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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

UM AFORTUNADO SAXOFONISTA




Um dos mais importantes saxofonistas e flautistas surgidos nos últimos quarenta anos, Cornelius “Sonny” Fortune nasceu em Filadélfia, no dia 19 de maio de 1939. Durante a infância e a adolescência, estudou na Wurlitzer e na Granoff, duas das mais importantes escolas de música da cidade, mas nada levava a crer que fosse se interessar seriamente pela carreira musical.

Aos dezoito anos decidiu intensificar os estudos musicais e em pouco tempo já dominava um amplo espectro de instrumentos de sopro. Embora tenha feito carreira no sax alto e na flauta, ele também toca – e bem – os saxofones tenor, barítono e soprano, além do clarinete. Profundamente influenciado por Charlie Parker, Sonny Rollins e John Coltrane, sua carreira profissional tem início no final dos anos 50, em bandas de rhythm & blues da região.

A primeira grande oportunidade lhe foi dada pela cantora Carolyn Harris, em cuja banda permaneceu até 1967. Naquele ano, decidiu tentar a sorte em Nova Iorque, onde havia maiores oportunidades de trabalho, e logo conseguiu firmar seu nome naquele mercado tão competitivo. Seu primeiro emprego foi como substitute do grande Frank Foster na banda do baterista Elvin Jones. A parceria se estendeu por alguns meses, mas Fortune, pouco confiante em seu próprio potencial, preferiu voltar para a cidade natal.

Em 1968, Fortune fez uma nova tentativa de se estabelecer em Nova Iorque e, desta vez, as coisas fluíram de maneira muito mais satisfatória. Foi rapidamente contratado pelo percussionista Mongo Santamaria, com quem gravou uma série de discos e participou de dezenas de apresentações.

No ano seguinte, Sonny se tornou bastante conhecido no circuito da vanguarda novaiorquina por ter participado do álbum “Izipho Zam”, sob a liderança do saxofonista Pharoah Sanders, onde também atuaram o baterista Billy Hart, o baixista Cecil McBee, o organista Lonnie Liston Smith e o guitarrista Sonny Sharrock. Ainda em 1969, participou de outro disco importante, “The Other Side of Abbey Road”, de George Benson, onde atuavam feras do quilate de Ron Carter, Herbie Hancock e Freddie Hubbard.

Fortune então já desfrutava de um relativo prestígio no meio musical e participaria de gravações ao lado de gente como Melvin Sparks, Leon Thomas, Roy Ayers, Dizzy Gillespie, Elvin Jones, Oliver Nelson, Nat Adderly, Leon Spencer e muitos mais. Em 1971 foi contratado por McCoy Tyner e participou das gravações de álbuns importantes, como “Sahara”, “Song For My Lady” (ambos de 1972) e “Song of the New World” (1973).

Encerrada a parceria com Tyner, o saxofonista tocou um período com o pianista sul-africano Abdullah Ibrahim (que antes de se converter ao islamismo se chamava Dollar Brand) e passou algum tempo na big band de Buddy Rich, tocando com freqüência no clube do baterista, o famoso Buddy's Place. Ali foi gravado o álbum “Very Live at Buddy’s Place”, que além de Fortune, conta com as participações do saxofonista Sal Nistico, do guitarrista Jack Wilkins e do pianista Kenny Barron. O disco chegou aos primeiros lugares da parada da Billboard Magazine e recebeu muitos elogios por parte da crítica.

Em 1974, chamou a atenção de Miles Davis que o contratou para o seu grupo, a fim de substituir Dave Liebman. Nessa época Davis estava profundamente envolvido com o fusion e Fortune não se intimidou com a parafernália do eletrificado trompetista, assumindo diversos instrumentos (clarineta, flauta, saxofones alto, tenor e soprano) e participando dos álbuns “Big Fun”, “Agartha”, “Pangaea” e “Get Up With It”, gravados entre 1974 e 1975.

Em 1974 Sonny lançou seu primeiro disco como líder, chamado “Long Before Our Mothers Cried”, que conta com as participações de Stanley Cowell (piano), Wayne Dockery (contrabaixo), Chip Lytle (bateria) e Charles Sullivan (trompete). No ano seguinte, Sonny deixou a banda de Miles a fim de atuar no grupo do cornetista Nat Adderley.

A parceria com Adderley durou poucos meses e logo Fortune partiu para formar o seu próprio conjunto. Foi rapidamente contratado pela A&M Records, onde lançou dois álbuns bastante elogiados pela crítica especializada: “Awakening” (1975) e “Waves of Dreams” (1978). Naquele período, Sonny marca presença em álbuns de Charlie Mingus (“Three Or Four Shades of Blues”, Atlantic, 1977) e Kenny Barron (“Innocence”, Wolf, 1978).

Em 1977, Fortune foi um dos destaques do disco “The Atlantic Family Live at Montreux”, que apresenta uma orquestra conduzida pelo bandleader Don Ellis, em uma apresentaçãpo gravada ao vivo no lendário festival suíço. Na banda, Sonny repartiu o palco com feras do gabarito de David “Fathead” Newman, Herbie Mann, Lew Soloff, Michael Brecker, Randy Brecker, Richard Tee e do percussionista brasileiro Rubens Bassini.

Nos anos 80, Sonny se envolveu em projetos liderados por alguns dos seus antigos parceiros. Voltou a fazer parte do quinteto de Nat Adderly (numa formação que incluía o baixista Walter Booker, o baterista Jimmy Cobb e o pianista Larry Willis), integrou a “Elvin Jones Jazz Machine” e entre 1987 e 1988, foi membro da “Coltrane Legacy Band”, capitaneada por McCoy Tyner e que contava, ainda, com as presenças de Elvin Jones e de Reggie Workman.

Seu grupo, na época, era atração fixa do Village Vanguard e contava com as participações de Billy Hart (bateria), Hilton Ruiz (piano), e Cecil McBee (contrabaixo). Outro acontecimento marcante foi a parceria com o músico libanês Rabih Abou-Khali, em um grupo que fundia música oriental, jazz e world music e que fez bastante sucesso no circuito europeu de festivais entre 1989 e 1990.

Ao mesmo tempo em que se consolida como líder, Fortune vai construindo uma pequena, mas bastante consistente, discografia. Seus discos têm sido lançados por selos como Wounded Bird Records, Konnex, Candid, Evidence, Atlantic e Blue Note (que em 1994 produziu o formidável “Four In One”, um tributo a Thelonious Monk) e contam com a participação de figuras eminentes, como Woody Shaw, Kenny Barron, Jack DeJohnette, Mulgrew Miller, Reggie Workman, Stanley Cowell, Kirk Lightsy, George Cables, Buster Williams, Renee Rosnes, Billy Hart, John Hicks, Joe Lovano, Jeff “Tain” Watts e outros.

Desde o início dos anos 90, Sonny e seus grupos têm excursionado com freqüência pelos quatro cantos do mundo, incluindo Canadá, vários países da América Latina e da Europa e Japão. Ele participou de programas de TV como “48 Hours with Dan Rather” e “Sunday Morning” (este último apresentado pelo pianista Billy Taylor), ambos transmitidos pela CBS. Fortune também participou da trilha sonora do filme “The Crossing Guard” (de 1995 e que no Brasil recebeu o título “Acerto final”), dirigido por Sean Penn e estrelado por Jack Nicholson.

O saxofonista tem sido uma atração constante em festivais ao redor do planeta, como o Chicago Playboy Jazz Festival, o Umbria Jazz, o Atlanta Montreaux International Music Festival, o St. Lucia Festival, o Montreal Jazz Festival, o Twin Cities Winter Jazz Fest, o Vancouver Jazz Festival e o JVC Festival, em Nova Iorque. Fortune fez uma série de apresentações, na Filadélfia e em Washington D.C., em homenagem ao ídolo John Coltrane, liderando um trio onde pontuavam o baixista Reggie Workman e o baterista Rashied Ali, ambos ex-colaboradores de Trane.

Sonny também participou do show comemorativo aos 70 anos de Elvin Jones, realizado em setembro de 1997, em Nova Iorque. Em 2000 foi a vez de prestar nova homenagem a Coltrane, desta feita através do disco “In the Spirit of John Coltrane”, lançado pela Shanachie. Fortune recorda que em 1961 ficou fascinado pelo trabalho de Trane, após ouvir o álbum “My Favorite Things”. A Stereophile Magazine, ao comentar o cd, publicou um artigo no qual Fortune é descrito como “um dos mais intrigantes saxofonistas do jazz contemporâneo”.

Em maio de 2002 o saxofonista participou de vários concertos em homenagem a Miles Davis, no Makor Club, Nova Iorque, em um projeto denominado “Four Generations of Miles”. Com um repertório baseado no álbum homônimo, o saxofonista fez parte de uma banda formada apenas por ex-integrantes das bandas de Davis, sob a liderança do baterista Jimmy Cobb e do guitarrista Mike Stern e com a participação do ótimo Buster Williams no contrabaixo. No disco, lançado pela Chesky em 2003, Williams e Fortune são substituídos por Ron Carter e George Coleman.

