Amigos do jazz + bossa

sábado, 11 de setembro de 2010

O GALANTE MR. JONES


Um dos mais talentosos e festejados pianistas de todas as eras, Henry “Hank” Jones nasceu no dia 31 de julho de 1918, em Vicksburg, Mississippi. Ainda na infância, mudou-se com a família para Pontiac, no estado de Michigan, onde o pai, diácono de uma igreja batista, resolveu se estabelecer. Dos sete filhos do casal Jones, três se tornariam destacados músicos de jazz: o próprio Hank, Thad e Elvin. Além disso, a mãe e quase todos os irmãos aprenderam a tocar piano, sendo que a matriarca da família também cantava. Embora tocasse guitarra, o pai considerava o jazz uma música diabólica e apenas tolerava a sua execução em casa.

Comentando a ojeriza paterna ao jazz, o bem-humorado Hank disse, certa feita: “Ele podia estar certo. Aos poucos, ele foi aceitando o jazz como uma forma de música, embora jamais tenha permitido que se tocasse em sua igreja. Ele não estava errado em suas convicções, pois, às vezes, a música religiosa deve ser a única forma de música permitida na igreja. Mas hoje em dia é comum se ouvir jazz e outras formas de expressão musical nas igrejas”.

Apesar das resistências do pai, o jazz acabou inoculando o seu vírus no jovem Hank, que costumava assistir, extasiado, às apresentações da orquestra de Eddie Cole, cujo irmão pianista, chamado Nat, causava frisson entre os aficionados do jazz, com seu fraseado lírico e sua postura elegante. Com apenas 13 anos, influenciado por gente como Earl Hines, Fats Waller, Teddy Wilson e Art Tatum, Hank começou a sua esplendorosa carreira musical, em bailes e clubes de Michigan e de Ohio.

Um dos programas prediletos do jovem Hank era assistir às incendiárias performances de Art Tatum na região de Detroit e Buffalo e era comum que após os espetáculos, o veterano pianista e seu discípulo ficassem conversando até o sol raiar. Após tocar em diversos grupos locais (um deles tinha o inacreditável título de “The Agony Provokers”), Jones começou a receber alguma notoriedade por conta de seu trabalho no quarteto do baterista Bernard Brown e seu pioneirismo acabou por influenciar outros grandes pianistas da cena de Detroit, como Tommy Flanagan, Barry Harris e Roland Hanna.

Em 1944, enquanto se apresentava com uma banda na região de Grand Rapids e Lansing, conheceu o saxofonista Lucky Thompson, que o convenceu a deixar Detroit e se fixar em Nova Iorque, a Meca do Jazz. Por influência de Thompson, Jones logo foi contratado pelo trompetista Hot Lips Page, que então era atração fixa do Onyx Club. Em novembro do mesmo ano e sob a liderança de Page, Hank entraria pela primeira vez em um estúdio, para gravar um compacto contendo “The Lady In Bed” e “Gee Baby, Ain't I Good To You”.

Após assistir a uma apresentação de Charlie Parker no Spotlight, Jones mudou radicalmente as suas concepções musicais e o seu próprio jeito de tocar. Juntou-se à turma de Young Lions que, comandada por Bird, assombrava o mundo do jazz com a revolucionária linguagem do bebop. Tornou-se amigo do próprio Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Max Roach e dos demais músicos que incendiavam as noites da Rua 52 e subvertiam todos os cânones jazzísticos vigentes até então.

Em pouco tempo na Big Apple, viriam trabalhos ao lado de Artie Shaw, John Kirby, Benny Carter, Howard McGhee, Coleman Hawkins, Benny Goodman, Andy Kirk, Gene Krupa, Johnny Hodges, Tyree Glenn, e Billy Eckstine. Jones foi um dos pianistas preferidos de Charlie Parker, tendo gravado inúmeras vezes ao lado de Bird. Sobre o grande Artie Shaw, de quem se tornaria amigo, Jones deu o seguinte depoimento: “Artie era um intelectual. Como Tatum e Bird, ele podia discorrer sobre qualquer assunto: política, esporte, história, religião, filosofia... Uma vez eu lhe perguntei porque ele casou tantas vezes e ele disse que era uma questão moral – era melhor casar dez vezes do que se casar uma única vez e ter nove amantes”

Hank também participou ativamente dos concertos promovidos pelo empresário e produtor Norman Granz – a célebre caravana Jazz At The Philarmonic – a partir de 1947. O pianista lembra com muito carinho o papel que Granz – assim como Benny Goodman e Artie Sahw – teve na luta contra a segregação racial e permaneceu viva em sua memória a noite em que o criador da Caravana JATP recusou-se a deixar seus músicos se apresentarem para uma platéia na qual os negros ficavam segregados dos brancos.

Entre 1948 e 1953, Jones foi o pianista de Ella Fitzgerald e o trabalho com a exigente cantora deu ainda mais visibilidade à sua carreira e abriu-lhe muitas portas no disputado mercado jazzístico do período. Aliás, acompanhar cantores e cantoras era uma especialidade de Jones, que também trabalhou com Sarah Vaughan, Johnny Mathis, Dakota Staton, Helen Merrill, Betty Carter, Abbey Lincoln, Chris Connor, Johnny Hartman, Anita O’Day, Joe Williams e muitos mais.

Os anos 50 e 60 foram exaustivamente prolíficos. Já estabelecido como um dos mais competentes acompanhantes da cena novaiorquina e pianista preferido da gravadora Savoy, Jones, que também liderava seus pequenos grupos, geralmente no formato de trio. Costuma-se dizer que é mais difícil indicar um grande nome do jazz que não tenha trabalhado com Hank Jones do que encontrar uma agulha em um palheiro.

Com efeito, Hank trabalhou com músicos da estirpe de Cal Tjader, Buddy Rich, Dizzy Gillespie, J.J. Johnson, Stan Getz, Al Cohn, Bill Perkins, Richie Kamuca, Eddie Bert, Donald Byrd, Yusef Lateef, Jimmy Cleveland, Milt Jackson, Kenny Clarke, Lawrence Brown, Nat Adderley, Zoot Sims, Jimmy Raney, Bob Brookmeyer, Max Roach, Pepper Adams, Lester Young, Paul Chambers, Cannonball Adderley, Fats Navarro, Paul Gonsalves, Kenny Dorham, Frank Wess, Hank Mobley, Sahib Shihab, Herbie Mann, Ray Brown, Curtis Fuller, Quincy Jones, Oliver Neslon, Wes Montgomery, Clark Terry, Urbie Green, Lee Morgan, Sonny Stitt e uma infinidade de outros.

Em 1958, quando o fotógrafo Art Kane reuniu 57 dos maiores músicos de Jazz em Nova Iorque, para fazer a célebre fotografia “A Great Day In Harlem”, publicada na Esquire Magazine, Hank Jones estava lá, juntamente com os geniais Dizzy Gillespie, Johnny Griffin, Horace Silver, Thelonious Monk, Charles Mingus, Maxine Sullivan, Buck Clayton, Benny Golson, Mary Lou Williams, Coleman Hawkins, Count Basie, Gene Krupa, Marian McPartland, Sahib Shihab, Gerry Mulligan, Red Allen, Sonny Rollins, Lester Young, Oscar Pettiford e muitos outros.

Entre 1959 e 1975, Jones integrou a orquestra da rede de TV CBS, que lhe dava a estabilidade financeira que a grande maioria dos músicos de jazz não dispunha. Nessa época, acompanhou uma constelação de astros, especialmente aqueles que se apresentavam no The Ed Sullivan Show, como Frank Sinatra, Judy Garland e Johnny Mathis. Outra curiosidade: era Jones que, ao piano, acompanhou a atriz Marilyn Monroe quando esta interpretou a sua lúbrica versão de “Happy Birthday” para o então presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, no dia 19 de maio de 1962, em pleno Madison Square Garden.

Hank também atuou em musicais da Broadway, com destaque para “Ain't Misbehavin'”, baseada nas composições do pianista Fats Waller. As décadas de 70 e 80 pouco afetaram a atividade febril do pianista, que incluem dezenas de álbuns em seu próprio nome e duetos inesquecíveis com Tommy Flanagan (“Our Delight”, Galaxy, 1978), John Lewis (“Na Evening With Two Grand Pianos”, Atlantic, 1979) e George Shearing (“The Spirit Of 176”, Concord, 1988).

