Amigos do jazz + bossa

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

NASCEU NA ALEMANHA. É MULHER. E TOCA (MUITO) JAZZ!!!!


Quinze dólares na bolsa! Munida apenas com a cara, a coragem e a módica quantia de quinze dólares, além do imenso talento e um amor incondicional pelo jazz, essa brava alemã desembarcou em Nova Iorque no dia 18 de novembro de 1955. No currículo, atuações com grandes nomes do jazz europeu, como o saxofonista austríaco Hans Koller, o guitarrista húngaro Attila Zoller e os compatriotas Emil Mangelsdorff (irmão do trombonista Albert) e Joki Freund.

Nascida no dia 04 de fevereiro de 1925, em Leipzig, Jutta tinha duas paixões: a música e a pintura. Dedicou-se ao estudo de ambas, vindo a ser uma das mais importantes pianistas européias da primeira metade do século XX. Em 1946, com a sua cidade natal nas mãos dos soviéticos após o término da II Guerra Mundial (Leipzig foi incorporada à Alemanha Oriental), Jutta e a família fugiram para Munique, na Alemanha Ocidental.

Em pouco tempo, se tornaria uma renomada jazzzista. Sua primeira associação profissional foi com o Hans Koller Quartet, com quem tocou do final da década de 40 até o início da década de 50. Em 1954 criou o seu próprio conjunto, The Jutta Hipp Quintet, cujo desempenho lhe valeria o título de Primeira Dama do Jazz Europeu. Às primeiras influências, Fats Waller e Count Basie, que ouvia nas rádios da cidade natal, vieram a se somar os revolucionários Bud Powell e Lennie Tristano.

A nova linguagem representada por esses dois pianistas fisgou Jutta, que adicionou à sua sonoridade, firmemente calcada no swing, as harmonias complexas do bebop. No início de 1954 o crítico Leonard Feather assistiu a uma apresentação do seu quinteto em Duisburg e ficou impressionado. Levou alguns discos da banda para os Estados Unidos e foi o maior incentivador para que Jutta deixasse a Alemanha para tentar fazer a América.

Graças ao apoio de Feather, e ao seu próprio talento, é claro, Jutta não demorou a se tornar conhecida nos circuitos jazzísticos de Nova Iorque. Tocou em vários clubes na cidade e conheceu Horace Silver, cujo estilo percussivo e fincado no blues exerceu grande influência sobre ela. Substituiu a também pianista Marian McPartland no Hickory House Restaurant, refinado endereço em Manhattan e, em 1956, se apresentou como uma das atrações do Festival de Newport. Também excursionou pelos Estados Unidos a bordo da orquestra do saxofonista de R&B Jesse Powell.

Não bastasse isso, ainda foi o primeiro nome europeu a ser contratado pela Blue Note, selo por onde lançou nada menos que três discos em 1956. Um deles é o preciosíssimo “Jutta Hipp With Zoot Sims”, um álbum que merece ser descoberto e degustado como uma fina iguaria. Para começar, o álbum foi gravado nos célebres estúdios de Rudy Van Gelder, no dia 28 de julho, o que garante uma qualidade sonora irrepreensível. Jutta e Sims haviam se conhecido pessoalmente alguns anos antes, quando o saxofonista excursionava pela Europa, integrando a orquestra de Stan Kenton, e a admiração era recíproca.

Além dos líderes, a sessão contou com as admiráveis presenças de Jerry Lloyd (um talentoso mas obscuro trompetista, que trabalhou com Gerry Mulligan, Stan Getz e George Wallington e que conciliava a música com o trabalho como taxista), Ahmed Abdul-Malik (baixista por excelência de Thelonious Monk e que tocaria com Art Blakey, Earl Hines e John Coltrane, entre muitos mais) e Ed Thigpen (que entraria para a história do jazz como um dos mais longevos bateristas do Oscar Peterson Trio, além de haver tocado com Benny Carter, Sonny Stitt. Paul Quinichette, Teddy Edwards, Charles Rouse, Lennie Tristano, Howard McGhee e uma infinidade de outros).

