Amigos do jazz + bossa

sábado, 9 de maio de 2009

SOB AS BÊNÇÃOS DE BILAC: UM COMETA MUSICAL CHAMADO LOUIS SMITH


Imagine um cometa cruzando o vazio celestial a uma velocidade de milhares de quilômetros por segundo, deixando à sua passagem um breve e luminoso rastro de poeira de estrelas. Podem se passar anos até que esse solitário viajante das galáxias retorne à sua morada de origem, mas um dia ele assim o fará, para que a harmonia possa, finalmente, reinar na impalpável cartografia do cosmos. Enquanto isso não ocorre, haverá de enriquecer a mitologia dos lugares por onde passa, servindo de inspiração, quiçá, para toda a sorte de poetas, seresteiros, namorados...


Na geografia cósmica do jazz, muitos foram os cometas que por aqui passaram e que retornaram, tão fugazmente, às suas moradas celestiais – onde as jam sessions, assim como o bourbon, nunca terminam e os neons nunca se apagam. Foi assim com Charlie Christian, Fats Navarro, Clifford Brown, Scott La Faro, Booker Little, e incontáveis outros. Todavia, existe uma categoria muito especial de cometas jazzísticos, que permanecem em um intrincado limbo de retraimento e obscuridade – alguns por opção, outros tantos por força das circunstâncias. Assim aconteceu com a fenomenal Alberta Hunter, que depois de anos de dedicação exclusiva ao trabalho como enfermeira, retornou aos palcos e estúdios para retomar uma carreira vitoriosa – após um hiato de mais de 25 anos. O mesmo se pode dizer do grande Frank Morgan, que durante 30 anos lutou contra o pesadelo das drogas (entre 1955 e 1985 sofreu incontáveis condenações por porte e consumo de heroína e passou muitos anos na cadeia), até finalmente retomar as rédeas de sua vida e de sua carreira, num dos mais emocionantes comebacks do jazz.


Da mesma natureza astral, o cometa Louis Smith protagoniza um retorno aos holofotes dos mais surpreendentes – embora, infelizmente, não possa mais tocar, pois desde 2005 luta contra as seqüelas de um grave derrame que lhe reduziu a capacidade motora e lhe ceifou a fala. Redescoberto após o lançamento do magistral disco “Live At Newport ‘58”, de Horace Silver (que permaneceu inédito por inacreditáveis 50 anos), Louis Smith aos poucos sai das sombras a que havia se recolhido voluntariamente e vem, lenta mas progressivamente, ocupando o destacado lugar que é seu de direito no panteão dos maiores trompetistas do jazz. Tanto é verdade que o seu excepcional “Here Comes Louis Smith” voltou às prateleiras no ano passado.


Esse disco, um dos raríssimos liderados pelo trompetista, está entre as obras fundamentais do hard bop e traz em seus créditos uma verdadeira constelação: no piano, os legendários Tommy Flanagan e Duke Jordan (com 3 faixas para cada); no baixo, o ótimo Doug Watkins; na bateria, o sempre confiável Art Taylor; no sax alto, um certo Buckshot La Funke, que também atendia pelo singelo pseudônimo de Julian Cannonball Adderley (razões contratuais motivaram essa curiosa estratégia). Gravado para o selo Blue Note nos dias 4 e 9 de fevereiro de 1957 e relançado em 2008 com uma caprichada remasterização do mago Rudy Van Gelder, esse disco provoca no ouvinte a seguinte interrogação: teriam os deuses do jazz enlouquecido, ou por que outro motivo um sujeito com tamanho talento permaneceu tanto tempo no mais solene anonimato?


A razão, todavia, nada tem de misteriosa ou sobrenatural: foi o próprio temperamento de Smith – avesso às badalações e exigências do mainstream – que lhe impôs o ostracismo voluntário. O talentoso trompetista que já havia dividido o palco e os estúdios com Zoot Sims, Charlie Rouse, Kenny Burrell e Sonny Clarke, entre vários outros luminares, preferiu abdicar da ribalta para dedicar-se exclusivamente ao ofício de ensinar, tendo escolhido para si uma pacata vida de professor em diversas escolas da região de Michigan, inclusive chegando a lecionar na afamada universidade local. Nos últimos 40 anos gravou alguns pouquíssimos discos – concentrando toda a sua atenção e energia na formação de jovens músicos.


