Amigos do jazz + bossa

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

PARA ALÉM DA CORTINA DE FERRO




Dusko Gojkovich nasceu no dis 14 de outubro de 1931, na cidade de Jajce, que na época fazia parte da antiga Iugoslávia (atualmente, a cidade pertence à Bosnia-Herzegovina), embora tenha optado pela nacionalidade sérvia, quando o país unificado pelo Marechal Josip Broz Tito entrou em colapso e se desfez em meia dúzia de novos países.

A paixão musical despertou cedo e de 1948 a 1953 ele estudou na Acadamia de Música de Belgrado. Na então capital iugoslava, Dusko, cujo primeiro ídolo foi o lendário Roy Eldridge, ouvia jazz com devoção e tocava trompete em bandas de dixieland  e swing. Em 1949 foi recrutado para a big band da Rádio Belgrado. Concluído o curso, o jovem trompetista de apenas 23 anos resolveu tentar a sorte na Alemanha Ocidental, atendendo ao convite da pianista alemã Jutta Hipp, que estava em turnê pela Iugoslávia.

O ano era 1954 e não demorou muito para que fosse contratado para a Frankfurt All Stars Band. Nesse grupo, o sérvio participou de sua primeira gravação, em 1956, chamando a atenção do bandleader germânico Max Greger, com quem trabalhou por alguns meses. Logo em seguida, Kurt Edelhagen, líder de uma das mais renomadas orquestras alemãs, o contratou para ser o primeiro trompetista de sua big band. Para que se tenha uma idéia da importância de Edelhagen no cenário jazzístico alemão, basta dizer que entre os seus arranjadores estavam expoentes como Francy Boland e Claus Ogermann.

Dusko já havia adquirido uma boa experiência no circuito de clubes de Frankfurt, tendo acompanhado diversos ases do jazz em turnê pela Alemanha, como Chet Baker e Stan Getz. 1958 foi um ano inesquecível, pois o trompetista foi convidado a fazer parte da Newport International Youth Band, grupo formado por jovens jazzistas europeus, que se apresentou com sucesso na edição daquele ano do Newport Jazz Festival. Alguns dos seus colegas na banda eram o trombonista alemão Albert Mangelsdorff, o pianista suíço George Gruntz e o guitarrista húngaro Gábor Szábo.

A apresentação em um festival tão importante abriu as portas do Mercado europeu para Gojkovich, que durante os três anos seguintes foi uma das atrações mais assíduas dos festivais de jazz do Velho Continente. Em 1961 ele decidiu retomar os estudos musicais e escolheu o prestigioso Berklee School of Music, onde estudou arranjo e composição. Em Boston, foi aluno do lendário trompetista Herb Pomeroy e passou a tocar também o flugelhorn.

Dusko fez parte do Berklee School Quintet e da big band da instituição, onde pôde tocar com outros alunos que, num futuro próximo, se tornariam nomes relevantes no cenário jazzístico, como o vibrafonista Gary Burton, os saxofonistas Sadao Watanabe e Steve Marcus, o pianista Mike Nock e o contrabaixista Dave Young.

Gojkovich estava tão focado nos estudos musicais que chegou a recusar vários convites para se juntar a bandas como as de Count Basie, Stan Kenton e Benny Goodman. Somente em 1963, após a conclusão do curso – feito com uma bolsa de estudos – ele se sentiu à vontade para retomar a carreira profissional e logo foi contratado pelo trompetista e bandleader canadense Maynard Ferguson para se juntar à sua big band, em substituição ao sueco Rolf Ericson, por sua vez, estava se mudança para a orquestra de Duke Ellington, onde ocuparia o lugar de ninguém menos que Clark Terry.

Uma honra para o jovem iugoslavo, que seria o responsável pelo segundo trompete da banda. Quanto ao líder, eis a sua opinião sobre o homem e o músico: “Ele é uma das pessoas mais maravilhosas que conheci. Um sujeito muito tranqüilo e gentil, e sempre positivo, alegre e divertido. Além disso, Maynard é um trompetista fantástico. Talvez algumas pessoas pensem que existam muitos trompetistas como ele, mas isso não é verdade. E ele jamais saiu por aí se proclamando um gênio do instrumento. Mas é isso que ele é, sobretudo quando está solando: um gênio do trompete”.

A convivência musical durou pouco mais de um ano, pois Ferguson foi obrigado, por razões econômicas, a desmanchar a sua orquestra, em 1964. Mas serviu como vitrine para o trabalho de Gojkovich, que logo em seguida foi contratado para integrar a orquestra de Woody Herman. Com Herman, o trompetista fez uma longa excursão pela África, a convite do Departamento de Estado norte-americano.

Após a turnê africana, foi a vez da orquestra excursionar pela Europa Oriental, que então vivia sob o domínio comunista e o conjunto de países do leste europeu era conhecido como Cortina de Ferro. A banda tocaria na Hungria, Romênia, Tchecoslováquia e Iugoslávia. Depois de mais de dez anos sem retornar ao país de origem, Dusko não escondia a aflição. Ele lembra: “Eu estava bastante nervoso quando chegamos em Belgrado. Recordo de ter dito aos meus companheiros Bill Chase e Nat Pierce que se eles me vissem sendo conduzido por uns caras de uniforme azul, podiam procurar outro trompetista porque eu provavelmente seria mandado para a Sibéria”. De qualquer modo, o trompetista passou incólume pela turnê e continuou sua trajetória profissional sem maiores sobressaltos.

O convívio com Herman também foi muito marcante na trajetória pessoal e professional de Gojkovich, que cresceu bastante não só como solista, mas principalmente como compositor e arranjador. Ele reconhece a importância do bandleader e recorda: “Woody Herman me encorajava bastante. Ele não apenas aceitava minhas sugestões como chegou a gravar diversas composições minhas, além de me dar oportunidade para elaborar arranjos para a banda”. A parceria durou apenas um ano, pois o trompetista sentiu a necessidade de retornar à Europa e priorizar a carreira solo.

De volta à Alemanha em 1965, ele gravou seu primeiro álbum como líder, “Swinging Macedonia” (Enja), cujo repertório incluía vários temas folclóricos dos Bálcãs, executados em ritmo de jazz. No acompanhamento, destacam-se o sempre instigante Mal Waldron ao piano e o jovem saxofonista Nathan Davis, que futuramente seria o criador e líder da célebre Paris Reunion Band.

Estabelecido como um dos principais nomes do jazz do Velho Continente, Dusko também acompanhou alguns dos gigantes norte-americanos em concertos e gravações pela Europa, destacando-se Miles Davis, Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Sonny Rollins, Duke Jordan, Freddie Hubbard, Lee Konitz, Phil Woods, Art Farmer, Clark Terry, Woody Shaw e Slide Hampton.

Em 1966, ele decidiu se fixar em Munique, onde montou um grupo com o saxofonista Sal Nistico, ex-companheiro na big band de Woody Herman e que seria seu parceiro constante ao longo dos próximos anos. Dois anos depois, em 1968, entrou para a célebre The Kenny Clarke-Francy Boland Big Band, onde pode conviver com alguns dos mais talentosos jazzistas de todos os tempos, como Benny Bailey, Ake Persson, Idrees Sulieman, Ronnie Scott, Johnny Griffin, Sahib Shihab, Jimmy Woode e Billy Mitchell, entre outros. No ano seguinte, Dusko montaria o Summit Quintet, em parceria com o baterista Philly Joe Jones, que na época morava na Europa.