Por fim, um repertório dos mais encantadores, composto basicamente de standards e de uma composição de Sims, “Just Blues”, que abre o disco. Pitadas de blues, swing e bebop fazem dessa faixa alegre e despretensiosa um dos pontos altos do disco. É como se a tradição representada pelas primeiras audições de Hipp se encontrasse com suas novas influências boppers, como fica visível em seus solos avassaladores – um olho em Basie e outro em Tristano. Zoot, é claro, aproveita para destilar a sua verve elegante e fluente e a sessão rítmica, em especial Abdul-Malik, atua como uma muralha sonora, resguardando os solos dos líderes e de Lloyd.

A deslumbrante “Violets For Your Furs” recebe um arranjo à altura da sua beleza. O saxofone de Sims reverbera as notas em um tom quase confessional e Jutta constrói um delicadíssimo arcabouço sonoro para acalentar a melodia. Merece atenção o diálogo final entre Lloyd e Sims, nada menos que comovente. “Down Home” é uma ótima composição de Lloyd, um bebop feérico, mas não propriamente transgressor, eis que bem assentado tanto na tradição de New Orleans quanto no velho swing das décadas de 20 e 30.

A esmerada versão de “Almost Like Being in Love”, funciona como um veículo perfeito para a eloqüência vibrante de Sims, em contraponto à sobriedade fleumática do piano de Hipp. Na esfuziante “Wee Dot”, de J. J. Johnson, a influência do piano assimétrico de Tristano é bastante evidente, merecendo destaque também o excepcional trabalho de Ed Thigpen com as baquetas.

“Too Close for Comfort” recebe um arranjo cadenciado, balançante, mas cool até a medula, com diálogos fabulosos entre Sims e Llloyd e um solo primoroso da alemã. Uma interpretação meditativa e altamente lírica de “These Foolish Things” é um dos pontos culminantes do álbum. O inspirado Zoot exala sensibilidade e Jutta, sempre muito criteriosa na escolha das harmonias exatas, faz uma espécie de contraponto ao lirismo do saxofonista – é o velho racionalismo germânico se manifestando na música. Mais um standard, “’S Wonderful”, que complete o set com elegância e vivacidade e pronto: um disco fascinante, que diz muito sobre a capacidade do jazz em falar a qualquer idioma.

Depois de 1956, a pianista não gravou outro álbum, embora se apresentasse com certa freqüência em clubes de Nova Iorque e Long Island. Cansada das instabilidades da carreira musical, Hipp abandonou a música, em caráter definitivo e irreversível, em 1960. Passou a se dedicar exclusivamente à pintura e foi trabalhar como costureira em uma fábrica de roupas. Curioso o fato de que a Blue Note somente conseguiu localizá-la, para encaminhar-lhe os royalties relativos a seus discos, no valor correspondente a 40 mil dólares, em 2001.

As aquarelas de Hipp retratavam desde o burburinho urbano até as bucólicas praias de Long Island e mereceram exposições em locais como a Biblioteca Langston Hughes e o Centro Cultural Corona, em Queens. Ela também costumava fotografar os músicos de jazz que se apresentavam nos clubes da região de Queens, enviando essas fotos para amigos e para revistas especializadas em jazz da sua Alemanha natal.

Jutta faleceu no dia 07 de abril de 2003, em decorrência de um câncer no pâncreas. Sozinha, sem família ou amigos (o único musico que a visitava com certa regularidade era o saxofonista Lee Konitz, além do crítico Dan Morgenstern), ela foi encontrada sem vida pelos vizinhos, no pequeno apartamento em que morava, em Queens, Nova Iorque. Como era seu desejo, seu corpo foi doado para a Universidade de Colúmbia.


domingo, 11 de outubro de 2009

POEMAS DE JAZZ (2)


DÉDALO

Era apenas uma voz


Plangendo,


Ruindo,


Adernando,


Uma voz,


Morta na periodicidade inclemente dos silêncios


A sentimentalidade balsâmica de outrora

Deu lugar ao travo incontido


De um gozo cerceado e fóssil

O estoicismo do teu sussurro me consumia


O teu lamento sem regras ensurdecia a minha dor

O rufar das tuas asas era glosa truncada e inútil


Me assomava uma vontade retesada, herética


Enquanto as horas cerziam o amanhecer...

Na profusão daquela tranqüilidade imberbe,

Reconheci o cisne que eras tu

E que cantava por sobre os lençóis.


Vesti-me.


Não olhei para trás,


Parti-te, apenas...



