Amigos do jazz + bossa

sexta-feira, 1 de junho de 2012

FABULÁRIO GERAL DO DELÍRIO COTIDIANO



“Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz”

Composta por Arnaldo Baptista e Rita Lee, a “Balada do louco” fez um enorme sucesso nas interpretações dos Mutantes e de Ney Matogrosso. A música discute os conceitos de sanidade e loucura, de uma forma genialmente bem-humorada e exibe uma visão de mundo que, à sua própria maneira, comprova a veracidade do antigo ditado: “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Ou ainda, à luz da leitura caetana, de perto, meu amigo, ninguém é normal.

Seria louco Dodo Marmarosa? Ou apenas mais um gênio incompreendido? O certo é que este pianista nascido em Pittsburgh, no dia 19 de dezembro de 1925, numa família de ascendência italiana, chegou a ser apontado, não poucas vezes, como o mais legítimo sucessor do grande Art Tatum. Talvez por coincidência, outro pianista bastante comparado ao lendário Tatum tenha sido Phineas Newborn, outro grande nome do piano e cuja vida também foi marcada por problemas psiquiátricos.

O nome de batismo de Marmarosa era Michael, mas para o mundo do jazz ele sempre foi conhecido pelo apelido que odiava: Dodo, que em italiano significa pato, por causa do seu andar desajeitado e da cabeça desproporcional ao corpo franzino. Na infância, iniciou-se nos estudos do piano, baseado em um repertório exclusivamente erudito. O rigor nos estudos e a disciplina monástica a que era submetido impediam-no de levar uma vida semelhante à dos garotos de sua idade.

Ao invés de futebol ou basquete, Dodo praticava ao piano por horas seguidas. Mestre Raffaelli conta que, na adolescência, que o jovem pianista, para se distrair, “tocava ‘Two-Part Inventions’ de Bach aumentando gradualmente o andamento até suas escalas alcançarem o dobro da velocidade medida pelo metrônomo”. Pouco apto para a prática desportiva, socialmente inábil, tímido e extremamente reservado, o adolescente tinha no piano a sua válvula de escape e era ali, tocando o instrumento, que ele se comunicava com o mundo.

Nesse processo, o jazz se tornaria de capital importância na formação musical e humana de Marmarosa. Apaixonado pelo estilo, ele foi aluno de Mary Lou Williams e Earl Hines. Seu estilo, obviamente, era tributário de Art Tatum, cujos solos era capaz de reproduzir à perfeição. Um dos seus poucos amigos na juventude era o notável Erroll Garner, dois anos mais velho e que estudava na mesma escola.

Profissionalmente, a carreira do pianista se inicia em 1941, quando sequer havia completado 16 anos, tocando na orquestra de Johnny “Scat” Davis. Pouco tempo depois, Marmarosa já estava integrado à big band do baterista Gene Krupa. Seguir-se-iam participações nas orquestras de Ted Fio Rito e Charlie Barnet, ao lado de quem fez as suas primeiras gravações. Algumas delas, como “The Moose”, “Strollin’” e “Skyliner”, realizadas em outubro de 1943, chamaram a atenção do mundo do jazz por conta dos seus solos magníficos.

Foi na orquestra de Barnet que ele conheceu e se tornou amigo de dois jovens que estavam capitaneando a mais importante revolução da história do jazz: Dizzy Gillespie e Charlie Parker, os gênios fundadores do bebop. Em novembro de 1944, Marmarosa se agrega à big band do clarinetista Artie Shaw, onde atuavam futuros astros do jazz como o saxofonista Herbie Steward (um dos célebres “Four Brothers”) o guitarrista Barney Kessel e o trompetista Roy Eldridge, seu conterrâneo de Pittsburgh.

Sua próxima incursão em orquestras do Swing foi na de Tommy Dorsey, o que o obrigou a se mudar para Los Angeles, em 1946. na cidade, a orquestra se mantinha como uma das atrações do Cassino Gardens, de propriedade de Dorsey, Harry James e Woody Herman, e tinha entre seus quadros luminares como Buddy DeFranco e Buddy Rich. Há uma história hilária envolvendo Marmarosa e DeFranco, quando os dois faziam parte da orquestra de Tommy Dorsey. 

A big band deveria se apresentar em Saint Louis, mas os dois dormiram além da conta e acabaram perdendo o trem que os levaria até a cidade, a cerca de 500 milhas de onde eles estavam. Não havia outro trem naquele dia e ir de carro, pelas péssimas estradas da região, era impossível. A solução foi alugar um pequeno avião, para que pudessem chegar a tempo do concerto, que iria acontecer naquela noite.

Ocorre que o piloto era mais louco que os dois músicos e depois de algumas horas de vôo, aquele se vira para Marmarosa e informa: “Eu não sei quanto a vocês, mas eu estou perdido”. A cândida sugestão do pianista foi: “Então porque você não aterrissa e pergunta para algum guarda onde nós estamos?”. Os três voaram por mais alguns minutos, mas como o combustível estava no fim, foram obrigados a descer numa pista improvisada, em uma fazenda.

Ainda estavam a 200 milhas de Saint Louis, mas conseguiram uma carona até a cidade. No entanto, quando chegaram no destino, o concerto já havia terminado. Os dois foram para o hotel e, de manhã, prepararam o espírito para enfrentar a ira de Dorsey, célebre pelo temperamento irascível. O líder se aproximou dos dois, que já contavam com uma demissão, e falou: “Estou orgulhoso de vocês, rapazes. Vocês fizeram tudo que podiam para chegar a tempo. Até fretaram um avião! Isso me lembrou meus tempos de juventude. Vou lhes dar um aumento de salário!”.