O vínculo com a big band de Kenny Clarke e Francy Boland perduraria até 1973, quando o trompetista se desligou da orquestra. Desde o início da década de 70 Dusko mantinha um projeto paralelo, liderando a sua própria big band, na qual pontuavam vários músicos europeus de primeira linha, como os trompetistas Palle Mikkelborg e Rolf Ericsson, o saxofonista Ferdinand Povel e o clarinetista Frank St. Peter. Ali Gojkovich pôde exercitar com maior liberdade a sua vocação para o arranjo e a composição, e manteve a orquestra em atividade até 1976.

Com o fim da sua big band, o trompetista voltou a trabalhar como freelancer, elaborando arranjos para orquestras alemãs, como a Dutch Skymasters, a Munich Big Band e a NDR Big Band. Também montou um hepteto com o trombonista norte-americano Slide Hampton, que chegou a fazer algum sucesso na segunda metade dos anos 70, sobretudo no circuito europeu de festivais de jazz. Também participou, como sideman, de shows e gravações de gente como Don Menza, Buddy De France, Big Joe Patton, Tete Montoliu, Nathan Davis, Alvin Queen e do ex-patrão Kenny Clarke.

Em 1986  ele refez a sua big band, a qual, desde então, se mantém em atividade. No ano seguinte, após um hiato de mais de quinze anos sem gravar um disco em seu próprio nome, lançou o elogiado “Celebration”, pelo selo japonês DIW, no qual está apoiado por uma sessão rítmica estelar: o pianista Kenny Drew, o baterista Al Levitt e o contrabaixista Jimmy Woode.

O trompetista passaria outros sete anos sem gravar como líder, mas em 1993 o panorama mudou radicalmente. Assinou com a gravadora alemã Enja, por onde havia lançado seu primeiro álbum solo, ainda nos anos 60, e despejou no mercado uma dúzia de excelentes álbuns, que se alinham entre os melhores já gravados no continente europeu. O primeiro deles foi o estupendo “Soul Connection: Vol. 1”, gravado entre os dias 28 e 29 de junho de 1993 e que recebeu o German’s Jazz Critics Award do ano seguinte.

Além de excelente intérprete, Dusko é um compositor muito criativo – sete das oito faixas são de sua autoria – e um arranjador talentoso. Secundado pelos excelentes Tommy Flanagan (piano), Eddie Gomez (contrabaixo) e Mickey Roker (bateria), o trompetista fica à vontade para mostrar suas diversas facetas, manejando com igual maestria o trompete e o flugelhorn. Complemente-se dizendo que o álbum também conta com a presença do saxofonista Jimmy Heath em cinco das nove faixas.

A primeira delas é, exatamente, a que dá nome ao disco e sua estrutura é bastante assentada no blues, embora tenha elementos do soul jazz de um Horace Silver ou de um Lee Morgan. O líder é um trompetista econômico e suas intervenções primam pelo rigor harmônico, muito mais que pela velocidade ou pela profusão de acordes. Heath honra o apelido de “Little Bird” e improvisa com sagacidade e inteligência, dando ao tema um inescapável conteúdo bop. O sempre elegante Flanagan é um esteta, sempre muito preocupado com a beleza e com o bom gosto daquilo que toca e seu solo, impecável, é um amálgama de limpidez e fluência.

A seguir, Dusko presta homenagem àquele que, ao longo dos anos, assumiu o papel que havia sido de Roy Eldridge em seus anos de formação: Miles Davis, seu ídolo e principal influencia. A emocionante “Ballad for Miles” é uma balada hipnótica, na qual o líder aplica a surdina ao seu trompete e a sonoridade obtida emula a do líder, de maneira quase mediúnica. Flanagan ajuda a criar o clima introspectivo com uma abordagem minimalista, dedilhando as teclas com a delicadeza e o refinamento habituais.

A movimentada “Inga” é tributária da música brasileira e sua levada irresistível tem fartos elementos de samba e bossa nova. Gomez produz um solo instigante e seu contrabaixo ensolarado transborda alegria. Roker é a coluna vertebral rítmica e está muito à vontade nesse ambiente bossanovístico. O mesmo vale para o líder e para Heath, que parecem ter sido forjados nas noites sessentistas do Beco das Garrafas.

Imortalizada por Dinah Washington, “I'll Close My Eyes”, de Bernice Petkere, é a única música que não foi composta por Gojkovich. Executada em um contagiante tempo médio, a canção ganha um charme extra com a utilização, por parte do líder, de uma graciosa surdina. A performance de Flanagan é magistral, não apenas no que diz respeito ao acompanhamento mas também no extasiante solo. Gomez se mostra um improvisador formidável e brinda o ouvinte com um solo exuberante.

Apesar do título, “Blues Time” é bebop de excelente safra, cadenciado e extremamente melódico. O blues se agrega como um elemento mais complementar que propriamente estrutural e o líder proporciona, ao flugelhorn, uma aula magna de inventividade, improvisando com engenho e perspicácia. Heath, bopper de quatro costados, tem amplo espaço para solar e seus diálogos com Gojkovich lembram outras parcerias históricas, como Art Farmer e Benny Golson ou Freddie Hubbard e Wayne Shorter, na época dos Jazz Messengers.

Dando uma acalmada no clima, é a vez da introspectiva “Adriatica”, balada classuda que em algumas passagens lembra “In a Sentimental Mood”, do eterno Duke Ellington. Heath transborda emotividade e Dusko, mais uma vez com a surdina, evoca Miles, com o uso de poucas notas, geralmente alongando-as ao máximo, criando um efeito ao mesmo tempo lírico e distante. A destacar, ainda, o formidável trabalho de Roker, cuja elegância percussiva é suficiente para inscrevê-lo entre os mais refinados bateristas de todos os tempos.

A animada “NYC” é uma bela homenagem do trompetista a Nova Iorque. Dusko utiliza a surdina com bastante competência e seu fraseado é ágil (embora não exatamente veloz) e envolvente. Pianista formado na melhor escola do bebop, Flanagan desenvolve o tema de maneira bastante convincente, adicionando-lhe histamina e frescor. A formidável pulsação de Roker, incansável, também merece ser ouvida atentamente.

“Blues Valse” tem uma áurea misteriosa e lembra os trabalhos de Donald Byrd do início dos anos 60, quando manteve uma alentada parceria com o extraordinário Pepper Adams. Gojkovich é dono de uma técnica invulgar e seu domínio do flugelhorn é absoluto. Ele parece não ter pressa alguma, preferindo escolher as notas com parcimônia e esmero, como se as esculpisse pacientemente. Sua interação com a sessão rítmica, em especial com Flanagan, é quase telepática.

Para encerrar, mais um tema rápido, o hard bop “Teamwork Song”, título que traduz com perfeição a sintonia existente entre os músicos. Um ótimo trabalho de equipe, onde todos brilham, trocam informações e se divertem em igual medida. Gojkovich tem uma atuação discreta, ocupando-se mais do acompanhamento, enquanto a performance de Heath, maior destaque individual nessa faixa, é ensolarada. Ele transita entre os registros graves e os agudos com tamanha autoridade que dá a entender que tocar sax tenor é uma das tarefas mais simples do mundo. O excepcional trabalho de Flanagan, introduzindo generosas pitadas de blues ao tema, é outro ponto alto.

