que no final doa anos 40 deu ao mundo o formidável “The Complete Birth Of The Cool’ (as faixas escolhidas foram “Jeru”, “Venus de Milo” e “Godchild”).

No texto de apresentação, o produtor Renaud afirma que Rowles é “um versátil pianista de jazz. Ele pode tocar em solo com um espantoso trabalho stride da mão esquerda, além de ser um soberbo acompanhador (de Sarah Vaughan e de Alberta Hunter por exemplos) ou ainda integrando um quinteto ou uma grande orquestra. Ele também é um completo pianista de trio”. Stan Getz, que dividiu com Rowles os créditos do album “The Peacocks” (CBS), certa vez declarou: “Jimmy é um em um milhão, ou melhor é único em todo o universo. Sua genialidade é o segredo mais bem guardado do universe, desde o sorriso da Mona Lisa”.

Rowles gravou dois álbuns em duo com o contrabaixista Ray Brown (“As Good As It Gets”, de 1978, e “Tasty”, de 1980, ambos para a Concord) e acompanhou a filha Stacy em concertos e algumas gravações. No início da década de 80, foi convidado por Ella Fitzgerald para substituir Paul Smith, como pianista e diretor musical. A nova parceria durou dois anos e rendeu o álbum “The Best Is Yet To Come”, gravado em 1982 para a Pablo, sob a direção musical de Nelson Riddle. Em 1989 os dois voltariam a trabalhar juntos, no álbum final da cantora, “All That Jazz” (Pablo), que arrebataria o prêmio “Grammy” de “Melhor Performance Vocal Feminina de Jazz”. O pianista atua na faixa “Baby, Don’t You Quit Now”, de autoria dele próprio em parceria com o letrista Johnny Mercer.

Em 1983, novamente estabelecido na Califórnia Rowles deu aulas para uma jovem pianista canadense chamada Diana Krall, recém saída do prestigioso “Berklee College of Music”, tendo sido um dos maiores incentivadores para que a garota também passasse a cantar. Na época, Jimmy era atração fixa do Playboy Club de Los Angeles, à frente do seu trio, integrado por Donald Bailey na bateria e Buster Williams no contrabaixo.

Em 1986 recebeu da cidade adotiva uma carinhosa homenagem, com a decretação, pela prefeitura municipal de Los Angeles, do “Jimmie Rowles Day”, comemorado em 14 de setembro. Ainda no mesmo ano, sua composição “The Peacocks” foi incluída na trilha do filme “Round Midnight”, que rendeu a Herbie Hancock o “Oscar” de melhor trilha sonora.

Os anos 80 e 90 continuaram a ser de atividade febril, com gravações em seu próprio nome e participações em discos de craques como Scott Hamilton, B. B. King e Lee Konitz, e de cantoras da nova geração, como Norma Winstone e Jeri Brown, que em 1995 gravaria um disco apenas com composições do pianista, “A Timeless Place” (Justin Time), e que conta com a participação do próprio Rowles. Jimmy também fez parte do trio do baixista Red Mitchell durante esse período.

Sua extensa discografia como líder registra trabalhos por selos como V. S. O. P., Capitol, Candid, Blue Angel Music, Audiophile, Xanadu Records, Columbia, Contemporary, Choice, JVC e muitos outros. Um dos seus álbuns mais extraordinários chama-se simplesmente “Trio” e foi gravado para a Capri Records, nos dias 11 e 12 de agosto de 1988 e apresenta o líder escoltado pelos experientes Red Mitchell e Donald Bailey, no contrabaixo e na bateria, respectivamente.

A faixa que abre o disco é “Have You Met Miss Jones?”, clássico da dupla Lorenz Hart e Richard Rodgers, que ganha um arranjo fluido e elegante. Executada em tempo médio e com um swing discreto, ela dá amplo espaço para que os três músicos exibam seus dotes de improvisadores. Os solos são generosos, com destaque para a sonoridade amadeirada e potente de Red. Rowles injeta consideráveis doses de bebop e seu solo reflete a influência de pianistas como Al Haig e Bud Powell em sua formação.

Uma hipnótica versão de “Day Dream”, dos ídolos Billy Strayhorn e Duke Ellington, vem a seguir. A atmosfera camerística lembra a abordagem elegantemente contida de um John Lewis, com uma preciosa atuação de Mitchell. Do seu contrabaixo tonificado emana um som volumoso, que parece encapsular a melodia, mas sem lhe aprisionar a beleza. Artífice de enorme capacidade técnica, Rowles aproveita-se muito bem do elegante invólucro rítmico-melódico construído pelos parceiros e o complementa com parcimônia, sugerindo frases e usando os silêncios com grande engenhosidade.