Voltando ao disco, nele se podem perceber claramente os predicados técnicos que fazem de Louis Smith um dos maiores expoentes do trompete. Exagero? Ouça “Tribute To Brownie” (composta por Duke Pearson), faixa de abertura desse extraordinário álbum e depois tire as suas próprias conclusões. Aqui não há espaço para intrincados labirintos harmônicos, apenas para o bom e (então) novo hard bop. A exuberância sonora do quinteto jorra aos borbotões, mas sempre com muita fluência, maestria e volatilidade. Fosse um corpo celeste e esse disco seria o incandescente Mercúrio, nunca o gélido Plutão.


O líder, cuja sonoridade redonda e encorpada lembra Clifford Brown, comparece com quatro composições suas, todas executadas em altíssima voltagem. “Brill’s Blues” é, por óbvio, um blues que parece extraído de algum obscuro recôndito do delta do Mississipi, com direito a um trabalho primoroso do baixista Watkins. Na estratosférica “Ande”, o velocíssimo dedilhado de Flannagan é acompanhado por um alucinado Smith, com direito, também, a um show todo particular de Taylor. “South Side” e “Val’s Blues” mantém a pegada, sendo que na primeira o solo de Smith é simplesmente antológico – o mesmo devendo ser dito do solo do feérico “Buckshot La Funke”. Na segunda, outra aula da dupla sax alto/trompete, que trava entre si, durante toda a música, um caudaloso diálogo – à seção rítmica incumbe manter os pés no chão e assegurar aos frenéticos cosmonautas uma aterrissagem tranqüila.


Bilac, que conhecia as estrelas e até conversava com elas, certamente haveria de surpreender-se com a altivez do nosso cometa, ao recusar os possíveis louros de uma carreira que se afigurava brilhante. Talvez até mesmo dissesse ao resoluto trompetista, ao falar sobre os insondáveis mistérios astrais, “Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas”. Portanto, que seja bem-vindo aos corações e prateleiras dos jazzófilos, venerável Louis Smith, e que possa receber em vida todas as flores de que é merecedor.


Ah sim!, quanto àquela história de poeira de estrelas deixada pelos cometas... Não é por coincidência que o cintilante rastro deixado por esse músico extraordinário se apresente sob a forma sonora de uma comovente interpretação da emblemática “Stardust”. É – parece que os deuses do jazz não estavam tão malucos assim.

21 comentários:

John Lester disse...

Prezado, gostaria de convidá-lo a participar de nossa festa de aniversário.

Grande abraço, JL.

Érico Cordeiro disse...

Grande Lester,
parabéns duplo: pela condução impecável da nave jazzseen e pela belíssima aquisição de Mr. Serralho.
Vida Longa e próspera a esse oásis de bom gosto, inteligência e bom humor.
PS.: Dá uma dica sobre a (ótima) música do teste jazzseen.
Abs

Jarbas Couto e Lima disse...

Querido Érico,

Como é agradável o ambiente do seu blog!!! Blog? Senti o clima dos bares defumados com boa música. Até desejei uma taça de vinho. Melhor do que isso só o seu profundo conhecimento do mundo do jazz. Quando se lê seus belos artigos, vê-se o quanto você exagerou na modéstia sobre seu conhecimento de jazz.
Parabéns! Voltarei sempre!
Um abraço!
Jarbas

Érico Cordeiro disse...

Querido Jarbinha,
Prazer recebê-lo aqui no jazz + bossa. Obrigado pelas palavras generosas - você, como bom fidalgo, é muito gentil.
Venha sempre, a casa é sua.
Forte abraço

Fafá disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fafá disse...

Bom, lendo essa maravilha de texto(como tu escreves bem né menino?), fiquei pensando no monte de provavéis cometas, estrelas e tudo mais que, sei lá, apareceram ou aparacerão, advindos dessas aulas dedicadas e das influências que causaram.
Viajei?
Concordo plenamente com o amigo querido Jarbas, "Senti o clima dos bares defumados com boa música. Até desejei uma taça de vinho..."
Bj e até daqui à pouco.