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A sessão POEMAS DE JAZZ homenageia o poeta capixaba Miguel Marvilla, membro da Academia Espírito-Santense de Letras e que faleceu no último dia 10 de outubro. Por uma dessas coincidências da vida, Dédalo, nome desse poema escrito no final dos anos 80, é o nome também de um livro de poemas de Marvilla.

Segundo a Gazeta Online: “O poeta Miguel Marvilla foi um dos que formaram a chamada "Geração 80", que tentou inserir a criação literária do Estado no mapa da produção nacional. Marvilla também foi um dos criadores e colaboradores da Revista Você, da Ufes, que marcou época por reunir jovens escritores, comandados por grandes nomes como Bernadeth Lyra e Deny Gomes. Marvilla ganhou vários prêmios literários estaduais e nacionais, além de menção honrosa no III Concurso Literário Internacional, na Áustria, em 1996. Seu livro de poemas que mais se destaca é "Dédalo", de 1996. Mas é por "Os Mortos Estão no Living", de 1987, uma coletânea de contos, que ele é mais lembrado pelo público. A obra, sua única incursão pela prosa, não difere da temática de seus poemas. São textos enfatizando o fim: de um ciclo, de esperanças efêmeras, de relacionamentos afetivos.”

Para ser lido ao som de Denny Zeitlin, pianista que entende das dores da alma e que as cura pela música ou pela medicina. Esse músico não muito conhecido é, também, um respeitado psiquiatra – ele jamais abandonou a ciência de Hipócrates e, nessa trajetória, ainda soube nos presentear com alguns ótimos discos de jazz. Nascido em 1938 e em plena atividade, Zeitlin chegou a merecer elogios de ninguém menos que Thelonious Monk.

As músicas postadas foram extraídas do Box Mosaic Select, que reproduz na íntegra os álbuns “Catherxis”, “Carnival” e “Zeitgeist”, todos gravados na década de 60. Sempre atuando em trios, nessas gravações o pianista está acompanhado por Cecil McBee, Charlie Haden e Joe Halpin (baixo) e por Freddie Waits, Jerry Granelli e Oliver Johnson (bateria). Boa audição. E boa leitura.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O PRIMEIRO ROMÂNTICO



Originalidade. Dentre tantas palavras que podem ser associadas a Lester Willis Young, talvez essa seja a mais representativa de tudo aquilo que esse homem de temperamento cordato e, ao mesmo tempo, inquieto, fez pelo jazz. Young nasceu em Woodville, Mississippi no dia 27 de agosto de 1909, em uma família altamente musical, e foi criado no berço do jazz – Nova Orleans, Louisiana. O pai, músico de circo, vivia uma rotina de viagens constantes e o filho, aos dez anos, foi incorporado à trupe, inicialmente tocando bateria.

Aos 13 anos resolve trocar a bateria pelo sax tenor e é nesse instrumento que Young vai se destacar como um dos mais originais e inovadores músicos de todos os tempos. Sua grande virtude foi romper os paradigmas do saxofone jazzístico, imprimindo ao instrumento um fraseado límpido, delicado, intimista e frontalmente distinto daquele que, à época, era maciçamente utilizado como padrão: o sopro viril, encorpado e cheio de vibrato de Coleman Hawkins.

Mas o seu percurso rumo a um estilo próprio não foi fácil. No início da década de 30 tocou com King Oliver, Walter Page e Bennie Moten. Em 1934 passou um período na orquestra de Count Basie, até ser contratado por Fletcher Henderson para substituir Hawkins em sua própria orquestra. Young foi dispensado pouco tempo depois, por conta da sua absoluta incompatibilidade com o estilo hard desejado pelo patrão e, em 1935, após excursionar com Andy Kirk, voltou para a orquestra de Basie, que então passava por um momento de renovação, que incluía a chegada do baterista Jo Jones, outro músico de concepções bastante avançadas.

Young começou a se tornar um músico lendário após vencer sucessivas batalhas de saxofone nos anos 30 e 40. Nesses embates, criou e sistematizou uma nova sintaxe para o instrumento, bem menos áspera e prolixa que a de Hawkins. Na orquestra de Basie, onde ficaria até 1940, o saxofonista fez uma intensa amizade com o pianista Teddy Wilson e com a extraordinária Billie Holiday, a quem apelidou carinhosamente de Lady Day. Esta retribuiu a deferência, apelidando Young de President (logo abreviado para um singelo Pres) e mantendo com ele um tórrido romance. Muitos dos discos de Billie Holiday do final dos anos 30 e início dos anos 40 contaram com a participação dos amigos Wilson e Young.

