Uma cena do excelente documentário JAZZ, de Ken Burns, dá a medida do caráter de Dave Brubeck. Em novembro de 1954, ele e Duke Ellington excursionavam juntos. Certa noite, um esbaforido Ellington adentra no quarto em que Dave dormia. Trazia nas mãos um exemplar da revista Time, cuja capa estampava o rosto sério, emoldurado pelos pesados óculos, de Brubeck. O mais jovem ficou meio sem jeito e nada disse, mas aquela foi uma das piores noites de sua vida, porque achava que Ellington, o gênio que deu ao mundo maravilhas como “Solitude” e “In A Sentimental Mood”, “Satin Doll” e “Sophisticated Lady”, é que deveria ter recebido tal distinção – e não ele. Não obstante, Ellington estamparia a capa da edição de agosto de 1956 daquela prestigiosa revista semanal.
O pianista, compositor, arranjador e bandleader David Warren Brubeck é, indubitavelmente, um dos maiores nomes da história do jazz. Nascido no seio de uma família altamente musical, no dia 06 de dezembro de 1920, sua mãe era pianista clássica, seu irmão mais velho, Henry, se tornou um renomado educador musical e outro irmão, Howard, se tornaria um importante compositor erudito. Na casa em que nasceu, em Concord, Califórnia, o contato com a música sempre foi muito intenso.
Com apenas quatro anos recebeu, em casa, as primeiras lições de piano. Com nove anos, passou a estudar violoncelo e aos 12 anos, o jovem Dave já era capaz executar peças de Bach, Mozart ou Chopin, embora não soubesse ler partitura. No rádio, chamavam a atenção do garoto as alegres composições de Fats Waller, sua primeira influência jazzística. Posteriormente, a família se mudou para um rancho, na zona rural de Sacramento, onde Dave passaria o resto da infância e parte da adolescência.
O amor pela música permaneceria inalterado, mas o futuro pianista também não descuidava das atividades corriqueiras do rancho onde a família morava: sabia manejar o laço com habilidade e também era capaz de ferrar e vacinar o gado, quando necessário. Em meados da década de 30, passou a freqüentar o Mills College, onde estudou composição clássica com o celebrado compositor francês Darius Milhaud, um grande admirador do jazz.
Formou-se em música, pelo College Of The Pacific, em 1942, onde havia ingressado, quatro anos antes, com o propósito de se tornar veterinário. Curioso é que sua incapacidade para ler partitura quase lhe custa o diploma – ele somente se formou graças à intervenção dos professores de contraponto e composição, que sabiam de sua capacidade técnica invulgar. Não obstante, Dave teve que prometer à administração da escola que jamais daria aulas de música. No mesmo ano, casou-se com Iola Whitlock, também aluna do College Of The Pacific.
Em 1943 estudou por algum tempo com o compositor Arnold Schoenberg e, neste mesmo ano, foi convocado para servir o exército. Em 1944 seguiu para a Europa, onde a II Guerra Mundial continuava a devastar o Velho Continente. Servindo na infantaria, sob o comando do General Patton, Brubeck teve a sorte de não entrar em combate. A Cruz Vermelha precisava de um pianista para uma série de concertos e ele se ofereceu como voluntário. No exército, tocou com a “Wolf Pack Band”, que acabaria por se tornar o seu contato mais intenso com o jazz até então.
No ano seguinte, foi dispensado do exército e pôde, novamente, se dedicar ao estudo da música erudita. Em 1946, voltou a estudar com Darius Milhaud, ao tempo em que organizou um octeto de música experimental chamado Jazz Workshop Ensemble, onde atuaram o saxofonista Paul Desmond, o clarinetista Bill Smith e o vibrafonista Cal Tjader. Graças ao convívio com esses músicos, Brubeck pôde, finalmente, dar vazão à sua sensibilidade para o jazz.