No ano seguinte, Fortune criou seu próprio selo, chamado “Sound Reason”, por onde lançou dois álbuns: “Continuum” (2003) e “Last Night at Sweet Rhythm” (2009). Sobre a iniciativa, declarou na época: “Eu fiz isso por escolha própria. Após todos esses anos, acho que era o momento mais oportuno para seguir essa trilha. Não há muita diferença entre um selo pequeno e uma gravadora, a não ser que você seja contratado por uma das grandes. O disco saiu em novembro e vendeu muito bem. Consegui ganhar mais dinheiro com ele do que ganharia se estivesse sob contrato com uma gravadora”.

Apesar de ser dono do próprio selo, Fortune não deixa passar a oportunidade de realizar trabalhos artisticamente relevantes por outras gravadoras. Um exemplo disso é o fabuloso “You and the Night and the Music”, lançado pela Showplace Records. As gravações aconteceram entre os dias 18 e 20 de dezembro de 2006 e contaram com as participações do pianista George Cables, do contrabaixista Chip Jackson e do baterista Steve Johns. O líder se divide entre os saxes soprano e alto e a flauta.

O disco abre com uma anabolizada versão da clássica “Sweet Georgia Brown”, de Maceo Pinkard. A bordo do sax alto, Fortune constrói frases rápidas e muito bem articuladas, despejando sobre o tema toda a imprevisibilidade do bebop, tornando-o irreconhecível. O suporte rítmico é de primeiríssimo nível, destacando-se as linhas harmônicas elegantes traçadas por Cables e a percussão eletrizante de Johns, cujo solo é assombrosamente vigoroso.

Tema que dá nome ao disco, “You and the Night and the Music” é fruto da parceria entre Arthur Schwartz e Howard Dietz. O quarteto faz uma interpretação bastante fiel à melodia original, permitindo-se, contudo, acrescentar um discretíssimo acento latino, especialmente por conta de Cables que soa, por vezes, como um legítimo representante da escola cubana de piano. Novamente utilizando o sax alto, o líder confirma as suas virtudes de improvisador inteligente e ousado, elaborando solos consistentes e tecnicamente exuberantes.

Em “Charade”, de Henry Mancini, Fortune emula o eterno ídolo John Coltrane, usando com muita perícia o sax soprano. A versão apresentada no disco lembra, em alguns momentos, a célebre interpretação coltraneana de “My Favorite Things”, não apenas pelo andamento de valsa comum a ambas mas, sobretudo, pela forma como o saxofonista alonga as notas e pelo uso comedido que faz do vibrato. Cables extrai do seu piano uma sonoridade límpida e vivaz, fazendo um belíssimo contraste à execução intensa e passional do líder.

“'Round Midnight”, de Thelonious Monk vem a seguir e a versão do quarteto é extremamente original, por causa da utilização da flauta. Fortune é um intérprete hábil e surpreendente, capaz de ombrear-se aos grandes flautistas do jazz, como Herbie Mann, Frank Wess ou James Spaulding. A leveza do instrumento torna menos sombria essa que é considerada a obra-prima de Monk, cabendo ao opulento contrabaixo de Jackson o papel de acrescentar-lhe a necessária carga dramática.

Em “Besame Mucho”, de Consuelo Velásquez, o líder se mostra bastante à vontade para navegar pelas águas do bolero, mais uma vez recorrendo ao sax alto. Sua abordagem apaixonada dá um novo colorido a esse tema tão gravado e lhe impõe uma quase inédita visceralidade. A seção rítmica é bastante coesa e se mantém discreta o tempo inteiro, deixando todo o espaço para que Fortune exiba seu formidável talento.

Cables não é apenas um pianista de recursos ilimitados, mas também é um compositor bastante criativo e a cativante “Love Song” é sua contribuição para este disco. Trata-se de uma balada em tempo médio, oscilante como as ondas do mar e que, especialmente graças à flauta de Fortune, dá a impressão de que os músicos, ao executá-la, flutuam graciosamente pelo éter. O grande destaque individual é o estupendo solo de Jackson – não é por acaso que ele é hoje um dos mais disputados baixistas do mercado.

Composição de Edward Redding, “The End of a Love Affair” recebe um arranjo vibrante, repleto de citações à música afro-caribenha e apresenta o líder em sua segunda incursão pelo sax soprano. Única composição de Fortune incluída no disco, “For Duke and Cannon” é uma balada encantadora, porém revestida de uma indisfarçável melancolia. O sax enfumaçado de Sonny cria uma atmosfera de mistério e abandono, enquanto Jackson sublinha os momentos de maior conteúdo emocional com perícia e sensibilidade.

O encerramento não poderia ser mais auspicioso. Uma interpretação magnética de “Bebop”, um dos temas mais emblemáticos de Dizzy Gillespie. Com o sax alto, o líder incendeia a sessão e arranca do seu instrumento uma sonoridade furiosa, conciliando velocidade e precisão. Ótimas atuações de Johns, um dínamo que contagia os parceiros, e do sempre certeiro Jackson. Cables faz uma releitura bastante pessoal do cânone bop, aliando uma técnica invulgar à imprescindível histamina.

Não é à toa que o rigoroso crítico Scott Yanow deu ao álbum quatro merecidas estrelas. Will Smith, da revista Jazz Time, escreveu, por ocasião do lançamento: “Fortune merece um reconhecimento maior e esse disco demonstra as razões disso perfeitamente”. Para Troy Collins, do site Allaboutjazz, nesse disco Fortune e seus homens demonstram “maturidade melódica, respeito profundo pela tradição e um inegável espírito aventureiro no que se refere à improvisação”.

O reconhecimento da crítica já foi devidamente conquistado. Segundo Ed Enright, da Down Beat Magazine, Fortune é “um compositor e instrumentista fascinante”. O veterano Nat Hentoff é mais enfático ao ressaltar as qualidades do saxofonista: “Sonny é a personificação do som da surpresa. Ele certamente vai receber o título de Jazz Master em pouco tempo”.

Falta-lhe, ainda, adquirir uma popularidade proporcional ao seu gigantesco talento, mas ele é bastante sereno em relação a este aspecto e sua genuína devoção à música lhe permite trilhar o seu caminho com tranqüilidade. Em uma entrevista, declarou: “eu sinto que a música me arrebatou de uma maneira definitiva e que sem ela não consigo chegar a lugar nenhum. Eu continuo fazendo música porque é ela que, em minha visão, dá sentido ao mundo”.

Mas mesmo sem muitos holofotes, Fortune se mantém ativo, gravando com regularidade e tocando em festivais e clubes, especialmente em Nova Iorque, cidade que escolheu para viver. Seu último álbum é “Last Night at Sweet Rhythm” (Sound Reason, 2009), gravado ao vivo e que conta com as participações de Michael Cochrane no piano, David Williams no contrabaixo e Steve Johns na bateria.

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O ESPÍRITO DO CONTRABAIXO


Considerado um dos maiores contrabaixistas em atividade, Rufus Reid nasceu no dia 10 de fevereiro de 1944, na cidade de Atlanta, Geórgia. Ainda na infância, mudou-se com a família para Sacramento, na Califórnia, iniciando ali seus estudos musicais. O primeiro instrumento a que se dedicou foi o trompete, tendo participado de várias orquestras na Sacramento High School. Com a conclusão do ensino médio, ingressou na Força Aérea, sendo destacado para o serviço militar na base Maxwell Field, em Montgomery, no Alabama.

Durante seus momentos de folga na corporação, começou se dedicar seriamente ao estudo do contrabaixo, seguindo o método de Bob Haggart, mais conhecido por seu trabalho na “The World’s Greatest Jazz Band”, grupo “all stars” que se apresentou seguidamente a partir de 1974 no “Festival de Nice”. Seu primeiro trabalho como baixista profissional, tocando contrabaixo elétrico, foi na banda de Al Stringer, que se apresentava em clubes da região, com um repertório basicamente voltado para o “rhythm and blues” e os sucessos da época. Pouco depois, o diretor musical da orquestra da Força Aérea o arregimentou para tocar o contrabaixo acústico.

Ainda durante o serviço militar, ele foi designado para uma base no Japão, onde, por acaso, ouviu uma gravação de Ray Brown e ficou completamente apaixonado pela sonoridade do lendário contrabaixista. Quando Ray Brown foi ao oriente, em uma excursão, Reid teve a honra de ciceroneá-lo e durante duas semanas pôde conviver de maneira bastante próxima com o ídolo.

