Amigos do jazz + bossa

sexta-feira, 12 de junho de 2009

DE HAVANA A NEW ORLEANS A BORDO DO TROMBONE DE LOU BLACKBURN


Lou Blackburn é mais um talentoso músico, compositor e arranjador que jamais mereceu a necessária atenção por parte do público e da crítica especializada. Seu nome sequer teve direito a uma singela resenha no Penguin Guide (2006), um dos mais completos guias de jazz. Os motivos? Talvez Freud ou Jung, mais aptos a destrinchar as insondáveis veredas da mente humana, consigam dar uma explicação cientificamente plausível. O certo é que dificilmente se verá o seu nome entre os mais badalados trombonistas do jazz, como J. J. Johnson, Kai Winding, Slide Hampton, Bob Brookmeyer ou Curtis Fuller. No entanto, os predicados técnicos para ombrear-se a esses gênios estão mais do que presentes em Blackburn. Seu fraseado é robusto, envolvente e extremamente melódico, lembrando bastante o nosso Raul de Souza. Além disso, tem uma pequena, mas muito interessante, obra como compositor.


O trombonista, nascido em 12 de novembro de 1922, na pequena cidade de Rankin, na Pensilvânia, tocou com grandes nomes do jazz, como Lionel Hampton, Harold Land, Cat Anderson, Paul Horn, Oliver Nelson, Charlie Ventura e Gerald Wilson, construindo uma sólida reputação entre os músicos do West Coast. Excursionou algum tempo com Charles Mingus, tendo participado das gravações do raro Mingus At Monterrey, de 1964, numa sessão que incluía, entre outros, o pianista Jaki Byard e o saxofonista Charles McPherson. Em outro grande momento, acompanhou o seu xará Lou Rawls no clássico “Tobacco Road”, de 1963.


Blackburn foi um ativo músico de estúdio, participando de gravações de inúmeras trilhas sonoras para o cinema e a TV. Também emprestou sua versatilidade e seu talento à música pop, tendo gravado com os Beach Boys e os Righteous Brothers, entre muitos outros. Apesar de haver se iniciado profissionalmente em orquestras de swing, o trombonista trafegava com extrema desenvoltura pelo bebop cerebral e pelo contagiante hard bop. Espírito aberto, ele também absorveu a influência de outros estilos musicais, como a soul music, a bossa nova, o blues e os ritmos latinos em geral e os incorporava com maestria ao idioma jazzístico.


Apesar de haver gravado bem poucos discos como líder, seus dois álbuns “Two Note Samba” e “Jazz Frontier”, reunidos em um único cd intitulado “The Complete Imperial Sessions” e lançados em 2006 pela Blue Note, dão uma boa amostra do seu talento incomum. A azeitadíssima banda que o acompanha é formada por Freddie Hill (trompete), pelo genial Horace Tapscott (piano), por John Duke (contrabaixo) e por Leroy Henderson (bateria). Um alegre desfile de ritmos permeia todo o disco, revelando todo o leque de influências sonoras do trombonista.


Abrindo o álbum, a eletrizante “Jazz Frontier”, um hard bop prá Horace Silver nenhum botar defeito. Em seguida, “Perception” e seu discreto toque de blues. Em ambas, o trombone do líder (e compositor dos temas) se destaca por sua inventividade e por seus solos altamente originais. Nas emocionantes “I Cover The Waterfront”, “Blues For Eurydice” e “Song For Delilah” (esta com um leve acento oriental), quem merece especial atenção é o trompete de Freddie Hill. Um dos pontos altos do disco é a climática “17 Richmond Park”, também de autoria do líder, com sua profusão de variações harmônicas e um diálogo arrebatador entre Blackburn e Tapscott.


Um agradável sabor latino emana de “Harlem Bossa Nova” e “Jazz-A-Nova”, mais puxadas ao calipso que à bossa nova propriamente. Já a nossa “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá e Antônio Maria, merece uma interpretação rica – e irreverente – onde as variações harmônicas transitam entre estilos os mais diversos, da valsa ao bebop, com um resultado surpreendentemente belo. “Two Note Samba”, embora homenageie o nosso adorado “Samba de uma nota só” é, em verdade, uma rumba estilizada, que poderia ter sido composta por qualquer um dos veneráveis integrantes do “Buena Vista Social Clube”.


“Skorpio”, “Ode To Taras” e “Grand Prix” são três musculosos had bop, com ótima interação do naipe de metais. Uma feérica releitura de “The Clan”, do grande Curtis Fuller, é o veículo encontrado por Blackburn para exibir um talento invejável. Velocidade, criatividade e perfeccionismo são as características de sua antológica execução, enquanto o piano de Tapscott providencia a passarela sonora sobre a qual o inspirado trombonista desfila muito à vontade. A clássica “Dear Old Stockholm” recebe um tratamento harmônico diferenciado, com um início bem mais lento que o habitual e, em seguida, vai acelerando até se tornar um bólido sonoro irrefreável. A bateria de Leroy Henderson, com um magnífico trabalho com os pratos, merece especial atenção.