Érico Cordeiro disse...

Valeu, comadre.
Você tava certa! Esse lance de blog é muito legal. Outras viagens hão de pintar por aí.
Beijo grande.

Salsa disse...

Que som límpido, hein? Cristalino como poucos. Emocionante.

figbatera disse...

Caraca! Que trompete fabuloso!
E a resenha, como sempre, muito boa.

figbatera disse...

ps.: Vc não tem um link para download?

Érico Cordeiro disse...

Caríssimos Figbatera e Salsa,
Que bom que vocês curtiram o som. Não tenho link porque essas músicas que eu posto são da minha coleção particular mesmo. Na verdade, não sei nem como se baixa música - sou meio antiquado nessas coisas, gosto de manusear o cd, ler a ficha técnica, etc.
Mas se você quiser, posso tentar comprimir os aquivos e mandá-los por e-mail. O meu é ericoserra@uol.com.br - me escreve e eu tento te mana, ok?
Forte abraço!

roberto pires disse...

Caro amigo Érico, nos encontramos no supermercado e como prometido tô aqui na primeira oportunidade.
Que agradável surpresa ver publicado todo o conhecimento que eu sabia voce tem também sobre essa maravilha divina chamada música.
Música de qualidade, seja qual ritmo seja.
Eu, como humilde conhecedor de pouquissimos períodos e ainda mais parcos ritmos, me deliciei com suas narrativas, aliás, acho que o TRT tem em voce e James um "que" de sensibilidade que somente a música em sua essencia poderiam marmorizar.
Já estás nos meus favoritos, virei sempre aqui, pode ter certeza.
Grande abraço
Roberto Pires

João Bouères disse...

Prezado Érico,
Conheces a minha incursão no mundo fenomenal da música. Há muito eu já não ouvia o jazz com muita frequência, apesar de uma vez ou outra comprar um CD/DVD, alguns indicados por ti. Mas lendo os teus impecáveis relatos e ouvindo as músicas postas por ti, reacendeu em mim a velha chama, fazendo eu estar à procura dos intérpretes inclusos neste blog.
Continuo à tua espera para a sessão musical.
Forte abraço.

Érico Cordeiro disse...

Caros Roberto e João Bouéres,
Desnecessário dizer do apreço que tenho por ambos e da paixão comum que nos une, que é a música.
O maior barato de poder compartilhar essa paixão é, justamente, poder reencontrar velhos e queridos amigos, pessoas de uma sensibilidade ímpar e a cujo convívio posso retornar, agora que estou, digamos, assentado temporariamente em São Luís (pelo menos até dezembro de 2010).
Obrigado pela visita e pelas palavras,
A casa é de vocês - sejam mais que bem-vindos!
Um abraço fraterno.

Celijon Ramos disse...

É significativamente bela a execução desse moço. Ainda não o conhecia.Obrigado por compartilhar.

Érico Cordeiro disse...

Caro Celi,
Obrigado a você, por prestigiar a casa!
Beijo grande!

José Domingos Raffaelli disse...

Caros correligionários,

Há anos comprei esse disco (ainda na era do LP) do Louis Smith, que me agradou bastante e além disso, tem a participação majestosa de DUKE JORDAN. Depois comprei o CD.
Uma observação: "Tribute to Brownie", de Duke Pearson foi plagiado anos depois por um músico paulista (no momento não lembro o nome, mas tenho anotado em casa - estou no escritório do meu filho) em "Tributo para Clifford Brown" - até o título o sujeito plagiou....
Abraços,
Raffaelli

José Domingos Raffaelli disse...

Amigos,

Acabei de verificar que enganei-me no título: É "Hohomenagem a Clifford Brown", e não Tributo a Clifford Brown. Foi gravado num LP do Sambalanço Trio (Audio Fidelity) e o "autor" foi Dorimar Vasconcelos. Temas:

