Amigos do jazz + bossa

sábado, 10 de dezembro de 2011

MANSIDÃO



 Ah, minha antiga juventude,

Quando me embriagava dos dias e das noites

E não me escondia da vida

Ouvia a silenciosa canção das flores

Sentia a vívida ancestralidade do seu perfume

Ainda não conhecia o sabor amargo das ervas obscuras

E trafegava pelos bares,

O templo alegre da oração líquida

A igreja mundana da comunhão mais verdadeira,

Mas os bares um dia fecharam as portas

E a cidade ficou deserta,

Os pátios viraram ruína

E as ruas eram um esboço inacabado

Desde então minha sede permanece intacta

A sede veemente e rouca

Que não amaina porque mesmo a pino

O sol é penumbra e horror

Perdeu-se a dança, perdeu-se o riso

Perdeu-se a solenidade irreverente

O fio da palavra não mais tece a linha do tempo

E os dias se apagam como uma fratura silenciosa

Não importa se é setembro ou fevereiro

As badaladas dos sinos alardeavam

O triunfo do tempo, o pesadelo nu

O tempo inclemente se insinua pelos desvãos de uma vida vazia

A vida que se esvai

Não com um rugido feroz,

Mas com um suspiro breve e quase mudo

O futuro vagaroso e sumário

Só traz a dor aguda

A agonia translúcida

Dos dias que passam despercebidos

Pela janela dos meus olhos

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Montgomery Bernard Alexander nasceu em Kingston, Jamaica, no dia 06 de junho de 1944. Com a inacreditável idade de quatro anos, já golpeava calipsos e boogies no piano de casa. Aos seis anos iniciou-se nos estudos de piano clássico e tudo indicava que ele se tornaria um respeitado concertista. Todavia, na adolescência ele assistiu, no Kingston's Carib Theater, a concertos de Louis Armstrong, Ray Charles e Nat “King” Cole e apaixonou-se pelo jazz, orientando sua carreira para esse estilo.

Com apenas 16 anos e já usando o nome artístico de Monty Alexander, ele formou no colégio sua primeira orquestra, chamada “Monty And The Cyclones”. Atuando em festas e bailes, o grupo chegou a gravar, usando então a denominação de “The Skatalites”. Nessa época, o pianista era um assíduo freqüentador dos clubes de jazz de Kingston e foi ali que conheceu o lendário guitarrista jamaicano Ernest Ranglin, considerado o inventor do ska.

Em 1961 mudou-se com a família para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Miami. Atuando em clubes noturnos da cidade, não demorou a chamar a atenção do pianista Wynton Kelly, também nascido na Jamaica e de quem Monty se tornaria amigo. Kelly seria uma de suas principais influências, ao lado de Art Tatum, Oscar Peterson, Gene Harris e Ahmad Jamal. Outros grandes pianistas que Monty conheceu nesse período foram Bill Doggertt, George Shearing e Eddie Heywood. Em 1963 Alexander realizou uma temporada com a orquestra de Art Mooney em Las Vegas, chamando a atenção de ninguém menos que Frank Sinatra

Impressionado com o talento do rapaz, Sinatra recomendou-o a seu amigo Jilly Rizzo, proprietário do clube  “Jilly’s” de Nova Iorque. Monty decidiu se mudar para a Grande Maçã e se tornou atração fixa da casa. O próprio Sinatra chegou a se apresentar ali, sempre acompanhado por seu protegido. Durante o período no clube, o pianista conheceu os integrantes do “Modern Jazz Quartet”, tornando-se amigo particular do vibrafonista Milt Jackson, com quem gravaria inúmeros discos. Jackson o apresentou ao baixista Ray Brown, que também se converteria em um importante parceiro musical.

O pianista deixou o “Jilly’s” para se apresentar no “Playboy Club”, também em Nova Iorque, ao lado do guitarrista Les Spann, permanecendo no clube por cerca de dois anos. Em 1964, aos 20 anos, fez as suas primeiras gravações como líder, para a World Pacific Records: “Alexander The Great” e “Spunky”. Também atuou, por uma temporada, no “Playboy Club” de Los Angeles, liderando um trio formado por Victor Gaskin (contrabaixo) e Paul Humphrey (bateria).

Em agosto de 1969, gravou, juntamente com Ray Brown e Milt Jackson, um álbum ao vivo no “Shelly’s Manne Hole”, lendário clube californiano. O disco foi lançado pelo selo “Impulse” e conta com as presenças de Teddy Edwards no sax tenor e Dick Berg na bateria. No início dos anos 70 o produtor Don Schlitten, atendendo a uma recomendação de Oscar Peterson, contrata Monty para o cast do selo alemão MPS.

O experiente Schlitten, com uma excelente folha de serviços prestados à Prestige e à Muse Records, havia fundado anteriormente os selos “Signal Records” (vendido no final da década de 1950 para a “Savoy Records”), “Cobblestone Records” (gravou Sonny Stitt e as  apresentações do “Newport Festival” de 1972) e “Xanadu Records” (onde gravaram Barry Harris, Al Cohn, Charles McPherson e muitos outros).

Schlitten não se arrependeu de sua decisão. Os álbuns gravados por Alexander na MPS figuram entre os melhores da longa discografia do pianista. O primeiro deles é realmente sensacional: “We’ve Only Just Begun”. As gravações foram realizadas no dia 1º de dezembro de 1971, durante uma apresentação em Buffalo, estado de Nova Iorque, e para acompanhar o líder, dois músicos mais do que rodados, o contrabaixista Eugene Wright (egresso do quarteto de Dave Brubeck) e o baterista Bobby Durham (veterano do trio de Oscar Peterson).

A introdução fica a cargo de uma poderosa versão de “It Could Happen to You”, de Jimmy Van Heusen e Johnny Burke. Executada em um tempo surpreendentemente rápido, com direito a uma longa e furiosa citação de “Milestones”, de Miles Davis, a faixa mostra o domínio de Alexander sobre o idioma bop. Destaque-se, ainda, a exuberância rítmica de Durham, que ataca a bateria com a ferocidade de uma matilha de lobos.

“Theme from Summer of '42”, de Michel Legrand, ganha uma arranjo emocionante. A introdução, a cargo de Alexander e Durham, é de uma beleza sóbria e o desenvolvimento do tema é quase minimalista, com um excelente trabalho do baterista com as escovas. “Monticello” é uma composição do líder e flerta com o soul jazz. Com um groove irresistível, lembra a pegada vigorosa de Gene Harris, um dos pianistas mais influentes na carreira de Monty.

Sem medo de enveredar pela seara pop, o trio faz uma impactante versão de “We've Only Just Begun”, da dupla Roger Nichols e Paul Williams, que em nada lembra a açucarada interpretação dos Carpenters. A versão do disco passa longe da cafonice e da obviedade, incorporando ao tema elementos da música caribenha, tão caros ao pianista. A percussão irrequieta de Durham e o apoio impecável de Wright adicionam charme e colorido à interpretação.

Frank Loesser é o autor da balada “I've Never Been in Love Before”, que recebe um arranjo altamente subversivo. Após uma introdução lenta, o trio faz uma releitura arrasadora, em tempo rápido e com um pronunciado acento bop. Improvisando de forma lúcida e vibrante, Monty não esconde a influência de Oscar Peterson em sua formação e como o canadense, seu fraseado e seu timbre possuem uma enorme vitalidade. Contagiados pelo líder, Wright e Durham mostram um excelente entrosamento e preparam o formidável suporte rítmico para os vôos de Alexander.

O álbum encerra com uma insólita versão do hit “Theme from Love Story”, de Francis Lai e Henry Mancini, retirado da trilha sonora do filme homônimo. A película fez um sucesso tremendo nos anos 70 e a interpretação do trio é surpreendente, ao inserir elementos de bossa nova, calipso e ao formular citações de “Fascinating Rhythm”.

Em 1974 o pianista realiza uma longa temporada pelos Estados Unidos e em abril de 1975 faz a sua primeira excursão européia, iniciada em Londres, no tradicionalíssimo clube “Ronnie Scott’s. No ano seguinte, excursiona pela Europa com o percussionista Othello Molineaux. A partir de então o jamaicano se torna um dos nomes mais requisitados do cenário jazzístico, realizando concorridas apresentações em clubes e festivais.

Ele se consagra como um excepcional pianista de trio, geralmente acompanhado por baixo e bateria (que por vezes é substituída pela guitarra).  Herb Ellis, Ray Brown, Mads Vinding, John Clayton, Niels-Heening Ørsted Pedersen e Ed Thigpen seriam seus parceiros mais constantes ao longo dos anos 70 e 80. Além disso, foi o pianista mais constante do Ray Brown Trio no mesmo período, tendo feito gravações formidáveis ao lado do lendário baixista.