Dispensado do serviço militar em 1966, Rufus retornou a Sacramento, onde passou a tocar com Buddy Montgomery, irmão do grande Wes Montgomery. Após essa experiência, ele foi morar com um irmão em Seattle, onde estudou com James Harnett, integrante da orquestra sinfônica daquela cidade. Em 1969 se muda novamente, desta feita para Chicago, e inicia os estudos na Northwestern University, em Evanston, Illinois. Dentre seus professores, estavam Warren Benfield e Joseph Guastefeste, ambos pertencentes à Chicago Symphony. Concluiu o curso de bacharel em música em 1971, obtendo a qualificação de “Performance Major on the Double Bass”.

Trabalhando intensamente em Chicago, Rufus foi contratado pelo empresário Joe Segal para trabalhar como integrante da banda do “The Jazz Showcase”, clube localizado no “North Park Hotel”, por onde passaram nomes como Ira Sullivan, Frank Morgan, Larry Coryell, McCoy Tyner, Dexter Gordon e muitos outros. O clube foi palco das gravações do álbum “Chicago Revisited”, do formidável pianista Ahmad Jamal, em 1992. Ali Reid teve a oportunidade de tocar com diversos expoentes do jazz, como Gene Ammons, Dexter Gordon, Kenny Burrell, Lee Konitz, James Moody, Harold Land, Bobby Hutcherson, Roy Haynes, Philly Joe Jones e outros.

Em 1970 o clube sediou uma série de concertos em homenagem a Charlie Parker, e o baixista fez parte de uma banda que contava com os talentos de Red Rodney, Kenny Dorham, Ray Nance e Howard McGhee. Naquele mesmo ano, Rufus fez as suas primeiras gravações como “sideman”. Pouco depois, acompanharia figuras do gabarito de Eddie Harris, Harold Land e Bobby Hutcherson em suas temporadas européias.

Na primeira metade dos anos 70 Reid passou a se dedicar ao ensino, não apenas para escapar da rotina de viagens e concertos, mas também como forma de juntar economias e obter uma maior estabilidade financeira. Durante uma visita a Nova Iorque, conheceu o grande contrabaixista Richard Davis e, inspirando-se em suas múltiplas atividades, resolveu fazer o mesmo – passou a lecionar e também a atuar em orquestras da Broadway, sem esquecer o trabalho como sideman. Nessa qualidade, participa de álbuns de Eddie Harris, agrega-se à Thad Jones / Mel Lewis Orchestra (na qual permanece alguns anos) e faz parte da seção rítmica de Nancy Wilson.

Já bastante envolvido com a educação musical, Rufus lança pela “Columbia Pictures Publications”, em 1974, o método “The Evolving Bassist”, considerado um dos mais completos livros didáticos sobre o contrabaixo jazzístico. Em 2003 o livro foi relançado, acompanhado de um DVD que, além das aulas práticas, apresenta o baixista em um concerto ao lado dos ótimos Mulgrew Miller e Lewis Nash. Outro livro de sua autoria é “Evolving Upward – Bass Book II”, publicado em 1977.

Entre 1977 e 1978, Rufus assume o contrabaixo da banda de Dexter Gordon, realizando diversas temporadas com o saxofonista e participando de gravações, com destaque para o álbum “Sophisticated Giant”.  Gravou também, em 1979, o álbum “Love Song”, sob a liderança do pianista George Cables. Em 1980 Reid inicia uma longa associação com o “William Paterson College”, de Nova Jérsei, onde dirigiu o “Jazz Studies and Performance Program”. Ainda naquele ano, faz a sua primeira gravação como líder (“Perpetual Stroll”, para o selo Sunnyside, secundado pelo pianista Kirk Lightsey e pelo baterista Eddie Gladden).

A partir de 1984 Rufus monta um trio com Terri Lyne Carrington e Jim McNeely. Outro projeto de grande relevo foi o grupo Tana-Reid, um quinteto nos moldes dos Jazz Messengers, co-liderado pelo baterista Akira Tana. A banda se manteve em atividade de 1990 a 2001 e gravou cinco álbuns: “Yours and Mine” e “Passing Thoughts”, para a Concord Records e “Blue Motion”, “Looking Forward” “Back To Front”, para o selo Evidence Music.

Reid tem sido uma figura constante nos palcos e estúdios de gravação ao longo dos últimos 40 anos, com surpreendente ecletismo de parceiros e de estilos. Como sideman, emprestou seu talento para gente como Kenny Dorham, Eddie Harris, Thad Jones, Muhal Richard Abrams, Andrew Hill, Dexter Gordon, J. J. Johnson, Gene Ammons, Lee Konitz, Henry Threadgill, Art Farmer, Ran Blake, Tommy Flanagan, Eddie Daniels, Hamiet Bluiett, Helen Merrill, Kenny Burrell, Jim Hall, Jimmy Heath, John Stubblefield, Jack DeJohnette, Frank Foster, Frank Wess, James Williams, Nancy Wilson, Bob Mintzer, George Cables, Billy Hart, Sonny Stitt, Don Byas, Bill Evans, Bobby Hutcherson, Etta Jones, Mel Tormé, Kenny Barron, Cláudio Roditi, Tete Montoliu, Benny Golson, Joe Henderson, Jane Ira Bloom, Conrad Herwig, Nick Brignola e uma infinidade de outros.

Em seus álbuns como líder, lançados por selos como Double Time Records, Wave Records, Concord, Sunnyside e Motéma Records, ele sempre fez questão de se cercar de alguns dos mais brilhantes músicos da atualidade, como Bobby Watson, Harold Danko, Tom Harrell, Rob Schneiderman, Jesse Davis, Kenny Burrell, Ralph Moore, Gene Bertoncini e Kevin Eubanks, além dos brasileiros Toninho Horta e Duduka da Fonseca. Gravou álbuns em dueto com os baixistas Michael Moore (“Intimacy of the Bass”, 1999, Double-Time Records) e Peter Ind (“Alone Together, 2000, Wave Records).

Considerado um dos melhores álbuns de sua relativamente curta discografia como líder, “The Gait Keeper” traz algumas das melhores performances de Rufus e revela um pouco do seu talento composicional. O disco, gravado entre os dias 31 de julho e 1º de agosto de 2002, foi lançado pela Sunnyside e reúne peças compostas por Reid para a Cornell University Jazz Ensemble, big band formada por alunos e professores daquela renomada universidade. Apenas duas das oito faixas não foram compostas pelo baixista, que está acompanhado por músicos pouco conhecidos mas extremamente competentes: o saxofonista Rich Perry, o trompetista Fred Hendrix, o pianista canadense John Stetch e o baterista Montez Coleman.

O disco abre com “The Meddler”, cuja estrutura fragmentária e evasiva remete ao Coltrane da segunda metade dos anos 60. O contrabaixo, incansável, não apenas faz o aporte rítmico, mas também sublinha as frases dos demais solistas, em um trabalho de pura ourivesaria sonora. Reid elabora riffs infecciosos e seu solo é pujante, robusto e sumamente criativo. A sonoridade de Stetch se mostra fluida e bastante articulada, enquanto trompete e saxofone executam um diálogo repleto de dissonâncias.

A serpenteante “Ode to Ray” é uma homenagem de Reid ao ídolo Ray Brown e nela o quinteto flerta discretamente com a música oriental, com uma belíssima performance de Coleman. O líder constrói frases extremamente eloqüentes e seu sentido harmônico é estupendo, com direito ainda a um majestoso solo, usando o arco com extrema maestria. Destaque também para Perry, oriundo da orquestra de Maria Schneider e da banda do pianista Fred Hersch, e sua abordagem imprevisível, à Joe Henderson.

“Whims of the Blebird” é um mergulho nas águas do bop contemporâneo, com um trabalho notável do pianista Stetch, bastante seguro do ponto de vista rítmico e extremamente inventivo no que tange à capacidade de improvisar. Hendrix, usando a surdina, possui um apurado senso melódico e sua abordagem, repleta de texturas, mesmo usando poucas notas, lembra o minimalismo de Miles Davis. A integração entre contrabaixo e bateria também merece uma audição bastante atenta.

“Falling in Love” é um tema de autoria do vibrafonista e pianista Victor Feldman. Hipnótica e pouco ortodoxa, é uma balada sombria, na qual os instrumentos parecem flutuar. Hendrix é o maior destaque individual, desta feita usando o flugelhorn de maneira deveras convincente. “The Gait Keeper”, faixa que dá nome ao disco, começa com uma primorosa intervenção de Coleman. Pouco a pouco, os outros instrumentos vão sendo agregados e constroem uma melodia cheia de alternâncias harmônicas. Post-bop em sua essência, remete aos discos de Wayne Shorter para a Blue Note na década de 60, associação que fica ainda mais evidente ao se ouvir o formidável trabalho de Perry.

A contagiante “You Make Me Smile” é temperada com ritmos afro-caribenhos, com direito a participações entusiásticas de Perry e Hendrix. “Celestial Dance” é outro tema complexo, elaborado sobre bases harmônicas quebradiças e melodia labiríntica. O som volumoso de Reid conduz a harmonia com inquestionável autoridade, intercalando momentos reflexivos com andamentos mais velozes. O piano de Stetch soa como uma inebriante cascata de acordes, enquanto o trompete de Hendrix pontua as frases mais dramáticas com furiosa veemência.