Criou, em 1976, o Great Jazz Trio, grupo que se apresentava com regularidade no Village Vanguard e que teve como membros originais o baixista Ron Carter e o baterista Tony Williams. Pelo combo, que gravou dezenas de álbuns, passaram músicos da estatura de Eddie Gomez, George Mraz, John Patitucci e Richard Davis, no contrabaixo, e Al Foster, Jimmy Cobb, Jack DeJohnette e Elvin Jones, na bateria. O grupo gravou com diversos músicos de primeira linha, como Jackie McLean, Art Farmer, Benny Golson e Sadao Watanabe.

A seu turno, o trabalho de Hank como acompanhante de grandes nomes do jazz – como Art Pepper, Anthony Braxton, Lionel Hampton, Tal Farlow, Red Mitchell, Warren Vaché, James Moody, Charlie Haden, Ken Peplowski, Scott Hamilton e Curtis Lundy, por exemplo – manteve-se sempre constante. Digno de nota foi a sua participação na Thad Jones-Mel Lewis Orchestra, em substituição ao amigo e pupilo Roland Hanna, com quem excursionou pela Europa em uma turnê que chegou ao fechadíssimo Leste Europeu, incluindo concertos na Rússia e Polônia. Durante anos foi atração fixa do Cafe Ziegfeld, em Manhattan.

O século XXI encontrou um Hank Jones mais que disposto, com destaque para os duetos com o saxofonista Joe Lovano (“Joyous Encounter”, Blue Note, 2005) e a cantora Roberta Gambarini (“You Are There”, Universal, 2006). Tocou com Diana Krall a canção “Dream a Little Dream of Me”, no tributo a Ella Fitzgerald “We All Love Ella” (Verve, 2007) e foi um dos destaques do documentário “Note by Note: The Making of Steinway L1037”, filmado em 2007.

Gravações a granel, excursões à Europa e ao Japão, matérias em revistas especializadas e participações nos mais importantes festivais do mundo deram a tônica de suas atividades. Dois discos ao lado do velho amigo Frank Wess (“Hank and Frank, Vol. I”, de 2006 e “Hank and Frank, Vol. II”, de 2009), ambos para a Lineage Records, resgataram a atenção da crítica para o seu fraseado impecável e elegante ao extremo. Uma das mais soberbas peças de sua alentada discografia é “For My Father”, gravado entre os dias 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2004, para o selo Justin Time.

Ao lado do baixista George Mraz e do baterista Dennis Mackrel, Hank está muito à vontade para professar seu estilo sóbrio e refinado, a bordo de um repertório eclético e de excepcional bom gosto. A abertura fica a cargo de “Paulette”, do ex-parceiro Al Foster, na qual o trio flerta com a bossa nova. Com uma excepcional técnica com as escovinhas, Mackrel dá uma aula magna de delicadeza e é o maior destaque individual da faixa.

Uma monumental releitura de “Bemsha Swing”, do sempre ótimo Thelonious Monk, vem logo a seguir. Dotada de muita graça e swing, é o veículo perfeito para que o líder possa exibir a sua proverbial excelência melódica. Alongando as notas fazendo uso parcimonioso das dissonâncias, o pianista subverte o cânone monkiano e permite ao ouvinte que se deleite com a melodia, deixando a harmonia em um plano secundário. O resultado, embora pareça blasfemo aos ouvidos de alguns, é simplesmente delicioso e inesquecível.

“Queen Of Hearts” tem um andamento de valsa, com evocações primaveris à música delicada de um Steve Kuhn ou de um Bill Evans, mas reveste-se também de uma certa dose de melancolia. Mais uma vez, o trabalho de Mackrel é notável, especialmente com os pratos. A consagrada “Johnny Come Lately”, de Billy Strayhorn, recebe um arranjo moderno e, ao mesmo tempo, relaxado. O versátil Mraz disseca as entranhas do blues, em uma atuação precisa e arrojada.

Jones pertence àquela rara estirpe de músicos que consegue imprimir frescor em tudo o que faz, inclusive quando executa temas mais conhecidos – e é lógico que Ellington não poderia ficar de fora. As interpretações de duas de suas gemas mais preciosas, “Sophisticated Lady” e “Prelude To A Kiss”, demonstram que reverência não significa ausência de idéias próprias, muito menos de personalidade. Ambas as versões são belíssimas e o piano de Hank parece flutuar, tamanha a leveza do seu toque.

Strayhorn comparece, novamente, com a etérea “Lotus Blossom”, uma de suas composições mais belas e sofisticadas, na qual a integração do trio é absurda, merecendo audição detida a percussão delicada de Mackrel e o suntuoso arcabouço melódico construído pelo líder. Em “SKJ”, de Milt Jackson, tem-se um profundo mergulho nas caudalosas águas do blues e, mais uma vez, o destaque vai para o baixo taciturno de Mraz, que constrói uma atmosfera claustrofóbica e soturna.

Cole Porter está presente com a eufórica “Easy To Love”, uma das faixas mais irresistíveis do álbum, na qual o idioma bop se faz presente no dedilhado feérico do líder e, sobretudo, na percussão vulcânica de Mackrel. A infecciosa “Because I Love You” é outro momento saboroso do álbum. Composto pelo trompetista Tom Harrell e executada com um swing inebriante, o tema tem uma estrutura bastante singela e, talvez por isso mesmo, irresistível. O líder brinca com as teclas e faz delas um espaço para o lúdico – aos 85 anos, Jones mostrava ao mundo que ser criança é um estado de espírito e não um estado cronológico.

Harold Mabern, um dos mais importantes pianistas contemporâneos, tem a honra de ver a sua “Grace of God” interpretada com discrição e sobriedade pelo trio. Para terminar, mais um standard, “Softly as in a Morning Sunrise”, que recebe um arranjo vivaz e intenso, mais acelerado que o habitual. O fraseado classudo de Jones casa à perfeição com a elegante melodia de Oscar Hammerstein, fazendo desse disco um dos pontos mais altos da carreira do veterano pianista. Um disco à altura da importância do pianista e excelente oportunidade para começar a se familiarizar com o seu majestoso universo.

Jones teve a felicidade de receber, em vida, homenagens tão extensas quanto a sua brilhante carreira. Mereceu o título de Jazz Master em 1989, dado pela National Endowment for the Arts Jazz e, em 2003, o pianista Geoffrey Keezer lançou o álbum “Sublime - Honoring the Music of Hank Jones”, pela Telarc, no qual visita a obra composicional do decano dos pianistas de Detroit, fazendo duetos históricos com estrelas do naipe de Kenny Barron, Chick Corea, Benny Green e Mulgrew Miller.

Também em 2003, foi nominado “Jazz Living Legend Award” pela poderosa ASCAP (American Society of Composers, Authors, and Publishers). Foi eleito o pianista do ano de 2007 pela Jazz Journalists Association. Recebeu a prestigiosa National Medal of Arts em 2008 e foi o grande homenageado do Festival Internacional de Jazz de Montreal, no Canadá daquele ano. Foi indicado para um prêmio Grammy especial, por sua contribuição para a música, em 2009, mesmo ano em que a University of Hartford lhe concedeu o título de Doutor Honorário e a revista Down Beat o indiccou para o seu Hall of Fame.

Como sideman, participou de mais de mil gravações. Sua discografia como líder é bastante extensa e prima pela enorme qualidade. Seus discos foram lançados por selos como Riverside, Prestige, Evidence, Lonehill, Columbia, Mercury, Savoy, MPS, Black & Blue, Verve, Fresh Sound, Cheski, MCA, Capitol, Timeless, Concord, Denon e dezenas de outros. Ele faleceu no dia 16 de maio de 2010, de causas não reveladas, no Calvary Hospital Hospice, em Nova Iorque.

Em seus 91 anos muito bem vividos – ele não fumava, não bebia e jamais usou qualquer tipo de droga – Hank Jones deixou um dos mais belos e emocionantes legados de toda a história do jazz. Pedro “Apóstolo” Cardoso sintetiza a sua importância para o universo jazzístico: “Hank Jones foi, talvez, o menos incensado dos pianistas boppers, talvez até por sua postura plena de classe e de discrição. Um mestre das 88 teclas, um fidalgo no comportamento e nas apresentações”.