Alexander seria um dos destaques do sexteto que acompanhou Dizzy Gillespie em sua memorável apresentação no Festival de Montreux de 1977. A banda era completada por Ray Brown, Milt Jackson, Jonathan “Jon” Faddis e Jimmy Smith. Gillespie e seus comandados revisitam temas como “Once In A While”, “But Beatiful” e “Here’s That Rainy Day” e para o deleite dos jazzófilos essa espetacular apresentação ficou perpetuada em DVD dentro da série “Norman Granz Jazz In Montreux”. 

Em 1981 Alexander casou-se com a guitarrista Emily Remler, mas o casamento foi desfeito em 1984. Considerado o “novo Oscar Peterson”, o pianista participou de projetos muito bem sucedidos, como o álbum “Unforgetable”, de Natalie Cole, que arrebatou sete prêmios Grammy, e da trilha sonora do filme “Bird”, biografia de Charlie Parker dirigida por Clint Eastwwod. Em 1993, realizou, no prestigioso Carnegie Hall, um concerto em homenagem ao grande Erroll Garner e em 1996, durante o Festival de Verbier, na Suíça, Monty participou de uma releitura de “Rhapsody In Blue”, de George Gershwin, sob a direção do cantor Bobby McFerrin.

De 1979 a 1997 foi um dos mais destacados artistas do cast da Concord, gravando ali dezenas de álbuns como líder, sendo que o primeiro deles foi “Facets”, ao lado de Ray Brown (baixo) e Jeff Hamilton (bateria). Na gravadora, participaria de uma infinidade de outros discos como sideman e em seu portfólio pode exibir trabalhos ao lado de Kai Winding, Milt Jackson, Dizzy Gillespie, Ernestine Anderson, Miles Davis, Marshall Royal, Johnny Griffin, Shelly Manne, Jimmy Smith, Barney Kessel, Howard Alden, Herb Ellis, Sonny Rollins, Clark Terry, Quincy Jones, Mary Stallings, Benny Golson, Frank Morgan e muitos mais.

Em agosto de 2000 Alexander foi agraciado pelo governo jamaicano o título de “Commander in the Order Of Distinction”, por conta dos relevantes serviços de embaixador musical por todo o mundo. É uma das atrações mais constantes em festivais pelo mundo e em 2008 ele foi convidado por Wynton Marsalis para produzir e dirigir, para o “Jazz At Lincoln Center”, o programa “Lords Of The West Indies”, transmitido nacionalmente pela “BETJ”. No ano seguinte, mais uma série de programas, chamada “Harlem Kingston Express”, mostrando as interações entre o jazz clássico e os ritmos jamaicanos.

Como leciona Pedro “Apóstolo” Cardoso, Alexander é um artista maduro e possuidor de um estilo próprio, que “sempre nos brinda com uma música de alta qualidade, agradável, plena de “swing”, alguns toques caribenhos, total domínio nos acordes blocados e um “colorido” bem especial”. Sua longa discografia, que registra tributos a Duke Ellington, Bob Marley, Nat King Cole e Tony Bennett, encontra-se distribuída por selos como Pablo, Telarc, Island, BMG, Kingston Records, Chesky, JVC, Jazz Hour e outros.

Em 2011, lançou o disco “Harlem-Kingston Express” para a Motema Music. Gravado ao vivo no clube Dizzy’s Coca-Cola, em Nova Iorque, o álbum foi direto para os primeiros lugares das paradas de jazz e apresenta versões de sucessos como “Day-O (Banana Boat Song)”, imortalizada por Harry Belefonte, e “No Woman, No Cry”, de Bob Marley. Atualmente, Alexander vive em Nova Iorque, com a esposa, a cantora Caterina Zapponi.

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

MEU MALVADO FAVORITO




Uma frase atribuída a Tommy Dorsey dá bem a medida do gênio irascível e da personalidade tempestuosa de Buddy Rich: "Existem três sujeitos ruins no mundo: Adolf Hitler, Alvin Stoller e Buddy Rich. Eu trabalhei com dois deles em minhas orquestras". Conhecido no meio musical pelo temperamento tão explosivo quanto as suas performances, Rich era capaz de demitir uma orquestra inteira, aos berros, quando seus músicos não faziam exatamente aquilo que ele queria.

Rich, Gene Krupa e Louie Bellson formavam a Santíssima Trindade da Bateria Pré-bop – e não há nenhum exagero nessa afirmação. Em igual medida, pode-se afirmar que Max Roach, Kenny Clarke e Art Blakey seriam a Santíssima Trindade da Bateria Bop. Esses grupos de músicos representam duas escolas distintas, mas ambas fundamentais para o desenvolvimento da bateria jazzística.

Considerado por muitos dos seus pares como o maior baterista de todos os tempos, Buddy Rich tornou-se uma lenda ainda em vida. Alguns historiadores afirmam que sua carreira começou quando ele tinha apenas 18 meses de idade – provavelmente o músico mais precoce de qualquer época. Seus pais, Robert e Bess Rich, viajavam pelos Estados Unidos e Canadá apresentando espetáculos de vaudeville, uma espécie de teatro de variedades muito popular no início do século XX.

Buddy, cujo nome de batismo era Bernard, nasceu nesse ambiente, no dia 30 de setembro de 1917, no Brooklyn, em Nova Iorque, e praticamente desde o berço já se habituara aos holofotes. Em 1921, quando estava com quatro anos, já era uma das estrelas do espetáculo, protagonizando um sketch chamado “Traps, the Drum Wonder”.

Em pouco tempo, ele já fazia sucesso na Broadway e durante um bom período foi considerado o segundo artista infantil mais bem pago do mundo. Para que se tenha uma idéia, apenas Jackie Coogan, o menino que encantou o mundo ao estrelar, ao lado de Charlie Chaplin, o clássico “O garoto”, ganhava cachês superiores aos de Rich. Desde os onze anos de idade, Rich já liderava seus próprios conjuntos e desenvolveu praticamente sozinho o seu estilo.

Autodidata, tinha aversão ao estudo musical formal e costumava dizer, a respeito de quem pensava o contrário, que “a única coisa que esses caras conseguem praticando é cansar os pulsos”. Em uma entrevista, declarou que “ficar sentado em uma sala, durante oito horas por dia, apenas estudando e praticando é a coisa mais tediosa e chata que pode existir”.

O envolvimento de Rich com o jazz teve início em 1937, quando ele foi contratado pelo clarinetista Joe Marsala, para uma temporada no Hickory House, famoso clube de Nova Iorque. Após uma rápida passagem pelo grupo do trompetista Bunny Berigan, uniu-se à orquestra de Artie Shaw, em 1938.

No mesmo ano, participou de suas primeiras sessões de gravação, como integrante da Vic Schoen Orchestra, banda de apoio das famosas Andrews Sisters. Até então, Buddy apontava como sua principal influência o baterista Tony Briglia, da Casa Loma Orchestra. Mais adiante, reconheceria a importância de Gene Krupa e Jo Jones em sua formação.

Apesar de toda a sua resistência contra o estudo formal, Rich não se furtou a dar aulas de bateria a um jovem aspirante a ator que, no futuro, seria reconhecido como um dos mais importantes e influentes comediantes de Holywood: Mel Brooks, então com catorze anos. Alguns anos depois, Rich escreveria, em parceria com Henry Adler, o seu próprio método de ensino para bateristas, intitulado “Buddy Rich's Modern Interpretation of Snare Drum Rudiments”, considerado um dos mais completos sobre o assunto.

Em 1939, Buddy se juntaria à orquestra de Tommy Dorsey, cujo vocalista era ninguém menos que Frank Sinatra, e isso lhe deu enorme visibilidade nos meios jazzísticos. Ainda naquele ano, Buddy teve uma participação marcante no filme “Symphony of Swing”, estrelado por Artie Shaw e sua orquestra. Em 1942 o baterista se afastou da orquestra de Dorsey, a fim de servir à Marinha, mas ainda encontrou tempo para participar dos filmes “Ship Ahoy” (que no Brasil recebeu o título de “Barulho a bordo”) e “How's About It” (estrelado pelas Andrews Sisters).

De volta à vida civil, em 1944, retomou o posto junto a Dorsey, permanecendo ali por cerca de um ano. Depois de tocar por algum tempo com Benny Carter, Les Brown e Charlie Ventura, Rich decidiu montar sua própria orquestra. O detalhe interessante é que o capital inicial para o empreendimento lhe foi emprestado por ninguém menos que Frank Sinatra, antigo companheiro na orquestra de Tommy Dorsey.

Ao mesmo tempo em que liderava sua própria orquestra, Rich também se destacava como um dos mais assíduos integrantes do projeto Jazz at the Philharmonic, criado e administrado por Norman Granz. Com a perda de popularidade das orquestras do Swing, o baterista viu-se obrigado a desfazer a sua big band, no início dos anos 50.