1 Samblues (César Camargo Mariano)

2 Balanço Zona Sul (Tito Madi)

3 O morro não tem vez (Jobim - Vinicius)

4 Nós e o mar -Menescal - Bôscoli)

5 Homenagem a Clifford Brown
(Dorimar)

6 Berimbau (Baden Powell - Vinicius de Moraes)

7 Jacqueline K (Heraldo Correia)

8 Consolação (Baden Powell - Vinicius de Moraes)

9 O amor que acabou (Chico Feitosa - Luiz F. Freire)

10 Pra que chorar (Baden Powell - Vinicius de Moraes)

11 Marisa (César Camargo Mariano)

12 Sambinha (Humberto Clayber - César Camargo Mariano)

Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Mestre Raffaelli,

Que memória prodigiosa a sua (e que coisa feia essa do Mr. Dorimar). Tenho um cd do Sambalanço Trio, chamado Reencontro com Sambalanço Trio (gravado em 1965 e relançado pela Som Livre na série Som Livre Masters).
Um ótimo disco e o trio era composto por César Camargo Mariano (piano), Airto Moreira (bateria) e Humberto Clayber (baixo) - só fera. Dentre as músicas, uma bela versão de Step Right Up, de Oliver Nelson.
Um afetuoso abraço!

José Domingos Raffaelli disse...

Caro Érico,

Minha memória já foi prodigiosa, porém com o tempo foi-se desgastando e hoje não é a sombra da que foi, infelizmente, mas ainda dá para algum gasto.

Você e os demais participantes deste blog talvez não acreditem no que vou mencionar a seguir: em minha longa vida de jornalista na área musical e ouvinte compulssivo de jazz e outros estilos (bossa nova, MPB, música italiana, bolero, etc, etc. inclusive fui o primeiro na imprensa brasileira a escrever sobre bossa nova) cataloguei mais de 400 plágios - todos comprovados através de gravações feitas por mim dos plágios e suas respectivas fontes. Certa vez, conversando com meu editor do Globo a respeito, ele incitou-me a escrever um artigo sobre isso, mas declinei na hora porque a maioria desses plágios foram feitos por grandes nomes da música brasileira e logo os eternos patrioteiros de plantão cairiam em cima de mim com as habituais alegações que "está querendo aparecer" e outras acusações desse tipo. Vocês ficariam estarrecidos com a relação desses plágios, cujos autores, entre outros, são nomes dos mais venerados e idolatrados da música brasileira. Por isso, não os mencionarei, mas, para terem uma idéia, entre inúmeros plágios estão "Cidade Maravilhosa", "Oh! Minas Gerais", "Tá chegando a hora", "Garota de Ipanema", Insensatez" e muitas mais. Fico por aqui desejando que nenhum patrioteiro de plantão venha a rebater essa afirmação, mas, ainda que o faça, não responderei para não tumultuar o clima amistoso deste importante blog.
Para concluir, há muitos anos, quando trabalhava no Jornal do Brasil, o xenófobo crítico José Ramos Tinhorão (que odiava música estrangeira, especialmente jazz, e, por extensão, também me odiava), constantemente fazia umas gracinhas comigo nas reuniões de pauta do JB, indagando se já recebera meu salário no Consulado Americano por escrever sobre jazz. Numa dessas reuniões, admoestado por Paulo Henrique Amorim, então editor do Caderno "B" (atualmente na TV Record) e amante do jazz, Tinhorão insurgiu-se e ofendeu-o com palavras de baixo calão, sendo imediatamente demitido. Isso foi em 1980 e, desde então, nunca mais trabalhou em qualquer veículo da imprensa nacional.

Esperando que este post não seja mal interpretado, desejo-lhes bom fim de semana com meu fraternal
abraço. Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Caro Mestre Raffaelli,

Tinhorão, com seu sectarismo irracional e seu nacionalismo doentio, virou uma personagem folclórica, um Policarpo Quaresma da crítica musical (esquece-se ele que os negros vieram da África e os portugueses da Europa - assim, búsica brasileira "pura" só aquela feita pelos xavantes, tupis, etc). Jamais terá esse notório ranzinza a emoção sublime de se deleitar com uma canção de Gershwin ou um solo de Parker - pior prá ele!
Quanto a essa questão dos plágios, é uma matéria muito interessante, embora, decerto, seja como mexer num vespeiro.
Agora, que Copacabana é extremamente parecida com I'll Remember April, isso ninguém pode negar.
Um grande abraço e obrigado por dividir conosco o seu precioso tempo e o seu infinito conhecimento.

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