O trompetista ainda gravaria, em 1996, “Soul Connection: Vol. 2”, desta feita liderando uma big band, para quem compôs dos temas e elaborou todos os arranjos. Outros trabalhos de destaque em sua discografia são “Bebop City”, de 1995 (a seu lado, os saxofonistas Ralph Moore e Abraham Burton, o pianista Kenny Barron, o contrabaixista Ray Drummond e o baterista Alvin Queen), e “Balkan Blue”, álbum duplo de 1996, no qual Dusko se apresenta em dois contextos distintos: no primeiro álbum, ele toca com o quinteto do saxofonista italiano Gianni Basso  e no segundo ele recebe os músicos da orquestra da North German Radio (NDR), sendo que aqui os arranjos ficaram sob a responsabilidade do amigo Palle Mikkleborg.

Em 2004 Dusko voltou a gravar com uma orquestra, desta feita a “All Star Big Band” de Belgrado, no disco “A Handful of Soul”. Ele também fez incursões pela música brasileira, nos discos “Samba do Mar” (2003) e “Samba Tzigane”, de 2008, seu álbum mais recente. O repertório dos dois é essencialmente composto de clássicos da bossa nova como “Insensatez”, “Chega de saudade”, “O grande amor” e “Este seu olhar”, sendo que o segundo conta com a participação do flautista brasileiro Márcio Tubino.

Durante as comemorações do aniversário de 75 anos, Gojkovich realizou um concorrido concerto em Belgrado. Atualmente, além da big band e do trabalho como músico e arranjador freelancer, ele costuma se apresentar pelo mundo à frente do “Straight Six”, banda de orientação hard-bopper nos moldes dos Jazz Messengers, integrada por Joerg Reiter (piano), Marc Abrams, (contrabaixo), Bruno Castellucci (bateria), Joe Gallardo (trombone) e Heinz Hermann (sax tenor e flauta).


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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O SOM NÃO TEM FRONTEIRAS, É MADE IN CORAÇÃO!



Final dos anos 80. Programa do Chacrinha. O grande Toquinho presta homenagem a um amigo oriental, um saxofonista japonês sorridente que, a bordo de uma inacreditável camisa florida, faz alguns malabarismos com um vistoso saxofone dourado. O japonês parece ser um tremendo boa-praça e os versos da canção – “Um amigo meu lá da Terra do Sol Nascente, cruzou o Pacífico e chegou pacificamente” – ajudam a criar a empatia com o personagem. Fiquei curioso para conhecer a música que o sujeito fazia, cheguei a ouvir um ou dois discos lançados no Brasil naquela época, mas achei um negócio meio pasteurizado e deixei o simpático Watanabe-San para lá.

Corta para 2004. Meu amigo James Magno foi passar as férias em São Paulo e pedi a ele para que me trouxesse alguns CDs de jazz. Não especifiquei o que queria e deixei a tarefa a seu encargo, confiando em seu bom gosto mais que precioso. Foram cerca de dez discos e entre um Stan Getz aqui, uma Diana Krall ali, um Trio Viralata acolá, eis que me chega às mãos o álbum “Remembrance” (Verve, 1999). Estranhei a escolha, afinal, para mim, Mr. Watanabe corria na mesma faixa dos açucarados Groover Washington e David Sanborn.

Mas James sabe das coisas e depois que li a ficha técnica, onde constavam nomes como os de Cyrus Chestnut, Christian Mc Bride e Nicholas Payton, fiquei mais tranqüilo. Afinal, o disco não poderia ser tão ruim. Mas ao colocar o bichinho pra rodar, qual foi a minha surpresa! O disco não apenas não era ruim como, na verdade, me fez mudar radicalmente de opinião acerca de Mr. Watanabe. O sujeito toca muito! Passei semanas ouvindo o disco, direto. E o amigo do Toquinho, que havia cruzado o Pacífico e chegado pacificamente, ganhou mais um fã!

Claro que essa breve introdução é para falar sobre o saxofonista e clarinetista japonês Sadao Watanabe. Ele nasceu no dia 1º de fevereiro de 1933, em Utsunomiya, distrito de Tochigi. Seu pai era músico profissional e tocava biwa, um instrumento de cordas tradicional, que se assemelha a um alaúde. Ainda na infância o garoto começou os estudos musicais, dedicando-se primeiramente ao clarinete.

Em 1948, após assistir a uma exibição do filme “Birth of the Blues” (musical de 1941, dirigido por Victor Schertzinger e estrelado por Bing Crosby e Mary Martin, onde são interpretados clássicos como “St. Louis Blues”, “Memphis Blues” e “St. James Infirmary”), apaixonou-se pelo jazz e passou a ouvir, compulsivamente, aquela música originária do país que, até bem pouco tempo atrás, era um ferrenho inimigo.

Após a conclusão do ensino médio, mudou-se para Tóquio, em 1951. Estudou teoria musical com alguns integrantes da Orquestra Filarmônica de Tóquio. O Japão havia sido devastado pela II Guerra Mundial, mas os pacientes e disciplinados japoneses haveriam de reerguer o país em pouco tempo. Nessa época, abandona o clarinete para se dedicar ao sax alto e se descobre um grande fã de Charlie Parker. O cenário jazzístico da capital japonesa era bastante estimulante, pois além dos músicos locais, era possível ouvir muitos integrantes de bandas das forças armadas norte-americanas, então estacionadas naquele país.

Sadao logo se juntou a um dos mais importantes combos da cidade, sob a liderança da pianista Toshiko Akiyoshi. A parceria perdurou de 1953 a 1956, quando Akiyoshi se mudou para os Estados Unidos, a fim de estudar no prestigioso Berklee College of Music. O saxofonista então assumiu a liderança do grupo e continuou na cidade, apresentando-se em clubes de jazz e acompanhando artistas japoneses do período. Seu primeiro álbum como líder, “Sadao Watanabe”, foi gravado em 1961.

Em 1962 é a vez do próprio Sadao se mudar para Boston, seguindo os passos da amiga Akiyoshi. Em Berklee, tocou com músicos importantes, como Chico Hamilton, Gary McFarland e Gabor Szabo. Também nessa época remonta a sua aproximação com a música brasileira, em especial com a bossa nova. Ele recorda como se deu essa relação apaixonada: “Eu estava excursionando com a banda de Chico Hamilton. Me sentia muito solitário naqueles quartos de hoel e um dia comprei um disco de Antonio Carlos Jobim. Fiquei apaixonado por aquela música que me encantava tanto quanto o jazz”.

Em 1965, após a conclusão do curso, Sadao retorna ao Japão, onde se firma como o nome mais importante jazz nipônico. Ele também inicia uma longa e prolífica carreira de educador musical, tendo assumido o cargo de diretor do Yamaha Institute of Popular Music, e por suas mãos passariam algumas gerações de jazzistas japoneses. Em 1967 lança “Bossa Nova Concerts” (Denon), álbum que ajuda a popularizar a música brasileira no Japão. No repertório, composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Edu Lobo e Luiz Bonfá.