Sobre ele, o português José Navarro de Andrade escreveu um belíssimo texto, do qual extraio alguns excertos:

“A morte de Hank Jones, com a idade que tinha e pela atividade que manteve até aos derradeiros momentos, é mais um pouco da morte do jazz. Com a morte de Hank Jones, desaparece um modo de ser (mais do que um estilo ou escola) do jazz: aquilo que se chamava ‘O Jazz de Detroit’. Aliás, para ser mais tremendista, poderá arriscar-se que com Hank Jones vai a enterrar a própria Detroit. Não deixa de ser assustador imaginar que uma cidade pode morrer por dentro, corroída pelo abandono. É o caso exemplar de Detroit, cuja downtown são ruínas fantasmagóricas e não poucas áreas residenciais, outrora ricas, são hoje desolados baldios. Nas imagens recolhidas por Stan Douglas no final do séc. XX, já não se consegue ouvir o Hard Bop, fica apenas um triste silêncio. Já não há o delicado piano de Hank Jones.”

Outro que não se furtou a falar sobre o falecido pianista foi o crítico Nat Hentoff, seu amigo por longas décadas e para quem Jones era o símbolo vivo da serenidade. Segundo ele “Não importava o tempo ou o humor, a serenidade Hank sempre dominava a cena. Ele sabia quem era, e sempre se manteve trabalhando para preservar a identidade. Certa vez eu lhe disse que o que mais gostava em sua música era que ela sempre soou nova. Com humildade, ele respondeu ‘Toda noite eu tento tocar como se fosse a primeira vez’. Para Hank, a música era sempre algo novo. Havia sempre um horizonte onde ele não havia chegado ainda”.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

TODOS OS HOMENS DE SHELLY MANNE


“No sax alto, Frank Strozier, de Menphis, Tenesse. Ao piano, Russ Freeman, de Chicago, Illinois. No trompete, Conte Candolli, de Mishawaka, Indiana. No contrabaixo, Monty Budwig, de Pender, Nebraska. Eu sou Shelly Manne, de New York City. Todos nós tocamos o West Coast Jazz”. Era com essa frase bem humorada que Sheldon Manne costumava apresentar a sua banda, durante os incontáveis concertos que fez ao longo de seus mais de quarenta anos de carreira.

E os músicos citados são apenas uma pequena amostra de grandes nomes do jazz que passaram por seus célebres combos, geralmente denominados de “Shelly Manne and His Men”. Dentre eles, podemos mencionar os saxofonistas Teddy Edwards, Art Pepper, Richie Kamuca, Joe Maini, Charlie Mariano, Herb Geller, Bill Holman e Jimmy Giuffre, os trompetistas Stu Williamson, Joe Gordon e Shorty Rogers, os pianistas André Previn e Victor Feldman, o trombonista Bob Enevoldsen e os baixistas Ralph Pena, Leroy Vinnegar e Chuck Berghofer, e muitos outros.

Nascido no dia 11 de junho de 1920, Manne era filho e sobrinho de bateristas. Tanto o pai, Max Manne, quanto o tio, Morris Manne, eram respeitados músicos de estúdio, e trabalharam exaustivamente em trilhas sonoras de filmes e desenhos animados. Tornar-se baterista, portanto, seria algo muito natural para o garoto. Todavia, o primeiro instrumento do jovem Shelly foi o saxofone.

Somente aos 18 anos é que o jovem se decidiu pela bateria – o chamado do DNA foi mais forte – e atirou-se à tarefa com um apetite insaciável. Primeiro, estudou com Billy Gladstone, amigo do seu pai e considerado, na época, um dos mais importantes bateristas da cena musical novaiorquina. Em seguida, iniciou uma bem sucedida carreira profissional pelos clubes e estúdios de Nova Iorque. Seu primeiro emprego foi na orquestra de Bobby Byrne, em 1940.

A seguir, tocou nas orquestras de Will Bradley, Raymond Scott e Les Brown e sua primeira gravação aconteceu em 1941, quando integrava a big band de Joe Marsala. Suas primeiras influências foram Jo Jones e Dave Tough, mas quando descobriu o bebop, adicionou ao seu vasto repertório alguns dos truques que faziam de Art Blakey, Kenny Clarke e Max Roach os maiores nomes da bateria de então. Seguindo os passos do pai e do tio, Shelly tocou na trilha sonora do filme “Seven Days Leave”, produção de 1942 estrelada por Victor Mature.

Naquela época, o baterista era um assíduo freqüentador dos clubes da Rua 52, tocando com Dizzy Gillespie e Charlie Parker – chegou a gravar com ambos – Lennie Tristano, Lee Konitz, Flip Phillips, Charlie Ventura e outras feras. A turma da velha guarda também fazia parte do universo musical de Manne, que acompanhou gente como Rex Stewart, Charlie Shavers, Johnny Hodges, Lawrence Brown e Don Byas e atuou na gravação que Coleman Hawkins fez de “The Man I Love”, em 1943.

Em 1946, Manne foi arregimentado por Stan Kenton, um dos grandes inovadores do jazz, e permaneceu em sua orquestra até 1952. O trabalho lhe deu visibilidade a seu trabalho – tanto é que no ano seguinte arrebataria o prêmio de melhor baterista da Down Beat Magazine – e permitiu-lhe expandir os seus horizontes musicais, já que a música que a orquestra fazia conseguia ser, ao mesmo tempo, de forte apelo comercial e altamente complexa. Ao mesmo tempo, Shelly também fez parte da caravana Jazz at the Philharmonic, nos anos de 1948 e 1949, e passou um breve período na orquestra de Woody Herman, em1949.

Em 1952, após deixar a orquestra de Kenton, Manne se estabeleceu em um rancho nos arredores Los Angeles, onde sua carreira musical atingiria o ápice criativo e teria merecido reconhecimento de público e crítica. Foi, sem dúvida, um dos principais responsáveis pelo movimento que passou à história como West Coast Jazz. Além da música, Shelly era apaixonado por cavalos e manteve um haras durante muitos anos.

O baterista não teve nenhuma dificuldade em se integrar à cena local e nas incontáveis gigs e gravações, tocou com Stan Getz, Shorty Rogers, Chet Baker, Wardell Gray, Leroy Vinnegar, Jack Montrose, Pete Jolly, Howard McGhee, Red Mitchell, Benny Carter, Bill Evans, Earl Hines, Jimmy Rowles, Clifford Brown, Bob Gordon, Howard Rumsey, Conte Candoli, Pete Candoli, Al Cohn, Zoot Sims, Teddy Charles, Benny Goodman, Ben Webster, Hampton Hawes, Bud Shank, Red Mitchell, Barney Kessel, Art Pepper, Maynard Ferguson, Russ Freeman, Frank Rosolino, Rahsaan Roland Kirk, Lennie Niehaus, John Coltrane, Sonny Criss, entre outros – muitos desses músicos eram seus ex-companheiros na orquestra de Kenton.

Além do trabalho como líder ou acompanhante na seara jazzística, o baterista começou uma auspiciosa carreira nos estúdios de cinema e televisão de Hollywood e seu primeiro trabalho foi na trilha sonora do filme “Janela indiscreta”, dirigido por Alfred Hitchcock, em 1954. A excelência técnica de Manne granjeou-lhe convites dos maiores compositores de Hollywood e ele trabalhou com figuras como Bernard Herrmann, John Barry, Elmer Bernstein, Dimitri Tiomkin, Jerry Goldsmith, Johnny Mandel, Michel Legrand, Henry Mancini, Leonard Bernstein e John Williams, entre outros.

Ao mesmo tempo firma amizade com alguns dos mais importantes músicos que pontuavam na cena californiana e com eles firma parcerias extraordinárias. Foi assim com o pianista alemão André Previn, com quem dividiu os créditos em alguns excelentes álbuns, como “West Side Story” ou “My Fair Lady”, ambos lançados pela Contemporary 1956. Foi assim também com o baixista Ray Brown e com o guitarrista Barney Kessel. Os três formaram o combo “The Poll Winners”, que durante os anos 50, 60 e 70 lançou alguns álbuns preciosos.

Manne tinha o espírito bastante aberto para o novo. Em 1954, gravou o experimental “The Three & The Two”, com duas formações – na primeira, tocava com Shorty Rogers e Jimmy Giuffre e na segunda, atuava em dupla com o pianista Russ Freeman – considerando pela crítica como um dos seus mais relevantes e ousados trabalhos. Sua mente desprovida de preconceitos musicais o levou a tocar com Cecil Taylor e com Ornette Coleman, pai do free jazz, com quem gravou o álbum “Tomorrow Is The Question”, de 1959.

