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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

HOME SAINT DOESN’T MAKE MIRACLE


Publicado há alguns anos, o livro “The Cow Went To The Swamp” (A vaca foi pro brejo) é uma hilariante coleção de expressões idiomáticas em português, vertidas para o idioma de Shakespeare de forma absolutamente literal. Há desde uma prosaica “Casa de ferreiro, espeto de pau” (creio que traduzida como “Blacksmith’s house, skewer stick”) até a inacreditável “Rodar a baiana” (algo como “To whril the woman from Bahia”). Millôr Fernandes, autor do livro, antecipava-se em algumas décadas ao precário serviço prestado pelo Babel Vista e pelo Google Tradutor!

Li esse livro há muitos anos e não o encontrei em minhas prateleiras – acho que emprestei para alguém e não peguei de volta. Assim, não sei dizer se a expressão “Santo de casa não faz milagre” consta do compêndio, mas o pianista Kenny Drew é um caso típico dessa modalidade de santo, tão comum em nossas plagas. Ou, melhor dizendo, “home saint doesn’t make miracle”, já que ele precisou sair do país para obter o reconhecimento que os Estados Unidos jamais lhe deram.

Um dos maiores pianistas do hard bop, Kenny Drew nasceu em Nova Iorque, no dia 28 de agosto de 1928. Com apenas cinco anos, já tomava as primeiras lições de piano e aos oito já executava concorridos recitais. Ainda na infância, apaixonou-se pelo jazz, graças às audições dos discos de Fats Waller e Art Tatum, suas primeiras influências. Na escola, continuou o aprendizado do piano, mas o vírus do jazz já o havia contaminado irremediavelmente.

Em meados da década de 40, outra guinada em sua orientação musical: sai o booggie wooggie e o swing e entra o bebop professado por Bud Powell, Thelonious Monk e Charlie Parker. Juntamente com o também pianista Walter Bishop Jr. e outros amigos de infância, como Sonny Rollins, Jackie McLean e Art Taylor, Kenny começou a tocar no circuito dos clubes da Grande Maçã. O programa preferido desses jovens e talentosos músicos era ver os ídolos Parker, Monk e Powell, nas infinitas jams que rolavam na mítica Rua 52.

Em 1950, Drew participou de suas primeiras gravações, acompanhando o “Howard McGhee's All Stars”, com quem já tocava regularmente desde o ano anterior. Em seguida, vieram trabalhos com Charlie Parker, Sonny Stitt, Jackie McLean, Grant Green, Tina Brooks, Coleman Hawkins, Kenny Dorham, Sonny Rollins, Lester Young, Zoot Sims, Milt Jackson, Art Blakey, Buddy DeFranco, Ben Webster, Clifford Brown, Dinah Washington, Buddy Rich, Art Farmer, Paul Chambers, Dexter Godon (participou do aclamado “One Flight Up,” gravado em Paris, em 1964) e John Coltrane (acompanhou Trane no seminal “Blue Train”).

Embora fosse um músico de relativo prestígio no circuito de Nova Iorque, Drew ainda passava longe de distribuir autógrafos pelas ruas. Por essa razão, em meados dos anos 50 o pianista resolveu se mudar para Los Angeles. Montou um quarteto com Joe Maini, Leroy Vinnegar e Lawrence Marable e gravou alguns discos pela Pacific e pela Jazz West, acompanhando nomes como Jack Sheldon, Jane Fielding, Paul Quinichette, Sonny Criss e Chet Baker.

Em 1957, acompanhou a cantora Dinah Washington em uma turnê, que culminou com o seu retorno a Nova Iorque. Atuou como sideman em inúmeras gravações para a Blue Note e outros selos importantes, voltou a tocar no circuito dos clubes de jazz e chegou a substituir o pianista Freddie Redd na peça “The Connection”, cujo elogiado score musical havia sido composto por Redd.

Embora já tivesse lançado alguns discos como líder, para selos como Norgran, Pacific, Jazz West e Riverside, o grande disco da carreira de Drew foi produzido pela mesma Blue Note da qual ele era um dos mais prolíficos sideman. “Undercurrent” foi gravado nos estúdios Van Gelder, no dia 11 de dezembro de 1960. Com Drew, estavam Freddie Hubbard no trompete, Hank Mobley no sax tenor, Sam Jones no baixo e Louis Hayes na bateria. Todas as composições são do pianista.

Na faixa de abertura, também chamada “Undercurrent”, Drew e Jones conduzem uma introdução matadora – baixo e piano dialogando na estratosfera, até a entrada dos demais instrumentos. O azeitado quinteto abriu a caixa de ferramentas (“opened the tool box”) e produziu um bebop moderno – há mesmo breves citações da clássica Be-bop, de Gillespie – rápido, certeiro, inebriante, com Hubbard em estado de graça.