No ano seguinte, ele repetiria a dose em “Sadao Meets Brazilian Friends”, também da Denon, desta feita ao lado da banda Brazilian Octopus, supergrupo integrado, entre outros, por Hermeto Pascoal, Lanny Gordin, Cido Bianchi, Olmir “Alemão” Stocker e Nilson da Matta. Nos anos vindouros, o saxofonista gravaria diversos outros álbuns de música brasileira e bossa nova.

Ainda em 1968, sua participação no Newport Jazz Festival abriu-lhe as portas do mercado internacional e ele passou a ser bastante requisitado, também, no circuito de festivais de jazz, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. A vontade de conhecer novas sonoridades impeliu-o a uma turnê pela África, em 1972, sendo um dos primeiros jazzistas de ponta a se apresentar em países como o Quênia e a Tanzânia, onde, aliás, tocou nas comemorações do décimo aniversário da independência do país.

Ainda em 1972, Watanabe passou a apresentar o programa “My Dear Life” em uma FM de Tóquio, empreendimento que levaria adiante pelos dezenove anos seguintes. Demonstrando toda a sua versatilidade, em meados da década de 70 apresentou-se como solista convidado da Kyoto Symphony Orchestra, em um repertório inteiramente baseado nas composições de Mozart.

A década de 70 o consagraria como o “primeiro superstar do jazz nipônico”, nas palavras do crítico Richard Cook. Ele arrebatou uma infinidade de prêmios, como o Osaka Culture Award, o Arts Festival Grand Prize e o Nanri Fumio Award. Pouco depois, o nome de Watanabe se destacaria nas paradas de sucesso do mundo inteiro, com o hit “California Shower”, incluído no álbum homônimo (JVC, 1978), que foi gravado nos Estados Unidos e conta com as presenças do saxofonista Ernie Watts, do guitarrista Lee Ritenour, do baterista Harvey Mason e do percussionista brasileiro Paulinho da Costa.

Então bastante envolvido com o fusion, ele gravou o bem-sucedido “How’s Everything”, registro ao vivo de dois shows realizados na célebre casa de espetáculos Budokan, em Tóquio, no ano de 1980. O álbum repetiu o sucesso de “California Shower” e dele participam figuras como Richard Tee, Steve Gadd, Eric Gale e Dave Grusin, que também assina os arranjos.

Apesar do sucesso comercial, Watanabe não abandonou completamente o jazz acústico, incluindo em sua quilométrica discografia diversos discos em homenagem ao ídolo Charlie Parker. O primeiro deles foi “Dedicated to Charlie Parker”, gravado em 1969, para a Denon. O mais recente é o espetacular “Parker’s Mood” (Elektra, 1985), no qual o saxofonista lidera um quarteto de primeira linha, integrado pelo pianista James Williams, o contrabaixista Charnett Moffett e o baterista Jeff “Tain” Watts.

Entre o primeiro e o último, destaca-se o portentoso “Bird of Paradise”, gravado em Nova Iorque, no dia 04 de maio de 1977. A seu lado, o The Great Jazz Trio, em uma formação onde pontuavam Hank Jones (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Tony Williams (bateria). No repertório, quatro composições de Parker e três dos seus standards preferidos.

A faixa que dá nome ao disco é também a que abre os trabalhos e o resultado não poderia ser mais auspicioso. Sadao é um músico altamente técnico, mas que sabe tocar com alegria e espontaneidade. Sua abordagem inflamada contagia os demais membros do quarteto, especialmente Williams, cuja atuação é das mais vibrantes. O sempre elegante Jones perpetra um solo de extremo bom gosto, abrindo mão da velocidade em prol da sofisticação harmônica. Estupendo solo de Carter, que ainda por cima faz uma graciosa citação de “It Might As Well Be Spring”.

A versão de “Donna Lee” é curta – pouco menos de três minutos – mas não menos intensa. O sopro fulgurante do líder é pura empolgação, com improvisos extremamente bem construídos e de enorme eloqüência. Williams mantém a pegada impetuosa e robusta, solando como um possesso e dialogando em altíssimo nível com o saxofonista, enquanto Jones e Carter, embora não improvisem, ajudam a conservar a temperatura elevada.

A balada “Embraceable You”, dos irmãos Gershwin, ganha um arranjo refinado e algo melancólico. Destaque absoluto para o piano de Jones, que trafega majestosamente entre a introspecção e o lirismo. Ouvir Carter é sempre um grande prazer e nesta gravação o baixista se encontra particularmente inspirado – seu solo longo e pungente transmite muita emoção. O líder se sente à vontade também nos temas mais lentos, mas prefere uma execução discreta, emitindo as notas com sobriedade e precisão.

Uma inebriante versão em tempo médio de “Star Eyes”, de Gene De Paul e Don Raye, vem a seguir. O quarteto insere alguns discretos elementos de música latina, em especial Williams, cuja percussão revela bastante intimidade com os ritmos afro-caribenhos. Hank Jones também demonstra familiaridade com a fabulosa escola cubana e Watanabe faz uma leitura das mais instigantes, extraindo do saxofone sonoridades imprevisíveis e cheias de efeito.

O quarteto retorna ao ambiente bop em “Dexterity”, outro tema de autoria de Parker. As intervenções ferozes de Sadao e sua extrema facilidade para improvisar o colocam entre os grandes nomes do sax alto, como Art Pepper, Phil Woods ou Cannonball Adderley. A destacar, as empolgantes atuações de Jones, que mesmo dedilhando febrilmente as teclas do piano consegue transmitir ao ouvinte uma sensação de serenidade, e do impetuoso Williams, cuja dinâmica rítmica é fundamental para moldar a personalidade deste verdadeiro banquete auditivo.

Carter é o grande destaque individual de “If I Should Lose You”, jóia preciosa da dupla Leo Robin e Ralph Rainger. Sua marcação é impecável e seu solo é arrebatador. Mais um tema parkeriano, “Yardbird Suite” é o veículo perfeito para mais uma exibição de gala do líder. Dono de um ataque rápido e potente, Sadao percorre as harmonias traçadas por Parker com personalidade e esmero, evitando que sua interpretação resvale no plágio. A bateria pulsante de Williams, infalível em suas intervenções, o swing discreto de Carter e o dedilhado envolvente de Jones apenas confirmam a excelência dos acompanhantes.

O álbum encerra com uma versão impactante de “K. C. Blues”, outro tema de autoria de Bird. O quarteto navega pelas águas lamacentas do blues com autoridade e enorme competência. Interessante perceber como Watanabe consegue captar a essência emotiva do estilo, e sua sonoridade expressa a tristeza que é peculiar ao verdadeiro blues. Carter, soberbo, dá à interpretação a necessária profundidade e o piano econômico de Jones, assentado em uma formidável base stride, traduz o lamento primordial, indissociável ao estilo. Para quem está acostumado a ouvir Sadao em contextos mais comerciais, este disco é uma excelente introdução à sua obra jazzística e ao seu talento exponencial.

O saxofonista tem se mantido, ao longo das últimas décadas, como um dos músicos mais requisitados da história do jazz. Seu espírito inquieto o tem levado a trabalhar com músicos dos quatro cantos do planeta, tendo gravado com os norte-americanos Herbie Hancock, Charlie Mariano, Marcus Miller, Grady Tate, Cedar Walton, Peter Erskine e Chick Corea, os brasileiros Toquinho, Leila Pinheiro, Ricardo Silveira, César Camargo Mariano, Romero Lubambo e Ithamara Koorax, o mexicano Armando Manzanero, o camaronês Richard Bona, o peruano Alex Acuña, o senegalês N'diasse Niang, o tcheco Miroslav Vitous e uma infinidade de outros.