No cinema, outra atuação importante foi na trilha do filme “O homem do braço de ouro”, de 1956. Dirigido por Otto Preminger e estrelado por Frank Sinatra, o filme rendeu ao compositor Elmer Bernstein o Oscar de Melhor Trilha Sonore. Em 1957, Manne foi o baterista escolhido por Sonny Rollins para acompanhá-lo no fabuloso “Way Out Of West”, enquanto Ray Brown se responsabilizava pelo contrabaixo.

Entre 1960 e 1974, o baterista comandou seu próprio clube, o “Shelly’s Manne Hole”, em Los Angeles. Por ali passaram grandes nomes do jazz, a exemplo de Thelonious Monk, Jim Hall, Archie Shepp, Roy Haynes, Les McCann, Gabor Szabo e Gerald Wilson. Alguns deles, como é o caso de Bill Evans e Michel Legrand, chegaram a gravar álbuns ao vivo no clube – no caso de Legrand, com a honra de ser acompanhado pelo proprietário do estabelecimento.

Uma prova do prestígio de Manne foi levar Miles Davis – emérito criador de casos – para uma vitoriosa temporada no clube, sem que o temperamental trompetista tivesse criado qualquer problema. Segundo Manne, “Muita gente gosta de falar mal de Miles, e ele tem suas falhas, mas no Shelly’s Hole, ele realmente arrasou. Certa noite, quando a multidão lá fora era enorme, ele convidou alguns músicos que estavam na platéia para o último set e ainda estendeu o bis”.

O envolvimento com o cinema também permitia a Manne manter uma relação de proximidade com alguns dos mais brilhantes compositores de Hollywood. Um deles era John Williams, que na década de 60 ainda era considerado uma promessa – futuramente, o compositor seria um dos campeões de indicação ao Oscar, como autor das trilhas de filmes como “Contatos imediatos de terceiro grau”, “ET”, “Tubarão”, “Guerra nas estrelas”, “Superman” e “Os caçadores da arca perdida”.

Em 1961, Williams havia composto a trilha sonora do seriado televisivo “Checkmate”, que chegou a fazer algum sucesso, e Manne, que havia trabalhado na produção, viu naquele score uma excelente oportunidade de exercitar o seu lado mais experimental. Liderando os seus homens (Richie Kamuca no sax tenor, Conte Candoli no trompete, Russ Freeman no piano e Chuck Berghofer no contrabaixo), o baterista gravou o álbum homônimo entre os dias 17 e 24 de outubro daquele mesmo ano, para a Contemporary.

A faixa de abertura é a subversiva “Checkmate”, que incorpora elementos do blues e do jazz modal proposto por Miles Davis em seu “Kind Of Blue”, de 1959. Manne nunca foi considerado um baterista vulcânico, como Elvin Jones ou Art Blakey, mas consegue impor a seu toque uma cadência e um entusiasmo contagiantes – seu solo é uma aula magna de ritmo e precisão. A interação entre Kamuca e Candoli também merece destaque especial.

Desde a sua abertura, um diálogo entre contrabaixo e piano, até a sua conclusão, a balada “The Isolated Pawn” passa a sensação, exatamente, daquilo que o título sugere: isolamento e solidão. O clima glacial é reforçado pela percussão minimalista de Manne e pelo trompete de Candoli, que com a surdina evoca o lado mais cool de Miles Davis.

A animada “Cyanide Touch” tem um espírito completamente West Coaster e os músicos atuam com a espontaneidade típica de uma despretensiosa jam session no clube Lighthouse. Candoli incendeia a sessão com seu trompete indomável e o líder demonstra que é possível tocar vigorosamente e com bastante swing, sem soar espalhafatoso.

Em “The King Swings”, o flerte com a música experimental se transforma em um casamento dos mais auspiciosos. Evocando a atmosfera coltraneana de “Impressions”, a faixa é intrigante sem ser hermética, com destaques para o piano de Freeman, uma usina de swing e idéias harmônicas, e para Kamuca, sem dúvida um dos mais articulados e fluentes saxofonistas dos anos 50 e 60.

A releitura do blues feita pelo quinteto em “En Passant” é quase iconoclasta e explora com muito bom-humor e competência o clima de mistério dos filmes de detetive. Berghofer é seguro o bastante para permitir os vôos dos outros integrantes do combo e Candoli, mais uma vez usando a surdina, se mostra um improvisador dos mais criativos. Belíssimas intervenções de Kamuca, cujo solo é dos mais arrebatadores, e de Freeman, cujo piano austero evoca Bill Evans.

“Fireside Eyes” é uma balada classuda, tributária de Duke Ellington – impossível não lembrar de “I Got It Bad (And That Ain’t Good)” – na qual o sax de Kamuca se revela escandalosamente lírico. Com igual doçura, o trompete assurdinado de Candoli se derrama em acordes tão ternos quanto os de uma canção de ninar. A sessão rítmica trabalha mineiramente, com discrição e extrema maestria.

“The Black Knight” é outra incisiva incursão pelo jazzz modal, com um soberbo trabalho de Kamuca e uma deliciosa atmosfera bluesy, cortesia do genial Freeman. A percussão elegante de Manne, que usa e abusa de todos os recursos possíveis e imagináveis, impõe ao tema uma sofisticação que outro baterista, dificilmente, conseguiria imprimir. Merece audição atenta também a fabulosa performance de Candoli, cujo fraseado serpenteante rivaliza com o de trompetistas da Costa Leste, como Donald Byrd ou Freddie Hubbard.

Certamente não é um trabalho tão conhecido quanto o arrebatador “Shelly Manne & His Men At The Black Hawk”, cujos cinco volumes são considerados verdadeiros clássicos do jazz. Mas é um trabalho honesto e instigante. Sua atmosfera refinada e introspectiva – permeada por momentos explosivos – dá ao ouvinte um panaroma bastante abrangente do talento e da versatilidade de um músico que ajudou a escrever, com letras douradas, o grande livro do jazz.

A discografia de Manne é quilométrica e inclui trabalhos para selos como Savoy, Concord, Galaxy, Contemporary, Koch, Jazz Groove, JVC, Impulse, Verve, Capitol, Atlantic, Fantasy, Trend, Jazziz e muitos outros. Estima-se que, como acompanhante, Manne tenha participado de mais de mil álbuns, o que o torna um dos músicos mais prolíficos da história do jazz. Seus álbuns em parceria com o guitarrista Jack Marshall – “Sounds Unheard Of!”, de 1962, e “Sounds!”, de 1966 – apresentavam uma pioneira utilização dos efeitos sonoros e tiveram ótimas vendagens, para os padrões do jazz.

O baterista também era um dos favoritos dos cantores e cantoras e acompanhou gente do quilate de June Christy, Mel Tormé, Peggy Lee, Carmen McRae, Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Helen Humes, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Nancy Wilson, Teresa Brewer, Ernestine Anderson, Lena Horne, Blossom Dearie e Leontyne Price, entre outros.

Manne sempre fez questão de se afirmar como um músico de jazz. Embora, eventualmente, tenha enveredado por outros rumos – tocou com Frank Zappa no álbum “Lumpy Gravy”, de 1969 – jamais deixou de se preocupar com a pasteurização do jazz. Para ele, “muita gente tem tentado, arduamente, passar a impressão de que não existem fronteiras entre o jazz e a música pop ou entre uma determinada forma de expressão musical e outra. Isso é um erro, porque se as pessoas pensarem que o jazz e a música pop são a mesma coisa, a criatividade vai ficar sufocada”.

O trabalho com trilhas sonoras continuava e Manne atuou em produições de sucesso, como “A noite dos desesperados”, “Hatari!”, “A pantera cor-de-rosa”, “Oliver”, “Romeu e Julieta”, “Perdidos na noite”, “Estação polar Zebra”, “O bebê de Rosemary”, “Thomas Crown: a arte do crime” e outros. Para a TV, Manne trabalhou nas trilhas das séries “Peter Gunn” (entre 1958 e 1961), “Mr. Lucky” (entre 1959 e 1960), “Richard Diamond” (entre 1959 e 1960), Daktari, (entre 1966 e 1969) e no hilariante desenho animado “O tamanduá e a formiga” (entre 1960 e 1971).

Em 1974, fundou outro combo, o “LA Four”, juntamente com o guitarrista brasileiro Laurindo de Almeida, o baixista Ray Brown e o saxofonista Bud Shank. O grupo obteve enorme sucesso de público e crítica e Manne, que participou das gravações dos seus quatro primeiros álbuns, ali permaneceria até 1977, quando foi substituído por seu aplicado discípulo Jeff Hamilton.

