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sexta-feira, 16 de abril de 2010

UM MESTRE NA PERIFERIA DO CAPITALISMO




Único músico brasileiro a dominar completamente o idioma jazzístico moderno, indo do bebop parkeriano ao mais ousado free com a mesma naturalidade e competência, o carioca Victor Assis Brasil nasceu no dia 28 de agosto de 1945. No mesmo dia e local, com uma diferença de apenas cinco minutos, nascia o seu irmão gêmeo, o pianista João Carlos Assis Brasil.

Sempre incentivado pela família, Victor, desde muito cedo, revelou um talento musical fora do comum e seu primeiro instrumento foi a gaita. Embora fosse autodidata, a seriedade com que se dedicava à música fazia com que o garoto copiasse os solos de saxofonistas e trompetistas de jazz, que ouvia com devoção, para reproduzi-los na gaita. Aos 12 anos, recebeu de presente uma bateria e passou a se dedicar com o mesmo empenho ao novo instrumento.

Quando fez 17 anos, ganhou de uma tia um saxofone alto e, com isso, começou a se aventurar com enorme paixão e intensidade pelas veredas abertas pelos ídolos Charlie Parker, Cannonball Adderley, Phil Woods e John Coltrane. Deslumbrado com as possibilidades do novo brinquedo, que casava à perfeição com a sua fabulosa musicalidade, o jovem saxofonista passava horas praticando, incansavelmente, e, a partir daí, teve a inabalável certeza de que a música seria um elemento determinante em sua vida e nela haveria de se enraizar profundamente.

Victor começou a tocar, basicamente, em reuniões familiares e em shows nas escolas da Zona Sul carioca, como os tradicionalíssimos colégios Andrews, onde estudava, e Benett. Em pouco tempo, já era capaz de encarar as concorridas jam sessions do lendário Beco das Garrafas, especialmente nas boates Little Club e Bottles, onde atuava a nata da música instrumental brasileira, além de cantores como Leny Andrade, Claudete Soares, Elis Regina, Pery Ribeiro e Wilson Simonal.

A reputação de exímio improvisador só aumentava e um dos primeiros músicos a reconhecer o talento do jovem saxofonista foi Paulo Moura, que tomou-o sob sua proteção e foi seu primeiro professor de teoria musical, ajudando-o a refinar a sua fabulosa técnica. Ao mesmo tempo, preocupado com as incertezas da vida musical, foi aprovado no vestibular para o curso de Direito, na Universidade Cândido Mendes, mas nunca chegou a concluí-lo.

Em 1965, quando alguns jornalistas, críticos musicais, radialistas e músicos cariocas criaram o Clube de Jazz e Bossa, coube a Victor a honra de protagonizar o show que marcou a inauguração do clube, realizado na boate Gaslight. O clube, na época, era presidido pelo jazzófilo Jorge Guinle e dentre os seus associados constavam nomes como José Domingos Raffaelli, Ricardo Cravo Albin, Luiz Orlando Carneiro, Ary Vasconcelos, Everardo Magalhães Castro e Silvio Túlio Cardoso. Suas reuniões eram realizadas, inicialmente, no Golden Room do Hotel Copacabana Palace, aos sábados, e, posteriormente, na boate Little Club, aos domingos.

Naquele mesmo ano, durante uma de suas apresentações no CJB, Victor foi ouvido pelo pianista e maestro austríaco Friederich Gulda, ele próprio um grande admirador e intérprete de jazz. Impressionado com o talento do saxofonista, o maestro incentivou-o a participar do Concurso Internacional de Viena, em 1966, onde Victor recebeu um honroso terceiro lugar, na categoria de saxofone.