A faixa de encerramento, “Seven Minds”, é uma composição do grande Sam Jones. A longa introdução mostra uma das especialidades de Reid, que é o trabalho com o arco. Tocando sem nenhum acompanhamento, ele, em seguida, começa a usar a técnica de pizzicato, quando só então os demais instrumentos se apresentam. Hard bop vibrante e matizado, o tema serve como veículo para exibições empolgantes de Perry, Stetch e Hendrix.

O sempre atento Pedro “Apóstolo” Cardoso, assevera, com grande propriedade, que Rufus “é um solista da nova geração, com muitas imaginação e velocidade, sempre mantendo a característica de igualdade de som em todos os registros.   Sua grande facilidade e soltura rítmica permitem a construção de linhas de baixo, combinando elementos harmônicos convencionais e mudanças imprevisíveis de tessitura.  Quando utiliza o arco Rufus inspira-se claramente nos músicos clássicos, com sonoridade que beira o suspense”.

Reid é um emérito colecionador de prêmios e homenagens. Recebeu o “Humanitarian Award”, em 1997, concedido pela “International Association Of Jazz Educators”. Foi nomeado “Jazz Educator Achievement Award” em 1998, pela “Bass Player Magazine”. Em 1999 ganhou o título de “Outstanding Educator”, novamente pela “Internacional Association Of Jazz Educators” e em 2001 recebeu o “The Distinguished Achievement Award”, dado pela “International Society Of Bassists”.

Seu trabalho como compositor também tem sido objeto de inúmeras premiações. Em julho de 2000, sua composição “Skies Over Emilia” foi a vencedora do “Charlie Parker Jazz Composition Award”, concedido pela BMI Foundation, em uma competição cujos jurados eram o crítico Dan Morgenstern, o trombonista Slide Hampton e o saxofonista Lee Konitz. O prêmio de três mil dólares foi entregue durante o BMI Jazz Composers Workshop, realizado no Merkin Concert Hall, em Nova Iorque.

Em 2005 Rufus foi agraciado com o “Mellon Jazz Living Legacy Award”, concedido pela Mid-Atlantic Arts Foundation, por sua contribuição ao jazz e à educação musical, sendo considerado pela fundação outorgante como um “tesouro musical norte-americano”. No ano seguinte, o New Jersey State Council on the Arts concedeu-lhe o título de “Fellowship”. Em 2008 foi a vez da John Simon Guggenheim Memorial Foundation nomeá-lo “Guggenheim Fellow”.

O contrabaixista também envereda pela seara erudita com bastante desenvoltura, tendo participado de um concerto ao lado do pianista Andre Previn, da cantora lírica Kathleen Battle e da St. Lukes Chamber Orchestra, em 1992. Em 2003 Reid compôs “Linear Surroundings”, cuja execução ficou a cargo da The Chamber Music America, ligada à Doris Duke Charitable Foundation. Em 2006 compôs, a convite da “Sackler Composition Commission Prize”, uma suíte inspirada nas esculturas de Elizabeth Catlett. Dividida em quatro movimentos, a peça recebeu o nome de “Quiet Pride” e foi apresentada nas universidades de Connecticut, Storrs e Stanford.

Respeitado como intérprete, educador, compositor e arranjador, Rufus Reid é um dos mais requisitados músicos da atualidade e sua agenda é das mais concorridas. São concertos, gravações, oficinas e aulas em instituições como Rosa Parks Fine Arts High School, The Jamey Aebersold Summer Jazz Camps, The Steans Institute for Young Artists, The Stanford University Jazz Workshop, Lake Placid Institute e The Richard Davis Foundation for Young Bassists. Ele ainda encontra tempo para exercer a função de Diretor Musical do projeto “Jazz For Teens”, mantido pelo New Jersey Performing Arts Center, em Newark.

Para Benny Golson, o contrabaixista “não tem medo de correr riscos. Seu som é excelente e se mantém sempre em altíssimo nível. Como intérprete, ele é capaz de tocar em qualquer contexto. Rufus faz as coisas acontecerem da maneira mais eficaz possível, enriquecendo cada situação com extrema competência”. Fazendo eco às palavras do saxofonista, Ron Carter vaticina: “Rufus Reid é um dos baixistas mais honestos que eu conheço. Ele toca com conhecimento e respeito”.

O baixista vive com a esposa em Teaneck, Nova Jérsei. Aposentado como Professor Emérito do “William Paterson College”, onde lecionou por vinte e três anos, Reid costuma passar horas praticando com o seu contrabaixo alemão, fabricado por Josef Reiger em 1805. Em uma entrevista recente, declarou: “Eu me orgulho de conseguir tocar sem ter conhecimento prévio da situação musical que vou encontrar. Não saber como a música vai se desdobrar é sumamente excitante. Para mim, isto é o verdadeiro significado do jazz. Eu vivo para o desconhecido!”

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sábado, 10 de dezembro de 2011

MANSIDÃO



 Ah, minha antiga juventude,

Quando me embriagava dos dias e das noites

E não me escondia da vida

Ouvia a silenciosa canção das flores

Sentia a vívida ancestralidade do seu perfume

Ainda não conhecia o sabor amargo das ervas obscuras

E trafegava pelos bares,

O templo alegre da oração líquida

A igreja mundana da comunhão mais verdadeira,

Mas os bares um dia fecharam as portas

E a cidade ficou deserta,

Os pátios viraram ruína

E as ruas eram um esboço inacabado

Desde então minha sede permanece intacta

A sede veemente e rouca

Que não amaina porque mesmo a pino

O sol é penumbra e horror

Perdeu-se a dança, perdeu-se o riso

Perdeu-se a solenidade irreverente

O fio da palavra não mais tece a linha do tempo

E os dias se apagam como uma fratura silenciosa

Não importa se é setembro ou fevereiro

As badaladas dos sinos alardeavam

O triunfo do tempo, o pesadelo nu

O tempo inclemente se insinua pelos desvãos de uma vida vazia

A vida que se esvai

Não com um rugido feroz,

Mas com um suspiro breve e quase mudo

O futuro vagaroso e sumário

Só traz a dor aguda

A agonia translúcida

Dos dias que passam despercebidos

Pela janela dos meus olhos

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Montgomery Bernard Alexander nasceu em Kingston, Jamaica, no dia 06 de junho de 1944. Com a inacreditável idade de quatro anos, já golpeava calipsos e boogies no piano de casa. Aos seis anos iniciou-se nos estudos de piano clássico e tudo indicava que ele se tornaria um respeitado concertista. Todavia, na adolescência ele assistiu, no Kingston's Carib Theater, a concertos de Louis Armstrong, Ray Charles e Nat “King” Cole e apaixonou-se pelo jazz, orientando sua carreira para esse estilo.

Com apenas 16 anos e já usando o nome artístico de Monty Alexander, ele formou no colégio sua primeira orquestra, chamada “Monty And The Cyclones”. Atuando em festas e bailes, o grupo chegou a gravar, usando então a denominação de “The Skatalites”. Nessa época, o pianista era um assíduo freqüentador dos clubes de jazz de Kingston e foi ali que conheceu o lendário guitarrista jamaicano Ernest Ranglin, considerado o inventor do ska.

Em 1961 mudou-se com a família para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Miami. Atuando em clubes noturnos da cidade, não demorou a chamar a atenção do pianista Wynton Kelly, também nascido na Jamaica e de quem Monty se tornaria amigo. Kelly seria uma de suas principais influências, ao lado de Art Tatum, Oscar Peterson, Gene Harris e Ahmad Jamal. Outros grandes pianistas que Monty conheceu nesse período foram Bill Doggertt, George Shearing e Eddie Heywood. Em 1963 Alexander realizou uma temporada com a orquestra de Art Mooney em Las Vegas, chamando a atenção de ninguém menos que Frank Sinatra

Impressionado com o talento do rapaz, Sinatra recomendou-o a seu amigo Jilly Rizzo, proprietário do clube  “Jilly’s” de Nova Iorque. Monty decidiu se mudar para a Grande Maçã e se tornou atração fixa da casa. O próprio Sinatra chegou a se apresentar ali, sempre acompanhado por seu protegido. Durante o período no clube, o pianista conheceu os integrantes do “Modern Jazz Quartet”, tornando-se amigo particular do vibrafonista Milt Jackson, com quem gravaria inúmeros discos. Jackson o apresentou ao baixista Ray Brown, que também se converteria em um importante parceiro musical.