Como músico de apoio, Manne continuou a tocar de forma quase compulsiva nos anos 70 e 80, acompanhando tanto músicos de jazz como Lew Tabackin, Don Ellis, Milt Jackson, Red Rodney, Joe Pass, Herb Ellis, Hank Jones, Cal Tjader, Harry "Sweets" Edison, Charles Tolliver, Clare Fischer, Art Farmer, Kenny Burrell e John Lewis, quanto artistas pop como os cantores Tom Waits (nos álbuns “Foreign Affair”, de 1977, e “One From The Heart”, de 1982) e Barry Manilow.

O incansável baterista manteve, até praticamente o fim da vida, a mesma rotina de tocar em clubes de Los Angeles, especialmente no “Carmelo's”, geralmente secundado por pianistas como Bill Mays ou Alan Broadbent e pelo baixista Chuck Domanico. Ele faleceu no dia 26 de setembro de 1984, após sofrer um ataque cardíaco fulminante. Algumas semanas antes, havia recebido da cidade de Los Angeles uma justíssima homenagem: o dia 09 de setembro foi declarado “Shelly Manne Day”.

Ao falar do seu papel, Manne legou uma verdadeira aula de dedicação e entrega: “Sendo baterista, você tem liberdade para criar, mas dificilmente você consegue dominar a cena. Na maior parte das vezes, você apenas senta lá atrás e toca, enquanto o pessoal da frente, especialmente os sopros, conta com a força propulsora que vem do seu toque. É muito mais difícil liderar um grupo e tocar bateria do que apenas tocar bateria, mas liderar é algo do qual eu jamais abri mão. Era algo que eu tinha que fazer porque se você tem um grupo, quer ver todo mundo swingando. E não existe nenhuma experiência igual a essa”.

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domingo, 5 de setembro de 2010

CONFESSO QUE OUVI: AGORA PARA O BRASIL INTEIRO - E PARA OUTROS PAÍSES TAMBÉM!


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terça-feira, 31 de agosto de 2010

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM


Apelidado de “O Ravel do Saxofone”, por causa da doçura com que interpretava baladas, Benjamin Francis Webster nasceu no dia 27 de março de 1909, em Kansas City, Missouri. Dono de uma personalidade forte e complexa, capaz de praticar os atos mais ternos e os mais execráveis, seu fraseado refletia essa dualidade, podendo soar meigo ou agressivo, romântico ou iracundo, dependendo do estado de espírito do momento. Daí porque recebeu outros apelidos menos lisonjeiros, como “The Brute” (O Bruto) ou “The Frog” (O Sapo).

De qualquer maneira, e para além de qualquer discussão sobre a sua personalidade errática, é certo que ele inscreveu o seu nome entre os grandes nomes do jazz e, em matéria de influência, são poucos os saxofonistas que conseguem superá-lo. Há um certo consenso entre a crítica especializada, que o coloca em um patamar ligeiramente abaixo de Coleman Hawkins e Lester Young, dentre os saxofonistas surgidos na era do swing, no que se refere à importância para o desenvolvimento do saxofone jazzístico. Entre os músicos ligados ao jazz moderno, apenas Charlie Parker, John Coltrane e Sonny Rollins podem ombrear-se a ele.

Ainda na infância, aprendeu a tocar piano – durante algum tempo, ganhou a vida como pianista de filmes mudos, em Oklahoma e no Texas, e nessa qualidade atuou nas orquestras de Brethro Nelson e de Dutch Campbell – e violino. Somente em 1930, quando já contava com 21 anos, é que começou o aprendizado do saxofone alto, graças a Budd Johnson, que lhe ensinou os rudimentos do instrumento. Com uma dedicação férrea, aliada a um talento superlativo, Webster superou os obstáculos do início tardio e, em pouco tempo, já era um dos mais requisitados músicos do sul dos Estados Unidos.

Vieram, então, trabalhos na Young Family Band (na qual atuava o jovem Lester Young) e nas orquestras de Jap Allen, Gene Coy, onde trocou o sax alto pelo tenor, e de Blanche Calloway, com quem fez as suas primeiras gravações. Em 1931, juntou-se à orquestra de Benny Moten, onde conheceu os futuros astros Count Basie e Walter Page. Tornou-se o principal solista da banda e responsável direto pelo sucesso de músicas como “Lafayette” e “Moten Swing”, gravadas em 1932.

A partir daí, teve passagens vitoriosas pelas big bands de Fletcher Henderson, Benny Carter, Cab Calloway, Teddy Wilson, Andy Kirk e Willie Bryant. Também estudou teoria musical e harmonia na Wilberforce University e passou algum tempo na banda do violinist Stuff Smith, em 1938. No final daquele ano, tocou com o trompetista Roy Eldridge, em Nova Iorque. Ali pôde acompanhar o pianista Teddy Wilson, em algumas das célebres gravações da diva Billie Holiday, como, por exemplo, em “What a Little Moonlight Can Do”.

Nesse período, Webster já mantinha uma relação bastante instável com a bebida, o que fazia dele uma versão sulista de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Quem o conheceu pessoalmente, relata que Ben, sóbrio, era uma pessoa terna, gentil e afetuosa. Mas, quando bebia, tornava-se violento e bastante agressivo – não era raro vê-lo metido em alguma confusão. Em 1935, teve uma breve passagem pela orquestra de Duke Ellington, substituindo temporariamente Barney Bigard, mas sem maior repercussão. Contudo, a breve convivência serviu para aproximá-lo do ídolo – e influência confessa – Johnny Hodges, a quem admirava intensamente.

A sua segunda incursão pelas hostes elingtonianas foi absolutamente distinta. O Webster que ali ingressou em 1940 era um músico maduro e calejado, inteiramente senhor do seu instrumento e extremamente seguro de si. Não demorou muito para que se tornasse o primeiro tenorista da orquestra, diretamente responsável pela ótima repercussão de músicas como “Conga Brava”, “Cotton Tail”, “Jack The Bear”, “Harlem Air Shaft”, “Sepia Panorama” e “All Too Soon”. A popularidade conseguida ali fez do saxofonista um astro e um paradigma para inúmeros jovens músicos, que tentavam imitar-lhe o estilo.

A big band de Ellington foi decisiva para que Webster depurasse a sua própria forma de tocar e abandonasse, definitivamente, as inflexões à Coleman Hawkins, a quem era acusado de imitar. Além disso, a orquestra contava com o talento do contrabaixista Jimmy Blanton, que ajudou a modernizar a sonoridade da banda, sendo que muitos críticos se referem a esse período como “A Era Blanton–Webster”. O temperamento explosivo do saxofonista acabou por acarretar a sua saída da orquestra, em 1943, após uma briga com o líder, que colocou Paul Gonsalves em seu lugar.

A partir de então, Webster, que se mudou para Nova Iorque, passou a liderar seus próprios grupos, além de participar de concertos e gravações ao lado de Raymond Scott, Jay McShann, Big Sidney Catlett, Stuff Smith, Bob Wilson e John Kirby. Webster também era presença assídua nos clubes da Rua 52 e, por conta da natural interação com músicos mais jovens, como Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Bud Powell, assimilou com bastante facilidade o idioma do bebop, transitando com maestria por entre as intrincadas veredas harmônicas do estilo.

A partir do terço final dos anos 40, participou de diversas edições da caravana Jazz at the Philharmonic, do empresário Norman Granz, que viajava o mundo apresentando grandes nomes do jazz. Webster passaria os próximos 10 anos excursionando com regularidade com Granz e, durante uma dessas excursões, em 1948, fez as pazes com o antigo patrão Ellington – tanto é que voltou a tocar em sua orquestra, por alguns meses, naquele mesmo ano.

Na década de 50, o saxofonista foi “adotado” por algumas das maiores cantoras da época, encantadas com a maciez de seu toque. Vieram, então, diversos trabalhos com Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald e Carmen McRae. Os cantores também não ficaram imunes ao poder de sedução do fraseado de Webster, que acompanhou ninguém menos que Frank Sinatra, Joe Williams e Jimmy Witherspoon, cuja versão de “Ain’t Nobody’s Business (If I Do)”, gravada durante o Monterrey Jazz Festival, em 1959, é considerada definitiva.