A fotografia, que começou como hobby, é outra paixão de Watanabe, que já publicou seis livros sobre o assunto. Outro dos seus hobbies preferidos parece ser o de colecionar prêmios e honrarias, que lhe são concedidos às dezenas. Foi o primeiro músico de jazz agraciado com o Grand Prix Award (1976) e o National Award (1977), dados pelo governo do Japão e em 1995 recebeu o Honors Award, da prefeitura de Utsunomiya, sua cidade natal. No ano seguinte, foi a vez do Arts Award, que lhe foi dado pelo Ministério da Cultura do Japão. Desde 1988 Sadao exibe o título de Cidadão de Los Angeles, honraria que lhe foi concedida pela Câmara Municipal da cidade.

Ele também recebeu o Cultural Honors Award, dado pela Prefeitura de Tóquio em 1995. No mesmo ano, foi agraciado com o título de Doutor Honorário, concedido pelo Berklee College of Music, onde havia estudado na década de 60, e a Imperial Purple Ribbon Medal, uma das comendas mais importantes do Japão e que é concedida pelo próprio Imperador. Em junho de 2002 seria a vez do Cultural Honors Award, concedido pela prefeitura de Tochigi e no ano seguinte ganharia o Montblanc International Culture Prize, dado pela célebre fabricante de canetas.

Em 2001 Sadao comemorou os 50 anos de carreira com uma extensa turnê pelo Japão, lotando casas de espetáculo, teatros e auditórios dos mais diversos pontos do país. O governo japonês o nomeou um dos produtores executivos da EXPO 2005, exposição mundial realizada na cidade de Aichi. Participou de dezenas de concertos beneficentes, destacando-se os projetos “Kids for Banbini”, na Itália, e “Make a wish in Guam”, na Micronésia.

Aguerrido militante das causas humanitárias, em 2006 Watanabe foi o primeiro músico de jazz a excursionar em Myanmar, a antiga Birmânia, desafiando a truculenta ditadura militar que há mais de 40 anos governa o país. Doze anos antes, também havia sido um dos primeiros jazzistas a excursionar pela África do Sul, logo após a eleição de Nelson Mandela e a abolição do odioso regime do apartheid.

Sempre de bem com a vida, Sadao Watanabe é um dos artistas mais queridos e reverenciados do Japão. Continua a gravar e a excursionar com intensidade e dentre os seus últimos registros destacam-se “Sadao and Charlie Again”, ao lado do velho amigo Charlie Mariano, que na década de 60, quando ainda estava casado com a pianista Toshiko Akiyoshi, morou alguns meses na casa de Sadao. O disco foi gravado em 2005, ao vivo, durante uma apresentação no clube Blue Note de Nagóia. Outro projeto é o recente “Basie's at Night”, álbum duplo gravado para a Koch em 2008 e que inclui no repertório standards do jazz como “Deep In A Dream” e “I’m Old Fashioned” e gemas da música brasileira, como “Manhã de carnaval”, de Luiz Bonfá e Antônio Maria, e Carinhoso, de Pixinguinha e Braguinha.

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

COM AÇÚCAR E COM AFETO




Poucos músicos na história do jazz conseguiram granjear o respeito da crítica e o sucesso de público na mesma proporção que James Moody adquiriu ao longo de mais de sessenta anos de carreira. Versátil, esse saxofonista (tenor e alto), flautista e clarinetista nascido em Savanah, na Geórgia no dia 26 de março de 1925, sempre pautou a sua trajetória musical pelo talento exponencial e por um aparentemente inesgotável bom humor, talvez a sua característica pessoal mais marcante. E tudo isso tendo que enfrentar um problema bastante sério para um músico: Moody nasceu com uma deficiência auditiva que lhe impedia de ouvir com clareza os sons agudos.

A família de Moody tinha uma relação bastante íntima com a música. Seu pai era trombonista e tocou na banda do baterista, pianista, cantor e bandleader Tiny Bradshaw, na qual também atuaram luminares como Russell Procope, Charlie Shavers, Billy Kyle, Charley Fowlkes e Sonny Stitt. Quando ainda era criança, James se mudou com a família para Newark, em Nova Jérsei, onde foi criado. Ali, travou conhecimento ainda mais intenso com o jazz e aos dezesseis anos ganhou de um tio um saxofone alto.

Em 1942, após assistir a uma apresentação da orquestra de Count Basie no Adams Theater, em Newark, o garoto ficou particularmente impressionado com as atuações de Buddy Tate e de Don Byas e decidiu-se pelo sax tenor. No ano seguinte, ao completar 18 anos, entrou para as forças armadas. Ali conheceu o trompetista Dave Burns, que já havia sido membro dos “Savoy Sultans”, com quem voltaria a trabalhar, após a dispensa do serviço militar. Outro acontecimento importante em seu período na aeronáutica foi que ali Moody iniciou-se no aprendizado musical formal, pois até então ele não conseguia ler e nem escrever partituras.

Mas nem tudo eram flores no caminho do jovem saxofonista. Nas forças armadas, ele se deparou com o racismo, chaga social que maculava a sociedade norte-americana. Moody recorda essa época. “Me juntei à Força Aérea em 1943 e toquei em uma orquestra de negros, pois as tropas eram segregadas. Três quartos da base eram brancos e um quarto era negro. Eu tinha um saxofone e foi ali que eu comecei a aprender a ler música”. Uma vez cumprido o serviço militar obrigatório, James retornou à vida civil em 1946.

Sabendo que a orquestra de Dizzy Gillespie estava precisando de um saxofonista. Moody apresentou-se para um teste, mas não foi aprovado porque, de acordo com o então diretor musical, Gil Fuller, possuía uma saúde muito frágil. O James então passou um tempo na banda do amigo Dave Burns até que, poucos meses depois da primeira audição, foi chamado pelo próprio Gillespie para acompanhá-lo em uma temporada no “Spotlite”, em Nova Iorque.

A formação da banda de Gillespie era um luxo, pois dela faziam parte ases do calibre de Thelonius Monk, Milt Jackson, Howard Johnson, Ray Brown e Kenny Clarke, sendo que os arranjos ficavam a cargo de Gil Fuller, John Lewis e Tad Dameron. Moody permaneceu na orquestra até 1948 e logo em uma das suas primeiras gravações com a banda, “Emanon”, em 1946, começou a chamar a atenção de crítica e público para a qualidade de seus solos.

Com Gillespie, Moody faria outras gravações importantes, como “I Waited For You”, “Two Bass Hit”, “Good Bait”, “Manteca” e “Ow”, para o selo “Musicraft”. Para a “Arco”, gravou com o grupo de Gillespie clássicos como “Stay On It”, “Ool-Ya-Koo”, “Round’bout Midnight” e “I Can’t Get Starded”, com produção de Gene Norman, em 1948. Ainda naquele ano, o saxofonista participou de inúmeros programas de rádio, que eram gravados diretamente do clube “Royal Roost”. Ao mesmo tempo, James aprofundou os estudos musicais, especialmente em teoria e composição, estudando com Tom McIntoch e Michael Longo.

