Amigos do jazz + bossa

sábado, 26 de dezembro de 2009

O SAXOFONISTA DE ALÁ


Edmond Gregory nasceu em Savannah, Geórgia, no dia 23 de junho de 1925, e integrou a primeira geração do bebop, ao lado de Charlie Parker, Thelonious Monk e Dizzy Gillespie. Começou a tocar saxofone alto ainda na infância e aos 13 anos já se apresentava profissionalmente, na orquestra do pianista Luther Henderson, um dos grandes arranjadores da era do swing. Entre 1941 e 1942 estudou no Conservatório de Boston, tendo tocado por um período com o trompetista Roy Eldridge e integrado a orquestra de Fletcher Henderson.

Além do sax alto, Eddie Gregory, como era então conhecido nos meios musicais, tocava sax tenor e sax barítono, instrumento que ficou mais associado a seu nome, sendo nítida a influência de Harry Carney em seu fraseado. Músico de grande versatilidade, o saxofonista se sentia absolutamente à vontade tanto em contextos mais experimentais, como os sinuosos labirintos harmônicos de Thelonious Monk, quanto em ambientes efusivamente hard boppers, como nos combos de Art Blakey.

A partir do final dos anos 40, já estabelecido em Nova Iorque, acompanhou ou foi acompanhado pelos já citados Thelonious Monk e Art Blakey, além de outros grandes nomes do jazz, como Tadd Dameron, Herbie Mann, Julius Watkins, Fats Navarro, Randy Weston, Illinois Jacquet, Phil Woods, John Coltrane, Art Taylor, Bill Evans, Lucky Thompson, Benny Golson, Dakota Staton, Curtis Fuller, Mal Waldron, Miles Davis, Hank Jones, Paul Chambers, Roy Haynes e Oscar Pettiford. Também tocou na orquestra de Dizzy Gillespie, onde trocou, de forma quase definitiva, o sax tenor pelo barítono.

Profundamente indignado com o panorama racial dos Estados Unidos, ele foi um dos primeiros músicos de jazz a se converter ao islamismo, em 1947, e adotou o nome Sahib Shihab. Também foi um dos primeiros músicos do bebop a utilizar a flauta e gravou alguns ótimos discos como líder, para selos como Epic, Savoy, Argo, Black Lion, Atlantic e Chess, nos quais, além da habilidade como executante, podia exercitar o seu lado de compositor e arranjador.

Existe uma história muito engraçada, envolvendo Monk e Shihab. No final da década de 40, ambos tocavam em uma boate de propriedade de um gângster. A namorada do facínora, chamada Lenore, engatou um arriscado romance com o saxofonista e Monk, amigo dos dois, fez uma música em homenagem à garota. Para que o gângster não desconfiasse, deu à música o nome de “Eronel”, que nada mais é que Lenore ao contrário (informação colhida no site The Writings of José Domingos Raffaelli – http://www.bjbear71.com/Raffaelli/Newspaper-features-2.html).

A amizade entre os dois era, de fato, bastante profunda. Ambos estavam juntos em 1957, quando Art Kane fez a famosa foto “A Great Day In Harlem” e quando Shihab resolveu voltar a estudar música, desta feita na prestigiosa Juillard School, recebeu do enigmático Monk a seguinte advertência: “Bem, eu espero que você não saia de lá tocando pior do que toca agora”.

Em 1959, Shihab acompanhou Quincy Jones em uma viagem à Europa. Terminada a turnê, ele decidiu permanecer no Velho Continente, onde, além das inúmeras oportunidades profissionais, não sofria com o preconceito racial que ainda campeava nos EUA. Integrante da mesma orquestra, o trompetista Benny Bailey acompanhou a decisão do amigo e também se deixou ficar na Europa. Fixando residência na Dinamarca, trabalhou como professor e, um pouco mais tarde, uniu-se à Danish Radio Jazz Group. Casou-se com uma dinamarquesa e ali constituiu família.

Também trabalhou como músico de estúdio e arranjador, além de escrever roteiros para a televisão, o cinema e o teatro. A partir de 1961, passou a integrar a Kenny Clarke-Francy Boland Big Band, tendo participado de inúmeras gravações e concertos. A paz de espírito e a estabilidade emocional permitiram que Shihab se tornasse uma das peças chave da orquestra, com a qual permaneceria até o início dos anos 70.