E ele dominou o idioma jazzístico de uma forma muito particular, adicionando à sua forma de tocar não apenas elementos eruditos, mas também das várias escolas pianísticas, como o stride (forma de tocar inventada no Harlem novaiorquino, que consistia em repetir uma nota grave com a mão esquerda, enquanto a mão direita passeia pelo teclado) e o honky tonk (espécie de jazz bastante rudimentar, baseado no ragtime, onde as teclas do piano eram percutidas com muita força, bastante comum nos inferninhos de Chicago e New Orleans), além de possuir um enorme conhecimento sobre o blues. Não é por acaso que Duke Ellington assume, a partir de então, uma importância capital em sua formação.
O octeto, cuja proposta era bastante radical à época, fundindo jazz com elementos de música erudita, foi desfeito em 1949, mesmo ano em que Brubeck constituiu o seu primeiro trio, integrado pelo baixista Ron Crotty e pelo velho companheiro Cal Tjader na bateria, vibrafone e percussão. O trio virou quarteto em 1951, com a chegada do altoísta Paul Desmond, espécie de alma gêmea musical de Dave e um dos grandes responsáveis pela enorme repercussão do trabalho do grupo. As apresentações do combo, em clubes como o Blackhawk e o Haig, na Califórnia, tinham sempre lotação esgotada.
A partir dali, Brubeck alcançaria um sucesso até então inédito para um músico de jazz, exceto aquele vivenciado por alguns band leaders da gloriosa era do swing. Levou o jazz às universidades, realizando centenas de concertos em campus universitários espalhados pelo país e apresentando a um público de classe média e ótima instrução a música nascida nos becos sujos e prostíbulos de New Orleans. Suas ousadias harmônicas e seu estilo percussivo causaram furor na efervescente cena jazzística dos anos 50 e a capa da Time, de 1954, refletia esse momento.
Essa enorme disposição fez do quarteto de Brubeck um dos mais azeitados e interessantes dos anos 50, sendo um dos poucos capazes de rivalizar, em prestígio, com o célebre quinteto de Miles Davis da época. Entre algumas idas e vindas e trocas de formação, incluindo, entre outros, os baixistas Norman Bates e Joe Benjamin e os bateristas Lloyd Davis e Joe Dodge, o pianista foi aperfeiçoando sua forma bastante pessoal de compor e tocar.
A formação mais festejada do seu quarteto se consolidou no final dos anos 50, com a entrada do baixista Eugene Wright e do baterista Joe Morello. Com essa formação, o combo gravaria discos antológicos como “Gone With The Wind”, “Jazz Impressions Of New York” e, sobretudo, “Time Out”. Este último, impulsionado pelo sucesso arrasador de “Take Five”, composição de Desmond, se tornou o primeiro disco de jazz a ultrapassar um milhão de cópias. Esse álbum traz também uma das composições mais conhecidas do líder, “Blue Rondo a la Turk”, baseada na música folclórica da Turquia e com ecos de Mozart.
Embora fosse contratado da Columbia desde 1954, Brubeck também se permitia lançar alguns álbuns por outros selos. É o caso desse maravilhoso “Near Myth”, no qual Desmond é substituído pelo clarinetista Bill Smith, outro ex-aluno de Milhaud e velho conhecido de Dave desde os tempos do seu octeto experimental. Eugene Wright e Joe Morello completam o time. A gravação foi feita em uma única sessão, no dia 20 de março de 1961, para a Fantasy.
Trata-se de uma releitura musical dos mitos gregos e todas as dez composições são de Smith, outro músico bastante ligado à chamada Third Stream. “The Unihorn”, que remete ao Modern Jazz Quartet em muitos momentos, abre os trabalhos da forma mais alvissareira possível. A clarineta de Smith é envolvente, tépida, contrapondo-se com docilidade ao estilo metálico, quase abrasivo, do piano de Brubeck. Os solos de Smith e Dave são nada menos que fabulosos e Morello mostra porque merece estar em qualquer lista dos melhores bateristas do jazz.
Há qualquer coisa de swing na feérica “Bach An’ All”, com um Smith impulsivo, provocador, enquanto o restante do quarteto se preocupa mais em lhe dar o devido suporte. Mais uma vez, Morello exibe suas enormes qualidades, perpetrando um solo magistral. A homenagem mais evidente é Baco, por seu aspecto festivo, mas pode-se perceber também bastante do seu quase homônimo alemão, Bach, na estrutura do tema.