“Funk-Cosity” mantém o alto nível composicional. Demonstrando ser bastante versátil, Drew elaborou um hard bop vigoroso, cheio de modulações e bastante influenciada pelo blues. O piano do líder é soberbo, denso, cheio de clima. Hubbard e Mobley resolvem pintar os canecos (“to paint the mugs”) e estabelecem diálogos fabulosos, enquanto os experientes Hayes e Jones mantêm-se firmes na condução rítmica.

Mais esfuziante ainda, “Lion’s Den” tem um balanço digno de um Horace Silver, cheia de groove. Hubbard provoca Mobley com o seu trompete mágico e o saxofonista, que não era de engolir sapos (“to swallow frogs”), responde à altura. O toque de Drew é límpido e seu solo é uma aula magna de ritmo, leveza e agilidade. A dupla Jones-Hayes, entrosada por anos no quinteto de Cannonball Adderley, é uma usina de ritmo e precisão.

Outro grande momento é “The Pot’s On”, rico em idéias e em combustibilidade. O combo chuta o pau da barraca (“kick the tent pole”) e manda ver um tema altamente inflamável, tributário do soul-jazz feito por Bobby Timmons e Lee Morgan. Os metais duelam a maior parte do tempo e Mobley demonstra porque merece estar no panteão dos grandes tenoristas das décadas de 50 e 60. O solo de Hubbard é de uma intensidade contagiante e o de Drew não fica nada a dever àquilo que de melhor se fez no piano hard bopper de qualquer tempo. A conferir, a exuberante performance de Hayes.

Como se pode presumir pelo título, “Groovin’ The Blues” é um bem acabado blues, no qual o destaque absoluto é, mais uma vez, o sax de Mobley. Seu elaboradíssimo solo, plangente e cheio de riffs, deveria ser objeto de estudos pelos jovens saxofonistas – há citações a Parker e a Rollins. A atmosfera do Delta do Mississipi aparece com maior intensidade na abordagem do líder, que não deixa almoço prá janta (“not leave lunch to dinner”). Sam Jones imprime a sua marca, ao perpetrar um solo magistral e a bateria de Hayes, soturna como uma encruzilhada de New Orleans ameia-noite, compõe o clima de maneira irretocável.

Emulando o grande Erroll Gardner, Kenny transborda elegância e lirismo na belíssima “Ballade” – no que é ajudado, sobremaneira, pelo trompete impressionista de Hubbard. Um disco fabuloso, tido e havido como um dos pontos altos da discografia de Drew – e poucos jazzófilos haverão de contestar essa afirmação, pois o que é do homem, o bicho não come (“what is man’s, the animal doesn’t eat”).

Em 1961, Drew tomou a decisão que muitos dos seus compatriotas acabaram tomando nos anos 60 e 70: picou a mula (ou melhor, “stinged the mule”) em direção ao Velho Continente. Ali foi recebido de braços abertos e recomeçou a carreira, atingindo uma popularidade até então inédita. Fixou residência em Paris e, em 1964, mudou-se para Copenhagen, onde abriu uma editora musical e um pequeno selo, chamado Matrix, e tornou-se o pianista por excelência do Café Montmartre, um dos mais tradicionais clubes de jazz da Europa.

Excursionou pelo mundo inteiro, participando de festivais e concertos, tornando-se um dos mais queridos jazzistas do disputado mercado japonês. Nessa época, acompanhou ou foi acompanhado por diversos “expatriados”, como Johnny Griffin, Harry “Sweets” Edison, Dexter Gordon, Art Taylor e Slide Hampton, além de ter tocado com grandes nomes do jazz europeu, como Stéphane Grappelli, Philipe Catherine e Jean-Luc Ponty.

Também compôs, juntamente com Dexter Gordon, a trilha sonora do filme “Pornografi”, uma espécie de pornô-musical, dirigido por um certo Ale Ege, em 1971. Além disso, gravou diversos álbuns para selos como Xanadu e, sobretudo, SteepleChase e firmou uma consistente parceria com o baixista dinamarquês Niels-Henning Ørsted Pedersen, de quem se tornaria grande amigo. Drew faleceu no dia 04 de agosto de 1993, em Copenhagen.

Talvez a maior obra de Drew, para além de sua fenomenal discografia, tenha sido o também pianista Kenny Drew Jr., que herdou do pai o talento superlativo – é considerado um dos pianistas mais brilhantes e laureados da nova geração. Drew Jr. vem mantendo o ótimo nome da família e já gravou ao lado de feras como Stanley Jordan, Michael Mossman, Steve Slagle, Ron McLure, Stanley Turrentine, Warren Vaché e Sadao Watanabe. Afinal de contas, “filho de peixe, peixinho é” – ou melhor, “fish’s son, little fish is”.

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