Apesar do aumento de salário, o pianista estava bastante descontente com a abordagem conservadora da orquestra de Dorsey. Já completamente integrado ao movimento bop da Costa Oeste, ele pediu demissão do emprego e foi se juntar à big band de Boyd Raeburn, considerada bem menos ortodoxa. O cenário musical da Costa Oeste naquela época fervilhava de jovens talentos.

Influenciados por Charlie Parker e Lester Young, então residindo em Los Angeles, uma legião de jovens músicos transpunha o idioma bop, até então associado às enfumaçadas noites de Nova Iorque, para as ensolaradas praias californianas. Eram jovens como Dexter Gordon, Howard McGhee, Teddy Edwards, Sonny Criss, Chico Hamilton, Buddy Collette e Charles Mingus, entre outros, que davam os primeiros passos para a construção de um sotaque próprio, que mais tarde seria batizado de West Coast Jazz.

Ao mesmo tempo em que formava seus próprios pequenos grupos, primeiramente com Barney Kessel e, em seguida, com Lucky Thompson, Dodo complementava o orçamento como pianista de estúdio da gravadora Atomic e como membro eventual da banda do guitarrista Slim Gaillard. Após ouvir algumas gravações de Marmarosa, feitas a partir de transmissões da rádio AFRS Broadcast, em 1947, Charlie Parker convidou o pianista para se juntar a seu grupo, no lugar de Joe Albany.

O grupo de Parker, que na época era reforçado pela presença do amigo e parceiro Dizzy Gillespie, era atração fixa do clube Berg’s. Graças ao desempenho nos concertos, Marmarosa teve a honra de ser chamado por Bird para participas de suas famosas gravações para o selo, onde foram registradas em disco, pela primeira vez, preciosidades como “Relaxin’ at Camarillo” e “Ornithology”.

Ainda em 1947, ele participou de vários concertos da série Jazz At The Philarmonic, produzidos por Norman Granz, e do projeto Just Jazz, este produzido por Gene Norman. Alguns dos concertos da série Just Jazz, realizados nos dias 27 e 29 de abril de 1947, no Civic Auditorium, em Pasadena, foram gravados pelo selo Crown e mostram Dodo ao lado de Howard McGhee, Sonny Criss, Dexter Gordon, Wardell Gray, Red Callender e Jackie Mills.

Ele também recebeu da revista Esquire o prêmio de New Star of Piano, em votação da crítica. Na época, Dodo era o responsável pelo piano do sexteto do trompetista Howard McGhee, co-liderado pelo saxofonista Teddy Edwards, e que era um dos mais respeitados pequenos grupos do cenário californiano. Com McGhee, Dodo fez gravações históricas para a Dial.

Mestre Raffaelli nos esclarece sobre o valor desses registros: “as faixas ‘Tone Paintings I’ e ‘Tone Paintings II’ foram gravadas sem intenção de serem editadas comercialmente. Ambas antecipam as mudanças que logo ocorreriam no jazz. São explorações de improvisações em série, sugerindo a extinção das formas de 12 e 32 compassos de duração das composições, desenvolvidas por Ornette Coleman e que levariam ao free jazz de John Coltrane e Cecil Taylor”.

Em 1948, Marmarosa fez as suas últimas gravações para a Dial, desta feita liderando um trio que contava com o baterista Jackie Mills e com Harry Babasin ao violoncelo.  Pouco tempo depois dessas gravações, a Federação Americana de Músicos decretou uma greve que duraria meses e diversos músicos, Dodo inclusive, foram impedidos de trabalhar nos estúdios.

Desde a juventude, Dodo já demonstrava um comportamento errático e pouco ortodoxo. Quando era membro da orquestra de Gene Krupa, em 1943, ele e o clarinetista Buddy DeFranco, seu colega na banda, foram espancados por alguns marinheiros que, erroneamente, imaginaram que os dois fossem desertores. Marmarosa foi duramente atingido na cabeça e chegou a ficar em coma. Pessoas próximas ao pianista desconfiam que o incidente tenha abalado, mais que a saúde física, a sua própria sanidade mental.

Houve, ainda, diversos outros incidentes na vida pessoal e profissional de Marmarosa que evidenciam que ele não era um sujeito lá muito normal e que era dado a praticar atos bastante excêntricos. Quando fazia parte da orquestra de Charlie Barnet, ele uma vez atirou o piano de um balcão que ficava no terceiro andar de um teatro, apenas para saber que som o instrumento faria ao se espatifar no chão.

Outro episódio revelador aconteceu quando Marmarosa fazia parte da orquestra de Artie Shaw. Durante uma apresentação, o público pediu que a big band tocasse “Frenesi”, um dos seus grandes sucessos. Shaw fez a vontade da platéia que, não satisfeita, pedia bis. Mais uma vez, foi feita a vontade do público e o set foi encerrado com “Frenesi”. Após o intervalo, a orquestra volta ao palco e o público pede o quê? “Frenesi”, lógico!

Marmarosa se vira para o chefe e avisa: “Se eu tiver que tocar ‘Frenesi’ mais uma vez, eu desço do palco, pego meu carro e volto imediatamente pra Pittsburgh”. Claro que Shaw levou a advertência na esportiva e, pela terceira vez naquela noite, satisfez o desejo do seu público. Marmarosa, ao ouvir os primeiros acordes de “Frenesi”, fechou a tampa do piano e, simplesmente, cumpriu a ameaça.