A fantasmagórica “Siren Song” transporta o ouvinte para o alto mar, onde o inebriante canto das sereias está, a todo momento, a atrair os incautos marinheiros para o fundo do oceano. Essa atmosfera soturna é reforçada pelo tom lamentoso que Smith imprime ao seu instrumento, enquanto Brubeck faz do seu piano uma pequena usina de sortilégios, com notas espaçadas e etéreas, contribuindo ainda mais para criar o clima lúgubre da canção.
A alegria está de volta em “Pan’s Pipe”, no que se poderia chamar de um blues primaveril. O chamado do deus dos bosques – com a clarineta, por vezes, imitando o som de uma flauta – provoca no ouvinte uma irresistível vontade de chacoalhar a cabeça e estalar os dedos, seguindo o ritmo sincopado da bateria de Morello. “By Jupiter” é um bebop mais ortodoxo, mas sempre com algum elemento de música erudita, onde Smith exibe toda a sua técnica invejável como solista. Brubeck e Morello mantém um interessante duelo – com o primeiro mostrando que também assimilou os ensinamentos de Bud Powell.
O clima de celebração permanece em “Baggin’ The Dragon”, cujo início taciturno parece evocar um opulento concerto de Richard Wagner. Mas as coisas logo voltam aos bons trilhos do jazz e o quarteto dá uma aula de swing e criatividade. Há um certo grau de dramaticidade em “Apollo’s Axe”, um blues de primeiríssima linha, no qual o piano metalizado de Brubeck é o destaque incondicional.
“The Sailor And The Mermaid” é outro tema de orientação bopper, extremamente vibrante e colorido, com ótimas atuações de Morelllo e Brubeck e com direito a uma execução primorosa de Smith, cujo virtuosismo pode ser comparado, sem exagero algum, ao grande Buddy DeFranco. “Nep-Tune” abre com um fantástico diálogo entre o sempre discreto Wright e o esfuziante Smith. Trata-se de uma composição bastante complexa, instigante, cheia de variações harmônicas, a um passo da livre improvisação proposta pelo Jimmy Giuffre dos anos 60 (uma faixa que poderia, tranqüilamente, fazer parte do experimental “Free Fall”).
Fechando o disco em grande estilo e ótimo astral, “Pan Dance” faz citações em tempo ultra-rápido a “The Unihorn”, realçando as características bop dessa composição. É outra aula de inventividade e apuro estético, fiel ao padrão Brubeck de excelência e reflexo muito bem acabado da sua gigantesca capacidade de obter uma atuação sinergética dos conjuntos por ele liderados. Por todos esses predicados, este álbum não muito conhecido merece o epíteto de obra-prima, que vale cada segundo de audição. E a belíssima capa, desenhada por Arnold Roth, é um espetáculo à parte.
Ainda na década de 50, o pianista participou de incontáveis turnês, promovidas pelo Departamento de Estado norte-americano, percorrendo os quatro cantos do planeta e divulgando o melhor do jazz, tocando inclusive em países da chamada Cortina de Ferro. Sua curiosidade musical levou-o a pesquisar a música típica de diversos países da Europa e da Ásia – o resultado são os discos “Jazz Impressions Of Japan” e “Jazz Impressions Of Eurasia”.
Nos anos 60, Brubeck reformulou o seu quarteto (entraram o baixista Jack Six, o baterista Alan Dawson e o saxofonista Gerry Mulligan), mas sempre com muito sucesso. Tocou em praticamente todos os festivais de jazz mais importantes do planeta, como o JVC Jazz Festival, Newport, Concord, Berlim e Monterey. Em 1961, gravou um antológico álbum na companhia do ídolo Louis Armstrong e dos cantores Carmen McRae, Jon Hendricks, Dave Lambert e Annie Ross (“The Real Ambassadors” - Columbia).