O pianista deixou o “Jilly’s” para se apresentar no “Playboy Club”, também em Nova Iorque, ao lado do guitarrista Les Spann, permanecendo no clube por cerca de dois anos. Em 1964, aos 20 anos, fez as suas primeiras gravações como líder, para a World Pacific Records: “Alexander The Great” e “Spunky”. Também atuou, por uma temporada, no “Playboy Club” de Los Angeles, liderando um trio formado por Victor Gaskin (contrabaixo) e Paul Humphrey (bateria).

Em agosto de 1969, gravou, juntamente com Ray Brown e Milt Jackson, um álbum ao vivo no “Shelly’s Manne Hole”, lendário clube californiano. O disco foi lançado pelo selo “Impulse” e conta com as presenças de Teddy Edwards no sax tenor e Dick Berg na bateria. No início dos anos 70 o produtor Don Schlitten, atendendo a uma recomendação de Oscar Peterson, contrata Monty para o cast do selo alemão MPS.

O experiente Schlitten, com uma excelente folha de serviços prestados à Prestige e à Muse Records, havia fundado anteriormente os selos “Signal Records” (vendido no final da década de 1950 para a “Savoy Records”), “Cobblestone Records” (gravou Sonny Stitt e as  apresentações do “Newport Festival” de 1972) e “Xanadu Records” (onde gravaram Barry Harris, Al Cohn, Charles McPherson e muitos outros).

Schlitten não se arrependeu de sua decisão. Os álbuns gravados por Alexander na MPS figuram entre os melhores da longa discografia do pianista. O primeiro deles é realmente sensacional: “We’ve Only Just Begun”. As gravações foram realizadas no dia 1º de dezembro de 1971, durante uma apresentação em Buffalo, estado de Nova Iorque, e para acompanhar o líder, dois músicos mais do que rodados, o contrabaixista Eugene Wright (egresso do quarteto de Dave Brubeck) e o baterista Bobby Durham (veterano do trio de Oscar Peterson).

A introdução fica a cargo de uma poderosa versão de “It Could Happen to You”, de Jimmy Van Heusen e Johnny Burke. Executada em um tempo surpreendentemente rápido, com direito a uma longa e furiosa citação de “Milestones”, de Miles Davis, a faixa mostra o domínio de Alexander sobre o idioma bop. Destaque-se, ainda, a exuberância rítmica de Durham, que ataca a bateria com a ferocidade de uma matilha de lobos.

“Theme from Summer of '42”, de Michel Legrand, ganha uma arranjo emocionante. A introdução, a cargo de Alexander e Durham, é de uma beleza sóbria e o desenvolvimento do tema é quase minimalista, com um excelente trabalho do baterista com as escovas. “Monticello” é uma composição do líder e flerta com o soul jazz. Com um groove irresistível, lembra a pegada vigorosa de Gene Harris, um dos pianistas mais influentes na carreira de Monty.

Sem medo de enveredar pela seara pop, o trio faz uma impactante versão de “We've Only Just Begun”, da dupla Roger Nichols e Paul Williams, que em nada lembra a açucarada interpretação dos Carpenters. A versão do disco passa longe da cafonice e da obviedade, incorporando ao tema elementos da música caribenha, tão caros ao pianista. A percussão irrequieta de Durham e o apoio impecável de Wright adicionam charme e colorido à interpretação.

Frank Loesser é o autor da balada “I've Never Been in Love Before”, que recebe um arranjo altamente subversivo. Após uma introdução lenta, o trio faz uma releitura arrasadora, em tempo rápido e com um pronunciado acento bop. Improvisando de forma lúcida e vibrante, Monty não esconde a influência de Oscar Peterson em sua formação e como o canadense, seu fraseado e seu timbre possuem uma enorme vitalidade. Contagiados pelo líder, Wright e Durham mostram um excelente entrosamento e preparam o formidável suporte rítmico para os vôos de Alexander.

O álbum encerra com uma insólita versão do hit “Theme from Love Story”, de Francis Lai e Henry Mancini, retirado da trilha sonora do filme homônimo. A película fez um sucesso tremendo nos anos 70 e a interpretação do trio é surpreendente, ao inserir elementos de bossa nova, calipso e ao formular citações de “Fascinating Rhythm”.

Em 1974 o pianista realiza uma longa temporada pelos Estados Unidos e em abril de 1975 faz a sua primeira excursão européia, iniciada em Londres, no tradicionalíssimo clube “Ronnie Scott’s. No ano seguinte, excursiona pela Europa com o percussionista Othello Molineaux. A partir de então o jamaicano se torna um dos nomes mais requisitados do cenário jazzístico, realizando concorridas apresentações em clubes e festivais.

Ele se consagra como um excepcional pianista de trio, geralmente acompanhado por baixo e bateria (que por vezes é substituída pela guitarra).  Herb Ellis, Ray Brown, Mads Vinding, John Clayton, Niels-Heening Ørsted Pedersen e Ed Thigpen seriam seus parceiros mais constantes ao longo dos anos 70 e 80. Além disso, foi o pianista mais constante do Ray Brown Trio no mesmo período, tendo feito gravações formidáveis ao lado do lendário baixista.

Alexander seria um dos destaques do sexteto que acompanhou Dizzy Gillespie em sua memorável apresentação no Festival de Montreux de 1977. A banda era completada por Ray Brown, Milt Jackson, Jonathan “Jon” Faddis e Jimmy Smith. Gillespie e seus comandados revisitam temas como “Once In A While”, “But Beatiful” e “Here’s That Rainy Day” e para o deleite dos jazzófilos essa espetacular apresentação ficou perpetuada em DVD dentro da série “Norman Granz Jazz In Montreux”. 

Em 1981 Alexander casou-se com a guitarrista Emily Remler, mas o casamento foi desfeito em 1984. Considerado o “novo Oscar Peterson”, o pianista participou de projetos muito bem sucedidos, como o álbum “Unforgetable”, de Natalie Cole, que arrebatou sete prêmios Grammy, e da trilha sonora do filme “Bird”, biografia de Charlie Parker dirigida por Clint Eastwwod. Em 1993, realizou, no prestigioso Carnegie Hall, um concerto em homenagem ao grande Erroll Garner e em 1996, durante o Festival de Verbier, na Suíça, Monty participou de uma releitura de “Rhapsody In Blue”, de George Gershwin, sob a direção do cantor Bobby McFerrin.

De 1979 a 1997 foi um dos mais destacados artistas do cast da Concord, gravando ali dezenas de álbuns como líder, sendo que o primeiro deles foi “Facets”, ao lado de Ray Brown (baixo) e Jeff Hamilton (bateria). Na gravadora, participaria de uma infinidade de outros discos como sideman e em seu portfólio pode exibir trabalhos ao lado de Kai Winding, Milt Jackson, Dizzy Gillespie, Ernestine Anderson, Miles Davis, Marshall Royal, Johnny Griffin, Shelly Manne, Jimmy Smith, Barney Kessel, Howard Alden, Herb Ellis, Sonny Rollins, Clark Terry, Quincy Jones, Mary Stallings, Benny Golson, Frank Morgan e muitos mais.

Em agosto de 2000 Alexander foi agraciado pelo governo jamaicano o título de “Commander in the Order Of Distinction”, por conta dos relevantes serviços de embaixador musical por todo o mundo. É uma das atrações mais constantes em festivais pelo mundo e em 2008 ele foi convidado por Wynton Marsalis para produzir e dirigir, para o “Jazz At Lincoln Center”, o programa “Lords Of The West Indies”, transmitido nacionalmente pela “BETJ”. No ano seguinte, mais uma série de programas, chamada “Harlem Kingston Express”, mostrando as interações entre o jazz clássico e os ritmos jamaicanos.

Como leciona Pedro “Apóstolo” Cardoso, Alexander é um artista maduro e possuidor de um estilo próprio, que “sempre nos brinda com uma música de alta qualidade, agradável, plena de “swing”, alguns toques caribenhos, total domínio nos acordes blocados e um “colorido” bem especial”. Sua longa discografia, que registra tributos a Duke Ellington, Bob Marley, Nat King Cole e Tony Bennett, encontra-se distribuída por selos como Pablo, Telarc, Island, BMG, Kingston Records, Chesky, JVC, Jazz Hour e outros.

Em 2011, lançou o disco “Harlem-Kingston Express” para a Motema Music. Gravado ao vivo no clube Dizzy’s Coca-Cola, em Nova Iorque, o álbum foi direto para os primeiros lugares das paradas de jazz e apresenta versões de sucessos como “Day-O (Banana Boat Song)”, imortalizada por Harry Belefonte, e “No Woman, No Cry”, de Bob Marley. Atualmente, Alexander vive em Nova Iorque, com a esposa, a cantora Caterina Zapponi.

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

MEU MALVADO FAVORITO




Uma frase atribuída a Tommy Dorsey dá bem a medida do gênio irascível e da personalidade tempestuosa de Buddy Rich: "Existem três sujeitos ruins no mundo: Adolf Hitler, Alvin Stoller e Buddy Rich. Eu trabalhei com dois deles em minhas orquestras". Conhecido no meio musical pelo temperamento tão explosivo quanto as suas performances, Rich era capaz de demitir uma orquestra inteira, aos berros, quando seus músicos não faziam exatamente aquilo que ele queria.