Outro momento sublime é a doce interpretação de “Stella By Starlight”, onde paira soberano o trombone do líder, numa interpretação prenhe de lirismo e delicadeza. “Jan Bleu” é um hard bop nervoso, dissonante, com absoluto destaque para o piano caudaloso de Tapscott e para o baixo pulsante de John Duke. “Secret Love” evoca um agradável passeio pelas ruas de New Orleans, com direito a um solo magistral de Tapscott e a uma discreta citação a “When The Saints Go Marching In”, fazendo com que o ouvinte possa até sentir delicioso aroma do tradicionalíssimo gumbo.


Um disco extraordinário e que merece audição atenciosa, com sua infinidade de alternativas harmônicas e suas elaboradas texturas sonoras. No início da década de 70, Blackburn se mudou para a Europa (Suíça e Alemanha), onde permaneceria até a sua morte, em 1990. Jamais perdeu o apetite por novas sonoridades, tendo integrado a Orquestra Mombassa, dedicada a um interessante crossover entre o jazz e a música africana, além de haver tocado com diversos jazzistas estabelecidos no continente europeu, como Wolfgag Khöler, Henar Vincent e Ugonna Okegwo. Um músico de extraordinários recursos técnicos, que passou boa parte de sua vida tentando alargar as fronteiras do jazz e fazê-lo dialogar fraternalmente com outros estilos. Pelo que se ouve nesse álbum, ele obteve bastante êxito nessa nobre missão.


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PS.: Post dedicado ao amigo Pituco, mui digno embaixador do JAZZ + BOSSA na Terra do Sol Nascente.

22 comentários:

John Lester disse...

Não haveria lugar para Blackburn na página 62 da The Bigraphical Encyclopedia of Jazz, de Feather & Gitler, Oxford, 1999, se o menino não soubesse operar adequadamente a vara.

Agradeço a Mr. Cordeiro pela excelente resenha que, além de informativa, vem repleta de provas sonoras inequívocas da competência musical de Lou.

Grande abraço, JL.

Érico Cordeiro disse...

Caro Mr. Lester,
Folgo em vê-lo e me alegro em saber que você gosta do Blaackburn. Gostaria de ter mais coisas desse grande músico (adoro o som do trombone e Curtis Fuller e J. J. Johnson têm lugar de honra em minha estante), mas suas gravaações são esparsas e muito difíceis de encontrar.
Grande abraço!

pituco disse...

érico,
primeiramente,agradeço-te pela honra da citação em dedicatória final.

e, segundamente(parafraseando odorico paraguaçu), celebrar mais essa resenha 'piramidal' de prazeirosa leitura...quanta informação,signori érico...domoarigatô.

o jazz é essa mistura de raças e mistura de sons...(desculpem os puristas)

abraçsonoros

Érico Cordeiro disse...

Caro Pituco,
Você merece essa singela, porém sincera, homenagem. Afinal, é o nosso embaixador no oriente. A casa JAZZ + BOSSA é sua. Fico muito contente quando abro a página e vejo no live traffic a bandeirinha do Japão - sei logo que você deu uma passada por aqui.
Um abraço "piramidal" e que bom que você gostou da resenha (espero que também das músicas postadas)!!!

Rodrigo disse...

PArabens Érico pela resenha. Estou tambem ouvindo as musicas postadas aqui em casa com frequencia. Obrigado!!
Rodrigo Samico

Érico Cordeiro disse...

Caro Rodrigo,
Que prazer poder contar com a sua presença aqui no JAZZ + BOSSA. Tô sabendo de altas batalhas virtuais dos Molossos (James esteve aqui hoje de manhã e me contou).
Um afetuoso abraço. Vida longa e próspera!!!

Miguel Ângelo disse...

Amigo Érico,

Eu apenas me fico pelas lembranças...
Tu és uma autêntica enciclopédia do Jazz. Muito tenho aprendido contigo. Só por isso, o meu obrigado.

Um grande abraço.

Érico Cordeiro disse...

Caro Miguel,
É sempre um grande prazer receber sua visita aqui no JAZZ + BOSSA. Obrigado pelas palavras gentis, mas você está exagerando - sou só um curioso que gosta bastante de música. Eu é que estou sempre a descobrir novas sonoridades e novos artistas em seu blog (você e o Sérgio Sônico são verdadeiros garimpeiros de sons).
Abraços fraternos!

Valéria Martins disse...

Bom é deixar o seu blog aberto em uma janela enquanto visito os outros, para ir ouvindo o sonzinho... Além das preciosas informações, claro!

Beijos e boa semana!

Érico Cordeiro disse...