Dentre os músicos com quem tocou naquele período estão nomes ilustres como Stan Getz, Mundell Lowe, Charlie Parker, Benny Carter, Roy Eldridge, Barney Kessel, Michel Legrand, Buddy Rich e outros. Em 1953, lançou pela Verve o LP “King Of The Tenors”, considerado um dos pontos altos de sua carreira, secundado pelo pianista canadense Oscar Peterson, que, juntamente com o trompetista Harry Sweets Edison, se tornaria um dos seus mais constantes parceiros musicais ao longo das próximas décadas. Entre os destaques do álbum, uma descomunal versão de “Tenderly”.

Em mais uma demonstração de prestígio, em 1956 Webster foi convidado por ninguém menos que o grande Art Tatum, para acompanhá-lo no oitavo volume da série “Group Masterpieces”, com o apoio do baixista Red Callender e do baterista Bill Douglass. Outro momento marcante foi o disco “Coleman Hawkins Encounters Ben Webster”, que reúne as duas lendas vivas do saxofone. Gravado em dezembro de 1957, para a Verve, Hawkins e Webster desfiam standards como “Tangerine” e “It Never Entered My Mind”, escoltados pelos soberbos Oscar Peterson, Herb Ellis, Ray Brown e Alvin Stoller.

Em dezembro daquele ano, Webster participou de um especial para a rede de TV CBS, intitulado “The Sound of Jazz”, que conta com as presenças de luminares como Count Basie e Billie Holiday. Ali, pela primeira e única vez na história, reúne-se para uma gravação a Santíssima Trindade do Saxofone da Era do Swing: Coleman Hawkins, Lester Young e Ben Webster brindam a audiência com uma comovente versão de “Fine and Mellow”.

Em 1958, o saxofonista foi uma das principais atrações do Newport Jazz Festival, em um memorável tributo a Duke Ellington, no qual foi acompanhado por Billy Strayhorn, Oscar Pettiford e Sonny Greer, três das mais talentosas “crias” musicais do maestro. Em 1959, dividiu os créditos do álbum “Gerry Mulligan Meets Ben Webster” com o incensado baritonista, então no auge da fama e do prestígio.

Os anos 60 começaram auspiciosos para Webster. Apresentações em festivais pelo mundo inteiro, participação em álbuns de artistas como Johnny Hodges, Helen Humes, Richard “Groove” Holmes, Anita O`Day e Oliver Nelson e lançamento de uma série de ótimos discos em seu próprio nome eram acontecimentos quase triviais.

Um desses álbuns merece especial atenção em sua portentosa discografia, por conta de suas inúmeras qualidades: trata-se de “Soulmates”, que marca o encontro de Webster com o jovem pianista austríaco Joe Zawinul. Vinte e cinco anos mais jovem que o parceiro, Zawinul era considerado uma das maiores revelações da época, e assombrava o mundo do jazz com seu talento, como um dos mais destacados integrantes do sexteto de Cannonball Adderley.

Apesar da diferença de idade e da formação díspar – Webster veio do swing e Zawinul era muito ligado à Third Stream de John Lewis – o saxofonista e o pianista se tornaram amigos bastante próximos, chegando a dividir, durante alguns meses, um apartamento em Nova Iorque. Consta que Coleman Hawkins costumava visitar a dupla e os três músicos varavam as madrugadas em animadas jams caseiras – para o provável deleite dos vizinhos.

O álbum em questão foi gravado para a Riverside, entre 20 de setembro e 14 de outubro de 1963, no Plaza Sound Studios, e conta com as luxuosas presenças de Richard Davis e Sam Jones, se revezando no contrabaixo, e Philly Joe Jones na bateria, além da luminosa participação de Thad Jones, no cornet, em quatro de suas oito faixas. A bolacha foi produzida por Orrin Keepnews e tem como um atrativo a mais as elegantes liner notes, a cargo de um fleumático Bill Evans.

O disco abre com uma relaxada versão de “Too Late Now”, da dupla Burton Lane e Alan Jay Lerner, na qual o fraseado musculoso de Webster transmite aconchego e calor. O apelido de “Ravel do Saxofone” é mais do que justificado e a sessão rítmica consegue ser enfática, mesmo economizando a quantidade de notas – em uma deliciosa apropriação do velho ditado “menos é mais”. O lirismo comedido de Zawinul, que se espelha em pianistas sucintos como Tommy Flanagan ou Hank Jones, é um dos pontos que merecem destaque.

Na exuberante faixa-título, Webster mergulha nas pantanosas águas do blues, com toda potência e vigor, no que é ajudado, sobremaneira, pela caudalosa execução de Sam Jones. A introdução, a cargo de Philly e Zawinul – em seguida os outros instrumentos vão se agregando – é antológica. Thad também participa do set, esbanjando uma categoria invulgar e uma energia contagiante.

O antigo patrão não poderia ficar de fora e a impactante interpretação de “Come Sunday”, de Ellington, é de causar arrepios. A maravilhosa introdução antecipa o clima de opulência sonora que o quarteto consegue imprimir a essa balada. Davis, ora usando o arco, ora a técnica do pizzicato, consegue expressar o abandono e o desencanto das histórias de amor mal sucedidas. Se o jazz alguma vez adotou a estética gótica, esta faixa é o seu melhor exemplo.

Outro tema de autoria de Webster, “The Governor” faz uma releitura modernizada do swing. Aqui quem dá as cartas é o saxofonista incisivo, quase rude, que tinha na enorme potência sonora e na emissão cheia de vibrato as suas características mais visíveis. Instigados pela energética atuação do líder, Philly, Thad e Zawinul se entregam ao tema com a avidez de quem participa de uma acalorada jam session e a performance de Sam Jones, infatigável, é um capítulo à parte.

Zawinul contribui com a infecciosa “Frog Legs”, hard bop vibrante e anabolizado com nada parcimoniosas pitadas de blues. Sua execução, espaçada e percussiva, revela a forte influência de Red Garland. Webster exibe um completo domínio das formas mais modernas de jazz e Thad, sempre surpreendente, é possuidor de uma sonoridade igualmente rica e encorpada. Fantástica a atuação Sam Jones, que extrai do seu contrabaixo um som volumoso e robusto, ideal para acompanhar os vigorosos sopros de Thad e de Ben.

Na dolente “Trav’lin’Light”, clássico do repertório de Lady Day, Webster pode demonstrar o proverbial esmero na construção de um clima lírico e envolvente, com uma sonoridade que é, a um só tempo, áspera e aconchegante. O piano intimista de Zawinul e o sofisticado approach de Davis, um dos mais talentosos contrabaixistas de todos os tempos, ajudam a criar a atmosfera lânguida e altamente romântica.

“Like Someone In Love”, de Johnny Burke e Jimmy Van Heusen, recebe um arranjo delicioso, em tempo médio, cheio de swing e altamente estimulante. O versátil Davis elabora um verdadeiro tratado de elegância e fluidez e o sopro de Ben, áspero, intenso, crispado e meio rascante, funciona como um merecido elogio à destreza. A atuação de Zawinul, que explora com maestria e delicadeza toda a riqueza melódica do tema, também é notável.

Apesar do título enigmático, “Evol Deklaw Ni” – na verdade, um acróstico de “In Walked Love” – é um blues cadenciado, de estrutura moderna e quase minimalista. Mais uma vez, o baixo robusto de Sam Jones merece audição atenta, assim como o excepcional timing de Philly, cujo solo, breve, porém marcante, ressalta a característica marcial de sua percussão. O diálogo entre Thad e Webster é um bálsamo auditivo, uma saudável conjugação de frescor e relaxamento.

Apesar de bem menos badalado que álbuns como “King Of The Tenors” ou “Gerry Mulligan Meets Ben Webster”, que desfrutam do confortável status de clássicos, este “Soulmates” guarda consigo aquela espécie de encanto que transforma uma obra despretensiosa e aparentemente corriqueira em uma verdadeira apoteose do sublime. Por isso mesmo, indispensável!

Em 1964, com alguma dificuldade para trabalhar regularmente e desencantado com o cenário musical norte-americano, Webster resolveu aceitar um convite para uma temporada de um mês no clube Ronnie Scott`s, em Londres. Animado com a ótima receptividade, decidiu se mudar em definitivo para a Europa, estabelecendo-se, primeiramente, em Copenhagen, na Dinamarca. Também morou em Estocolmo, na Suécia, e em Oslo, na Noruega, e, entre 1966 e 1969, fixou residência em Amsterdã, na Holanda.