Os problemas de saúde, no entanto, se agravavam a cada dia e, em 1949, o comportamento de Marmarosa tornou-se absolutamente imprevisível, inclusive comprometendo a sua vida profissional. Ele então decidiu retornar a Pittisburgh e, salvo por participações esporádicas em concertos das orquestras dos antigos patrões Johnny “Scat” Davis e Artie Shaw, se afastou completamente do jazz.

Em 1954, ele resolveu tentar a carreira militar e ingressou no exército, mas a vida na caserna se revelou ainda mais devastadora para a sua fragílima saúde mental. Após passar algumas semanas na detenção, por atos de insubordinação e indisciplina, Dodo pediu baixa das forças armadas que, obviamente, não impuseram qualquer tipo de obstáculo ao pedido. Mas os traumas da vida militar foram demais para ele, que logo após a baixa ficou vários meses internado em um sanatório.

Seguindo a máxima da Lei de Murphy, que diz que nada é tão ruim que não possa ser piorado, a esposa de Dodo pediu o divórcio e ele se viu impedido de ver as filhas. Vieram, então, novas e sucessivas internações em clínicas psiquiátricas, além de tratamentos extremamente dolorosos e absolutamente ineficazes, feitos à base de medicação pesada e eletrochoques. Somente em 1961 é que o pianista voltaria aos estúdios, com o elogiado “Dodo’s Back!”, lançado pela Argo Records, com produção de Jack Tracy. A seu lado, o baixista Richard Evans e o baterista Marshall Thompson.

No ano seguinte, foi a vez do estupendo “Jug & Dodo”, um verdadeiro clássico do jazz, que reúne dois dos mais bem dotados improvisadores de todas as eras. Dividindo os créditos com o monumental saxofonista Gene Ammons, Marmarosa aparece extremamente à vontade e com uma sonoridade comparável à que exibia no final dos anos 40. O contrabaixista Sam Jones e o baterista Marshall Thompson completam o time.

As gravações foram feitas em Chicago, em maio de 1962 e o disco, originalmente um LP duplo, deveria ter sido lançado no final daquele ano. No entanto, a Prestige cancelou o lançamento e somente em 1972 o álbum viu a luz do dia. Uma pena, porque se tivesse sido lançado logo após a gravação, o disco poderia ter ajudado a recuperar a carreira do pianista. Ammons participa apenas de seis das doze faixas, mas sua presença é luminosa em cada uma delas.

A faixa de abertura é a pungente “Georgia”, de Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell, imortalizada na versão de Ray Charles. O saxofone de Ammons se despe da sonoridade quase sempre robusta e exala doçura e mansidão, em uma abordagem lírica e melodiosa. Dodo, como se fosse um artífice da ternura, dedilha o teclado com idêntica sensibilidade, esculpindo frases delicadas.

O quarteto dá uma acelerada em “For You”, de Al Dubin e Joe Burke, mergulhando com afinco na sintaxe bop. O que emerge do encontro desses dois titãs são diálogos rápidos, frases cortantes e acordes enfurecidos. Ambos possuem uma capacidade ilimitada de improvisar e são capazes de criar riffs devastadores. Na retaguarda, Jones e, sobretudo, Thompson, propiciam um alicerce rítmico dos mais poderosos.

Mantendo a temperatura elevada, é a vez de “You're Driving Me Crazy”, tema de autoria de Walter Donaldson. Mais cadenciada que a anterior, mas não menos vibrante, ela é um veículo mais que perfeito para as manifestações de virtuosismo do par de líderes. Sempre articulados e evitando as armadilhas do exibicionismo, os dois mestres se comunicam telepaticamente, dialogando com eloqüência fulgurante. Marmarosa encharca o tema com fartas doses de blues e sua abordagem, algo percussiva e por vezes dissonante, remete a Thelonious Monk.

A balada “Where or When” foi composta pelos craques Lorenz Hart e Richard Rodgers. O arranjo feito pelo quarteto é sóbrio e enfatiza o aspecto melódico do tema. Novamente, Ammons imprime à sua abordagem a marca da sutileza. Notas alongadas e algum vibrato servem para abrilhantar a execução do saxofonista. O acompanhamento é vaporoso, envolvente, com destaque para os sofisticados acordes de Marmarosa.

Em “The Song Is You”, composta por Jerome Kern e Oscar Hammerstein, e em “Just Friends”, de autoria de John Klenner e Sam M. Lewis, ouve-se apenas o trio. Na primeira, o arranjo em tempo médio realça o encanto da melodia, que é enriquecida por soluções harmônicas tipicamente bop. O sempre eficiente Sam Jones impõe-se com uma marcação impecável e um senso de tempo primoroso. Na segunda, pode-se perceber com clareza a fluidez da digitação do pianista e algumas de suas principais características, muito bem descritas por José Domingos Raffaelli: “o comando autoritário das escalas e os arpejos pulsantes”.

Charlie Parker, antigo empregador de Marmarosa e símbolo máximo do bebop, não poderia ficar de fora. Nesta gravação Bird está muito bem representado pela emblemática “Yardbird Suite”. Os dedos ágeis de Dodo bailam ao longo das teclas do piano, ora acelerando o andamento, ora diminuindo a velocidade dos acordes, inserindo em algumas passagens elementos típicos do blues. Thompson tem uma percepção rítmica bastante aguda, suas pausas são muito bem colocadas e a sua comunicação com o pianista beira a perfeição.