Rich já era então considerado um dos mais importantes bateristas de todos os tempos e costumava incendiar platéias pelo mundo com suas célebres batalhas contra ases como Gene Krupa e Jo Jones. Ele havia assimilado a linguagem do bebop e transitava entre o jazz clássico e o moderno com absoluta desenvoltura, sendo bastante querido e respeitado por integrantes dessas duas correntes.

O rol de artistas com quem tocou, ao longo da carreira, impressiona pela quantidade e pela qualidade: Louis Armstrong, Count Basie, Bunny Berigan, Benny Carter, Nat King Cole, Miles Davis, Tommy Dorsey, Frank Sinatra, Roy Eldridge, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Helen Forrest, Stan Getz, Dizzy Gillespie, Benny Goodman, Lionel Hampton, Woody Herman, Harry James, Stan Kenton, Max Roach, Gene Krupa, Jimmy McGriff, Charlie Parker, Art Pepper, Oscar Peterson, Charlie Shavers, Artie Shaw, Bud Powell, Mel Tormé, Art Tatum, Teddy Wilson, Lester Young, Ray Brown, Barney Kessel, Herb Ellis, Flip Phillips, Oliver Nelson e incontáveis outros.

Em 1953, Buddy juntou-se ao trompetista Harry James e manteve com este uma parceria musical que se estendeu, com algumas interrupções, até 1966. A década de 50 marcou também o encontro fonográfico de Buddy com alguns dos mais celebrados bateristas do jazz. É o caso do álbum “Rich x Roach” (Mercury, 1959), que reúne os quintetos de Rich (formado por Phil Woods no sax alto, Willie Dennis no trombone, John Bunch no piano e Phil Leshin no contrabaixo) e e de Max Roax (integrado por Stanley Turrentine no sax tenor, Tommy Turrentine no sax alto, Julian Priester no trombone e Bobby Boswell no contrabaixo), com arranjos de Gigi Gryce.

Outro projeto semelhante reúne Buddy e seu rival Gene Krupa (a rivalidade era alimentada pelo público, claro, pois na vida real os dois eram ótimos amigos). O disco é o ótimo “Krupa and Rich” (Verve, 1955) e ao lado dos líderes, está um verdadeiro “Dream Team”: Oscar Peterson no piano, Ray Brown no contrabaixo, Herb Ellis na guitarra, Roy Eldridge e Dizzy Gillespie no trompete e Illinois Jacquet e Flip Philips no sax tenor.

Um dos seus discos mais estimulantes desse período é “Buddy and Sweets”, no qual divide os créditos com o virtuose do trompete Harry “Sweets” Edison. O disco foi gravado pela Norgran Records (embrião da Verve), com produção de Norman Granz, no dia 1º de setembro de 1955. O apoio ficou por conta de Jimmy Rowles (piano), Barney (guitarra) e John Simmons (contrabaixo).

O álbum é um veículo perfeito para as exibições de Rich e Sweets. Na faixa de abertura, por exemplo, “Yellow Rose of Brooklin”, após uma breve introdução de cerca de 30 segundos, a cargo de Edison, autor do tema, segue-se um longo e retumbante solo de bateria de quase quatro minutos.

A seguir, vem a sacolejante “Easy Does It”, composição de Sy Oliver e Trummy Young. É um blues cadenciado, com riffs empolgantes, especialmente por parte do trompetista, e um excepcional trabalho de Rowles e Simmons no acompanhamento. Kessel produz frases curtas e rápidas com a habitual criatividade e Rich, bastante contido, mostra que também é um craque com as escovas.

“All Sweets” é um tema vigoroso de Edison, cuja atuação é simplesmente extasiante e lembra os melhores momentos de Dizzy Gillespie. Seu ataque é notável e sua concatenação impressiona, pois alinha frases extremamente velozes de maneira absolutamente lógica. Bebop da melhor qualidade, seus breves dois minutos deixam no ouvinte um gostinho de “quero mais”.

O quinteto faz uma releitura bastante heterodoxa de “Nice Work If You Can Get It”, dos irmãos Gershwin, tornando-a irreconhecível em alguns momentos. Edison usa a surdina com extrema perícia e sua sonoridade remete à Era do Swing, sendo que ao final faz um duelo com Rich, no estilo pergunta e resposta, dos mais brilhantes. Kessel tem uma atuação vibrante, construindo um solo expressivo e articulado.

Mais longa faixa do disco, “Barney’s Bugle” é um tema de autoria de Rich e possui quase dez minutos de eletricidade em estado bruto. Solos estarrecedores por parte de Kessel, Edison e Rowles, que despejam toneladas de histamina sobre o ouvinte. O destaque individual fica por conta de Buddy, que ataca a pobre bateria com a fúria de um possesso. Seu solo é uma aula magna de vibração, polirritmia, articulação e swing.

Charlie Parker marca presença com uma formidável versão de “Now’s the Time”. O quinteto domina com bastante autoridade a atmosfera volátil do bebop. O duelo entre os líderes é energético e suas intervenções são uma combinação poderosa de excelência técnica e espontaneidade. Kessel brinca com as harmonias com a empolgação de um garoto e surpreende o ouvinte ao usar, em seu solo, uma distorção típica de músicos de rock.

Para encerrar, uma interpretação em tempo médio de “You're Getting to Be a Habit with Me”, de Al Dubin e Harry Warren. Mostrando a sensibilidade de um grande baladeiro, Edison usa a surdina com elegância e sobriedade. Rowles brilha em um solo de puro refinamento, no qual usa com muito bom gosto os registros agudos do piano. A surpresa fica por conta da percussão quase minimalista de Rich, que em momento algum destoa da atmosfera classuda criada pelos demais parceiros. Um álbum que enobrece qualquer discoteca de jazz e que mostra a plenitude da arte de um dos maiores nomes da bateria de todos os tempos.

Além de sua participação na orquestra de Harry James, ele ocasionalmente excursionava com o antigo patrão Tommy Dorsey e mantinha a agenda cheia com seu trabalho como acompanhante. Lançou vários discos em pequenas formações, para selos como Argo, Verve e Blue Note, incluindo os curiosos “Sings Johnny Mercer” (Verve, 1956) e “The Voice Is Rich” (Mercury, 1960, onde está acompanhado pela orquestra de Hal Mooney), nos quais além de tocar bateria ele também canta.

A década de 60 foi de muito trabalho para Rich e, como muitos músicos do período, ele também sofreu influência da cultura oriental, especialmente a indiana. O baterista chegou a gravar um álbum, “Rich Al Rahka” (Beat Goes On, 1968), ao lado do citarista Ravi Shankar e com a participação do flautista Paul Horn, outro grande entusiasta da cultura indiana.

Em 1966, Rich decidiu remontar a sua big band e, desta feita, com muito mais sucesso que aquela dos anos 40. O baterista não deixou de se apresentar em clubes e salões de baile, mas optou por privilegiar as apresentações em escolas e universidades, além de ginásios esportivos e auditórios ligados a instituições de ensino.

Ele conquistou uma legião de novos admiradores e sua orquestra promovia um estimulante encontro entre músicos consagrados, como Art Pepper, Joe Farell, Sal Nistico, Sonny Fortune e Bob Cranshaw, e novos talentos, como Jon Faddis, Bob Mintzer, Jimmy Bruno, Bobby Shew, Ernie Watts e Jack Wilkins. Os arranjos sempre ficavam a cargo de feras como Shorty Rogers, Don Menza, Sammy Nestico e Don Sebesky.

Nos anos 70, o baterista decidiu abrir o seu próprio clube, o Buddy's Place, em Nova Iorque. O sucesso foi tanto que em pouco tempo ele abriria uma segunda casa, o Buddy's Place II, e o sucesso se repetiu. Naquela década, Buddy incorporou ao repertório de sua orquestra temas mais identificados com o rock e o pop, aumentando ainda mais a sua empatia com o público jovem.

Outro fator que contribuiu imensamente para a sua popularidade se manter em alta foi a sua participação constante em programas televisivos, como o Tonight Show, apresentado por Johnny Carson, o Mike Douglas Show, o Dick Cavett Show e Merv Griffin Show. Dono de uma língua ferina e de um humor sarcástico, Buddy levava o público às gargalhadas, com seus comentários nada lisonjeiros sobre outros artistas, especialmente ligados à música pop.

Inesquecível foi a sua aparição no The Muppet Show, onde ele protagonizou um empolgante duelo com o furioso boneco Animal. Sua desenvoltura à frente das câmeras o levou a estrelar, no final dos anos 60, um programa de TV chamado “Away We Go”, juntamente com o cantor Buddy Greco e o comediante George Carlin, mas a série não fez muito sucesso e foi cancelada.