Adaptou-se perfeitamente ao novo ambiente e tocava exaustivamente, não só com músicos europeus, como Niels-Henning Ørsted Pedersen, Tete Montoliu, Alex Riel, Hugo Rasmussen ou Cees Slinger, mas também com outros expatriados norte-americanos, como Warne Marsh, Benny Carter, Bill Coleman, Don Byas, Kenny Drew, Teddy Wilson, Albert “Tootie” Heath, Charlie Shavers, Red Mitchell, Carmell Jones, Brew Moore, Clark Terry, Buck Clayton, Dexter Gordon e Earl Hines, entre outros.

Em 1971, Webster se reuniu pela última vez à orquestra de Duke Ellington, para uma série de concertos em Tivoli Gardens, na Dinamarca. Seu prestígio e sua popularidade mantiveram-se em alta durante todo o tempo em que residiu no Velho Continente. Ele conservou a rotina de gravações, concertos, apresentações em festivais pelo mundo até praticamente o final da vida. O saxofonista faleceu na cidade de Amsterdã, na Holanda, no dia 20 de setembro de 1973. Seu corpo foi enterrado no cemitério de Nørrebro, em Copenhagen, cidade que quase dez anos antes o havia acolhido de maneira tão calorosa.

Pouco depois da sua morte, seus herdeiros criaram a Ben Webster Foundation, mantida com parte dos royalties de seus discos. A fundação tem como principal finalidade apoiar a disseminação do jazz na Dinamarca e nos Estados Unidos e anualmente concede a jovens músicos o Ben Webster Prize. A família também doou a coleção particular de gravações de Webster para o departamento de música da University Library of Southern Denmark, em Odense.

Em 1974, Webster foi indicado, postumamente, para integrar o Down Beat Hall Of Fame, na votação da crítica. Sua influência permanece tão viva quanto a sua música e saxofonistas de gerações e estilos tão diversos quanto Eddie ”Lockjaw” Davis, Lew Tabackin, Paul Gonsalves, Harold Ashby, Frank Foster, Sonny Rollins, Flip Phillips, Georgie Auld, John Coltrane, Charlie Ventura, Scott Hamilton, Branford Marsalis, David Murray, Archie Shepp e Bennie Wallace são, em maior ou menor intensidade, tributários do seu estilo vigoroso e lírico.

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

CONFESSO QUE OUVI: NESTE SÁBADO, TARDE DE AUTÓGRAFOS NO PROJETO "PERTENCES DA CASA"




Neste sábado (28/08), terei a honra de participar do "Projeto Pertences da Casa", no Restaurante Marisco, a convite do produtor (e amigo querido) Celijon Ramos, para lançar naquela casa o livro "Confesso que ouvi".

Haverá música ao vivo e estarei lá a partir das 13:30, para uma animada tarde de autógrafos, com a inestimável presença dos amigos. Se você gosta de boa música e de um bom papo, o "Pertences da Casa" é a opção certa!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

OS VERÕES POLARES




À estupidez que inebria os corações,
Vassalos de outros corações...
Às badaladas inconclusas do sino da capela,
Que anunciam o pesar nauseabundo...
Ao descompasso palpitante que acende
A chama pueril que insiste em não queimar...
À solidão, desdenhosa em seu desamparo,
Que persevera em me fazer companhia...
Ao resultado métrico do poema,
Tão profícuo e tão inútil...
À metáfora obstinada e submersa
Que revela o quão patéticas são as grandes aptidões,
À empatia piedosa com os que sofrem,
Imbuída da mais solene hipocrisia...
Ao amadurecimento das idéias brilhantes,
Que apenas apodrecem nas mentes dos covardes...
Ao fetiche precário do assassino hesitante,
Preso ao corcel arredio da docilidade...
À frivolidade e ao descompromisso engajados,
Tão insensíveis à arte...
Aos canalhas asilados no purgatório da mediocridade,
Pois eles um dia herdarão o reino dos céus...
Às horas vadias e noites sôfregas,
Que se escondem sob as montanhas escarpadas do desvario...
À neblina, periódica e imberbe,
Cuja frouxidão deixa atravessar, incólumes, as embarcações...
Aos percursos opostos, paralelas do imponderável,
Que derramam sobre os meus olhos a sombra dos ciprestes...
Aos hipocondríacos, aos endinheirados, aos compreensivos,
Aos militantes, aos militares, aos exonerados,
À sociedade, à futilidade, à necessidade,
Ao pai das invenções e ao país do futebol,
Aos verões polares e às flores de plástico,
Aos horizontes precários e às máscaras mortuárias,
À cultura milenar, aos ancestrais e descendentes,
Ao teatro do oprimido e à fogueira das vaidades,
Aos oligofrênicos, aos nefelibatas, aos pragmáticos,
Aos exploradores, aos esfomeados, aos misericordiosos,
Às almas, aos corpos, ao sêmen,
Eu rogo que parem
E descansem em paz!
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Clifton Anderson, nascido em 05 de outubro de 1957, em Nova Iorque, é um dos trombonistas de maior prestígio da atualidade. Sobrinho de Sonny Rollins, desde 1983 é um dos destaques da banda que acompanha o lendário saxofonista. A paixão pela música vem de berço: seu pai tocava órgão em uma igreja local e a mãe, Gloria Rollins Anderson, que faleceu em 2008, era cantora e pianista amadora.
Após assistir ao filme “The Music Man”, onde há uma cena com uma orquestra de trombones liderada por Robert Preston, o garoto manifestou à mãe o desejo de tocar o instrumento. Glória contou ao irmão famoso sobre o desejo do sobrinho, e Sonny deu ao pequeno Clifton o seu primeiro trombone, quando este tinha apenas sete anos. Mais tarde, aos 12 anos, o garoto decidiu investir com afinco na carreira musical. Até então, Anderson se dividia entre a música e o tênis, outra de suas paixões.
Os primeiros estudos musicais foram feitos na renomada Fiorella LaGuardia High School of Music and Art e, a partir daí, não parou mais de tocar. Estudou com Simon Karasick e Dave Schechter, na State University of New York, onde passou cerca de um ano. Em seguida, matriculou-se na Manhatan School of Music, onde se graduou em música, no ano de 1978, e teve como colega de turma o talentoso pianista Kenny Kirkland.
Uma das suas primeiras experiências profissionais foi integrar a “The World of Trombones”, orquestra criada e liderada por Slide Hampton, na qual atuaram outros jovens e talentosos trombonistas, como Steve Turre, Doug Purviance, Robin Eubanks e Conrad Herwig. A influência de J. J. Johnson é visível no seu fraseado, embora também se possam perceber ecos de Frank Rosolino, especialmente na forma adocicada com que toca baladas. A admiração pelo tio e pela mãe pianista é enorme. Anderson costuma dizer que “há um pouco da minha mãe e também de Sonny em cada nota que eu toco”.
Além de exímio trombonista e compositor, Anderson é um disputado produtor e arranjador, tendo atuado em diversos musicais da Broadway, como “Dreamgirls” e “Nine”. Também desenvolve uma renomada carreira como educador musical em escolas de Nova Iorque. Sua execução é envolvente e extremamente sofisticada e, no currículo, registra atuações ao lado de luminares como Wallace Roney, Frank Foster, Dizzy Gillespie, Geri Allen, McCoy Tyner, Clifford Jordan, Lester Bowie, Barry Harris, T. S. Monk e Muhal Richard Abrams.
Convidado pela Duke University, foi artista residente daquela prestigiosa instituição, entre 1999 e 2001. Como pesquisador musical, possui enorme afinidade com os ritmos afro-caribenhos, como a salsa, o calipso e o reggae. Também é bastante disputado por estrelas do mundo pop, tendo gravado com Paul Simon, Dionne Warwick, Wyclef Jean, Billy Ocean, Stevie Wonder e Mighty Sparrow. Produziu elogiados álbuns "Without a Song: The 9/11 Concert", de 2006, “Sonny, Please”, de 2007, e “Road Shows”, de 2008, que estão entre os melhores que o tio Sonny Rollins lançou nos últimos 20 anos.
Anderson tem apenas dois álbuns gravados como líder, sendo que “Decade”, lançado pela Doxi Records, é considerado o seu mais importante trabalho até agora. A produção de Sonny Rollins é o melhor selo de qualidade deste disco, que conta ainda com alguns dos melhores músicos contemporâneos. Ali estão presentes Larry Willis e Stephen Scott (piano), Bob Cranshaw e Christian McBride (baixo acústico), Al Foster e Steve Jordan (bateria), Kenny Garret (sax alto), Eric Wyatt (afilhado de Sonny Rollins, sax tenor) e Kimati Dinizulu (percussão). As gravações foram feitas entre 10 e 28 de dezembro de 2007.
Com os dois pés muito bem assentados na tradição bop e no blues, Anderson é um músico de enorme personalidade, altamente versátil e um inspiradíssimo compositor, assinando seis das dez faixas, incluindo as excelentes “So Wrong About You”, “Deja Blu” e o calipso “Aah Soon Come”, tributário da clássica “St. Thomas”, talvez o mais conhecido tema de Rollins.
A lindíssima versão de “I’m Glad There Is You”, com um arranjo minimalista e percussão orientalizada – a cargo de Foster – e a swingante releitura de “If”, antigo sucesso da banda pop Bread, merecem uma audição mais atenta. Destaque-se, ainda, a notável performance do grupo em “Noble”, também de autoria do líder, na qual a atuação do trombonista pode ser definida como vulcânica.
O standard “I'm Old Fashioned”, com uma irresistível levada bop, e a incandescente “Stubbs”, feita em homenagem ao falecido saxofonista John Sttublefields, apresentam a pegada vigorosa de Anderson, à vontade nos tempos mais acelerados. Em “Z”, os méritos recaem sobre o exuberante trabalho de Garret, num trabalho que concilia desenvoltura e complexidade, e sobre a robusta sonoridade que McBride extrai do seu contrabaixo.
A sofisticada balada “We'll Be Together Again”, tocada em dueto com o pianista Scott, é um dos momentos mais sublimes do álbum, com os dois músicos interagindo com muito lirismo e criatividade. Na época, a mãe de Anderson estava hospitalizada em estado grave e a canção foi gravada em sua homenagem, daí a enorme carga emotiva que a reveste. Por tamanhas qualidades, “Decade” é, justamente, considerado um dos melhores álbuns de 2008, e uma singular amostra do talento desse grande trombonista.