Novamente usando um arranjo mais acelerado que o habitual e uma inapelável vocação bop, “I Remember You”, preciosidade de Johnny Mercer e Victor Schertzinger, é executada com entusiasmo e muita histamina pelo trio. Ammons se junta novamente aos seus parceiros, para a execução de “Bluzarumba”, tema de sua autoria. É um bebop enviesado, com uma discreta acentuação afro-caribenha e breves citações ao clássico “El Manisero”, merecendo destaque os solos de Jones, um primor de inventividade, elegância e inteligência harmônica.

Dodo é o autor de “The Moody Blues”, tema cadenciado e que, apesar do nome, não segue o típico andamento 4/4 do blues, embora não deixe de pagar tributo ao estilo. Novamente sem Ammons, o pianista e seus comandados rompem a ortodoxia do blues e investigam novas possibilidades harmônicas, ora inserindo elementos de valsa na execução, ora explorando possíveis interações harmônicas com os spirituals e o gospel. Com um fraseado límpido e um notável controle dos registros graves, a faixa é um dos momentos mais empolgantes do disco.

A dupla Lorenz Hart e Richard Rodgers volta à cena, agora com a cativante “Falling in Love With Love”. À vontade nos andamentos rápidos, onde pode explorar com maior ênfase a sua sonoridade volumosa, inflamada e cheia de matizes. A proverbial versatilidade de Dodo, capaz de dialogar em qualquer tempo ou andamento sempre em alto nível, se evidencia de uma maneira bastante nítida e suas passagens dos registros graves para os agudos, sempre rápidas e por vezes agressivas, evocam Art Tatum.

Para encerrar os trabalhos, a faixa escolhida foi “The Very Thought of You”, do maestro Ray Noble. Canção que se tornou conhecida, sobretudo, graças à elegante interpretação de Nat King Cole, a balada permite a Dodo, novamente em trio, que construa uma sofisticada tapeçaria harmônica. Sua abordagem, recheada de arpejos e passagens de elevada complexidade técnica, se aproxima do estilo dos pianistas do swing, mais notadamente Teddy Wilson, por sinal uma de suas primeiras e mais importantes influências.

Um disco exemplarmente belo, além de ser um importante registro da arte de um pianista tão importante mas tão pouco reconhecido. A edição em cd, feita pela Original Jazz Classics, tem como atrativos duas faixas bônus, os takes alternativos de “Yardbird Suite” e de “Falling in Love With Love”. Como ressalta Leonard Feather nas notas de apresentação, um disco que apresenta Marmarosa “não como ele poderia ter sido, mas como ele, efetivamente, era. Infelizmente, a gravação foi realizada em um período no qual havia muito pouca gente disposta a ouvi-lo”.

Após a gravação deste disco, Marmarosa ainda passou alguns anos em Chicago, fazendo shows esporádicos em clubes da cidade, como o Jazz Showcase, o Pink Poodle e o Swing House. Em meados da década de 60 ele retornou à cidade natal e chegou a tocar com alguma freqüência no Midway Lounge, onde havia trabalhado nos anos 50. No entanto, com o agravamento de seus problemas de saúde, ele, novamente, desapareceu da cena musical. Desta vez, para sempre.

A última apresentação de Marmarosa em público foi feita no Colony Restaurant, em Pittsburgh, em 1968. Depois disso, ele perambulou por instituições psiquiátricas da cidade e arredores, até chegar ao V. A. Medical Center, em Lemington, um distrito de Pittsburgh, onde passaria o restante de seus dias. Ali, Dodo costumava entreter médicos, enfermeiros, pacientes e visitantes, tocando o piano do hospital.

Nos anos 90, o nome do pianista voltou à tona, brevemente, graças a uma notícia falsa sobre sua morte, publicada no jornal inglês “The Guardian”, em 1992. O mais curioso é que o repórter do jornal havia ligado para a casa da irmã de Dodo, onde ele estava morando na época, a fim de localizá-lo para fazer uma entrevista. Avesso a badalações, o arredio pianista, que havia, ele próprio, atendido ao telefonema, simplesmente disse ao repórter: “Infelizmente, ele não vai poder atender, pois morreu ontem”. A notícia foi publicada e, posteriormente, desmentida. Uma verdadeira “barriga”, como se diz no jargão jornalístico.

Ainda naquela década, o pesquisador Robert Sunenblick descobriu alguns tapes caseiros do pianista, com gravações inéditas dos anos 50, nas quais ele está acompanhado pelo contrabaixista Danny Matri e pelo baterista Henry Sciullo na maioria das faixas. O resultado pode ser conferido no cd “Pittsburgh, 1958”, lançado pela Uptown em 1997 e traz, ainda, três faixas gravadas em um programa de rádio de 1962, consideradas as últimas gravações oficiais do pianista.

Doente e esquecido, Dodo Marmarosa morreu aos 76 anos, no dia 17 de setembro de 2002, em conseqüência de um infarto. Nas palavras do pesquisador Sylvio Lago, ele foi um pianista de “recursos técnicos excepcionais, tanto na velocidade dos tempos como na variedade das expressões. Sua técnica era feita pelo equilíbrio das duas mãos, com a direita exprimindo a linguagem do bebop, além de longos desenhos em single note, isto é, tocando uma nota de cada vez”.

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29 comentários:

José Domingos Raffaelli disse...