Cara Valéria,
Obrigado pelas palavras gentis e que bom que você curte a "trilha sonora".
Um beijo e uma ótima semana prá você também!

Sergio disse...

Muito bom esse, pra mim, ilustre desconhecido trombonista, Érico! Aproveitando o encejo: é o 1º nome que me apresentas em 1ª mão nesse vasto universo jazzístico... Como estou 'mitido'!...

Já baixei o álbão de Lou de 19 faixas - fiquei descontente só com um detalhe: com 81 minutos ou coisa assim só posso, pro meu usofruto, fazê-lo duplo. É duplo ou álbum simples, no original? Digo isso pq só conheço CDs q comportam menos de 80 minutos de música. Aí fico naquela dúvida cruel: qual faixa terei q estirpar do conjunto da obra? Terrível isso, não?

Um abraço.

Em tempo, não precisa me ajudar nessa "Escolha de Sofia". Só estava pensando alto, cá com os meus botões.

Érico Cordeiro disse...

Caro Sônico,
O bichinho é um cd simples. Mas não "mutila" o bichinho não. No primeiro põe as faixas do álbum Jazz Frontier (1 a 10) e no outro e na outra as faixas do Two-Note Samba.
Gostou da sugestão?
Grande abraço, cara!!!

Salsa disse...

Grande dica, Érico,
procurarei por aí.
Abraços,

Érico Cordeiro disse...

Mestre Salsa,
Seja bem-vindo. Gostei de ver a série de fotos "eu quero é botar meu blog na rua". Muito legal.
Grande abraço!!!!

Sergio disse...

Meu caro Érico,vc já teve tempo de ouvir essa versão?

http://www.4shared.com/file/112123919/549438a5/Eugene_Maslov__When_I_Need_To_Smile__06_-_The_Man_I_Love.html

Separei a música do disco só pra te mostrar. E vc não precisa concordar comigo q é coisa de outro mundo, só me dizer o q achou.

edú disse...

De São Paulo, envio meu elogio ao prezado Érico por promover integração entre os blogs dedicados ao jazz em particular e outros de relevante interesse cultural.Um dos melhores benefícios da internet, senão o melhor, é prover essa comunicação instantânea aos distantes hemisférios globais.Abraço.Edu.

Érico Cordeiro disse...

Caros Sérgio e Edú,
É sempre um grande prazer recebê-los aqui no JAZZ + BOSSA. Concordo totalmente com você, Edú: o grande barato da internet é a possibilidade de "falar" para pessoas que estão nos locais mais distantes.
O JAZZ + BOSSA jáa recebeu a visita de pessoas do Japão, Coréia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Japão, Portugal, Polônia, Grécia, enfim do mundo inteiro, algo que me deixa muito contente.
E por meio do JAZZ + BOSSA pude conhecer um monte de gente bacana, com quem tenho tido a honra e a alegria de compartilhar a paixão pela música.
Grande abraço.
Seu Sérgio, vou procurar a música indicada e já já lhe dou o retorno. Adianto que eu adoro "The Man I Love".
Um abração aos dois!!!

Érico Cordeiro disse...

Mr. Sérgio,
Estou ouvindo pela terceira vez a versão de The Man I Love. Ainda não sei dizer se achei do outro mundo, mas gostei bastante. A cada audição ela me soa melhor, mas ainda me parece "irreverente" demais. Tem passagens com um certo acento pop (lembra Chick Corea), mas do meio pro fim ela fica bastante interessante. O cara é um virtuose.
Deu vontade de conhecer mais do trabalho do Maslov.
Abração e obrigado pela dica!

Sergio disse...

Pois é Érico, irreverente não sei se foi a definição q me veio, mas sinceramente, ao menos que me lembre, jamais ouvira essa música numa variação tão vigorosa, musculosa quase rock e tão suingada. O incrível q a música, da forma como foi tocada, não me sai da cabeça, as vzs estou fora, na rua, no Centro e ela vem me acompanhar. O álbum lá postado do Maslov é todo bom, mas essa versão, sinceramente, se destaca completamente do conjunto daquela obra. Quando e SE tiver tempo de ouvi-lo inteiro dê sua opinião. Mas essa música eu tinha q dividir o meu intusiasmo com alguém... Vc entende, né?

Quanto ao Maslov, ele tem um site fácilzin de se achar pelo google. E o álbum dele mais recomendado, mais bem cotado na única bíblia (dos preguiçosos) allmusic a q sempre recorro é, "The Fuse Is Lit", disquin danado de difícil o qual persigo pelaí. Valeu a atenção.
Abraço!

Érico Cordeiro disse...

Caro Sérgio,
Obrigado pela dica - estou curioso pelo trabalho do Maslov. No dia que eu achar esse disco, te informo ou te mando via Pando, ok?
Grande abraço!

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Practice makes perfect.

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