Após deixar Basie, Lester montou um quarteto com o irmão, Lee, mas não obteve muito sucesso. Participou de gravações esporádicas e tocou como free lancer, até que em 1943 retornou à orquestra que o consagrara, permanecendo ali por quase um ano. Em setembro de 1944, Young foi convocado pelo exército, onde viveu, certamente, os piores anos de sua vida. Ali foi vítima de toda a sorte de brutalidade e racismo, sendo que em fevereiro de 1945, foi levado à corte marcial por porte de drogas. A pena foi cumprida em Fort Gordon, Geórgia, e afetou tanto a saúde física quanto mental do saxofonista.

No final de 1945, de volta a vida artística, foi contratado por Norman Granz e realizou incontáveis turnês com o Jazz At Philarmonic, do qual era um dos astros mais fulgurantes. Ao mesmo tempo, gravou uma série de excelentes discos como líder, sendo memorável o seu encontro com o trio de Oscar Peterson, em 1952. Quatro anos depois, reencontraria os velhos amigos Teddy Wilson e Jo Jones para gravar, no dia 13 de janeiro de 1956, o maravilhoso “Pres And Teddy”, para a Verve. Um álbum verdadeiramente clássico, com o frescor típico do Lester de 20 anos antes – na década de 50, sem qualquer trocadilho, Young poucas vezes soou tão jovial.

Completando o quarteto, o competente Gene Ramey assume o baixo com discrição e sobriedade. O set é, basicamente, composto de standards, a começar pela lindíssima “All Of Me”, tocada com um ardor e uma paixão ímpares. Na balada “Prisoner Of Love”, Young exibe um lirismo de tão intenso que chega a assombrar o ouvinte, enquanto Wilson encarrega-se de um dos solos mais sublimes do álbum. Outro momento arrebatador é “Taking A Chance On Love”, no qual o Presidente extrai do seu saxofone uma leveza comovente. A destacar, o majestoso trabalho da dupla Jones-Ramey.

A convivência entre os dois líderes, forjada pelos muitos anos de estrada, dá aos diálogos uma elevada carga de emotividade, mesmo em canções mais suingantes, como “Louise” ou “Love Me Or Leave Me”. Mesmo bastante debilitado fisicamente, Pres ainda consegue demonstrar um domínio superlativo do tenor, impregnando de ternura cada nota. Raríssimas vezes “Our Love Is Here To Stay”, jóia raríssima da ourivesaria dos irmãos Gershwin, pareceu tão pungente. Na única composição própria, “Pres Returns”, o saxofonista perpetra um blues com toda a autoridade de quem, por muito tempo, viveu às margens do Mississipi.

Lester Young é um dos mais influentes músicos do jazz e um dos seus mais hábeis e inteligentes improvisadores. Um revolucionário que antecipou em mais de uma década a sonoridade mais tranqüila do cool jazz, com suas frases longas e refinadas, que criaram uma escola fundamental para o desenvolvimento do idioma jazzístico. Admiradores confessos de seu estilo, músicos do calibre de Charlie Parker, Dexter Gordon, Paul Quinichette (cujo apelido, Vice-Pres, diz tudo), Sonny Stitt, Lee Konitz, Warne Marsh, Stan Getz, Paul Desmond, Zoot Sims e Al Cohn sempre reconheceram a importância de Young em sua formação.

Os últimos anos de vida do Presidente foram dolorosos. O alcoolismo e vários problemas psicológicos o empurraram para uma sucessão de internações, vindo a falecer no dia 02 de março de 1959. Mesmo reconhecido como um dos três mais importantes tenoristas do jazz, Young professou, até o fim, um credo de humildade e aperfeiçoamento constantes. Por acreditar que o instrumentista somente poderia improvisar se conhecesse a fundo a letra das canções que tocava, Pres munia-se de uma pequena vitrola portátil e enfrentava a solidão dos quartos de hotel ouvindo Frank Sinatra por horas a fio. Era a sua forma de dizer que mesmo os gênios jamais deixam de ser eternos aprendizes.

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