Dear Gran Master Boss,

Parabéns pelo excepcional escolha do extraordinário e tristemente esquecido Dodo Marmarosa, um dos meus pianistas favoritos. Todos os músicos que tocaram com ele exaltaram sua excepcional c criatividade, transformando cada solo numa fantástica expressão definitiva da arte da improvisação. Tenho todos os discos que ele gravou, inclusive como sideman. Nunca será demais lembrar que, ao ouví-lo, Charlie Parker chamou-o para gravar no seu conjunto para a Dial na qual perpetuaram o clássico Yardbird Suite.
Você tem razão ao mencionar Phineas Newborn, outro dos meus meus grandes favoritos. A propósito, depois enviar-lhe-ei um artigo que redigi sobre ele para a Folha da Estância.

Como dizia meu grande amigo José Romeu, como é bom estar em contato com pessoas que conhecem, vibram e divulgam o melhor do jazz.
Neste quesito, você é disparado o NE PLUS ULTRA.
Um ótimo fim de semana extensivo aos demais confrades, com um grande abraço a todos e
Keep swinging,

Raffaelli

MaJor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MaJor disse...

Realmente parece que a genialidade trás algo de "esquesitice" ou mesmo de maluquice e não só na música, os geniais Eisntein e Salvador Dali, maravilhosos doidões. No jazz há uma grande lista temos Bud Powell, Monk, Django, o próprio Parker e muitos outros, sem falar no precursor Buddy Bolden este então internado para o resto da vida!
Valeu a trilha sonora é ótima.
Abração
Mario Jorge

pituco disse...

érico san,

resgate piramidal, como sempre...underrated, mr.marmarosa merece lugar nesse blog bacanudo com resenhas de gente grande...obrigadão...e curtindo o som na radiola...

abrsonoros

coimbra disse...

Mestre Cordeiro:
Pinçamento oportuno. Tenho apenas uma coletânea dele e que estava "esquecida" na estante. Graças ao Mestre a luz se acendeu e o Marmarosa voltou a arrasar nas minhas caixinhas com seu virtusosismo e elegância.
Continue iluminando nossas estantes.
Um abraço.

Érico Cordeiro disse...

Uau! Um verdadeiro Quarteto Fantástico, esse que encontro na caixa de comentários.
Ao primeiro, nem é preciso dizer que usei como principal fonte de pesquisa o seu maravilhoso texto sobre o Dodo, um pianista com o selo "Bird" de qualidade. (PS.: Obrigado pelo texto sobre o Newborn, outro "maluquinho" genial).
Ao segundo, acho que era a água que esses malucos geniais bebiam - e como já disse o Caetano, de perto ninguém é normal.
Mestre Pituco, é uma honra servir aos clientes esses petiscos musicais menos conhecidos, como o Marmarosa.
Guru Coimbra, tê-lo a bordo é sinônimo de alegria e anda mais ao saber que a postagem o instigou a dar uma vasculhada em suas bem fornidas estantes.
Um fraterno abraço aos quatro!

PREDADOR.- disse...

Doido sou eu, que não consigo tocar "um culhonésimo" do que Dodo tocava ao piano. Esse negócio de "lançar" piano é coisa normal para qualquer músico, assim como ninguém aguenta tocar Frenesi cinco vêzes em uma mesma apresentação. Coisa de louco?? Sei não, se fosse eu fazia a mesma coisa. Interessante "resgate" de um pianista pouco conhecido, mas que era um gênio. Ótima e completa resenha, mr.Cordeiro, por isso não vou ficar dando "pitacos" desnecessários. Mais uma vez você está de parabéns, ultimamente procurando mostrar em suas postagens, os grande personagens que foram os verdadeiros baluartes do velho e bom jazz. Terminando, gostaria de citar dois discos muito bons do pianista, além deste sensacional Jug & Dodo: "Dodo's Bounce" (Fresh Sound-1947) e "Dodo Marmarosa on Dial-The Complete Sessions" (Spotlite-1946/47).

Érico Cordeiro disse...

Grande Mr. Predador,
Então quer dizer que estou no rumo certo?
Que bom que você tem aprovado as últimas postagens. Mas o Braxton vem aí, viu?
Obrigado pelas dicas e esse sistema métrico intergalático realmente é bem esquisito: "um culhonésimo" é ótimo!
Abração!

José Domingos Raffaelli disse...

Dear Gran Master Boss Érico, Major, Coimbra, Mr. Predador, Pituco e demais correligionários ausentes que se interessam pelos
comentários,

O jazz é a mais fascinante das músicas, uma fonte infindável de prazer, descobertas, estudos, troca de idéias. Isso somado e muito mais traduz-se pela freqüência com que os prezados confrades visitam este site atraídos pelo conteúdo de assuntos fascinantes sobre a chamada "música dos músicos", que nosso preclaro mentor mantém vivíssima através dos seus argutoe e mais que benfazejos textos.

Ontem, no silêncio do meu apartamento, pensei longamente na magia que o jazz exerce sobre os que a ele se dedicam. Em meio àquele silêncio, divaguei sobre isso com meus pensamentos e, após alguns minutos, prucurei entre meus LPs (por favor, não riam porque eu sou dos tempos arcaicos dos LPs, quando entupia minhas estantes com aquelas "bolachas" (alguns assim referiam-se a eles) e separei três deles, incluindo dois do fantástico e híper underrated tenorista Teddy Edwards, que foi o primeiro tenor do quinteto Max Roach/Clifford Brown, com o qual gravou um LP (desculpem a repetição) ao vivo memorável no qual o quinteto "estraçalha" para valer
sua obra prima "SUNSET EYES". Num dos LPs (êta, mencionei de novo!) Phineas Newborn toca algumas faixas, não todas. Toca ? Não tem prá ninguém.

