Quinze dólares na bolsa! Munida apenas com a cara, a coragem e a módica quantia de quinze dólares, além do imenso talento e um amor incondicional pelo jazz, essa brava alemã desembarcou em Nova Iorque no dia 18 de novembro de 1955. No currículo, atuações com grandes nomes do jazz europeu, como o saxofonista austríaco Hans Koller, o guitarrista húngaro Attila Zoller e os compatriotas Emil Mangelsdorff (irmão do trombonista Albert) e Joki Freund.
Nascida no dia 04 de fevereiro de 1925, em Leipzig, Jutta tinha duas paixões: a música e a pintura. Dedicou-se ao estudo de ambas, vindo a ser uma das mais importantes pianistas européias da primeira metade do século XX. Em 1946, com a sua cidade natal nas mãos dos soviéticos após o término da II Guerra Mundial (Leipzig foi incorporada à Alemanha Oriental), Jutta e a família fugiram para Munique, na Alemanha Ocidental.
Em pouco tempo, se tornaria uma renomada jazzzista. Sua primeira associação profissional foi com o Hans Koller Quartet, com quem tocou do final da década de 40 até o início da década de 50. Em 1954 criou o seu próprio conjunto, The Jutta Hipp Quintet, cujo desempenho lhe valeria o título de Primeira Dama do Jazz Europeu. Às primeiras influências, Fats Waller e Count Basie, que ouvia nas rádios da cidade natal, vieram a se somar os revolucionários Bud Powell e Lennie Tristano.
A nova linguagem representada por esses dois pianistas fisgou Jutta, que adicionou à sua sonoridade, firmemente calcada no swing, as harmonias complexas do bebop. No início de 1954 o crítico Leonard Feather assistiu a uma apresentação do seu quinteto em Duisburg e ficou impressionado. Levou alguns discos da banda para os Estados Unidos e foi o maior incentivador para que Jutta deixasse a Alemanha para tentar fazer a América.
Graças ao apoio de Feather, e ao seu próprio talento, é claro, Jutta não demorou a se tornar conhecida nos circuitos jazzísticos de Nova Iorque. Tocou em vários clubes na cidade e conheceu Horace Silver, cujo estilo percussivo e fincado no blues exerceu grande influência sobre ela. Substituiu a também pianista Marian McPartland no Hickory House Restaurant, refinado endereço em Manhattan e, em 1956, se apresentou como uma das atrações do Festival de Newport. Também excursionou pelos Estados Unidos a bordo da orquestra do saxofonista de R&B Jesse Powell.
Não bastasse isso, ainda foi o primeiro nome europeu a ser contratado pela Blue Note, selo por onde lançou nada menos que três discos em 1956. Um deles é o preciosíssimo “Jutta Hipp With Zoot Sims”, um álbum que merece ser descoberto e degustado como uma fina iguaria. Para começar, o álbum foi gravado nos célebres estúdios de Rudy Van Gelder, no dia 28 de julho, o que garante uma qualidade sonora irrepreensível. Jutta e Sims haviam se conhecido pessoalmente alguns anos antes, quando o saxofonista excursionava pela Europa, integrando a orquestra de Stan Kenton, e a admiração era recíproca.
Além dos líderes, a sessão contou com as admiráveis presenças de Jerry Lloyd (um talentoso mas obscuro trompetista, que trabalhou com Gerry Mulligan, Stan Getz e George Wallington e que conciliava a música com o trabalho como taxista), Ahmed Abdul-Malik (baixista por excelência de Thelonious Monk e que tocaria com Art Blakey, Earl Hines e John Coltrane, entre muitos mais) e Ed Thigpen (que entraria para a história do jazz como um dos mais longevos bateristas do Oscar Peterson Trio, além de haver tocado com Benny Carter, Sonny Stitt. Paul Quinichette, Teddy Edwards, Charles Rouse, Lennie Tristano, Howard McGhee e uma infinidade de outros).
Por fim, um repertório dos mais encantadores, composto basicamente de standards e de uma composição de Sims, “Just Blues”, que abre o disco. Pitadas de blues, swing e bebop fazem dessa faixa alegre e despretensiosa um dos pontos altos do disco. É como se a tradição representada pelas primeiras audições de Hipp se encontrasse com suas novas influências boppers, como fica visível em seus solos avassaladores – um olho em Basie e outro em Tristano. Zoot, é claro, aproveita para destilar a sua verve elegante e fluente e a sessão rítmica, em especial Abdul-Malik, atua como uma muralha sonora, resguardando os solos dos líderes e de Lloyd.
A deslumbrante “Violets For Your Furs” recebe um arranjo à altura da sua beleza. O saxofone de Sims reverbera as notas em um tom quase confessional e Jutta constrói um delicadíssimo arcabouço sonoro para acalentar a melodia. Merece atenção o diálogo final entre Lloyd e Sims, nada menos que comovente. “Down Home” é uma ótima composição de Lloyd, um bebop feérico, mas não propriamente transgressor, eis que bem assentado tanto na tradição de New Orleans quanto no velho swing das décadas de 20 e 30.
A esmerada versão de “Almost Like Being in Love”, funciona como um veículo perfeito para a eloqüência vibrante de Sims, em contraponto à sobriedade fleumática do piano de Hipp. Na esfuziante “Wee Dot”, de J. J. Johnson, a influência do piano assimétrico de Tristano é bastante evidente, merecendo destaque também o excepcional trabalho de Ed Thigpen com as baquetas.
“Too Close for Comfort” recebe um arranjo cadenciado, balançante, mas cool até a medula, com diálogos fabulosos entre Sims e Llloyd e um solo primoroso da alemã. Uma interpretação meditativa e altamente lírica de “These Foolish Things” é um dos pontos culminantes do álbum. O inspirado Zoot exala sensibilidade e Jutta, sempre muito criteriosa na escolha das harmonias exatas, faz uma espécie de contraponto ao lirismo do saxofonista – é o velho racionalismo germânico se manifestando na música. Mais um standard, “’S Wonderful”, que complete o set com elegância e vivacidade e pronto: um disco fascinante, que diz muito sobre a capacidade do jazz em falar a qualquer idioma.
Depois de 1956, a pianista não gravou outro álbum, embora se apresentasse com certa freqüência em clubes de Nova Iorque e Long Island. Cansada das instabilidades da carreira musical, Hipp abandonou a música, em caráter definitivo e irreversível, em 1960. Passou a se dedicar exclusivamente à pintura e foi trabalhar como costureira em uma fábrica de roupas. Curioso o fato de que a Blue Note somente conseguiu localizá-la, para encaminhar-lhe os royalties relativos a seus discos, no valor correspondente a 40 mil dólares, em 2001.
As aquarelas de Hipp retratavam desde o burburinho urbano até as bucólicas praias de Long Island e mereceram exposições em locais como a Biblioteca Langston Hughes e o Centro Cultural Corona, em Queens. Ela também costumava fotografar os músicos de jazz que se apresentavam nos clubes da região de Queens, enviando essas fotos para amigos e para revistas especializadas em jazz da sua Alemanha natal.
Jutta faleceu no dia 07 de abril de 2003, em decorrência de um câncer no pâncreas. Sozinha, sem família ou amigos (o único musico que a visitava com certa regularidade era o saxofonista Lee Konitz, além do crítico Dan Morgenstern), ela foi encontrada sem vida pelos vizinhos, no pequeno apartamento em que morava, em Queens, Nova Iorque. Como era seu desejo, seu corpo foi doado para a Universidade de Colúmbia.