Rich, Gene Krupa e Louie Bellson formavam a Santíssima Trindade da Bateria Pré-bop – e não há nenhum exagero nessa afirmação. Em igual medida, pode-se afirmar que Max Roach, Kenny Clarke e Art Blakey seriam a Santíssima Trindade da Bateria Bop. Esses grupos de músicos representam duas escolas distintas, mas ambas fundamentais para o desenvolvimento da bateria jazzística.

Considerado por muitos dos seus pares como o maior baterista de todos os tempos, Buddy Rich tornou-se uma lenda ainda em vida. Alguns historiadores afirmam que sua carreira começou quando ele tinha apenas 18 meses de idade – provavelmente o músico mais precoce de qualquer época. Seus pais, Robert e Bess Rich, viajavam pelos Estados Unidos e Canadá apresentando espetáculos de vaudeville, uma espécie de teatro de variedades muito popular no início do século XX.

Buddy, cujo nome de batismo era Bernard, nasceu nesse ambiente, no dia 30 de setembro de 1917, no Brooklyn, em Nova Iorque, e praticamente desde o berço já se habituara aos holofotes. Em 1921, quando estava com quatro anos, já era uma das estrelas do espetáculo, protagonizando um sketch chamado “Traps, the Drum Wonder”.

Em pouco tempo, ele já fazia sucesso na Broadway e durante um bom período foi considerado o segundo artista infantil mais bem pago do mundo. Para que se tenha uma idéia, apenas Jackie Coogan, o menino que encantou o mundo ao estrelar, ao lado de Charlie Chaplin, o clássico “O garoto”, ganhava cachês superiores aos de Rich. Desde os onze anos de idade, Rich já liderava seus próprios conjuntos e desenvolveu praticamente sozinho o seu estilo.

Autodidata, tinha aversão ao estudo musical formal e costumava dizer, a respeito de quem pensava o contrário, que “a única coisa que esses caras conseguem praticando é cansar os pulsos”. Em uma entrevista, declarou que “ficar sentado em uma sala, durante oito horas por dia, apenas estudando e praticando é a coisa mais tediosa e chata que pode existir”.

O envolvimento de Rich com o jazz teve início em 1937, quando ele foi contratado pelo clarinetista Joe Marsala, para uma temporada no Hickory House, famoso clube de Nova Iorque. Após uma rápida passagem pelo grupo do trompetista Bunny Berigan, uniu-se à orquestra de Artie Shaw, em 1938.

No mesmo ano, participou de suas primeiras sessões de gravação, como integrante da Vic Schoen Orchestra, banda de apoio das famosas Andrews Sisters. Até então, Buddy apontava como sua principal influência o baterista Tony Briglia, da Casa Loma Orchestra. Mais adiante, reconheceria a importância de Gene Krupa e Jo Jones em sua formação.

Apesar de toda a sua resistência contra o estudo formal, Rich não se furtou a dar aulas de bateria a um jovem aspirante a ator que, no futuro, seria reconhecido como um dos mais importantes e influentes comediantes de Holywood: Mel Brooks, então com catorze anos. Alguns anos depois, Rich escreveria, em parceria com Henry Adler, o seu próprio método de ensino para bateristas, intitulado “Buddy Rich's Modern Interpretation of Snare Drum Rudiments”, considerado um dos mais completos sobre o assunto.

Em 1939, Buddy se juntaria à orquestra de Tommy Dorsey, cujo vocalista era ninguém menos que Frank Sinatra, e isso lhe deu enorme visibilidade nos meios jazzísticos. Ainda naquele ano, Buddy teve uma participação marcante no filme “Symphony of Swing”, estrelado por Artie Shaw e sua orquestra. Em 1942 o baterista se afastou da orquestra de Dorsey, a fim de servir à Marinha, mas ainda encontrou tempo para participar dos filmes “Ship Ahoy” (que no Brasil recebeu o título de “Barulho a bordo”) e “How's About It” (estrelado pelas Andrews Sisters).

De volta à vida civil, em 1944, retomou o posto junto a Dorsey, permanecendo ali por cerca de um ano. Depois de tocar por algum tempo com Benny Carter, Les Brown e Charlie Ventura, Rich decidiu montar sua própria orquestra. O detalhe interessante é que o capital inicial para o empreendimento lhe foi emprestado por ninguém menos que Frank Sinatra, antigo companheiro na orquestra de Tommy Dorsey.

Ao mesmo tempo em que liderava sua própria orquestra, Rich também se destacava como um dos mais assíduos integrantes do projeto Jazz at the Philharmonic, criado e administrado por Norman Granz. Com a perda de popularidade das orquestras do Swing, o baterista viu-se obrigado a desfazer a sua big band, no início dos anos 50.

Rich já era então considerado um dos mais importantes bateristas de todos os tempos e costumava incendiar platéias pelo mundo com suas célebres batalhas contra ases como Gene Krupa e Jo Jones. Ele havia assimilado a linguagem do bebop e transitava entre o jazz clássico e o moderno com absoluta desenvoltura, sendo bastante querido e respeitado por integrantes dessas duas correntes.

O rol de artistas com quem tocou, ao longo da carreira, impressiona pela quantidade e pela qualidade: Louis Armstrong, Count Basie, Bunny Berigan, Benny Carter, Nat King Cole, Miles Davis, Tommy Dorsey, Frank Sinatra, Roy Eldridge, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Helen Forrest, Stan Getz, Dizzy Gillespie, Benny Goodman, Lionel Hampton, Woody Herman, Harry James, Stan Kenton, Max Roach, Gene Krupa, Jimmy McGriff, Charlie Parker, Art Pepper, Oscar Peterson, Charlie Shavers, Artie Shaw, Bud Powell, Mel Tormé, Art Tatum, Teddy Wilson, Lester Young, Ray Brown, Barney Kessel, Herb Ellis, Flip Phillips, Oliver Nelson e incontáveis outros.

Em 1953, Buddy juntou-se ao trompetista Harry James e manteve com este uma parceria musical que se estendeu, com algumas interrupções, até 1966. A década de 50 marcou também o encontro fonográfico de Buddy com alguns dos mais celebrados bateristas do jazz. É o caso do álbum “Rich x Roach” (Mercury, 1959), que reúne os quintetos de Rich (formado por Phil Woods no sax alto, Willie Dennis no trombone, John Bunch no piano e Phil Leshin no contrabaixo) e e de Max Roax (integrado por Stanley Turrentine no sax tenor, Tommy Turrentine no sax alto, Julian Priester no trombone e Bobby Boswell no contrabaixo), com arranjos de Gigi Gryce.

Outro projeto semelhante reúne Buddy e seu rival Gene Krupa (a rivalidade era alimentada pelo público, claro, pois na vida real os dois eram ótimos amigos). O disco é o ótimo “Krupa and Rich” (Verve, 1955) e ao lado dos líderes, está um verdadeiro “Dream Team”: Oscar Peterson no piano, Ray Brown no contrabaixo, Herb Ellis na guitarra, Roy Eldridge e Dizzy Gillespie no trompete e Illinois Jacquet e Flip Philips no sax tenor.

Um dos seus discos mais estimulantes desse período é “Buddy and Sweets”, no qual divide os créditos com o virtuose do trompete Harry “Sweets” Edison. O disco foi gravado pela Norgran Records (embrião da Verve), com produção de Norman Granz, no dia 1º de setembro de 1955. O apoio ficou por conta de Jimmy Rowles (piano), Barney (guitarra) e John Simmons (contrabaixo).

O álbum é um veículo perfeito para as exibições de Rich e Sweets. Na faixa de abertura, por exemplo, “Yellow Rose of Brooklin”, após uma breve introdução de cerca de 30 segundos, a cargo de Edison, autor do tema, segue-se um longo e retumbante solo de bateria de quase quatro minutos.

A seguir, vem a sacolejante “Easy Does It”, composição de Sy Oliver e Trummy Young. É um blues cadenciado, com riffs empolgantes, especialmente por parte do trompetista, e um excepcional trabalho de Rowles e Simmons no acompanhamento. Kessel produz frases curtas e rápidas com a habitual criatividade e Rich, bastante contido, mostra que também é um craque com as escovas.

“All Sweets” é um tema vigoroso de Edison, cuja atuação é simplesmente extasiante e lembra os melhores momentos de Dizzy Gillespie. Seu ataque é notável e sua concatenação impressiona, pois alinha frases extremamente velozes de maneira absolutamente lógica. Bebop da melhor qualidade, seus breves dois minutos deixam no ouvinte um gostinho de “quero mais”.