Esse período foi importante não apenas no aspecto profissional como também do ponto de vista do amadurecimento pessoal e intelectual de Moody. Como bem recorda o Mestre Pedro Cardoso, “Gillespie, conhecido por seu aspecto e trejeitos de brincalhão, na realidade foi um dos músicos mais sérios e preparados intelectual e tecnicamente no jazz e, sem dúvida, um dos melhores professores de sua geração”. Moody pode ser visto no documentário americano “Jivin’in Be-Bop”, de 1947, dirigido por Leonard Anderson e que conta com as participações de Milt Jackson, Benny Carter, John Lewis e outros grandes nomes do jazz.

Com experiência adquirida ao longo dos dois anos com Dizzy, James estava pronto para empreender vôos ainda mais audaciosos. À frente do grupo “James Moody and His Bebop Men” gravou seu primeiro álbum como líder, em 1948. Ainda naquele ano, inconformado com o racismo que imperava em seu país, ele decidiu se mudar para a Europa, fixando-se na França. No ano seguinte, apareceu no documentário francês “Une Nuit à Saint-Germain-des-Prés”, filmado no “Paris Left Banck” em 1949, com direção de Fred Savdié e Jean Laviron, e que conta com a presença do grande Don Byas.

Também em 1949, gravou em Estocolmo, na Suécia, de maneira bastante informal, uma melodia baseada na seqüência de acordes do standard “I’m in the Mood for Love”, composta por Jimmy McHugh e Dorothy Fields. A canção havia sido lançada em 1935, no filme “Every Night at Eight” e a nova versão recebeu o nome de “Moody’s Mood for Love”, com letra de Eddie Jefferson. Essa gravação foi feita para o selo “Prestige”, e Moody toca um sax alto que lhe foi emprestado pelo saxofonista sueco Lars Gullin. Liderando uma formação de músicos escandinavos, James gravou, além de  “Moody’s Mood for Love”,  outros 97 temas, que foram distribuídos em 08 LP’s diferentes.

Essa gravação chegou aos Estados Unidos e converteu-se em um grande sucesso, vendendo milhares de cópias em pouquíssimo tempo. Uma versão feita pelo cantor King Pleasure transformou “Moody’s Mood for Love” em um verdadeiro hit. Moody não fazia idéia da repercussão de sua despretensiosa composição, até se apresentar em Paris, no famoso Club St. Germain, onde a audiência pedia, aos gritos, que executasse o tema. Ao tomar conhecimento de que a versão de King Pleasure ocupava ótimas posições nas paradas do seu país, James resolveu voltar à terra natal, em 1951.

Antes desse retorno, impõe-se destacar a participação de Moody no “Paris Festival International de Jazz”, realizado nos dias 08, 09, 11, 13, 14 e 15 de maio de 1949. Ali, o saxofonista tocou em uma banda all-star, sob a liderança de Miles Davis e que incluía Tadd Dameron no piano, Barney Spieler no contrabaixo e Kenny Clarke na bateria,. Foi durante esse festival, que também contou com a presença de Charlie Parker e seu quinteto, que Miles Davis conheceu a atriz e cantora francesa Juliette Gréco, com quem manteria um tórrido romance. A gravação parcial do áudio do festival, foi disponibilizada no LP “The Miles Davis Tadd Dameron Quintet”, lançado pela CBS, através da série “Contemporary”.

De volta aos Estados Unidos, James montou uma banda com sete integrantes, com uma orientação mais voltada para o Rhythm & Blues e que incluía o trompetista Dave Burns, o cantor Babs Gonzales e o trombonista William Shepperd, mas a repercussão do trabalho do grupo ficou aquém do esperado. Moody trabalhou como freelancer por algum tempo, até que em 1956 gravou “The James Moody Story”, mais uma vez ao lado de Babs Gonzales. Em seguida, co-liderou um grupo com o cantor Eddie Jefferson, em uma parceria que durou, com algumas interrupções, por cerca de 20 anos.   

O novo grupo passou por sérias dificuldades, sobretudo por conta do mergulho de Moody no alcoolismo. Corria o ano de 1957 e ele fazia uma temporada no “Blue Note” da Filadélfia. O clube foi quase que totalmente arrasado por um incêndio que, para desespero do saxofonista, lhe destruiu instrumentos, partituras e vestuário.  Moody afundou no álcool e quase abandonou a carreira. Ele passou 09 meses no Overbrook Psychiatric Hospital, em Cedar Grove, Nova Jérsei, submetendo-se a um intenso tratamento para desintoxicação, mas conseguiu se reabilitar.

Em setembro de 1958, contratado pelo selo “Argo”, Moody vai para Chicago, onde grava o álbum “Last Train From Overbrook”, sendo que a faixa que dá nome ao disco é um blues composto durante o período em que esteve internado. Nessa época, ele passa a estudar a flauta e a dedicar-se intensamente ao novo instrumento. Em dezembro daquele ano, James monta nova formação com Tom McIntosh ao trombone (substituído pouco depois pelo ótimo Julian Priester), Johnny Coles ao trompete, Pat Patrick ao sax barítono, Gene Kee ao piano, Ernest Outlaw ao contrabaixo e Clarence Johnston à bateria.

Com esse novo grupo, sua carreira volta a deslanchar e ele passa por um período extremamente fértil de concertos em clubes, gravações (em especial para a Prestige) e apresentações em festivais. Seus álbuns como líder vão se sucedendo, sempre muito bem cotados nas avaliações da crítica especializada, por selos os mais diversos, como Blue Note, Prestige, Argo, EmArcy, Cadet, Muse, Vanguard, Chess, Milestone, Universal, Impulse, Savoy,        Novus, Telarc, Xanadu, Vogue, Dial e MPS, entre outros. Ele também trabalha como músico de apoio de figuras importantes, como Oscar Peterson, Milt Jackson, Dinah Washington, Brook Benton e Quincy Jones.

Em 1962 Moody tocou no prestigioso “Carnegie Hall” e manteve, por um breve período, o grupo “Battle Of The Saxofones”, que liderava juntamente com os fabulosos Gene Ammons e Sonny Stitt. Ainda naquele ano, James retoma a parceria com Gillespie e se integra ao novo quinteto do trompetista, complementado pelo pianista Kenny Barron, pelo contrabaixista Chris White e pelo baterista Rudy Collins.

São dessa época alguns dos mais memoráveis de Dizzy, gravados principalmente para a Verve, tais como “Dizzy Atmosphere” e “Something Old, Something New”, ambos de 1963, e “Swing Low Sweet Cadillac“, de 1967. O grupo também incursiona pelo cinema, ao executar a trilha sonora do filme “The Cool World“, longa metragem americano de 1963, dirigido por Shirley Clarke. O pianista Mal Waldron compôs o score, que foi executado por Gillespie, Moody, Barron, White e Collins, e lançado em disco também pela Verve.

Ao lado do antigo companheiro, Moody participou de inúmeros festivais, destacando-se a apoteótica atuação no “Monterey Festival” de 1962, no qual Dizzy liderou uma big band composta por 27 músicos (dentre os quais Phil Woods, Al Porcino, Conte Candoli, Larry Bunker, Bill Perkins, Frank Rosolino e Mel Lewis), sob a direção de Benny Carter, para a interpretação do tema “The New Continent”, de autoria do pianista argentino Lalo Schifrin.