Bastante querido na Inglaterra, Rich era uma das atrações mais constantes do célebre clube Ronnie Scott’s, uma de suas casas prediletas e onde chegou a gravar alguns álbuns ao vivo. Nessas ocasiões, geralmente aparecia em programas da TV inglesa, como o Michael Parkinson Show e o Terry Wogan Show, onde esteve no dia 29 de outubro de 1986, poucos meses antes de falecer.

Ao longo da carreira, Buddy recebeu um sem número de prêmios e homenagens. Foi indicado para o Hall of Fame das revistas Downbeat e Modern Drummer, e foi agraciado com o Jazz Unlimited Imortals Award. Também recebeu o título de doutor honorário da Berklee School of Music e se apresentou para diversos presidentes dos Estados Unidos, como Franklin Roosevelt, John Kennedy, Jimmy Carter e Ronald Reagan.

Rich faleceu no dia 02 de abril de 1987, em conseqüência de uma parada cardíaca. Ele estava bastante debilitado, pois havia feito uma cirurgia para a retirada de um tumor cerebral. Vários amigos estiveram presentes no funeral, realizado no Westwood Village Memorial Park Cemetery, em Los Angeles, como Jerry Lewis, Robert Blake, Johnny Carson e Frank Sinatra, que fez um emocionante discurso de despedida. Para o lendário Gene Krupa, Buddy Rich era “o maior baterista do mundo”.

Em 1994 o baterista Neil Peart, do Rush, produziu o album tribute “Burning for Buddy: A Tribute to the Music of Buddy Rich”, com a participação de vários bateristas do rock e do jazz como Matt Sorum, Dave Weckl, Steve Gadd, Max Roach e o próprio Peart, acompanhados pela Buddy Rich Big Band. Em 1997 foi lançada a biografia do baterista, intitulada, “Traps - The Drum Wonder: The Life of Buddy Rich”, escrita pelo cantor Mel Tormé. No ano seguinte, a família do baterista criou a “Buddy Rich Memorial Brain Tumor Research Foundation”, fundação de pesquisa ligada à UCLA Medical Center.

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

SY OLIVER, UM DOS MÚSICOS MAIS AMÁVEIS, EDUCADOS E MODESTOS QUE CONHECI (por José Domingos Raffaelli)


 
Para os aficionados e entusiastas das novas gerações recém-inoculados com o micróbio do jazz, provavelmente o nome de Sy Oliver pode ser tão desconhecido e estranho quanto os de Copérnico, Indira Ghandi ou Galileu Galilei. É natural, os jovens e mesmo os não tão jovens recentemente expostos aos sons mágicos da música dos músicos não devem ter a menor idéia de quem se trata.

 Sy Oliver (1910-1988) foi um dos mais originais, inovadores e talentosos compositores-arranjadores do jazz das eras pré-swing e swing. Hoje falam e escrevem muito sobre os pioneiros Fletcher Henderson, Jelly Roll Morton, Duke Ellington, Don Redman, Benny Carter e Horace Henderson, porém Sy Oliver, raramente citado, também foi um pioneiro.

 Sy Oliver revelou-se no início dos anos 30 como trompetista, compositor, arranjador e ocasionalmente cantor da extraordinária orquestra de Jimmie Lunceford, formação inteiramente marginalizada, esquecida e desconhecida nos dias de hoje. Ele criou o “estilo Lunceford” com suas composições e arranjos inconfundíveis que deixaram a estampa da sua identidade na big band do maestro Lunceford. Como poucos, ele mesclava as diferentes seções melódicas da orquestra alternando-se na criação de passagens realmente originais nas suas brilhantes orquestrações. É suficiente ouvir "For dancers only”, “Swanee River”, “Deep River”, “Margie” e, principalmente, o sensacional “Organ grinder’s swing”, no qual a orquestra reproduz fielmente o som de um realejo (organ grinder significa realejo) e o tropel dos cavalos que puxavam as carroças que transportavam aquela engenhoca musical pelas ruas das cidades americanas.

 Anos mais tarde, em 1939, o maestro e trombonista Tommy Dorsey fez uma oferta irrecusável a Sy Oliver para ser o compositor e arranjador exclusivo da sua orquestra. Imediatamente Sy entrou em ação, levando consigo alguns arranjos que escrevera para Lunceford. Com seu toque pessoal e genial, imediatamente modernizou o estilo da orquestra de Dorsey.

Tendo iniciado minha vida de jazzófilo ouvindo as grandes bandas da Era do Swing, logo fiquei familiarizado com grande parte delas. Entre muitas outras, na minha preferência também estavam as de Lunceford e Tommy Dorsey, indissoluvelmente ligadas ao assunto deste relato.

 Durante anos sonhava um dia encontrar Sy Oliver para conversarmos e obter o máximo de informações possíveis da sua notável carreira. Após anos aguardando essa possibilidade, com o passar do tempo fui perdendo paulatinamente a esperança, pois, todas as vezes que ia a New York, ninguém sabia do paradeiro dele. Conformado, deixei de lado esse sonho aparentemente irrealizável.

 Diz um velho ditado que, se acreditarmos firmemente num sonho, ele se realizará. E, para minha infinita surpresa, quando nada mais esperava a esse respeito, o ambicionado sonho materializou-se inesperadamente. Aconteceu em julho de 1982, logo depois da eliminação do Brasil pela Itália na Copa do Mundo da Espanha. Caminhava com minha esposa pela 50th Street, em New York, quando, ao passar em frente ao gigantesco Edifício Rockfeller, levei um susto ao ver, junto à porta, um enorme cartaz com os dizeres: “Tonight: the Sy Oliver Orchestra plays in the Rainbow Room Restaurant at 8:30 PM”.

Fiquei alucinado. Era a oportunidade que perseguia há anos. Entrei e o recepcionista informou que os ingressos estavam à venda no saguão do imponente restaurante, no 65º andar. Por sorte minha, havia mesas disponíveis junto ao palco. Imediatamente comprei uma estrategicamente colocada. Desembolsei a bagatela de U$130,00, que incluía o jantar, sentindo-me realizado. Finalmente ia ver, ouvir e falar com Sy Oliver. Minha mulher dizia a todo momento que eu parecia um menino perdido numa fábrica de brinquedos. Juro que contei as horas antevendo a realização do velho sonho.

Chegamos às 8:00 PM e sentamo-nos na mesa reservada. O Rainbow Room é uma das maravilhas do mundo. Todo envidraçado, em formato circular, proporciona uma visão fabulosa de 360 graus de toda a área da fantástica megalópole. É de tirar a fôlego. Imaginem uma noite de verão sem nevoeiro e toda New York iluminada à sua volta proporcionando um panorama que nunca irei esquecer.

Finalmente chegou a hora. Os músicos tomaram seus lugares no palco e atacaram um blues de Sy Oliver. Na bateria, de cara reconheci o lendário Jimmy Crawford, que tocou com Lunceford, porque ele era sósia do antigo jogador Eli do Amparo, um brucutu que distribuiu botinadas no Vasco e na Seleção Brasileira. Outros conhecidos eram o trompetista Dick Vance e o tenorista Joe Thomas, este ex-sideman de Lunceford. Aí entrou Sy Oliver e atacou “For dancers only”. Fiquei petrificado! Queria que aquele momento se prolongasse por muitos anos. Mas, logo vieram “Margie”, “By the river Saint Marie” e outros temas que eu conhecia desde rapazinho. Aos poucos fiquei totalmente envolvido pela música e agradecia a Deus por me conceder a graça de estar ali.

Após Sy Oliver anunciar o intervalo, levantei-me rápido e convidei-o a vir à nossa mesa. Ele agradeceu e aceitou, porém ia ausentar-se por alguns momentos e voltaria em seguida. De fato, menos de cinco minutos depois estava de volta. Elegante em seu irrepreensível smoking, simpático e bem-falante, ficou surpreso quando eu disse ser brasileiro e que conhecia razoavelmente bem sua carreira, inclusive inúmeras gravações de Lunceford e Tommy Dorsey. Seguiu-se uma agradável conversa em que esse homem amável, inteligente e educadíssimo, sem pretensão alguma em jactar-se da sua trajetória, emocionou-me por sua modéstia e seus valores morais. Raramente encontrei alguém assim. No jazz, somente Dave Brubeck, Lee Konitz, Jim Hall, George Russell, Cannonball Adderley, Jaki Byard, Lester Young, Horace Silver, Dick Katz e talvez mais três ou quatro.

Entre outras revelações, contou-me que Jimmie Lunceford era um homem culto que exigia completa disciplina dos seus músicos, não só profissional como na vida pessoal. Entre suas exigências, Lunceford só contratava músicos que não bebiam e não fumavam. Antes das apresentações ao vivo da orquestra, passava seus integrantes em cuidadosa revista, verificando se os sapatos estavam engraxados, se a camisa estava alva como a neve, se a ponta do lenço branco no bolso superior do paletó era visível somente uma polegada, a medida exata que ele exigia e outros detalhes mais. Eu ouvia tudo fascinado.