O quinteto faz uma releitura bastante heterodoxa de “Nice Work If You Can Get It”, dos irmãos Gershwin, tornando-a irreconhecível em alguns momentos. Edison usa a surdina com extrema perícia e sua sonoridade remete à Era do Swing, sendo que ao final faz um duelo com Rich, no estilo pergunta e resposta, dos mais brilhantes. Kessel tem uma atuação vibrante, construindo um solo expressivo e articulado.

Mais longa faixa do disco, “Barney’s Bugle” é um tema de autoria de Rich e possui quase dez minutos de eletricidade em estado bruto. Solos estarrecedores por parte de Kessel, Edison e Rowles, que despejam toneladas de histamina sobre o ouvinte. O destaque individual fica por conta de Buddy, que ataca a pobre bateria com a fúria de um possesso. Seu solo é uma aula magna de vibração, polirritmia, articulação e swing.

Charlie Parker marca presença com uma formidável versão de “Now’s the Time”. O quinteto domina com bastante autoridade a atmosfera volátil do bebop. O duelo entre os líderes é energético e suas intervenções são uma combinação poderosa de excelência técnica e espontaneidade. Kessel brinca com as harmonias com a empolgação de um garoto e surpreende o ouvinte ao usar, em seu solo, uma distorção típica de músicos de rock.

Para encerrar, uma interpretação em tempo médio de “You're Getting to Be a Habit with Me”, de Al Dubin e Harry Warren. Mostrando a sensibilidade de um grande baladeiro, Edison usa a surdina com elegância e sobriedade. Rowles brilha em um solo de puro refinamento, no qual usa com muito bom gosto os registros agudos do piano. A surpresa fica por conta da percussão quase minimalista de Rich, que em momento algum destoa da atmosfera classuda criada pelos demais parceiros. Um álbum que enobrece qualquer discoteca de jazz e que mostra a plenitude da arte de um dos maiores nomes da bateria de todos os tempos.

Além de sua participação na orquestra de Harry James, ele ocasionalmente excursionava com o antigo patrão Tommy Dorsey e mantinha a agenda cheia com seu trabalho como acompanhante. Lançou vários discos em pequenas formações, para selos como Argo, Verve e Blue Note, incluindo os curiosos “Sings Johnny Mercer” (Verve, 1956) e “The Voice Is Rich” (Mercury, 1960, onde está acompanhado pela orquestra de Hal Mooney), nos quais além de tocar bateria ele também canta.

A década de 60 foi de muito trabalho para Rich e, como muitos músicos do período, ele também sofreu influência da cultura oriental, especialmente a indiana. O baterista chegou a gravar um álbum, “Rich Al Rahka” (Beat Goes On, 1968), ao lado do citarista Ravi Shankar e com a participação do flautista Paul Horn, outro grande entusiasta da cultura indiana.

Em 1966, Rich decidiu remontar a sua big band e, desta feita, com muito mais sucesso que aquela dos anos 40. O baterista não deixou de se apresentar em clubes e salões de baile, mas optou por privilegiar as apresentações em escolas e universidades, além de ginásios esportivos e auditórios ligados a instituições de ensino.

Ele conquistou uma legião de novos admiradores e sua orquestra promovia um estimulante encontro entre músicos consagrados, como Art Pepper, Joe Farell, Sal Nistico, Sonny Fortune e Bob Cranshaw, e novos talentos, como Jon Faddis, Bob Mintzer, Jimmy Bruno, Bobby Shew, Ernie Watts e Jack Wilkins. Os arranjos sempre ficavam a cargo de feras como Shorty Rogers, Don Menza, Sammy Nestico e Don Sebesky.

Nos anos 70, o baterista decidiu abrir o seu próprio clube, o Buddy's Place, em Nova Iorque. O sucesso foi tanto que em pouco tempo ele abriria uma segunda casa, o Buddy's Place II, e o sucesso se repetiu. Naquela década, Buddy incorporou ao repertório de sua orquestra temas mais identificados com o rock e o pop, aumentando ainda mais a sua empatia com o público jovem.

Outro fator que contribuiu imensamente para a sua popularidade se manter em alta foi a sua participação constante em programas televisivos, como o Tonight Show, apresentado por Johnny Carson, o Mike Douglas Show, o Dick Cavett Show e Merv Griffin Show. Dono de uma língua ferina e de um humor sarcástico, Buddy levava o público às gargalhadas, com seus comentários nada lisonjeiros sobre outros artistas, especialmente ligados à música pop.

Inesquecível foi a sua aparição no The Muppet Show, onde ele protagonizou um empolgante duelo com o furioso boneco Animal. Sua desenvoltura à frente das câmeras o levou a estrelar, no final dos anos 60, um programa de TV chamado “Away We Go”, juntamente com o cantor Buddy Greco e o comediante George Carlin, mas a série não fez muito sucesso e foi cancelada.

Bastante querido na Inglaterra, Rich era uma das atrações mais constantes do célebre clube Ronnie Scott’s, uma de suas casas prediletas e onde chegou a gravar alguns álbuns ao vivo. Nessas ocasiões, geralmente aparecia em programas da TV inglesa, como o Michael Parkinson Show e o Terry Wogan Show, onde esteve no dia 29 de outubro de 1986, poucos meses antes de falecer.

Ao longo da carreira, Buddy recebeu um sem número de prêmios e homenagens. Foi indicado para o Hall of Fame das revistas Downbeat e Modern Drummer, e foi agraciado com o Jazz Unlimited Imortals Award. Também recebeu o título de doutor honorário da Berklee School of Music e se apresentou para diversos presidentes dos Estados Unidos, como Franklin Roosevelt, John Kennedy, Jimmy Carter e Ronald Reagan.

Rich faleceu no dia 02 de abril de 1987, em conseqüência de uma parada cardíaca. Ele estava bastante debilitado, pois havia feito uma cirurgia para a retirada de um tumor cerebral. Vários amigos estiveram presentes no funeral, realizado no Westwood Village Memorial Park Cemetery, em Los Angeles, como Jerry Lewis, Robert Blake, Johnny Carson e Frank Sinatra, que fez um emocionante discurso de despedida. Para o lendário Gene Krupa, Buddy Rich era “o maior baterista do mundo”.

Em 1994 o baterista Neil Peart, do Rush, produziu o album tribute “Burning for Buddy: A Tribute to the Music of Buddy Rich”, com a participação de vários bateristas do rock e do jazz como Matt Sorum, Dave Weckl, Steve Gadd, Max Roach e o próprio Peart, acompanhados pela Buddy Rich Big Band. Em 1997 foi lançada a biografia do baterista, intitulada, “Traps - The Drum Wonder: The Life of Buddy Rich”, escrita pelo cantor Mel Tormé. No ano seguinte, a família do baterista criou a “Buddy Rich Memorial Brain Tumor Research Foundation”, fundação de pesquisa ligada à UCLA Medical Center.

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

SY OLIVER, UM DOS MÚSICOS MAIS AMÁVEIS, EDUCADOS E MODESTOS QUE CONHECI (por José Domingos Raffaelli)


 
Para os aficionados e entusiastas das novas gerações recém-inoculados com o micróbio do jazz, provavelmente o nome de Sy Oliver pode ser tão desconhecido e estranho quanto os de Copérnico, Indira Ghandi ou Galileu Galilei. É natural, os jovens e mesmo os não tão jovens recentemente expostos aos sons mágicos da música dos músicos não devem ter a menor idéia de quem se trata.

 Sy Oliver (1910-1988) foi um dos mais originais, inovadores e talentosos compositores-arranjadores do jazz das eras pré-swing e swing. Hoje falam e escrevem muito sobre os pioneiros Fletcher Henderson, Jelly Roll Morton, Duke Ellington, Don Redman, Benny Carter e Horace Henderson, porém Sy Oliver, raramente citado, também foi um pioneiro.

 Sy Oliver revelou-se no início dos anos 30 como trompetista, compositor, arranjador e ocasionalmente cantor da extraordinária orquestra de Jimmie Lunceford, formação inteiramente marginalizada, esquecida e desconhecida nos dias de hoje. Ele criou o “estilo Lunceford” com suas composições e arranjos inconfundíveis que deixaram a estampa da sua identidade na big band do maestro Lunceford. Como poucos, ele mesclava as diferentes seções melódicas da orquestra alternando-se na criação de passagens realmente originais nas suas brilhantes orquestrações. É suficiente ouvir "For dancers only”, “Swanee River”, “Deep River”, “Margie” e, principalmente, o sensacional “Organ grinder’s swing”, no qual a orquestra reproduz fielmente o som de um realejo (organ grinder significa realejo) e o tropel dos cavalos que puxavam as carroças que transportavam aquela engenhoca musical pelas ruas das cidades americanas.

 Anos mais tarde, em 1939, o maestro e trombonista Tommy Dorsey fez uma oferta irrecusável a Sy Oliver para ser o compositor e arranjador exclusivo da sua orquestra. Imediatamente Sy entrou em ação, levando consigo alguns arranjos que escrevera para Lunceford. Com seu toque pessoal e genial, imediatamente modernizou o estilo da orquestra de Dorsey.