Há anos, quando Billy Higgins (baterista do quinteto de Teddy) esteve no Rio, na entrevista coletiva pedi notícias do Teddy e disse-me que ele estava tocando num casino de Las Vegas com um conjunto de ótimos músicos. Insisti em saber se Teddy estava em "good shape", e Higgins, sempre sorrindo (por isso era apelidado de "Smiling Boy"), respondeu rindo muito: "Teddy sempre mantém sua grande forma, ele nunca tocou mal um solo, ao contrário, tudo que ele toca á inacreditavelmente fabuloso".

Depois disso, que mais poderia eu dizer ?
Após rememorar isso e ouvir dois LPe do Teddy (desculpem outra vez), fiquei acabrunhado porque lembrei que Teddy e Billy Higgins não estão mais entre nós, infelizmente.

Desculpem as divagações deste ancião que extravasa algumas emoções tomando o tempo de todos vocês.
Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Mestre Raffaelli,
Aqui suas divagações valem ouro! Ao falar de seu convívio com os grandes nomes do jazz, você nos transporta juntos e nos faz viver com mais intensidade a magia do jazz!
Teddy Edwards é formidável - já postei uma resenha sobre ele aqui no blog.
Tenho alguns de seus discos, tanto pela Prestige quanto pela High Note e todos são de altíssimo nível. Ele e Dexter Gordon costumavam disputar as atenções dos ouvintes do jazz nas batalhas dos anos 40, em Los Angeles. Deviam ser momentos eletrizantes!
Grande abraço!

José Domingos Raffaelli disse...

Dear Gran Master Boss,

Grande notícia que já postou uma resenha dele no blog ! Deve ser antes de eu intrometer-me na sua vida dando palpites, pois juro que não li a respeito, ou então, como diziam os mais antigos, e bota antigo nisso, DEVO TER COMIDO MOSCA! a PROPÓSITO, essa desculpa é de um mau gosto completo, pois que péssimo gosto deve ter um inseto tão sujo ?
Com todo meu respeito ao excelente trombonista JOHN MOSCA, que "matou a pau" num dos últimos Free Jazz Festival.
Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Querido Mestre Raffaelli,
Revendo a postagem sobre o Edwards, dá pra ver que você já era sócio de carteirinha do barzinho, inclusive pôs alguns comentários por lá.
Curiosamente, em um dos seus comentários, você fala dos pianistas do bebop de origem ítalo-americana e um deles é ninguém menos que o Dodo Marmarosa.
São essas coincidências que nos fazem ficar ainda mais apaixonados pelo jazz!
Grande abraço!

José Domingos Raffaelli disse...

Dear Gran Master Boss Érico,

Grato por informar que eu já dava meus palpites quando você analisou um CD do Teddy Edwards. A velhice é uma tristeza, a gente se confunde, a memória vai ficando nebulosa, esquecemos de muita coisa e os garotos nos chamam de "velho gagá".

Voltando ao Teddy, ontem à noite lembrei que tenho um CD dele com Cecil Payne gravado para a extinta Xanadu, do meu grande amigo Don Schliten e tratei de retirá-lo do exílio e deleitar-me com ele. É uma jóia e tem como bonus dos mais especiais a presença do genial Duke Jordan, o pianista que criou coisas fabulosas com Charlie Parker. Nem direi o que senti, mas, caso você e demais confrades conheçam um pouco das minhas reações, podem imaginar o que foi aquela audição (o CD estava enfurnado há não sei quanto tempo....)
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Leia(m) o que o grande crítico Ira Gitler escreveu no texto do LP "Play It Now", do Al Cohn:

" Al Cohn nunca será um superstar do jazz, não é o tipo de ídolo das matinês com Stan Getz, também não se bandeia para os lados dos superstars à la Gato Barbieri, não é um showman da onda de Clark "Mumbles" Terry, não faz os giros corporais como Herbie Mann e não chama a atenção da imprensa em declarações como sempre faz Miles Davis.

Tudo que Al Cohn faz é tocar e improvisar em interpretações pessoais no terreno da belíssima música que alguns de nós ainda chamam de jazz, uma vasta área que engloba múltiplos estilos. Embora ele não seja apreciado pelo público em geral, Al Cohn é admirado pelos que conhecem o que
ele toca: "Os músicos de jazz".
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Keep swinging,]
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Mestre Raffaelli, sempre com as mais deliciosas histórias do jazz!
Não conheço esse disco do teddy Edwards com o Cecil Payne, mas deve ser fantástico. Se puder, dê mais alguns detalhes (título, ano de gravação, sidemen), ok? Fiquei mais do que curioso :-)
O Al Cohn é figurinha carimbada no barzinho, inclusive já deu as caras em um post por aqui (exatamente em um disco da Xanadu, com a presença do grande Barry Harris no piano).
Um fraterno abraço, Mestre!

Cordeiro de Faria disse...

Mestre Raffaelli, você não toma o nosso tempo. Você enriquece a nossa existência. Que showzaço você nos proporcionou com seus comentários. Leio feliz da vida até as vírgulas do seu texto. Muitíssimo obrigado! Ao Érico, os elogios que eu não canso de fazer pelas resenhas sempre tão bem escritas, e pelos músicos que nos apresentam. Um forte abraço aos dois. E vida longa, vida longa...

Érico Cordeiro disse...