A certa altura, perguntou-me se o jazz tinha seu público no Brasil. Foi então que as surpresas aumentaram ainda mais ao mencionar que, no início da década de 30, ele teve um amigo brasileiro que era pianista e compositor. Perguntei-lhe o nome do amigo. Seguiu-se um diálogo que tentarei reproduzir o mais fielmente possível:

Sy – Chamava-se Fernando Pessoa Cavalcante, era muito talentoso. Tocava piano muito bem e vendeu algumas composições para ganhar dinheiro. Uma delas foi “Dardanella”, que foi um grande sucesso da orquestra de Paul Whiteman. Você o conhece ?

Raf – Não o conheci, mas sei que ele morreu há muitos anos porque sou amigo de um filho dele, que mora em São Paulo. Chama-se José Candido Cavalcante e tocou trombone num conjunto dixieland.

Sy – Lamento saber que Fernando faleceu. Não sabia que tinha um filho, deve ter nascido depois que ele voltou para o Brasil. Lembro muito bem dele.

Nesse momento, ele olhou para o relógio e disse que em cinco minutos voltaria ao palco. Perguntei se incluíra no repertório o clássico “T’Ain’t What To Do”, ao que respondeu que sim.

Pediu licença para retirar-se e, antes de subir ao palco para o segundo set, despediu-se demonstrando sua modéstia virtualmente incomparável, como nunca ouvi de outro ser humano:

Sy – Pode fazer-me uma gentileza quando regressar ao Brasil ? Dê minhas lembranças ao filho do Fernando Pessoa Cavalcante. Mas, por favor, não esqueça que meu nome é Sy Oliver.

Dá pra acreditar ? Nunca vi tanta modéstia. Bolas, passei o tempo todo dizendo quanto admirava o trabalho dele e no final pediu que não esquecesse seu nome!

Encerrando aquela noite inesquecível que tanto me emocionou, Sy dedicou o último número “ao amigo brasileiro José”. Adivinhem qual foi. “T Ain’t What To Do”, com direito àquela memorável batalha de três trombonistas como ouvimos na gravação do próprio Sy Oliver para a Decca, e a coreografia das seções melódicas da orquestra voltando-se alternadamente para a direita e esquerda, produzindo um efeito visual dos mais espetaculares.

Desnecessário dizer que saí do Rainbow Room em estado de graça.

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É sempre um privilégio publicar, aqui no jazzbarzinho, um texto de autoria do Mestre José Domingos Raffaelli. Na semana passada, voltamos a nos encontrar no Rio de Janeiro, para uma conversa maravilhosa. Como sempre, seu conhecimento enciclopédico, sua cultura extraordinária, seu bom humor e sua simplicidade nos cativaram ainda mais. Ao nosso lado, o blogueiro Sérgio Sônico e o produtor Edison Lenine, amigos queridos que dividiram comigo a honra de ouvir e aprender com o Mestre Raffaelli.


O texto acima, além das informações sobre Sy Oliver, revela um pouco mais acerca de quem o escreveu. Demonstrando a emoção de um garoto, Raffaelli descreve, de maneira comovente, seu encontro com um dos ídolos de sua juventude. É impossível ao leitor não se emocionar com o Mestre. Por isso, à leitura! E para ouvir na radiola, duas versões de “Yes Indeed”, um dos temas mais conhecidos de Oliver, escrito em parceria com Trummy Young.

Na primeira, Hank Mobley lidera um poderoso quinteto, integrado por Donald Byrd (trompete), Herbie Hancock (piano), Butch Warren (contrabaixo) e Philly Joe Jones (bateria). A faixa pode ser encontrada no disco “Straight, No Filter” e a gravação, feita para a Blue Note, foi realizada em 07 de março de 1963. Na segunda, o líder é Ron Carter (que nesta gravação toca cello) e a seu lado estão: Eric Dolphy (clarinete baixo, flauta e sax alto), Mal Waldron (piano), George Duvivier (contrabaixo) e Charlie Persip (bateria). A faixa foi extraída do álbum “Where?”, cujas gravações foram feitas no dia 20 de junho de 1961, para a Prestige.


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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O BARÃO NAS ÁRVORES


Kenneth Barron é um dos mais festejados pianistas da atualidade. Além de ser um intérprete de talento superlativo, ele também é arranjador, educador musical e compositor. Nascido no dia 09 de junho de 1943, na Filadélfia, estado da Pensilvânia, ele é irmão mais novo do saxofonista tenor e soprano, compositor e professor de música Bill Barron (falecido no dia 21 de setembro de 1989, aos 62 anos). Seu pai, William, era operário de uma fábrica de aço e a mãe, Rella, havia aprendido os rudimentos do piano na juventude e estimulava as aptidões musicais dos filhos.

Recebeu as primeiras lições de piano aos seis anos pelas mãos de Ruth Issaks, então namorada do seu irmão mais velho, Bill. Complementava os estudos em casa, usando o popular método para piano criado por William Matthew. Aos doze anos, Kenny foi estudar com Vera Bryant, renomada professora e irmã do pianista Ray Bryant e do baixista Tommy Bryant, outros fabulosos nativos de Filadélfia. Barron também estudou na Philadelphia Musical Academy, mas acabou abandonando o curso, sem concluí-lo, por causa dos compromissos profissionais.

Aos 14 anos, em 1957, Kenny experimenta sua primeira participação profissional na banda de Mel Melvin, por indicação do irmão Bill, que já tocava naquele grupo. O garoto recebia 15 dólares por noite e a banda se apresentava no Elk's Lodge. Em seguida, Barron atuou em formações lideradas por Philly Joe Jones, onde substituiu Dick Katz, e Yusef Lateef. Com este, aliás, Barron realizou seus primeiros trabalhos como arranjador, tendo escrito os arranjos de dois temas gravados no álbum “The Centaur And The Phoenix”, de 1960. Pouco depois, muda-se para Nova Iorque, em 1961, juntamente com o irmão, a fim de se unir ao grupo do trompetista Ted Curson, também oriundo da Filadélfia.

Na Meca do Jazz, o jovem de apenas 18 anos trabalha com nomes de primeira linha, como James Moody, Lee Morgan e Lou Donaldson. Em 1962 o pianista se junta ao grupo de Roy Haynes para, em seguida e por recomendação de James Moody, substituir Lalo Schiffrin no quinteto de Dizzy Gillespie. Apesar da pouca idade, Kenny já era um músico experiente e de muita personalidade, agregando ao seu rol de influência nomes como os de Tommy Flanagan, Hank Jones e Wynton Kelly.

O trabalho com Dizzy lhe abriu as portas para o público e a crítica e lhe trouxe enorme prestígio. Barron participou do documentário “Dizzy Gillespie” (de 1965, dirigido por Les Blank), no qual Gillespie fala sobre sua trajetória e apresenta-se em quinteto com James Moody no sax tenor, Kenny Barron no piano, Chris White no contrabaixo e Rudy Collins na bateria, em uma apresentação gravada em Hermosa Beach, Califórnia.

Em 1966, após quatro anos de parceria, Barron deixa Gillespie para tocar, seguidamente, com Freddie Hubbard, Jimmy Owens e Stanley Turrentine. Em março de 1970 o pianista passa a fazer parte do quarteto de Yusef Lateef, com quem já havia trabalhado anteriormente nos anos 50. Em seguida, viriam participações nos grupos de Milt Jackson, Booker Ervin, Jimmy Heath e Stan Getz, onde substituiu Chick Corea, em uma formação que incluía os ótimos Stanley Clarke e Tony Williams.

Em 1972 Barron passou a dar aulas de piano no “Jazzmobile Workshop”. No ano seguinte, começou a ministrar aulas práticas e de teoria musical no Livingston College, ligado à Rutgers University, em uma associação que se prolongaria pelos próximos 27 anos – ele se aposentaria em 1999. Também exerceu o magistério na “Juilliard School Of Music”, sendo que alguns de seus mais destacados alunos foram Aaron Parks, David Sanchez, Terence Blanchard, Harry Pickens e Noah Baerman.

Seu primeiro álbum como líder, “Sunset to Dawn”, foi gravado em 1973, para o selo Muse. No início de 1976, passa a integrar a banda do baterista Buddy Rich mas ali teve uma curta permanência. Desligado da banda, o pianista participou de concertos e gravações sob aliderança de George Benson, Eddie Harris, Sonny Stitt, Chet Baker, Harry “Sweets” Edison, Von Freeman, Elvin Jones, Sam Most, Jon Faddis, Jim Hall, Joe Henderson e Eddie “Lockjaw” Davis.

