Amigos do jazz + bossa

terça-feira, 12 de maio de 2009

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS


Há um certo consenso entre a crítica, de que os mais influentes saxofonistas do jazz foram, em uma ordem cronológica razoavelmente precisa, Coleman Hawkins, Lester Young, Charlie Parker, John Coltrane e Sonny Rollins. Hawkins deu ao saxofone, até então relegado a mero acompanhante nas bandas e orquestras, o status de instrumento da linha de frente do jazz. Young adicionou doçura e lirismo ao sax jazzístico e, com seu fraseado sensível, sugeriu os caminhos que, mais tarde, seriam desbravados pelos músicos da escola cool. Parker, talvez o maior de todos, promoveu a revolução do bebop, criando uma linguagem harmônico-melódica toda peculiar e inovadora. Coltrane sintetizou a influência de todos os seus antecessores e apontou os caminhos para o futuro do saxofone jazzístico, levando as possibilidades harmônicas do instrumento até as fronteiras da Via Láctea. E Rollins?

Theodore Walter “Sonny” Rollins foi, é e será sempre uma força da natureza, o músico que simboliza o total abandono às coisas materiais para se dedicar – única e exclusivamente – ao aperfeiçoamento de sua arte. Não é à toa que tenha passado quase dois anos sem gravar ou se apresentar em público, apenas praticando e desenvolvendo seu toque, sob os olhares incrédulos dos que passavam pela ponte do Brooklyn, onde costumava se recolher para ensaiar. Sua relação com o saxofone se constrói em um plano espiritual, onde homem e instrumento se integram de forma tão estreita que acabam por se tornar uma coisa só. Seu fraseado incisivo é de uma virilidade incomum e seus solos conjugam força física, inteligência, habilidade técnica, inventividade, bom humor e velocidade.

Além da competência como músico, o talento superlativo de Sonny como compositor legou ao jazz canções imortais como “St. Thomas”, “Airegin”, “Doxi” e “Oleo”. O homem é um monstro e até hoje mantém-se ativo, com uma concorrida agenda de shows, apresentando-se em palcos do mundo inteiro. Seu disco “Saxophone Colossus”, de 1956, é uma obra-prima, presente em qualquer lista dos 10 álbuns mais importantes da história do jazz. Consagrou-se como músico ligado às escolas bebop e hard-bop, mas também flertou com o pop, o free jazz e a música oriental – sempre mantendo intacta a sua integridade artística.

Em março de 1957 gravou para a Contemporary um de seus discos mais interessantes – ainda que não tão conhecido quanto os incensados “Saxophone Colossus” e “The Bridge” – chamado “Way Out West”. A capa é um exemplo do humor sardônico do saxofonista: um Sonny Rollins vestido a caráter, em uma paisagem típica do oeste americano, se prepara para enfrentar sabe-se lá que perigos com o seu impávido saxofone. A foto é de autoria de William Claxton, célebre por fotografar grandes nomes do jazz. O repertório inclui canções com uma temática, digamos, “rural”: “I'm an Old Cowhand” (Mercer), “Wagon Wheels” (DeRose/Hill) e a própria “Way Out West”, composta por Rollins especialmente para a ocasião.

Gravado na Califórnia, Sonny dispensou o piano e convocou dois dos maiores expoentes do West Coast para acompanhá-lo: o baixista Ray Brown e o baterista Shelly Manne. A fim de compatibilizar as agendas dos músicos, as gravações foram realizadas às três da manhã, o que não causou qualquer problema, pois nesse horário o excêntrico saxofonista estava mais “quente” que nunca. E olha que calor foi o que não faltou àquelas sessões. Um dos (muitos) pontos altos do disco é “Come, Gone”, bebop de autoria de Rollins, na qual este exibe seu fraseado energético e dá um show de irreverência, versatilidade e improvisação, fazendo citações a outras músicas, como “Perdido”, sem perder o prumo.

Apesar do pouco tempo disponível para ensaiar, o trio toca com uma coesão e um swing impressionantes e boa parte do sucesso do disco se deve à excelência da sessão rítmica. Em “I'm an Old Cowhand” e em “Wagon Wheels”, por exemplo, percebe-se em algumas passagens uma discreta pincelada de reggae (isso bem antes do estilo ser inventado), com destaque para a soberba linha de baixo. A balada “There Is No Greater Love” ganha uma roupagem moderna, sem perder a emotividade, e a icônica “Solitude” merece uma versão à altura daquela imortalizada por Lady Day, com Sonny mostrando que também pode soar lírico e pungente, tanto quanto um Lester Young.