Sobre a mudança para a Europa, declarou à Downbeat, em uma entrevista de 1963: “Eu estava cansado da atmosfera de Nova Iorque. E eu queria ficar longe do preconceito. A tensão racial esgotava as minhas energias”. Mas a situação dos negros nos Estados Unidos jamais deixou de afligir o engajado saxofonista, que ficou profundamente chocado com o assassinato do líder negro Malcolm X.

Uma pequena grande amostra do talento superlativo de Shihab pode ser encontrada no álbum “Sahib Shihab And The Danish Radio Jazz Group”, orquestra fundada em 1961 e que congregava alguns dos maiores músicos dinamarqueses, como o trompetista Palle Mikkelborg, o baixista Niels Henning Orsted Pedersen e o baterista Alex Riel, estes dois em início de carreira. O álbum foi gravado nos dias 18 e 21 de agosto de 1965, para o selo Oktav Music, e todas as composições e arranjos são de Shihab.

Completam o time Palle Bolvig, e Allan Botschinsky (trompete e flugelhorn), Torolf Molgard (tuba e euphonium), Svend Age Nielsen (trombone), Poul Kjaeldgard (tuba, trombone e trombone baixo), Poul Hindberg (sax alto e clarinete), Bent Jaedig (sax tenor, flauta e clarineta), Niels Husum (sax tenor, sax soprano e clarinete baixo), Bent Nielsen (sax barítono, flauta e clarinete), Ib Renard (sax barítono), Louis Hjulmand (vibrafone), Fritz Von Bulow (guitarra) e Bent Axen (piano).

Apesar de ser um solista fluente, tanto com a flauta quanto o sax alto e o tenor, a marca registrada de Shihab é o seu melodioso sax barítono, mas nas gravações deste álbum ele utiliza apenas a flauta e o sax barítono. Nesta gravação, o arranjador Shihab conseguiu um feito e tanto: conduz uma orquestra que não soa como uma orquestra, e sim como um pequeno combo.

Aqui não há arranjos grandiloqüentes nem aquela massiva parede sonora de instrumentos de sopro tocando em uníssono. Aqui, parece que cada instrumento tem o seu próprio momento para se fazer ouvir. Na faixa de abertura, “Di-Da”, Niels Pedersen faz uma introdução devastadora. A composição lembra as experiências modais de Miles Davis em “Kind Of Blue”, com especial destaque para os solos de Mikkelborg e do líder, que nesta faixa usa o sax barítono.

Homenagem a uma obscura tribo indígena norte-americana, “Dance Of The Fakowees” tem uma estrutura de valsa, com uma fabulosa atuação do vibrafonista Hjulmand e um vigoroso solo de Husum, ao sax soprano. Também merece atenção a excelente intervenção do guitarrista Von Bulow, tanto na parte rítmica quanto no solo. Em “Not Yet”, bebop fabuloso, a orquestra atua com enorme ímpeto e voracidade, sendo que a bateria de Riel parece um dínamo de milhões de watts.

“Tenth Lament” é uma balada climática, quase melancólica, com uma estrutura que lembra “Django”, de John Lewis, mas também com evocações aos momentos mais intimistas da big band de Stan Kenton. Em “Mai Ding”, homenagem a um poeta japonês de mesmo nome, o início remete a uma sonoridade oriental, logo substituída por uma abordagem calcada na soul music e no R&B, com uma orquestração digna dos melhores momentos de Ray Charles.

Shihab inicia “Harvey’s Tune” com a flauta, outra composição com andamento de valsa, mas muitíssimo bem construída e nem um pouco linear. Von Bulow e Hjulmand, mais uma vez, merecem uma atenção mais detida, enquanto Shihab constrói, ao longo de toda a faixa, alguns dos mais belos solos do disco. “No Time For Cries” é uma balada clássica, envolvente, com o trompete adocicado de Mikkelborg dialogando de maneira bastante dolente com o sax do líder.

“The Crosseyed Cat” marca uma belíssima incursão de Shihab nos domínios incandescentes do hard bop. Solos de tirar o fôlego, do líder e do saxofonista tenor Jaedig, cativam o ouvinte. Fechando o disco, “Little French Girl” é uma balada à Sinatra ou Hartman, na qual Shihab canta com excelente afinação e muito estilo. Um disco notável, sob todos os aspectos, e que enriquece qualquer discoteca.