Único tema de autoria de Rowles incluído no disco, “After School” é um blues contundente, cujo impacto se torna ainda maior por conta da percussão marcial de Bailey, que rompe com a métrica ortodoxa do blues para experimentar novas possibilidades de marcação. O contrabaixo anguloso e profundo de Mitchell traça linhas harmônicas nada comportadas e a abordagem refinada do líder fazem desta faixa uma das mais instigantes do disco.

Mitchell contribui com três temas: “You People Need Music”, “Dreamer's Lullaby” e “Life's a Take”. A primeira é uma balada complexa, com um discreto acento de blues, na qual o piano de Rowles, assimétrico e surpreendente, cria uma atmosfera de circunspecção e perplexidade. A segunda é uma homenagem à esposa do baixista, Diane, e possui uma estrutura mais convencional e um andamento de valsa. A terceira é um blues sincopado, com um andamento pouco usual e uma estrutura melódica fragmentária, que lembra as experimentações de Thelonious Monk.

Relembrando o período em que acompanhou Lady Day, Rowles apresenta uma emocionante versão da clássica “Crazy He Calls Me”, de Bob Russell e Carl Sigman. O piano do líder desliza com suavidade pelos acordes e a atmosfera intimista faz com que as palavras do crítico Richard Cook soem ainda mais verdadeiras: “Ninguém tocava baladas como Jimmy Rowles”. Merece destaque, também a suntuosa tapeçaria rítmica engendrada por Bailey e Mitchell.

O trio relê standards como “Yes Sir, That's My Baby”, de Gus Kahn e Walter Donaldson, “My One and Only Love”, de Guy Wood e Robert Mellin, e “My Silent Love”, de Dana Suesse e Edward Heyman, de maneira introspectiva, porém sempre respeitosa e envolvente, privilegiando os aspectos melódicos de cada uma dessas composições. Os arranjos são bastante concisos, mas não deixam de lado a elegância, o lirismo e a sensibilidade.

O encerramento fica a cargo de “What Are We Here For?”, balada pouco conhecida dos irmãos George e Ira Gershwin. O tema possui um clima lúdico e o dedilhado de Rowles cuida de impor-lhe uma dose ainda mais intensa de lirismo. O pianista elaborou um álbum delicado, que revela com bastante nitidez a sua capacidade criar harmonias que fluem logicamente e a sua sonoridade tão característica, ao mesmo tempo rica e contemplativa. Mesmo sem extrair do teclado rajadas impetuosas ou voláteis, ele consegue transmitir ao ouvinte aquela espécie de emotividade tão sublime que só o jazz é capaz.

Após o lançamento do disco, Jimmy ainda participaria do documentário “The Brute and the Beautiful” (Koch Entertainment), com direção de John Jeremy, que aborda a vida e a carreira do saxofonista Ben Webster, de quem foi muito amigo e com quem costumava jogar golfe sempre que se encontravam). A primeira exibição do filme foi realizada em uma sessão exclusiva, no dia 24 de agosto de 1989, nas dependências da L. A. Jazz Society. O filme, que nunca foi lançado em DVD, está disponível apenas em formato VHS.

O pianista faleceu no dia 28 de maio de 1996, no Thompson Memorial Hospital, em Burbank, Los Angeles, em decorrência de um enfarte. Seu último álbum, “Lilac Time”, foi gravado em 1994, para a Kokopelli Records, selo de propriedade do flautista Herbie Mann. No disco, além de tocar piano (acompanhado apenas pelo baixista Eric Von Essen), Rowles exibe sua faceta menos conhecida, a de cantor, interpretando clássicos do cancioneiro norte-americano como “Lullaby of the Leaves” e “I’m Old Fashioned”.

Pouco antes de sua morte, Jimmy havia concedido uma longa entrevista ao cineasta Ken Burns, que na época recolhia material para o seu estupendo documentário “Jazz”, levado ao ar pela rede PBS em 2001. Naquela ocasião, o pianista relatou detalhes de sua convivência profissional e pessoal com lendas do jazz como Billie Holiday, Benny Goodman e Lester Young.

O crítico Leonard Feather escreveu sobre ele: “Fartamente reconhecido como o acompanhante favorito de cantores e cantoras, Rowles era um artista com uma imaginação harmônica consumada”. A influência de Rowles no trabalho de pianistas contemporâneos como Bill Charlap, Alan Broadbent e Bill Mays, por exemplo, ajuda a descortinar a sua importância para o desenvolvimento do piano jazzístico.

Jimmy, nas sempre pertinentes palavras de Pedro “Apóstolo” Cardoso, “foi influenciado, com certeza e em seu início, pelo piano refinado de Teddy Wilson e pela concepção orquestral do piano de Art Tatum. Sua infindável esteira de colaborações nos mais diversos estilos e escolas fizeram dele um dos grandes acompanhantes do pós Segunda Guerra Mundial, ao lado de Hank Jones e de Tommy Flanagan, seja pelo seu vasto conhecimento de repertórios, seja pelo talento ao piano”.

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