Originalidade. Dentre tantas palavras que podem ser associadas a Lester Willis Young, talvez essa seja a mais representativa de tudo aquilo que esse homem de temperamento cordato e, ao mesmo tempo, inquieto, fez pelo jazz. Young nasceu em Woodville, Mississippi no dia 27 de agosto de 1909, em uma família altamente musical, e foi criado no berço do jazz – Nova Orleans, Louisiana. O pai, músico de circo, vivia uma rotina de viagens constantes e o filho, aos dez anos, foi incorporado à trupe, inicialmente tocando bateria.
Aos 13 anos resolve trocar a bateria pelo sax tenor e é nesse instrumento que Young vai se destacar como um dos mais originais e inovadores músicos de todos os tempos. Sua grande virtude foi romper os paradigmas do saxofone jazzístico, imprimindo ao instrumento um fraseado límpido, delicado, intimista e frontalmente distinto daquele que, à época, era maciçamente utilizado como padrão: o sopro viril, encorpado e cheio de vibrato de Coleman Hawkins.
Mas o seu percurso rumo a um estilo próprio não foi fácil. No início da década de 30 tocou com King Oliver, Walter Page e Bennie Moten. Em 1934 passou um período na orquestra de Count Basie, até ser contratado por Fletcher Henderson para substituir Hawkins em sua própria orquestra. Young foi dispensado pouco tempo depois, por conta da sua absoluta incompatibilidade com o estilo hard desejado pelo patrão e, em 1935, após excursionar com Andy Kirk, voltou para a orquestra de Basie, que então passava por um momento de renovação, que incluía a chegada do baterista Jo Jones, outro músico de concepções bastante avançadas.
Young começou a se tornar um músico lendário após vencer sucessivas batalhas de saxofone nos anos 30 e 40. Nesses embates, criou e sistematizou uma nova sintaxe para o instrumento, bem menos áspera e prolixa que a de Hawkins. Na orquestra de Basie, onde ficaria até 1940, o saxofonista fez uma intensa amizade com o pianista Teddy Wilson e com a extraordinária Billie Holiday, a quem apelidou carinhosamente de Lady Day. Esta retribuiu a deferência, apelidando Young de President (logo abreviado para um singelo Pres) e mantendo com ele um tórrido romance. Muitos dos discos de Billie Holiday do final dos anos 30 e início dos anos 40 contaram com a participação dos amigos Wilson e Young.
Após deixar Basie, Lester montou um quarteto com o irmão, Lee, mas não obteve muito sucesso. Participou de gravações esporádicas e tocou como free lancer, até que em 1943 retornou à orquestra que o consagrara, permanecendo ali por quase um ano. Em setembro de 1944, Young foi convocado pelo exército, onde viveu, certamente, os piores anos de sua vida. Ali foi vítima de toda a sorte de brutalidade e racismo, sendo que em fevereiro de 1945, foi levado à corte marcial por porte de drogas. A pena foi cumprida em Fort Gordon, Geórgia, e afetou tanto a saúde física quanto mental do saxofonista.
No final de 1945, de volta a vida artística, foi contratado por Norman Granz e realizou incontáveis turnês com o Jazz At Philarmonic, do qual era um dos astros mais fulgurantes. Ao mesmo tempo, gravou uma série de excelentes discos como líder, sendo memorável o seu encontro com o trio de Oscar Peterson, em 1952. Quatro anos depois, reencontraria os velhos amigos Teddy Wilson e Jo Jones para gravar, no dia 13 de janeiro de 1956, o maravilhoso “Pres And Teddy”, para a Verve. Um álbum verdadeiramente clássico, com o frescor típico do Lester de 20 anos antes – na década de 50, sem qualquer trocadilho, Young poucas vezes soou tão jovial.
Completando o quarteto, o competente Gene Ramey assume o baixo com discrição e sobriedade. O set é, basicamente, composto de standards, a começar pela lindíssima “All Of Me”, tocada com um ardor e uma paixão ímpares. Na balada “Prisoner Of Love”, Young exibe um lirismo de tão intenso que chega a assombrar o ouvinte, enquanto Wilson encarrega-se de um dos solos mais sublimes do álbum. Outro momento arrebatador é “Taking A Chance On Love”, no qual o Presidente extrai do seu saxofone uma leveza comovente. A destacar, o majestoso trabalho da dupla Jones-Ramey.
A convivência entre os dois líderes, forjada pelos muitos anos de estrada, dá aos diálogos uma elevada carga de emotividade, mesmo em canções mais suingantes, como “Louise” ou “Love Me Or Leave Me”. Mesmo bastante debilitado fisicamente, Pres ainda consegue demonstrar um domínio superlativo do tenor, impregnando de ternura cada nota. Raríssimas vezes “Our Love Is Here To Stay”, jóia raríssima da ourivesaria dos irmãos Gershwin, pareceu tão pungente. Na única composição própria, “Pres Returns”, o saxofonista perpetra um blues com toda a autoridade de quem, por muito tempo, viveu às margens do Mississipi.
Lester Young é um dos mais influentes músicos do jazz e um dos seus mais hábeis e inteligentes improvisadores. Um revolucionário que antecipou em mais de uma década a sonoridade mais tranqüila do cool jazz, com suas frases longas e refinadas, que criaram uma escola fundamental para o desenvolvimento do idioma jazzístico. Admiradores confessos de seu estilo, músicos do calibre de Charlie Parker, Dexter Gordon, Paul Quinichette (cujo apelido, Vice-Pres, diz tudo), Sonny Stitt, Lee Konitz, Warne Marsh, Stan Getz, Paul Desmond, Zoot Sims e Al Cohn sempre reconheceram a importância de Young em sua formação.