Entre 1973 e 1976, Sahib voltou a morar nos Estados Unidos, em Los Angeles, participando de gravações com astros pop, como The Four Tops, e também acompanhando alguns jazzistas de peso, como Thad Jones e Art Farmer. Depois disso, o saxofonista passou a alternar temporadas na Europa e nos Estados Unidos, onde veio a falecer no dia 24 de outubro de 1989. Um grande músico, cujas vida e obra somente serviram para dignificar o jazz.

21 comentários:

Paul Brasil (Paul Constantinides) disse...

grandioso shihab, erico.
o cara era um genio.
agora esta historia de inverter o nome da mulher para o ganster nao desconfiar... Leonore ; Eronoel...po! este ganster devia ser meio devagar..kkkkkk pra nao ter sacado..kkkkk

espero q tenha tido boas festas e tenha um belissimo 2010...estarei aqui prestigiando sempre este grande blog.
abs
musa musicais
paul

Paul Brasil (Paul Constantinides) disse...

grandioso shihab, erico.
o cara era um genio.
agora esta historia de inverter o nome da mulher para o ganster nao desconfiar... Leonore ; Eronoel...po! este ganster devia ser meio devagar..kkkkkk pra nao ter sacado..kkkkk

espero q tenha tido boas festas e tenha um belissimo 2010...estarei aqui prestigiando sempre este grande blog.
abs
musa musicais
paul

pituco disse...

érico san,

sou o primeiro novamente...rs

mais uma vez, valeô a dica e a resenha piramidal sobre mr.sahib shihab...sonzaço e arranjos bacanudos...música de gente grande...rs

bom,
deixei mensagem no post de mr.hank lá no sítio do amigo ´sergio sonic, mas reitero poracá...aproveitei minha folga hoje pra procurar o cd que indicaste (homenagem a lady day)...mas, infelizmente, não encontrei...quem sabe com alguma sorte em outra loja, ok?

abraçsons pacíficos

Andre Tandeta disse...

Erico,
sempre bacanas ,tanto o som quanto o texto. A foto da capa tambem é uma atração.
"Django" é de autoria de John Lewis.
E achei a qualidade de gravação(audio) excepcional,do nivel das melhores da Blue Note.
Abraço

Sergio disse...

Seu Érico san, o saxofonista eu conhecia e já adorava, mas agora... Pô o cara joga nas 11 e ainda é o tecnico do time! Fiquei tão afins desse disco q nem estou esperando o Pando, já está lá no soulseek e o Danish Radio já está deitando em erlou mouchion no meu HD.

Amigo, mudando de sax a piano o que é aquela série Brubeck de indicações q fizestes na postagem abaixo?! Estou quase completando a audição, ouvindo o Dave Brubeck Quartet (London Flat, London Sharp) 2005). Discaralhaço excelente!

Abraços! Ah! e o "alibabá miliumanoites"?, será que seria ele? Acho q não hein. É muito mordomo. Óbvio demais pruma casa jazz deste quilate aqui.

Érico Cordeiro disse...

Caros amigos, ainda estou com problemas para acessar o blog. O Fig também, logo deve ser a conexão. Abraços a todos - escrevo do celular. Tandeta, valeu a dica, na hora em q puder, retifico a informação.

Ianê Mello disse...

Agradeço pelas maravilhosas postagens que sempre encontro por aqui e pela oportunidade de reouvir e conhecer novos sons.

Continuemos nessa maravilhosa troca de música e poesia.

Feliz 2010!

Beijos jazzísticos e poéticos.

Salsa disse...

Shihab é o bicho. Tenho um monte coisas dele. O tema escolhido para abrir a radiola é duca. Beleza, Érico.

APÓSTOLO disse...

Prezado ÉRICO:

Na temporada européia com a banda de Quincy Jones, ficaram preservados excelentes momentos em DVD: Bélgica e Suissa, 1960.
Esses momentos podem ser apreciados em DVD da série 'Jazz Icons" (Quincy jones Live In '60), com a particpação de Sahib Shihab no barítono.
Os melhores solos ficam a cargo de Phil Woods, um fenômeno, mas é importante apreciar o time de "feras" reunidas por Mr. Jones.
Ainda mais importante é a sua resenha, que pontua momentos importantes na carreira de Edmond Gregory, um senhor georgiano; resenha, por sinal, muitíssimo bem acompanhada por um disco 5 estrelas.