Nos anos 70 e 80 se dedicou mais à composição, destacando-se também o seu trabalho com os filhos Darius (tecladista), Dan (baterista) e Chris (baixista). Também lançou diversos álbuns, por selos como Atlantic, Concord e Telarc. Nos final dos anos 90, montou mais um excelente quarteto, que incluía o saxofonista Bobby Militello, o baixista Michael Moore e o baterista Randy Jones – formação responsável pelo ótimo “London Flat, London Sharp”, de 2004. Sua produção erudita também impressiona: são balés, cantatas, oratórios e peças para piano.
Em seus mais de 80 anos de música (e quase 90 de vida), Brubeck recebeu todas as honrarias possíveis de se conceder a um músico de jazz, incluindo-se os títulos de Living Legend, dado pela Biblioteca do Congresso Nacional e o de Jazz Master, concedido pela National Endowment for the Arts. Embora a saúde mereça alguns cuidados e a rotina de concertos tenha sido bastante reduzida, ele ainda viaja pelo mundo exibindo a sua arte e encantando platéias. Sua influência pode ser observada em pianistas de várias gerações, como Keith Jarret, Chick Corea, Jack Wilson, Joe Sample e Brad Mehldau.
Brubeck parece incansável. Integra a diretoria do The Brubeck Institute, criado pela University Of The Pacific em honra ao seu ex-aluno mais ilustre. Em outubro deste ano, uniu-se à orquestra do pianista e regente João Carlos Martins, para tocar um repertório baseado em Bach e Villa-Lobos, em um concerto realizado no Lincoln Center, em Nova Iorque. Ele é a prova viva de que gigantes caminharam entre nós. E, para nossa felicidade e júbilo, ainda há alguns que continuam a caminhar.
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A história de Dave Brubeck comove e emociona, não apenas por ser um grande músico, mas, sobretudo, por ser um grande ser humano, uma figura realmente exemplar. Não sei porque, mas ele me recorda (talvez alguns traços físicos, quem sabe?) de outro grande homem, o poeta maranhense Ferreira Gullar. Sobre a retidão de caráter de Gullar, ouvi de um amigo comum a seguinte história.
Nos anos 60, com o sucesso do musical “Opinião”, João do Vale, cantor e compositor também maranhense, estava ganhando dinheiro como nunca. Todas as noites, ele saía do Teatro Opinião com os bolsos abarrotados e ia para a farra, esquecendo-se da família que, por esse motivo, vinha passando dificuldades no Rio de Janeiro. Sabendo deste fato, Gullar passou a fazer uma marcação cerrada sobre o querido (e desajuizado) “Carcará”: todas as noites, postava-se na saída do Teatro Opinião, apanhava parte do cachê de João (que não ousava botar qualquer dificuldade) e, no dia seguinte, dirigia-se ao subúrbio em que a família do músico morava, para entregar, pessoalmente à esposa de João do Vale, a féria da noite anterior.
Quem me contou essa emocionante história não está mais entre nós – assim, repasso o que ouvi, mas não tenho nenhuma dúvida de que tais fatos são verdadeiros. Só mesmo um gigante moral como Gullar seria capaz de um gesto de tamanho altruísmo – todas as noites, deixar o conforto do lar para evitar que a família de um amigo sem juízo passasse privações.
Voltemos a Brubeck. Não sei se ele chegou a fazer algo parecido por algum colega – sabe-se que o mundo do jazz é repleto de grandes músicos cuja trajetória de vida foi marcada por tragédias, abusos e desregramentos – mas não é difícil imaginá-lo à porta de algum clube ou boate, nas altas horas da madrugada, interpelando o desajustado músico e recolhendo parte do seu minguado cachê (cujo destino, provavelmente, seria a caixa registradora do bar ou o bolso do traficante mais próximo) para entregá-lo à família do desafortunado colega.
Brubeck é, e sempre foi, um modelo de integridade e decência. E é com sua história e sua música (que, no caso deste disco, foi composta por um dos seus muitos alter-egos) que o JAZZ + BOSSA saúda seus leitores e lhes deseja um Natal repleto de alegria, saúde, paz e, sobretudo, solidariedade para com o próximo - além, é claro, de muito jazz. Um fraterno abraço a todos!