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

CONFESSO QUE OUVI




Caros amigos do JAZZ + BOSSA,
Acaba de sair da gráfica o livro "Confesso que ouvi", no qual faço um apanhado dos posts publicados aqui no jazzbarzinho. Reproduzo abaixo o texto dos agradecimentos e, novamente, peço desculpas aos amigos se olvidei algum nome. Como atrativo, a orelha do livro foi escrita pelo valoroso Capitão John Lester, o prefácio ficou a cargo do "mestre dos mestres", o querido Pedro "Apóstolo" Cardoso, e a apresentação foi escrita pelo amigo (e ídolo) Augusto Pellegrini.
O lançamento é mais uma iniciativa da Editora Azulejo, um empreendimento maranhense que tem por proposta fomentar as letras - especialmente no âmbito jurídico - no estado do Maranhão. Quando eu conseguir formular uma estratégia de distribuição razoavelmente eficaz, ponho aqui no blog as informações sobre como será possível adquiri-lo.
Agradeço, do fundo do coração, a todos os que, com suas visitas e comentários, tornam o jazzbarzinho a experiência mais sensacional que já tive a honra de vivenciar nos últimos tempos!!!!
PS.: Clique na foto para ampliar e depois use o zoom para ler os textos!

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AGRADECIMENTOS


Embora não pareça, a feitura de um livro nunca é um trabalho solitário. Ninguém escreve para si mesmo, pois a escrita sempre se realiza sob a perspectiva da existência do outro. Há no ato de escrever, portanto, uma pretensão à completude, que se materializa, apenas e tão-somente, se e quando as idéias do autor se encontram com o destinatário das palavras que brotam sobre o papel.
Feita a conexão, dá-se a magia da leitura e o livro passa, de fato, a existir. Agora não mais como mero objeto inanimado, mas como um sujeito vivo que sussurra aos olhos do leitor aquilo que o autor escreveu. Portanto, o meu primeiro agradecimento vai para aquele que é a razão da existência de qualquer texto ou livro: o leitor. Torço para que sejam muitos e para que não sejam tão rigorosos com este modesto escriba.
Agradeço também a todos os companheiros que integram a atual diretoria da AMATRA XVI e que dignificam, por sua postura aguerrida, o ofício cotidiano de construir o movimento associativo: Paulo, Veloso, James, Cadu, Gustavo, Maurílio, Saulo, Márcia, Manoel Joaquim e Jaime.
Minha mais profunda gratidão a toda a magistratura trabalhista maranhense, nas pessoas das desembargadoras Márcia Andréa Farias da Silva e Ilka Esdra Silva Araújo, amigas queridas e que conduzem, com a sabedoria e a generosidade tipicamente femininas, a administração do Tribunal Regional do Trabalho da 16ª Região.
Aos magistrados (e “cabras-da-peste” da melhor estirpe) Francisco Xavier de Andrade Filho, Fernando Luiz Duarte Barboza e Alisson Almeida de Lucena, cujo inestimável auxílio, sempre com muita seriedade e presteza, torna a gestão à frente da Vara do Trabalho de Pinheiro-MA um ofício menos árduo e solitário.
A todo o corpo funcional da Vara do Trabalho de Pinheiro-MA, incluindo também os estagiários, vigilantes e zeladores, cuja competência, responsabilidade, dedicação exemplar e compromisso com o múnus público são motivo de grande orgulho e me fazem crer que uma prestação jurisdicional efetiva e célere não é utopia.
Também gostaria de expressar os meus mais sinceros agradecimentos a todos aqueles que, com a sua participação, ajudam a fazer do blog JAZZ + BOSSA + BARATOS OUTROS uma das experiências mais prazerosas e estimulantes que já me foi dada a honra de viver. Obrigado, meus queridos amigos Sérgio Sônico, Olney Figueiredo, André Tandeta, Mauro Hottbeatjazz, Pituco, Esther Cidoncha, Paul Brasil, Edú (com acento mesmo), Andréa Lyon, Vagner Pitta, M. J. Falcão, O Pescador, Valéria Martins, Nydia Bonetti, Hector Aguillera, Sofia Urko, Francisco Araújo, Predador, Dade Amorim, Edinho, Salsa, Érico Peixoto, Lollipop, Caio Garrido, On The Rocks, Takechi, Maysa, Don Oleari, Francisco Grijó, Murilo Barbosa, Sérgio Rivero, Fabrício Vieira, Dr. Krapp, Fátima Cristina (minha comadre e uma das maiores incentivadoras para que eu criasse o blog), Tobias Serralho, Paula Nadler, Cynthia Kremer, Frederico Bravante, Adriana Godoy e todos os demais freqüentadores do jazzbarzinho (peço perdão se esqueci algum nome).
Minha mais profunda gratidão aos meus compadres e amigos fraternos Bruno Motejunas, Celijon Ramos, James Magno Farias e Washington Torreão, sempre presentes em todos os momentos de minha vida e sempre a postos para dar de si aquilo que mais possuem: a sua enorme generosidade e sua inquebrantável afeição.
Ao grande decano do jazz nas terras guajajaras, o paulista mais maranhense do pedaço Augusto Pellegrini, baluarte na luta pela boa música e que, entrincheirado nas rádios e nos palcos, ajuda a compor a trilha sonora de nossas vidas.
Ao incansável pesquisador Mário Jorge Jacques, cujo “Glossário do Jazz” é obra de referência e absolutamente indispensável para qualquer um que deseje se aprofundar nas maravilhosas veredas do jazz.
Ao fraterno amigo João Bouéres, que me apresentou ao primoroso repertório da grande canção americana e em cuja casa ouvi pela primeira vez artistas fundamentais como Johnny Hartman, Mel Tormé, Bobby Short, Mahalia Jackson, Lena Horne e tantos outros.
Ao querido José Domingos Raffaelli, bastião da decência e da integridade no jornalismo cultural, provavelmente o maior conhecedor de jazz em atividade no Brasil, testemunha ocular e auditiva de todos os grandes momentos do jazz aqui em Pindorama e além-mar e que, tão generosamente, divide de bom grado os seus enciclopédicos conhecimentos com os amigos do blog JAZZ + BOSSA.
Ao amigo John Lester, intrépido comandante da nave Jazzseen (www.jazzseen.blogspot.com), um dos blogs de jazz mais espetaculares da internet brasileira e que, gentilmente, elaborou o belíssimo texto que emoldura a orelha deste livro.
Last, but not least, aos queridos Pedro “Apóstolo” Cardoso e Matilde, um dos casais mais adoráveis e cativantes que já tive o prazer de conhecer e que muito me honram com a sua amizade, estima e consideração.


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