Érico Cordeiro disse...

Amigos, ainda com problemas de acesso. Obrigado pelas presenças e comentários. Abs!

Maysa disse...

Érico

Passo para agradecer os excelentes momentos compartilhados por você, primo.
Ô coisa complicada viver! Mas o remédio tá sempre aqui, no JAZZ+BOSSA+BARATOS OUTROS! música de prima, que não cansa nem agride só ilustra a vida de cada um.
Um grande abraço em você, na família real e recomendações à toda a família virtual!
UM 2010 GENEROSO, SAUDÁVEL e ALEGRE para TODOS!

Maysa

Érico Cordeiro disse...

Valeu, prima!
Tudo de bom prá você e sua família em 2010 - paz, amor, saúde, alegrias e realizações!!!
Um abraço fraterno!

Patrícia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Júnia L. disse...

Obrigada pela visita aos meus blogs,

Fiquei muito feliz ao saber que você gostou do Vintage e do Coisas que eu Sei. Não sou nenhuma especialista em música e muito menos cinema. Como diria uma amiga blogueira, só escrevo e posto coisas que gosto, mas sem conhecimento aprofundando. É mais um passa tempo...

Seja bem vindo ao meu espaço e volte sempre

Feliz Ano Novo para você!

obs: você é amigos da Patricia, é é um espetáculo, sou fã do espaço dela.

Júnia L. disse...

Obrigada pela visita aos meus blogs,

Fiquei muito feliz ao saber que você gostou do Vintage e do Coisas que eu Sei. Não sou nenhuma especialista em música e muito menos cinema. Como diria uma amiga blogueira, só escrevo e posto coisas que gosto, mas sem conhecimento aprofundando. É mais um passa tempo...

Seja bem vindo ao meu espaço e volte sempre

Feliz Ano Novo para você!

obs: você é amigos da Patricia, é é um espetáculo, sou fã do espaço dela.

Érico Cordeiro disse...

Prezada Patrícia,
Prazer em tê-la a bordo. Acho que nessa época batíamos ponto na mesma plantação de algodão, enquanto entoávamos os tristes blues, para aliviar a saudade da mão África (rs, rs, rs). Obrigado pela presença e seja sempre muito bem-vinda - a casa é sua!
Cara Júnia,
Seja muito-bem vinda e fique à vontade. Que bom que tenha gostado do jazz + bossa (e o blog da Patrícia é um deleite - assim como os seus).
Um fraterno abraço às duas e que 2010 seja um ano mágico!

figbatera disse...

Finalmente, após vários dias, consigo acessar os blogs dos amigos (e inclusive o meu); agora vou colocar em dia a minha leitura das postagens e eventuais comentários.
Abração Érico!

Érico Cordeiro disse...

Valeu, Fig!
Tô aguardando os amigos - acho que alguns tiveram o mesmo problema, mas hoje tá ok!!
Abração e um 2010 de muita paz, saúde e realizações!!!

APÓSTOLO disse...

Prezado ÉRICO:

Ainda sobre a temporada européia da banda sob o comando de Quincy Jones, a revista "JAZZ MAGAZINE" em seu número 56 de fevereiro/1960 (época da temporada), publicou capa com Melba Liston e extenso artigo (páginas 18 a 25) sob o título "Quincy Jones Face a Son Destin", escrito por Frank Tenot (já falecido e um dos fundadores da revista). Nesse artigo, ainda que o foco seja Quiincy, cada membro da banda recebeu "bloco" individual com foto, além de foto em página dupla com toda a formação. Ao final uma "biografia" de Quincy por Guy Kopel.
Preservação da cultura do JAZZ, em que os franceses são "top".

Érico Cordeiro disse...

Mestre Apóstolo,
O Quincy, para o bem ou para o mal, preferiu priorizar a carreira de produtor e arranjador pop, em detrimento da brilhante carreira como músico, arranjador e bandleader de jazz.
Mas tem uma história belíssima - desde a época da orquestra de Hampton. E foi um importante embaixador do jazz pelo mundo coom as suas próprias orquestras.
Den qualquer forma, tenho o Jones Brothers, com o Thad Jones, prá relembrar os bons tempos :)
E os franceses também tem um carinho muito grande pela memória artística, seja na música, no cinema, etc.
Abraços!

Anônimo disse...

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