O saxofonista também aparece no álbum “Dizzy Gillespie & The Double Six Of Paris” gravado em Nova Iorque, Chicago e Paris, em 1963. Nessa gravação Gillespie se faz acompanhar, em algumas faixas, por Bud Powell ao piano, Pierre Michelot ao contrabaixo e Kenny Clarke à bateria, sendo que em outras usa a sua própria sessão rítmica habitual. A formação do grupo vocal “Double Six” é constituída por Mimi Perrin, Claudine Berger, Christine Legrand, Ward Single, Robert Smart, Jean-Claude Briodin e Eddy Louise e os arranjos são de responsabilidade de Lalo Schifrin. Dentre as faixas gravadas, destacam-se “Emanon”, “Anthropology”, Tin Tin Deo”, “One Bass Hit”, “Two Bass It”, “Groovin’ High” e “Hot House”.

Moody permanece com Gillespie até 1969, quando deixa o trompetista para trabalhar como freelancer em Nova Iorque. Monta então um grupo com Eddie Jefferson nos vocais, Mickey Tucker no piano e Eddie Gladden na bateria. Em 1972, James se muda para Los Angeles e faz alguns trabalhos para o cinema e a televisão, ao mesmo tempo em que realiza vitoriosas temporadas na Europa e no Extremo Oriente. Acatando uma sugestão de Harold Land, em 1974 Moody se transfere para Las Vegas, passando a trabalhar em hotéis e cassinos, até 1980.

Foi membro fixo da orquestra do “Hilton Hotel”, então palco das grandes estrelas, e acompanhou nomes como B. B. King, Bill Cosby, Elvis Presley, Liberace, Glen Campbell, Lou Rawls e Redd Foxx. Durante o período em Las Vegas, ele aproveitou para incluir a clarineta ao rol de instrumentos que dominava.

Moody não abandonou completamente o jazz durante esse período e realizou concertos em cruzeiros marítimos, participou de festivais (com destaque para o de Nice e o de Montreux) e atuou em grandes eventos, como a primeira edição do show “Showboat” (espetáculo nômade que foi de New York até as Índias Ocidentais). Ele também marcou presença em homenagem a Dizzy Gillespie, realizada em 1975, em Nova Iorque. O saxofonista retornou a Nova Iorque em 1980, fazendo uma elogiada temporada no “Sweet Basil”. O sucesso de público e de crítica foi o suficiente para que ele deixasse o trabalho em Las Vegas e voltasse com tudo para as hostes jazzísticas.

Para Pedro Cardoso, Moody é uma verdadeira instituição do jazz, além de ser um mestre do humor musical. Segundo o querido “Apóstolo do Jazz”, o saxofonista “pode ser considerado discípulo direto do genial Lester Young, conjugando as idéias deste com o “bebop”, sendo músico possuidor de “swing” generoso, claro, com fluidez no fraseado em legato e fiel ao “bebop”, tão cômodo no “up-tempo” quanto nas baladas, com sonoridade doce e com preferência por solos longos, intensos, sem nunca afastar-se totalmente da melodia que é sempre citada diretamente ou em paráfrases, estas devidamente ornamentadas com apoggiaturas (nota característica de um intervalo melódico, escrita um grau acima ou abaixo da nota que a sucede)”. 
   
James realizou, ao lado de Dizzy Gillespie, várias temporadas européias, em 1982, 1983 e 1985. Também fez parte da United Nations Orchestra, liderada por Dizzy e integrada por músicos de várias partes do mundo, como o cubano Paquito D’Rivera e o brasileiro Airto Moreira. Moody participou, como líder ou sideman, de múltiplas gravações, com alguns dos mais destacados músicos da história do jazz, como Charles Mingus, Ernie Royal, Kenny Clarke, Elvin Jones, Arne Domnérus, Lionel Hampton, Jacques Diéval, Paquito D’Rivera, Jay McShann, Dexter Gordon, Horace Silver, Howard McGhee, Dave Brubeck, Al Cohn e uma infinidade de outros.

Em 1987 James Moody esteve no Brasil a bordo de uma formação liderada por Dizzy Gillespie e que incluía Sam Rivers nos saxes tenor e soprano, John Lee no contrabaixo, Ed Cherry na guitarra e Ignácio Berroa na bateria. O grupo se apresentou no Canecão, no Rio de Janeiro, nos dias 12 e 13 de maio. Presente ao evento, Pedro “Apóstolo” Cardoso relembra: “Tive o prazer de assistir aos espetáculos, ao lado do grande Mestre Luiz Carlos Antunes, sua esposa Dª Lúcia e de minha mulher Matilde.  Infelizmente, Gillespie não “trabalhou” nessas apresentações (segundo informações que recebemos, ele havia se esgotado na noite anterior tocando para garçons, cozinheiros e demais funcionários da casa), ficando a satisfação por conta de Sam Rivers e do espetacular Ignácio Berroa”.

No dia 26 de março de 1995 Moody foi homenageado em Nova Iorque, com um concerto que contou com a participação do comediante Bill Cosby como Mestre de Cerimônia. O show foi gravado pela Telarc e pode ser conferido no cd “Moody's Party: James Moody's 70th Birthday Celebration, Live at the Blue Note”. Ainda naquele ano, James gravou para a Warner o álbum “Young at Heart”, um tributo a Frank Sinatra, com direito a orquestra de cordas.

Em 1998 o saxofonista foi agraciado com o título de Jazz Master, concedido pelo “National Endowment for the Arts”. Na primavera de 2000, quando completou 75 anos, ele foi reconhecido como membro do “International Jazz Hall Of Fame”, em um espetáculo no “Avery Fisher Hall” de New York.   Na ocasião, foi realizado um concerto, a cargo da “Lincoln Center Jazz Orchestra”, reforçada figuras do quilate de Slide Hampton, Jon Hendricks, Annie Ross, Jon Faddis, Kenny Barron, Janis Siegel (do grupo vocal “Manhattan Transfer”) e Bill Cosby, que novamente atuou como Mestre de Cerimônias.

Ainda durante as comemorações do 75º aniversário, Moody recebeu das cidades de Nova Iorque e de Newark a “Congressional Black Caucus”. No dia 22 de julho, foi agraciado com o certificado de “Doutor Honoris Causae” do Berklee College Of Music, de Boston, honraria que lhe foi entregue na Itália, em Perugia. Ele também recebeu o mesmo título do Florida Memorial College.

Entusiasta da educação musical e membro da International Association for Jazz Education – IAJE, Moody costumava dizer: “Sempre gostei de estar próximo de pessoas que sabiam mais que eu, pois isso me incentivava a sempre querer aprender mais”. Por esse motivo, criou, em 2004, a James Moody Scholarship Endowment Fund, destinada a financiar a educação musical de jovens músicos. Em 2007, ele se apresentou juntamente com a WDR Big Band em Colônia, na Alemanha, com regência de Michael Abene e com a participação de Jon Faddis.