Tio Faria!
É muito bom abrir a caixa de comentários e constatar a sua presença por aqui!
E a saudade da Cidade Maravilhosa (e das pessoas maravilhosas que estão aí) só aumenta...
Obrigado pela presença.
Beijo grande, meu tio e tudo de bom.

PREDADOR.- disse...

O nosso querido Zé Domingos fica se desculpando pelos seus "pitacos", "bolachas (LPs)", "divagações de ancião", etc.. que ele menciona em seus comentários. Aqui p'ra nós: mr.Raffaelli pode tudo. Ele é e será sempre o nosso grande mestre, que, além de conhecer e ter convivido com os músicos, participou de uma das melhores fases do Jazz. A par disso tudo ainda podemos desfrutar, através desse blog, de seus comentários e de suas histórias fascinantes do mundo jazzístico. Mais "pitaqueiro" do que eu não existe. E, qual o apreciador de jazz que não tem ou teve uma "bolacha preta". Eu conheço vários que ainda "cultivam" com todo cuidado suas coleções de LPs. Vamos lá mr.Raffaelli, continue brindando-nos com seu vasto conhecimento sôbre músicos e histórias do jazz. Suas "intervenções" são de suma importância, injetando ânimo para continuarmos em nossas pesquisas e audições do "old and good jazz". Tenho certeza que mr.Cordeiro e todos os participantes do "jazzbarzinho" aprovarão.

Érico Cordeiro disse...

Aplausos pro Mr. Predador e pro Mestre Raffaelli!
De pé!

Anônimo disse...

Sem mais delongas: Adrian Acea. Como pose um pianista que tocou com esse time: Joe Newman, Zoot Sims, Oscar Petiford e Osie Johnson, pode evaporar até (e praticamente) no google???

O disco da descoberta foi: Joe Newman & Zoot Sims (Locking Horns) 1957.

Mais um out-of-print, precioso, que depois da audição... "apertem os cintos, o pianista sumiu!"

Érico Cordeiro disse...

Mr. Sonic, I presume...
Esse Acea é raro mesmo. Salvo engano, a única coisa que tenho dele é uma gravação sob a liderança do Leo Parker (agora checo a postagem e verifico que é isso mesmo).
Não sei se tenho outras gravações, mas vou dar uma checada.
Listinha sônica, ok?
Abração!

pituco disse...

salve mestre raffaelli...salve o jazz...obrigado por fazer parte dessa confraria de bambas...saravá

abrasonoros

Anônimo disse...

Seu sam, parece q existe (na minha pesquisa internética deu q existe) mais dois álbuns em que Acea participa. Um com Coleman Hawkins (ó i nível do Acea!) "At The Golden Circle" (Live), se não me engano, 1963 e um com a orquestra de Benny Goodman. E só, meu amigo. Seu Sam, vc deveria abrie um tipo de postagem "Enfermaria do Além", para onde se transderiram essas almas?

Érico Cordeiro disse...

Salve Mestres Pituci-Sama e Sérgio Sônico Xavier!
Só o Mestre Raffaelli pra nos iluminar sobre esse Acea.
E atenção: acabo de colocar postagem novíssima no blog, sobre o Jimmy Giuffre.
Quanto à sugestão, vou pensar. O problema é virem do Além mais do que simples jazzistas :-)
Abração!

José Domingos Raffaelli disse...

Estimado correligionário Predador,

Suas bondosas palavras me emocionaram bastante, mas não sou merecedor delas, em absoluto.
Caso eu fosse 1/100 do que você, nosso Gran Master Boss Érico, Sérgio Sonico e outros participantes desta confraria, não teria sido escorraçado do Globo como fui. Na ocasião, o então editor justificou a dispensa com uma frase que jamais esquecerei: "O motivo da sua demissão é porque essa grande porcaria que você gosta e escreve, ninguém lê e ninguém gosta porque é uma grande porcaria..."

Em tempo: em vez de "porcaria", ele mencionou outra palavra bastante utilizada em nosso país que jamais reproduziria aqui, mas tenho certeza de que odos que lerão este email adivinmharão facilmente qual é...

Bom fim de semana, grande abraço a todos e keep swinging,
Raffaelli

José Domingos Raffaelli disse...

Estimado correligionário Predador,

Suas bondosas palavras me emocionaram bastante, mas não sou merecedor delas, em absoluto.
Caso eu fosse 1/100 do que você, nosso Gran Master Boss Érico, Sérgio Sonico e outros participantes desta confraria, não teria sido escorraçado do Globo como fui. Na ocasião, o então editor justificou a dispensa com uma frase que jamais esquecerei: "O motivo da sua demissão é porque essa grande porcaria que você gosta e escreve, ninguém lê e ninguém gosta porque é uma grande porcaria..."

Em tempo: em vez de "porcaria", ele mencionou outra palavra bastante utilizada em nosso país que jamais reproduziria aqui, mas tenho certeza de que odos que lerão este email adivinmharão facilmente qual é...

Bom fim de semana, grande abraço a todos e keep swinging,
Raffaelli

PREDADOR.- disse...

Mestre Raffaelli, a sua dispensa de O Globo não significou obviamente, que você não era um emérito conhecedor do jazz. Naquela época a "nossa música preferida" estava em baixa, os hits musicais erão outros e o "editorzinho insensível", certamente achou por bem, embora desavisadamente, pelo menos para nós leitores, eliminá-la do jornal. Então, meu caro, sobrou p'ra você. Mas, este fato não desmereceu a sua conduta como jornalista/crítico musical, nem o seu valor como profundo conhecedor das "coisas" do jazz. A "grande porcaria" continua motivando-nos até hoje e esperamos contar com suas sábias intervenções no blog de mr.Cordeiro, ensinando-nos e relatando-nos as particularidades dos bastidores do jazz, que você teve o privilégio de vivenciar.(Quem sabe não vem um livro por aí?). Você, mr.Raffaelli, continuará sendo o nosso Grande Mestre e, parafraseando um ex-presidente: "não nos deixem sós"!