A partir de meados dos anos 70, Barron iniciou uma parceria duradoura e sumamente estimulante com o baixista Ron Carter, que perdurou até o início da década seguinte. Sobre Carter, de quem é amigo até hoje, sobram palavras elogiosas: “Ron é capaz de dizer exatamente o que quer e de explicar aos parceiros o que quer que eles façam. Ele é capaz de extrair as coisas de você, porque tem uma visão musical muito particular. Poucos músicos sabem fazer isso de uma maneira tão natural”, declarou certa vez. Nesse período, graduou-se, em 1978, Bacharel em Artes pelo “Empire State College”, de Nova Iorque.

Em 1981 Barron foi co-fundador, ao lado de Charlie Rouse, do grupo “Sphere”, dedicado a difundir e a perpetuar a obra do grande Thelonius Sphere Monk. O grupo, do qual faziam parte o baterista Ben Riley e o baixista Buster Williams, permaneceria em atividade até a morte de Rouse, em 1988. Poucas semanas antes do falecimento do saxofonista, a banda havia realizado uma vitoriosa temporada no Village Vanguard. O grupo “Sphere” fez um breve retorno aos palcos em 1997, com Gary Bartz assumindo o saxofone, durante um festival de jazz em Atenas, na Grécia.

Os anos 80 encontram o pianista trabalhando febrilmente e se consagrando como um dos grandes acompanhantes de cantores e cantoras como Sheila Jordan, Abbey Lincoln, Maria Muldaur, “Little” Jimmy Scott, Dianne Reeves e Ella Fitzgerald. Em 1984 Barron iniciou uma longa e prolífica parceria com o vibrafonista Bobby Hutcherson, que resultaria em álbuns muito bem recebidos pelo público e pela crítica, como os excelentes “In The Vanguard” (32 Jazz, 1986), sob a liderança de Hutcherson, e “Other Places” (Verve, 1993), tendo o pianista como líder.

Convidado para acompanhar Stan Getz na temporada européia de verão de 1987, Barron se tornou o mais constante parceiro musical do saxofonista até a morte deste, em junho de 1991. Os dois já haviam trabalhado juntos anteriormente e dessa nova reunião surgiram preciosidades como “Serenity” (EmArcy), gravado ao vivo no dia 06 de julho de 1987, no Café Montmartre, em Copenhague e que conta, ainda, com a presença dos sempre competentes Rufus Reid e Victor Lewis.

O último trabalho de Getz, aliás, é um dueto entre ele e o pianista. Indicado ao Grammy de melhor álbum de jazz, o álbum duplo “People Time” foi gravado em fevereiro de 1991, mais uma vez no clube Montmartre, na capital dinamarquesa. Considerado um dos momentos mais líricos da parceria entre barron e Getz, ele apresenta releituras emocionantes de standards como “East of the Sun (And West of the Moon)”, “I Remember Clifford” e “Softly, As in a Morning Sunrise”.

Barron lançou álbuns dedicados à música brasileira, com ênfase na bossa nova, destacando-se “Sambao” (Verve, 1992), ao lado dos brasileiros Nico Assumpção e Toninho Horta, além do baterista francês Mino Cinelu, e “Canta Brasil” (Universal, 2002), onde se faz acompanhar pelo fabuloso “Trio da Paz” (Nilson Matta no contrabaixo, Romero Lubambo na guitarra e Duduka da Fonseca na bateria).

Um dos momentos mais brilhantes da discografia do pianista é o formidável “Live At Bradley’s”. Gravado ao vivo no lendário clube de Nova Iorque (cujo piano foi um presente de Paul Desmond ao proprietário da casa), nos dias 03 e 04 de abril de 1996 e lançado em 2002 pelo pequeno selo Sunnyside, o álbum traz cinco temas, todos executados de forma preciosa por Barron e seus habilíssimos parceiros: Ben Riley na bateria e Ray Drummond no contrabaixo.

O trio abre os trabalhos com “Everybody Loves My Baby But My Baby Don't Love Nobody But Me”, de Spencer Williams e Jack Palmer, na qual o líder executa uma inebriante introdução de quase um minuto, num estilo exuberante que lembra Art Tatum. Em seguida, com a entrada dos outros instrumentos, os diálogos entre eles se intensificam e o ouvinte é brindado com uma interpretação que conjuga improvisos criativos, técnica arrebatadora e interação telepática entre o líder e seus comandados. Riley possui um senso de tempo irrepreensível e desenvolve o acompanhamento de maneira sempre surpreendente, dando ênfase à complexidade polirrítmica. Tão à vontade quanto o baterista, Drummond elabora um longo solo, que não merece outro adjetivo a não ser antológico.

“Solar”, de Miles Davis, recebe um arranjo – perdoem o trocadilho – ensolarado. Com um andamento ultra-rápido, o tema permite aos três que exibam incontestável domínio do idioma bop. Barron é um virtuose de recursos aparentemente ilimitados. Sua destreza faz com que ele transite entre os registros graves e os agudos com enorme naturalidade e crie riffs empolgantes ao extremo, além de acrescentar em algumas passagens um indisfarçável tempero latino. A exuberância rítmica de Riley pode ser apreciada em toda a sua grandeza e Drummond, impecável, é o grande responsável pela coesão harmônica do trio.

Richard Rodgers e Lorenz Hart marcam presença com “Blue Moon”, aqui interpretada em um andamento lento, quase marcial. Barron foi bastante feliz ao incorporar elementos de blues ao tema, criando uma versão absolutamente original, na qual a beleza da melodia pode ser apreciada em toda a sua plenitude. O lirismo quase melancólico do piano possui grande força emotiva sem, no entanto, jamais resvalar para o sentimentalismo gratuito. Destaque para a sutileza percussiva de Riley, cujo trabalho com as escovas é notável.

Com uma sonoridade que remete aos discos de Herbie Hancock feitos para a Blue Note nos anos 60, a hipnótica “Alter Ego” é uma composição do ótimo James Williams. Complexa e cheia de nuances, a faixa possui uma elegância bastante peculiar e sua beleza intrigante, como ocorre nas composições de Monk, por exemplo, provém do estranhamento e da inquietude. Dono de um senso estético refinado e bastante arrojado, Barron flerta com o impressionismo e com as dissonâncias típicas de um Charles Mingus. Atenção para o contrabaixo inebriante de Drummond, responsável, em grande medida, pela atmosfera por vezes sombria da faixa.

O encerramento fica a cargo de “Canadian Sunset”, de autoria de Norman Gimbel e Eddie Heywood. Trata-se de um dos temas mais caros ao piano jazzístico e que já foi gravada por monstros do gabarito de Wes Montgomery, Gene Ammons, George Shearing. A desenvoltura do trio empolga a platéia, que aplaude generosamente ao fim do set, mas é Barron o maior destaque individual. Seus solos são como uma carpintaria sonora, cuja matéria-prima é um amálgama de rigor formal, articulação, bom gosto e inventividade. Um álbum “cheio de energia, serenamente alegre e que revela sempre uma maneira diferente de encantar o ouvinte, a cada nova audição”, nas irretocáveis palavras de Judith Schlesinger.

Ao longo dos seus quase 60 anos de carreira, Barron colecionou uma infinidade de prêmios e honrarias. Foi indicado em nove ocasiões para o “Grammy Awards”, foi indicado para o “American Jazz Hall Of Fame” em 1990 e venceu a eleição dos críticos da revista”Down Beat”, na categoria de melhor pianista, em 1999. Também foi considerado o melhor pianista no “Jazz Awards” nesse mesmo ano e foi nomeado “Fellow” pela “American Academy Of Arts And Sciences”.

O pianista tem sido uma presença constante em festivais de jazz pelo mundo e já tocou, entre outros, nos de Marciac, Perugia, North Sea, Halifax, Portland, Detroit, Montreal, Chicago e Newport. Acompanhante dos mais requisitados, seu trabalho pode ser ouvido em álbuns de artistas do calibre de Barney Kessel, Nick Brignola, Larry Coryell, Benny Golson, Illinois Jacquet, Cláudio Roditi, Lee Konitz, Barney Wilen, Joe Locke, Sonny Fortune, Eric Alexander, Christian McBride, Tom Harrell, Russell Malone e muitos outros.

Apesar da aposentadoria do Livingston College, ele continua a dar aulas na Manhattan School of Music e na Julliard School of Music. Sua agenda é sempre lotada e somente neste ano de 2011 ele já se apresentou em várias cidades dos Estados Unidos, além de ter realizado concertos na França, Itália, Dinamarca e Canadá. Seus álbuns como líder encontram-se, quase todos, em catálogo, distribuídos por etiquetas como Gitanes, Uptown, Criss Cross, Enja, Candid, Reservoir, Concord, Sunnysville e Venus Jazz.