Tendo iniciado minha vida de jazzófilo ouvindo as grandes bandas da Era do Swing, logo fiquei familiarizado com grande parte delas. Entre muitas outras, na minha preferência também estavam as de Lunceford e Tommy Dorsey, indissoluvelmente ligadas ao assunto deste relato.

 Durante anos sonhava um dia encontrar Sy Oliver para conversarmos e obter o máximo de informações possíveis da sua notável carreira. Após anos aguardando essa possibilidade, com o passar do tempo fui perdendo paulatinamente a esperança, pois, todas as vezes que ia a New York, ninguém sabia do paradeiro dele. Conformado, deixei de lado esse sonho aparentemente irrealizável.

 Diz um velho ditado que, se acreditarmos firmemente num sonho, ele se realizará. E, para minha infinita surpresa, quando nada mais esperava a esse respeito, o ambicionado sonho materializou-se inesperadamente. Aconteceu em julho de 1982, logo depois da eliminação do Brasil pela Itália na Copa do Mundo da Espanha. Caminhava com minha esposa pela 50th Street, em New York, quando, ao passar em frente ao gigantesco Edifício Rockfeller, levei um susto ao ver, junto à porta, um enorme cartaz com os dizeres: “Tonight: the Sy Oliver Orchestra plays in the Rainbow Room Restaurant at 8:30 PM”.

Fiquei alucinado. Era a oportunidade que perseguia há anos. Entrei e o recepcionista informou que os ingressos estavam à venda no saguão do imponente restaurante, no 65º andar. Por sorte minha, havia mesas disponíveis junto ao palco. Imediatamente comprei uma estrategicamente colocada. Desembolsei a bagatela de U$130,00, que incluía o jantar, sentindo-me realizado. Finalmente ia ver, ouvir e falar com Sy Oliver. Minha mulher dizia a todo momento que eu parecia um menino perdido numa fábrica de brinquedos. Juro que contei as horas antevendo a realização do velho sonho.

Chegamos às 8:00 PM e sentamo-nos na mesa reservada. O Rainbow Room é uma das maravilhas do mundo. Todo envidraçado, em formato circular, proporciona uma visão fabulosa de 360 graus de toda a área da fantástica megalópole. É de tirar a fôlego. Imaginem uma noite de verão sem nevoeiro e toda New York iluminada à sua volta proporcionando um panorama que nunca irei esquecer.

Finalmente chegou a hora. Os músicos tomaram seus lugares no palco e atacaram um blues de Sy Oliver. Na bateria, de cara reconheci o lendário Jimmy Crawford, que tocou com Lunceford, porque ele era sósia do antigo jogador Eli do Amparo, um brucutu que distribuiu botinadas no Vasco e na Seleção Brasileira. Outros conhecidos eram o trompetista Dick Vance e o tenorista Joe Thomas, este ex-sideman de Lunceford. Aí entrou Sy Oliver e atacou “For dancers only”. Fiquei petrificado! Queria que aquele momento se prolongasse por muitos anos. Mas, logo vieram “Margie”, “By the river Saint Marie” e outros temas que eu conhecia desde rapazinho. Aos poucos fiquei totalmente envolvido pela música e agradecia a Deus por me conceder a graça de estar ali.

Após Sy Oliver anunciar o intervalo, levantei-me rápido e convidei-o a vir à nossa mesa. Ele agradeceu e aceitou, porém ia ausentar-se por alguns momentos e voltaria em seguida. De fato, menos de cinco minutos depois estava de volta. Elegante em seu irrepreensível smoking, simpático e bem-falante, ficou surpreso quando eu disse ser brasileiro e que conhecia razoavelmente bem sua carreira, inclusive inúmeras gravações de Lunceford e Tommy Dorsey. Seguiu-se uma agradável conversa em que esse homem amável, inteligente e educadíssimo, sem pretensão alguma em jactar-se da sua trajetória, emocionou-me por sua modéstia e seus valores morais. Raramente encontrei alguém assim. No jazz, somente Dave Brubeck, Lee Konitz, Jim Hall, George Russell, Cannonball Adderley, Jaki Byard, Lester Young, Horace Silver, Dick Katz e talvez mais três ou quatro.

Entre outras revelações, contou-me que Jimmie Lunceford era um homem culto que exigia completa disciplina dos seus músicos, não só profissional como na vida pessoal. Entre suas exigências, Lunceford só contratava músicos que não bebiam e não fumavam. Antes das apresentações ao vivo da orquestra, passava seus integrantes em cuidadosa revista, verificando se os sapatos estavam engraxados, se a camisa estava alva como a neve, se a ponta do lenço branco no bolso superior do paletó era visível somente uma polegada, a medida exata que ele exigia e outros detalhes mais. Eu ouvia tudo fascinado.

A certa altura, perguntou-me se o jazz tinha seu público no Brasil. Foi então que as surpresas aumentaram ainda mais ao mencionar que, no início da década de 30, ele teve um amigo brasileiro que era pianista e compositor. Perguntei-lhe o nome do amigo. Seguiu-se um diálogo que tentarei reproduzir o mais fielmente possível:

Sy – Chamava-se Fernando Pessoa Cavalcante, era muito talentoso. Tocava piano muito bem e vendeu algumas composições para ganhar dinheiro. Uma delas foi “Dardanella”, que foi um grande sucesso da orquestra de Paul Whiteman. Você o conhece ?

Raf – Não o conheci, mas sei que ele morreu há muitos anos porque sou amigo de um filho dele, que mora em São Paulo. Chama-se José Candido Cavalcante e tocou trombone num conjunto dixieland.

Sy – Lamento saber que Fernando faleceu. Não sabia que tinha um filho, deve ter nascido depois que ele voltou para o Brasil. Lembro muito bem dele.

Nesse momento, ele olhou para o relógio e disse que em cinco minutos voltaria ao palco. Perguntei se incluíra no repertório o clássico “T’Ain’t What To Do”, ao que respondeu que sim.

Pediu licença para retirar-se e, antes de subir ao palco para o segundo set, despediu-se demonstrando sua modéstia virtualmente incomparável, como nunca ouvi de outro ser humano:

Sy – Pode fazer-me uma gentileza quando regressar ao Brasil ? Dê minhas lembranças ao filho do Fernando Pessoa Cavalcante. Mas, por favor, não esqueça que meu nome é Sy Oliver.

Dá pra acreditar ? Nunca vi tanta modéstia. Bolas, passei o tempo todo dizendo quanto admirava o trabalho dele e no final pediu que não esquecesse seu nome!

Encerrando aquela noite inesquecível que tanto me emocionou, Sy dedicou o último número “ao amigo brasileiro José”. Adivinhem qual foi. “T Ain’t What To Do”, com direito àquela memorável batalha de três trombonistas como ouvimos na gravação do próprio Sy Oliver para a Decca, e a coreografia das seções melódicas da orquestra voltando-se alternadamente para a direita e esquerda, produzindo um efeito visual dos mais espetaculares.

Desnecessário dizer que saí do Rainbow Room em estado de graça.

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É sempre um privilégio publicar, aqui no jazzbarzinho, um texto de autoria do Mestre José Domingos Raffaelli. Na semana passada, voltamos a nos encontrar no Rio de Janeiro, para uma conversa maravilhosa. Como sempre, seu conhecimento enciclopédico, sua cultura extraordinária, seu bom humor e sua simplicidade nos cativaram ainda mais. Ao nosso lado, o blogueiro Sérgio Sônico e o produtor Edison Lenine, amigos queridos que dividiram comigo a honra de ouvir e aprender com o Mestre Raffaelli.


O texto acima, além das informações sobre Sy Oliver, revela um pouco mais acerca de quem o escreveu. Demonstrando a emoção de um garoto, Raffaelli descreve, de maneira comovente, seu encontro com um dos ídolos de sua juventude. É impossível ao leitor não se emocionar com o Mestre. Por isso, à leitura! E para ouvir na radiola, duas versões de “Yes Indeed”, um dos temas mais conhecidos de Oliver, escrito em parceria com Trummy Young.

Na primeira, Hank Mobley lidera um poderoso quinteto, integrado por Donald Byrd (trompete), Herbie Hancock (piano), Butch Warren (contrabaixo) e Philly Joe Jones (bateria). A faixa pode ser encontrada no disco “Straight, No Filter” e a gravação, feita para a Blue Note, foi realizada em 07 de março de 1963. Na segunda, o líder é Ron Carter (que nesta gravação toca cello) e a seu lado estão: Eric Dolphy (clarinete baixo, flauta e sax alto), Mal Waldron (piano), George Duvivier (contrabaixo) e Charlie Persip (bateria). A faixa foi extraída do álbum “Where?”, cujas gravações foram feitas no dia 20 de junho de 1961, para a Prestige.


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