A despeito da eletricidade que percorre todas as faixas, a atmosfera do disco é bastante relaxada e despretensiosa. Nada de experimentalismos, nada de invencionices, nada de dilemas estéticos. São apenas três caras tocando e se divertindo – dividindo com o ouvinte a alegria e o prazer de fazer grande música. A nova edição em CD, remasterizada por Phil De Lancie, traz como brinde três faixas bônus: os takes alternativos de “I'm an Old Cowhand”, “Come, Gone” e “Way Out West”. Sem dúvida, um álbum precioso, fadado a ocupar um lugar de destaque em qualquer discoteca de jazz.

13 comentários:

Salsa disse...

A formação baixo, bateria e sax é um desafio para os músicos. Exige grande habilidade para manter a coesão entre harmonia, melodia e rítmo - qualquer vacilo (principalmente do baixo e da baetria) pode ser fatal. Rollins é um dos que ousaram nessa área e tornou-se modelo para diversos outros saxofonistas que surgiram. É som para mais de metro.

Érico Cordeiro disse...

É isso aí, mestre Salsa. O cara é um fenômeno! Engraçado é que você não sente a faltaa do piano - temanho o entrosamento dos caras.
Abração!

James Magno disse...

Sonny Rollins é realmente um 'colosso do saxofone'.
Imperdível, magistral, digno de todos os adjetivos possíveis a um dos grandes músicos de nosso tempo.
É um molosso!
abração
James

Érico Cordeiro disse...

Molosso Mor,
Que bom que você gostou. O próximo post será em homenagem a você e a Celijon (um dos pais espirituais deste modesto bloguinho).
Abraço grande e até daqui a pouco (8:20 eu tô passando por aí).

figbatera disse...

O quer mais dizer? Sensacional!

Érico Cordeiro disse...

Caro figbatera, esse é um disco prá se levar prá uma ilha deserta! Tem personalidade - é um clássico. Forte abraço.

Celijon Ramos disse...

O disco está tinindo. O sax dá uma idéia de densidade e de um som "quente" muito bem contraponteado pela suavidade da bateria e do baixo. Aliás, adorei o resultado alcançado pela junção dessa formação de trio , não muito usual. O resultado ficou cativante.

Abração!

Érico Cordeiro disse...

Falou e disse, meu caro Celi!
São três sumidades tocando e o disco é todo no mesmo (alto) nível.
Mais tarde, depois que a "turminha" der uma aquietada, vou postar uma nova resenha especialmente prá você e pro James. Tomara que vocês curtam.
Beijo grande!

Guzz disse...

beleza de blog, Erico !!

e como nosso amigo Salsa disse lá em cima, esse formato de trio é desafiador mesmo, exige muito do contrabaixista e do batera, não pode deixar espaço vazio, afinal não tem as vozes harmonicas de um piano ou até mesmo a guitarra.

Coltrane explorou esse formato no seu disco Lush Life; e o atual Joshua Redman gostou e já lançou seu segundo disco.

Som na caixa !!
Abs,

Érico Cordeiro disse...

Obrigado, Guzz.
E veja que mesmo Coltrane não embarcava tanto nesse formato, que exige tanto dos músicos, pois em duas das faixas do disco chamou logo Red Garland prá dar uma segurada. Aliás, essa é uma ótima sugestão para um futuro post, já que é um álbum não muito incensado (bem menos que o Giant Steps e o Blue Train, por exemplo), embora seja um dos melhores que ele lançou pela Prestige.
Grande abraço e volte sempre!

José Domingos Raffaelli disse...

Caros amigos,

Vejam a que ponto chegou a situação dos músicos de jazz.

Assustador: veja só, quem diria que Sonny Rollins está passando
dificuldades ? No site dele, por não vender mais discos, ele está
vendendo seus próprios CDs e a transcrição dos seus solos. Quem se
interessar em comprar seu CD mais um dos seus solos transcritos, bastar enviar-lhe U$ 13.95!! A que ponto chegou a situação para o célebre
"Colosso do Saxofone" !!! Onde tudo isso vai parar ?

Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Mestre Raffaelli,
Talvez não seja nem tanto problema financeiro, mas sim a possibilidade de efetivamente vender cds, haja vista a prática dos downloads. Com efeito, o Sonny ainda faz uma considerável quantidade de shows e acho que ainda atua como sideman.
O site do Jim Hall e o do Jimmy Heath também possuem ofertas dessa natureza.
Abração!!!!

Grijó disse...

Esse foi um dos primeiros grandes discos de Rollins que ouvi, comprado na Tower nova-iorquina a um precinho bem camarada, junto com a ópera rock "Tommy" e "Olé", de Coltrane.

É um disco fenomenal, e com o tema There's no greater Love", sobre o qual postei. Mas há um ponto. Como é um disco dos anos 50, pareceu-me que Rollins ainda não tinha se deixado contaminar por congas e baticuns que, a meu ver, só prejudicaram seu som. E a capa? De uma ironia típica de SR.

E, claro, sem deixar de falar de Ray Brown que, mesmo às 3 da manhã (dizem que, quando podia, dormia com as galinhas), fez um excelente trabalho.

Abraço.

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