Na abalizada opinião de Pedro “Apóstolo” Cardoso, Barron “converteu-se para a crítica e o público em depositário da já atingida “tradição” do piano-jazz moderno, na mainstream do jazz, dedicando-se de maneira clara à sonoridade, ao desenvolvimento harmônico refinado com exploração de aspectos rítmicos pouco visitados por seus pares, mas sem jamais desprender-se do mais acentuado swing”.

Em sentido semelhante, o blogueiro e pianista Murilo Barbosa vaticina que Barron “sabe aplicar a textura correta no momento de acompanhar, de improvisar ou de simplesmente dialogar com outros músicos, sempre usando acordes precisos, voicings bem definidos e frases enxutas. Sabe como ninguém o som que pode tirar do piano quando precisa”.

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sábado, 26 de novembro de 2011

A ALEGRE PIANISTA DE WINDSOR

A pianista, compositora, arranjadora e diretora de orquestra Marian Margaret Turner nasceu na cidade de Windsor, na Inglaterra, no dia 20 de março de 1918 (embora alguns autores apontem 1920 como ano de seu nascimento), em uma família de músicos. Considerada uma “menina-prodígio”, aos 03 anos de idade já executava algumas peças ao piano, geralmente valsas de Chopin. Na infância, estudou, além do piano, violino e canto coral, a princípio com professores particulares. Na adolescência, ingressou na Guildhall School Of Music And Drama, em Londres, onde estudou música clássica e piano.

Embora sua família fosse bastante ligada à música, não via com bons olhos o envolvimento da garota com o jazz. As discussões familiares eram uma constante, porque seus pais não aceitavam o precoce encantamento de Marian por músicos americanos, especialmente “Fats” Waller, Duke Ellington, Mary Lou Williams e Teddy Wilson.

Para desgosto da família, em 1938, então com 20 anos, Marian abandonou os estudos na “Guildhall”, a fim de se juntar ao “Billy Mayerl’s Claviers”, um grupo de “vaudeville” integrado por 04 pianistas. Ela decidiu adotar o nome de Marian Page e com o grupo excursionou pela Europa. Durante a II Guerra Mundial, a pianista ajudou a entreter as tropas aliadas que lutavam contra o nazismo, integrando alguns grupos musicais organizados pelas forças armadas norte-americanas. 

Durante uma turnê pela Bélgica e pela Alemanha em 1944, ela conheceu o cornetista Jimmy McPartland. A afinidade musical logo evoluiu para uma relação afetiva e os dois se casaram na base militar dos aliados em Aachen, na Alemanha. Marian adotou o sobrenome do marido e o casal decidiu se fixar nos Estados Unidos em 1946, estabelecendo-se em Chicago. Logo após a sua chegada, Jimmy tocou com diversos grupos da cidade e da região de Boston, e montou um quinteto ao lado da esposa pianista, que era atração fixa do Brassrail Lounge.

Em 1949 o casal se mudou para Nova Iorque, onde Jimmy se juntou ao grupo do guitarrista Eddie Condon. Marian, por seu turno, começou a liderar seus próprios trios, apresentando-se em vários clubes da cidade. Em 1952, Marian fez sua estréia como atração principal do “Hickory House”, na emblemática Rua 52. Na primeira formação, a pianista era acompanhada pelo contrabaixista Max Wayne e pelo baterista Mousie Alexander. Posteriormente, Bill Crow substituiu Wayne e, em 1953, o grande Joe Morello assumiu a bateria, saindo em 1957 para integrar o seminal quarteto de Dave Brubeck.

Marian e seu trio permaneceram na casa até 1960, mas também costumavam a se apresentar com regularidade no The Embers, dividindo os letreiros com gigantes como George Shearing, Jonah Jones e Red Norvo. Nas palavras do venerável Luiz Orlando Carneiro, a pianista já era uma artista madura e exibia um estilo bastante pessoal, que “não chocava os tradicionalistas e nem aborrecia os modernistas”. Seus futuros trios seriam integrados por músicos de primeira linha, como os baixistas Steve Swallow, Eddie Gomez e Steve La Spina e os bateristas Jake Hanna, Joey Baron e Dave Bailey.

Nesse ínterim, McPartland deu início à sua extensa carreira discográfica como líder, gravando para selos como Savoy e Capitol. Ela chegou a gravar alguns temas em duo com o genial Bud Powell em meados dos anos 50. Em 1955, ela começou a lecionar música em escolas de Manhattan e também passou a escrever colunas sobre jazz para jornais e revistas como The Boston Globe, Down Beat e Melody Maker. Muitos dos seus textos seriam compilados, em 1987, pela Oxford University Press e lançados em um livro intitulado “All in Good Time”.

Em uma entrevista à Down Beat, Marian esclareceu os motivos que a levaram a se aventurar pela educação musical, ministrando cursos, palestras e oficinas em escolas e universidades dos Estados Unidos: “Eu fiquei com muito medo de que o rock & roll fosse aniquilar o jazz, por isso fiz questão de ir até às escolas. Eu sabia que não conseguiria lutar contra o rock & roll, mas queria que as crianças soubessem que havia outros tipos de música”.

Em 1958, McPartland foi uma das duas únicas mulheres (a outra foi Mary Lou Williams) a aparecer na célèbre foto de Art Kane, juntamente com alguns dos maiores nomes do jazz em uma escadaria no Harlem. Publicada na revista Life a fotografia histórica foi objeto do documentário “Great Day In Harlem”. Outro momento marcante foi a sua atuação ao lado do saxofonista Gerry Mulligan, na edição daquele mesmo ano do Newport Jazz Festival.

A década de 60 foi particularmente difícil para Marian, tanto do ponto de vista pessoal como profissional. O mercado do jazz retraíra-se de forma assustadora e muitos músicos resolveram se mudar para a Europa, onde o interesse pelo estilo permanecia em alta. Em 1963 ela foi contratada por Benny Goodman, para acompanhá-lo em uma temporada na Inglaterra. Também realizou turnês em companhia dos pianistas Teddy Wilson e George Shearing.

Em 1964, a pianista estreou na rádio “WBAI-FM” de Nova Iorque, com um programa semanal em que apresentava gravações e entrevistava convidados.  A rádio “Pacifica” da Costa Oeste passou a transmitir esse programa semanal, que abriu caminho para o posterior programa “Marian McPartland’s Piano Jazz”, série transmitida pela NPR (“National Public Radio”), com o primeiro programa transmitido em 04 de junho de 1978.

Nos programas da NPR Marian tocava piano e recebia convidados – gente do calibre de Tony Bennett, Wynton Marsalis, Dizzy Gillespie, Ray Charles, Gerry Mulligan, Rosemary Clooney, Benny Green, Geoff Keezer, Geri Allen, Mary Lou Williams, Billy Taylor, Lee Konitz, Bill Evans, Ramsey Lewis, Herbie Hancock e Oscar Peterson – para entrevistas e atuação, sendo que boa parte desses programas foi gravada em CD, em uma série homônima do programa. Ao longo de mais de 700 edições, chegou a ser o programa cultural de mais longa permanência no ar, em uma rádio pública.

Marian e Jimmy se separaram em meados daquela década, mas a pianista conservou o sobrenome do ex-marido. Embora se mantivesse em atividade regular, inclusive gravando para selos como Argo, Dot, Time e Sesac, ela não se sentia satisfeita com o tratamento dado pelas gravadoras aos artistas de jazz. Decidiu fundar, em 1969, a sua própria gravadora, chamada “Halcyon Records”, pela qual gravaram grandes nomes como Earl Hines, Teddy Wilson, Joe Venuti e Dave McKenna.

Nos anos 70 começou a longa e prolífica associação com a “Concord Jazz”, a convite do seu fundador e presidente Carl Jefferson. Foram mais de 50 gravações, inclusive ao lado do ex-marido Jimmy McPartland. Naquela década, Marian compôs a trilha sonora dos documentários “Mark” (agraciada com o prêmio de melhor trilha sonora nos festivais de cinema de Edimburgo e Veneza), “Mural” e “The Light Fantastic Picture Show”. Também se tornou atração fixa do clube Cafe Carlyle, em Nova Iorque, a partir de 1974, a convite do sensacional Bobby Short, com quem dividia os sets naquela casa.

Marian emprestou seu talento para abrilhantar dezenas de festivais de jazz pelo mundo, com destaque para os de Nice, Montreux, Antibes, Berlin, Monterey, Kansas City Women's Jazzfest e o JVC Jazz Festival. Ela e Jimmy voltaram a se apresentar juntos na edição de 1978 do Newport Jazz Festival. Marian também é uma compositora bastante inventiva e dentre suas obras, podemos citar “Ambiance”, “There'll Be Other Times”, “With You In Mind”, “Twilight World” e “In The Days Of Our Love”. Suas composições foram gravadas por gente do gabarito de Tony Bennett, Peggy Lee, Johnny Mercer, Sarah Vaughan, Gary Burton, George Shearing, Cleo Laine, The Thad Jones/Mel Lewis Orchestra e muitos outros.