PREDADOR.- disse...

No comentário acima onde se lê erão leia-se eram. Please excuse

José Domingos Raffaelli disse...

Caríssimos confrades,

Mais uma vez reitero meus profundos e sinceros agradecimentos pelas bondosas e gentis palavras com que imerecidamente me elogiam. A vida nos ensina muitas coisas e procuramos tirar proveito dos ensinamentos que os anos vão nos proporcionando e uma das melhores coisas que a vida ensinou-me é que devemos ser eternamente gratos a todos os verdadeiros amigos que convivem de uma forma ou de outra conosco.

Minha convivência com todos vocês tem sido altamente positiva, proveitosa, muito feliz, aprendendo com ela inúmeras lições sobre a educação, a amizade, a comunhão de pensamento, a união e o alto grau da verdadeira amizade que os seres humanos podem alcançar quando há boa vontade e, sobretudo, porque queremos sempre convergir nossos pontos de vista e nossos pensamentos a um denominador comum, ou seja, estreitar cada vez mais nossa amizade.
A essa altura da vida, agradeço a Deus participar desse grupo de pessoas tão inteligentes, tão amáveis e tão condescendentes comigo, um ancião cansado de guerra em meio a um exército de jovens esbanjando entusiasmo, idealismo e vontade indomável de aumentar seus conhecimentos a cada dia estreitando os laços de amizade nos comentários, análises, indicações, críticas e demais aspectos da gloriosa "música dos músicos" - o jazz -, que afinal é o motivo principal que nos une e proporciona todos esses maravilhosos encontros que desfrutamos com emoção, amizade e felicidade.

Obrigado por tudo e KEEP SWINGING EVERYBODY,

Raffaelli

José Domingos Raffaelli disse...

Dear Gran Master Boss Érico,

Com grande atraso, pelo que me desculpo, aí vão as informações solicitadas sobre o CD Xanadu do Duke Jordan com Cecil Payne e Teddy Edwards:

DUKE JORDAN WITH CECIL PAYNE & TEDDY EDWARDS (Lançado há anos na França sem autorização do Don Schlitten, que processou a gravadora EPM)

Há faixas de trio com Duke Jordan, Sam Jones e Al Foster (I Should Care, That Old Black Magic, Mean to Me, Imagination)

Com Duke, Cecil Payne e rítmo em Egg Head, Cu-Ba, I Want To Talk About You (quem disse que o barítono não pode ser lírico?), Jordu, No Problem,

Com Teddy Edwards, Cecil Payne, Duke Jordan, Larry Ridley e Freddie Waits em Sunset Eyes, One to One, Stella by Starlight, e outros. (na verdade, não tenho a capa do CD comigo neste momento.

Peço licença para explicar a razão de haver-me referido a Don Schlitten como "meu amigo".
Nos idos dos anos 90, meu amigo Jonas Silva, proprietário da gravadora Imagem (que lançou dezenas de LPs de jazz no Brasil), ao saber que eu iria a New York solicitou-me entrar em contato com Don Schlitten para tentar conseguir um contrato da Xanadu com a Imagem. Chegando à Big Apple, telefonei ao Don explicando que desejava marcar um encontro para copnversarmos sobre a possibilidade de ele ser representado no Brasil pela Imagem.
Um tremendo boa praça e sabendo que no Brasil havia fesival de jazz, imediatamente convidou-me para ir ao seu encontro. Em vista de sermos (eu e ele) jazzófilos até a medula, o que deveria ser apenas um encontro de negócios transformou-se num papo jazzístico interminável. No final do meeting, inteiramente receptivo, ele deu-me todas as coordenadas para a Imagem representar a Xanadu, colocando os pingos nos iiis, deixando claro que só faltava o Jonas concordar para a Xanadu ser reprsentada no Brasil. (Evidentemente, Jonas urrou de alegria quando telefonei-lhe dando as boas novas). Ao despedir-me de Don, ele não somente convidou-me para almoçar com ele no dia seguinte, como ainda de quebra, deu-me uns 30 LPs do catálogo Xanadu (nesse momento eu quase urrei de alegria....).
O resto todos sabem, Jonas lançou "n" LPs Xanadu e eu comentava todos no Jornal do Brasil, o que dava enorme satisfação ao Don, pois o Jonas enviava-lhe os recortes do jornal.
Mas, o CD apareceu no mercado e o LP passou a ser inteiramente marginalizado, encalhando sennsivelmente as vendas. Por outro lado, Don recusou ofertas de outras gravadoras para editarem seus LPs em CD. Em outra ida a New York, ele me disse taxativamente: "Nunca irei negociar meus discos, que são muitíssimo bem gravados, para serem lançados em CD porque sei que eles irão distorcer o som perfeito dos meus LPs".
E assim, pelo que sei, aos poucos desapareceu a Xanadu do mercado. A tal EPM francesa andou lançando vários álbuns Xanadu, mas tudo pirataria porque o Schlitten não recebeu um centavo do que saiu na França. Daí o motivo dele processar a EPM, mas eu nunca soube se foi bem sucedido.
Keep swinging,
Raffaelli

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