Contratado pela IPO Recordings em 2008, Moody gravou ali os seus três últimos álbuns, incluindo os formidáveis “Moody 4A” e “Moody 4B”. Ambos foram gravados no Avatar Studio, em Nova Iorque, nos dias 21 e 22 de julho de 2008, sendo que o primeiro foi lançado em 2009 e o segundo em 2010. James, que toca apenas o sax tenor, está acompanhado pelo pianista Kenny Barron, pelo contrabaixista Todd Coolman e pelo baterista Lewis Nash. Os dois álbuns passeiam por um repertório recheado de standard, sendo que o primeiro é mais centrado nas baladas e o segundo possui uma pegada um pouco mais swingante, razão pela qual escolho o “Moody 4B” para tecer algumas considerações.

O disco abre com uma fulgurante versão de “Take the A Train”, de Billy Strayhorn. A introdução fica a cargo de Barron, que brinda o ouvinte com uma levada alegre, quase um ragtime, no estilo de um Scott Joplin. Depois, a bateria de Nash e o saxofone do líder se juntam para uma performance de altíssima octanagem, sempre coadjuvados pela condução segura de Coolman.

Tadd Dameron é lembrado em uma elegante interpretação de “Hot House. Moody extrai do seu instrumento uma sonoridade aveludada, redonda, evitando os timbres mais ásperos ou estridentes. A versão do quarteto é mais cadenciada que o habitual, mas nenhum deles abre mão da impetuosidade nos improvisos, especialmente Coolman, autor de um solo dos mais energéticos, e Barron, cuja execução límpida e graciosa mostra que o seu prestígio no cenário atual do jazz é mais do que merecido.

Em “Speak Low” Moody e seus comandados cometem uma pequena heresia, ao agregar ao tema do refinado Kurt Weil uma nada parcimoniosa dose de latinidade. A percussão de Nash trafega pelos ritmos afro-caribenhos e até pelo samba com autoridade e maestria e Moody privilegia as notas longas, o que faz com que a canção, mesmo executada em um andamento mais rápido, não perca o seu conteúdo emocional.

A sofisticada “Polka Dots & Moonbeams”, de Johnny Burke e Jimmy Van Heusen, recebe uma roupagem à altura de sua belíssima melodia. O saxofone de Moody é lânguido e acolhedor, revelando-se em sua plenitude a grandiosa influência de Lester Young em seu fraseado. Barron é um pianista lírico como poucos e sua interpretação, comovente e delicada, é centrada no uso econômico das notas. Nash e Coolman são precisos e discretos em suas respectivas intervenções.

Cole Porter não poderia faltar nesse disco e a canção escolhida pelo quarteto é a pouco conhecida “I Love You”, que recebe um arranjo próximo do bolero. Moody e Barron estão particularmente inspirados, mas o longo solo de Coolman merece todos os encômios. O baixista também brilha, com uma performance eletrizante, na intrincada “O. P. Update”, composição de sua autoria, na qual presta homenagem ao ídolo Oscar Pettiford.

Barron contribui com “Nikara’s Song”, uma balada instigante que flerta com as sonoridades orientais e com as experiências feitas por Coltrane nos anos 60. Demonstrando ser um músico versátil e capaz de se adaptar a qualquer contexto, Moody imprime uma abordagem contemporânea a seu sopro e ajuda a criar uma atmosfera sonora quase impressionista. Nash agrega, com sobriedade, uma plêiade de timbres, com o uso inteligente dos pratos, sinos e outros recursos rítmicos.

“Along Came Betty” é uma composição de Benny Golson, cuja irresistível levada em tempo médio é um dos pontos altos do disco. Moody é um improvisador de muitos recursos técnicos, ao mesmo tempo em que é um intérprete altamente melodioso e possuidor de um fôlego sobre-humano. Nash e Coolman interagem com a solidez habitual e o dedilhado de Barron é cristalino e inebriante.

O encerramento fica por conta de “But Not For Me”, jóia da ourivesaria sonora dos irmãos George e Ira Gershwin, aqui executada em um andamento mais acelerado que o habitual. Parceiros há mais de quarenta anos, Barron e Moody possuem aquela espécie de cumplicidade musical que somente pode ser definida como telepática. O pianista é exuberante nos solos e absolutamente preciso no acompanhamento. O octogenário saxofonista possui o ímpeto de um iniciante e seu entusiasmo é um verdadeiro bálsamo para os ouvidos. Como definiu o crítico João Marcos Coelho, “Moody 4B não é apenas um bom disco. É um comovente e belo testamento musical para o talento de James Moody”.

Essa foi a última gravação do Moody como líder. O saxofonista partiu no dia 09 de dezembro de 2010, aos 85 anos, em San Diego, na Califórnia, após uma intensa luta contra o câncer de pâncreas. Sua esposa, Linda Moody, declarou, emocionada: “Me sinto muito gratificada pelo privilégio de ser a mulher deste homem fantástico por quase 22 anos. Aprendi muito com essa pessoa linda, graciosa e gentil”. O funeral foi realizado em cerimônia pública no dia 18 de dezembro, no “Greenwood Memorial Park” de San Diego, sul da Califórnia.

Mesmo abalado pela doença, Moody continuou trabalhando normalmente praticamente até o fim da vida. Cerca de um mês antes de morrer, ele deveria se apresentar no Blue Note de Nova Iorque, mas foi desaconselhado pelos médicos. Na ocasião, ele foi substituído por um escrete de saxofonistas de peso como Eric Alexander, Antonio Hart, Chris Potter, Lew Tabackin, Jimmy Heath e Joe Lovano, que aproveitaram para prestar-lhe uma merecida homenagem. Duas semanas após o seu falecimento, ele recebeu, postumamente, o “Grammy Award” pelo álbum “Moody 4B”, na categoria de “Best Jazz Instrumental Álbum”.

O crítico britânico Brian Morton explica que Moody possui um estilo vocalizado de tocar, isto é, ele imita a sonoridade da voz humana e que “seus improvisos parecem nascer a partir das letras das músicas que interpreta, e não simplesmente em função dos acordes ou da melodia escrita”. O venerando Ira Gitler escreveu: “Moody traz uma enorme energia a qualquer contexto musical em que atua”. O saxofonista Allen Eager, fã assumido de Moody, declarou: “Ele consegue fazer o que quer com um saxofone”. Para finalizar, Wynton Marsalis sintetizou a estatura musical de James Moody: “Ele foi um titã da nossa música”.

Ao longo dos anos, seu grande sucesso “Moody’s Mood for Love” foi gravado por astros do jazz e da música pop, como Aretha Franklin, Van Morrison, George Benson, Tito Puente, Queen Latifah, Amy Winehouse, Rod Stewart e Sarah Vaughan, entre muitos outros. Não obstante, Moody foi o autor de diversos outros temas, muitos dos quais são considerados clássicos do jazz, como “Jammin’ With James”, “Simplicity And Beaty”, “The Moon Was Yellow”, “Never Again”, “Hear Me”, “Don’t Look Away Now”, “Feeling Low”, “Everyone Needs It”, “Savannah Calling”, “Last Train From Overbrook” e “Darben The Red Fox”.

Ao saber da morte do amigo, Quincy Jones declarou: “meu coração está triste, por causa da morte do meu mentor, amigo e irmão James Moody. Ele tinha uma sonoridade, um coração e uma imaginação do tamanho da lua. Ele era a quintessência do saxofonista e sua composição “Moody’s Mood for Love” vai ser sempre lembrada, pois é parte da história do jazz, da mesma maneira que o célebre solo de Coleman Hawkins em “Body and Soul”. Devo muito do que sou a James Moody”.

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