A década de 80 encontrou-a ainda bastante envolvida com o ensino musical, mas sem deixar de conduzir o seu programa na NPR. A partir de então, ela vem colecionando uma impressionante sucessão de prêmios e homenagens por sua obra, como o “Peabody Award”, em 1983, a indicação para o “International Association Of Jazz Education Hall Of Fame”, em 1986, e o “ASCAP-Deems Taylor”, em 1991.

Em janeiro de 1990 McPartland entrou no estúdio da Concord para gravar o disco que é um verdadeiro marco em sua carreira. Trata-se do sensacional “Plays The Benny Carter Songbook”, no qual a pianista se debruça, com talento e sensibilidade, sobre a obra composicional do genial Benny Carter, que inclusive participa de algumas faixas, tocando sax alto. No apoio, estão os experientes John Clayton (contrabaixo) e Harold Jones (bateria).

A faixa de abertura é “When Lights Are Low”, provavelmente a composição mais conhecida de Carter, composta em dupla com Spencer Williams. O swing delicado de Marian e sua enorme capacidade para transitar do jazz tradicional para as formas mais contemporâneas, impregnam o tema de um acentuado tempero bop. Seus improvisos são límpidos, ágeis e de grande expressividade. O ritmo sincopado proposto por Jones e o acompanhamento certeiro de Clayton tornam ainda mais charmosa esta bela versão.

“I'm in the Mood for Swing”, também composta em parceria com Spencer Williams, conta com a exuberante participação de Carter. O saxofonista mostra que, aos 82 anos, ainda estava em plena forma e que seu fraseado continua vibrante e arejado. Clayton produz um som robusto e seu solo é um amálgama de perícia técnica e paixão. Marian evoca a Era do Swing, com uma interpretação alegre e despretensiosa, com uma primorosa utilização dos registros mais graves, especialmente durante os solos.

“A Kiss from You” é fruto da parceria entre Carter e Johnny Mercer. Mais uma vez o autor se faz presente e seu prazer de tocar contagia os demais integrantes do quarteto. Mostrando porque é um dos mais destacados contrabaixistas da atualidade, Clayton emula a virilidade de um Ray Brown, adotando uma pegada firme e extremamente melódica. A formidável atuação de Jones com as escovas e a riqueza de timbres construída por McPartland fazem dessa balada em tempo médio uma das faixas mais emocionantes do álbum.

Carter não participa de “Key Largo”, que foi escrita juntamente com Leah Worth e Karl Suessdorf. Trata-se de uma balada impressionista, com tinturas de bossa nova, na qual a percussão sutil de Jones e o piano etéreo de McPartland dialogam com sensibilidade e bom gosto. Em seguida, é a vez da agitada “Another Time, Another Place”, onde Carter, literalmente, rouba a cena. Seu solo mantém-se no limiar entre a tradição do swing e as ousadias harmônicas do bebop. Os outros integrantes do quarteto proporcionam o arcabouço rítmico mais do que perfeito para que o “Rei” possa exibir seu amplo e incontestável domínio do sax alto.

Outra balada, “Summer Serenade”, prima pelas harmonias sutis e pela melodia refinada, que lembra as composições de Billy Strayhorn. Executada pelo trio, a faixa apresenta um arranjo envolvente, com um ótimo trabalho percussivo de Jones e uma levada econômica de McPartland. “Doozy” é um blues sincopado, com pitadas de dixieland e ragtime, no qual a pianista emprega com muita astúcia e propriedade a técnica do stride piano. Benny volta a se juntar ao trio, para mais uma performance empolgante, criando efeitos bastante interessantes ao saxofone.

Ray Sonin é o co-autor de “Lonely Woman” e Sammy Cahn é o parceiro em “Only Trust Your Heart”, dois belos exemplos de baladas classudas, que reafirmam o talento de Carter para esse tipo de composição. Na primeira, a execução fica a cargo do trio, com destaque para a sonoridade lustrosa e consistente de Clayton. Na segunda, Carter e McPartland brilham ao estabelecer um diálogo de enorme intensidade emocional entre piano e saxofone. Ambos são dotados de uma técnica superior, mas não abrem mão da emotividade e da fluência, transformando a audição desta faixa em uma experiência das mais encantadoras. Atente-se para a formidável atuação de Clayton, cujo solo, utilizando o arco, é um dos momentos mais sublimes do disco.

“Evening Star” mantém-se no território das baladas e aqui o trio dá ênfase ao aspecto melódico, com Marian reproduzindo riffs lentamente, quase como se estivesse em uma liturgia. As modulações de seu piano evocam o vai e vem das ondas do mar, lembrando em algumas passagens as construções impressionistas de Debussy. Clayton usa os registros mais graves do contrabaixo para ajudar a elaborar uma atmosfera romântica ligeiramente sombria.

O arranjo brincalhão de “Easy Money” nos transporta para os agitados anos 40 e Carter retorna para o encerramento mais que festivo. O saxofonista é pura graça e leveza, com improvisos sempre insinuantes e precisos. Jones comete um solo de grande eloqüência rítmica, emulando o vigor de um Art Blakey e a líder, muito à vontade, se esmera para reproduzir o som alegre das bandas da Era do Swing. Um disco encantador, que dá bem a dimensão da estatura de Marian como pianista, além de lançar luzes sobre o aspecto composicional de Benny Carter, cuja obra sempre ficou obscurecida por conta de seu excepcional trabalho como intérprete e arranjador.

Marian foi a primeira mulher a receber o prêmio de Jazz Educator of the Year, concedido pela National Association of Jazz Educators, em 1986. Outra honraria importante foi-lhe outorgada pela revista Down Beat: o Lifetime Achievement Award, em 1994. Destacam-se, ainda, o “Grammy Trustees”, por sua obra como escritora, educadora e apresentadora do mais longo programa de rádio em emissora pública, o “Marian McPartland’s Piano Jazz” na “NPR”, e as indicações para o “Long Island Music Hall Of Fame”, em 2006, e para o “National Radio Hall Of Fame”, em 2007.

Desde 2000 a pianista exibe o precioso título de Jazz Master, concedido pela National Endowment for the Arts. Os títulos honorários recebidos por ela também impressionam, seja pela quantidade, seja pelo nível das instituições outorgantes: Ithaca College, Hamilton College, Union College, Bates College, Bowling Green University, University of South Carolina, Eastman School of Music, Berklee College of Music e City University of New York, apenas para citar alguns.

Em 2003 Marian comemorou os 25 anos do seu programa com uma transmissão feita diretamente do “Kennedy Center”, tendo como convidado o cantor e pianista Peter Cincotti. Naquele mesmo ano, a pianista se apresentou juntamente com a cantora Norah Jones, no Tanglewood Jazz Festival, em Massachusetts, e comemorou seu 85º aniversário com um concerto no célebre clube Birdland, que contou com as presenças de astros como Tony Bennett e Nnenna Freelon. Em 2008, McPartland completou 90 anos e durante as festividades a Concord lançou o album “Twilight World”, cujo grande destaque é a versão de “Lonely Woman”, de Ornette Coleman.

Pouco antes disso, compôs e apresentou, em 2007, a sinfonia “A Portrait Of Rachel Carson”. A obra homenageia a bióloga, zoóloga, ambientalista e escritora americana, autora do livro “Silent Spring” e pioneira no movimento global de defesa do meio ambiente. Em 2010 a pianista foi condecorada com o título de “Officer Of The Order Of The British Empire”, uma das mais prestigiosas comendas concedidas pelo Império Britânico. Honraria das mais justas para quem, nas palavras do produtor George Wein “fez mais pelos pianistas de jazz que qualquer outra pessoa no mundo inteiro”.

Para Pedro “Apóstolo” Cardoso, Marian possui “um conhecimento enciclopédico do jazz, abordando ao piano e com propriedade os “standards” e os estilos mais variados da Arte Popular Maior, graças aos longos anos de estrada e à longa atuação em seu programa de rádio, em que recebeu e contracenou com os mais diversos ícones do “piano-jazz”. Seu estilo pode ser definido como flexível e complexo, com improvisação muito inventiva tanto harmônica quanto rítmica e não centrado em uma única escola (percorre com fluidez desde o “dixieland” até o “bebop”), sempre com “swing” subjacente e sem afetação”.

Apesar da idade, Marian ainda se mantém lúcida e em atividade regular, costumando realizar apresentações em clubes de Nova Iorque com freqüência. A receita da longevidade é simples: “acredito que trabalhar é a melhor coisa que alguém pode fazer na vida, sobretudo quando você faz aquilo que gosta e pode compartilhar o fruto do seu trabalho com outras pessoas. Eu não sou aquele tipo de pessoa que passa o dia inteiro no jardim regando plantas”.
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