O júri, integrado pelo próprio Gulda e por feras do calibre de J. J. Johnson, Cannonball Adderley e Joe Zawinul, deu a vitória a Eddie Daniels, bem mais experiente e então um destacado integrante da Thad Jones-Mel Lewis Orchestra. Posteriormente, Daniels tocaria com uma plêiade de grandes jazzistas, como Yuse Lateef e George Benson, e se consagraria como clarinetista, chegando a ser comparado a Benny Goodman e Buddy DeFranco, pelo apuro técnico e pela inventividade. Mas aquele terceiro lugar, obtido pelo jovem instrumentista brasileiro, que mal havia completado 21 anos, foi crucial na manutenção de sua auto-estima e de suas convicções musicais.

Aproveitando a oportunidade na Europa, onde ficou por quase um ano, Victor dedicou-se ao estudo de teoria musical e composição. Na mesma viagem, e de forma ainda mais surpreendente, o brasileiro foi eleito o melhor solista do Festival de Jazz de Berlim, que lhe renderia como prêmio uma bolsa de estudos na prestigiosa Berklee School of Music, nos Estados Unidos.

Victor gravou seu primeiro disco, chamado “Desenhos”, em 1966, para o pequeno selo Forma, secundado pelo pianista Tenório Júnior, pelo baixista Edison Lobo e pelo extraordinário Chico Batera. Trata-se de um verdadeiro marco na história da música instrumental brasileira saudado pela crítica especializada como “o primeiro grande disco de jazz gravado no Brasil” e que, infelizmente, se encontra fora de catálogo há vários anos.

O segundo LP, “Trajeto”, seria lançado em 1968, antes de sua partida para os Estados Unidos, e obteve ótima repercussão de crítica e público, especialmente do chamado circuito universitário. Naquele ano, Victor liderou um sexteto onde despontavam jovens instrumentistas como o pianista Haroldo Mauro, de apenas 18 anos e o tenorista Ion Muniz, então com 19 anos, fizeram a turnê “Calmalmas”. O grupo realizou concorridos shows em teatros e universidades país afora, apresentando o jazz a pessoas que, habitualmente, tinham muito pouco contato com esse tipo de música.

Marco na trajetória do saxofonista, foi a apresentação do seu sexteto, juntamente com o Quinteto Villa-Lobos e a companhia de dança de Sandra Diekens, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, ainda em 1968. Sobre a importância de levar sua música às pessoas e formar um público interessado em jazz, Victor chegou a afirmar: “Ninguém avalia a minha felicidade diante de um garotão de cabelo parafinado, quieto, ouvindo minha música sem amplificadores”.

Em 1969, mais uma façanha internacional: foi considerado o melhor saxofonista do festival de Festival de Montreux, liderando um quinteto que contava com os fabulosos Dom Salvador (piano), Hélio Delmiro (guitarra), Edison Lobo (baixo) e Edison Machado (bateria). Em seguida, Victor partiu para os Estados Unidos, a fim de estudar em Berklee, onde ficou por cinco anos, aprimorando sua técnica e estudando, sobretudo, harmonia, arranjo e composição.

Na terra de Tio Sam, o saxofonista conseguiu um razoável destaque no concorrido cenário jazzístico – reza a lenda que, após ouvi-lo, um dos seus professores em Berklee, abismado com o seu nível técnico, teria lhe perguntado: “Você veio aos Estados Unidos para aprender ou para ensinar saxofone?”. Para ajudar a se manter, o saxofonista dava aulas de improvisação na J. D. School of Music, em Boston.

Ao longo da sua carreira, Victor tocou com nomes importantes como Dizzy Gillespie, Jeremy Steig, Red Mitchell, Albert Mangelsdorff, Slide Hampton, Richie Cole, Clark Terry, Chick Correa, Ron Carter, Jeff Gardner e Bob Mover, entre outros. Durante o período nos Estados Unidos, formou uma banda com músicos norte-americanos e brasileiros, onde se destacava o trompetista Cláudio Roditi.

Em 1970, durante suas férias, passou três meses no Brasil e aproveitou para gravar dois álbuns: “Victor Assis Brasil toca Antonio Carlos Jobim” (para o selo Forma), onde, pela primeira vez em disco, usa o sax soprano, e “Esperanto” (para o selo Tapecar), que somente foi lançado em 1974.

Produzido por Robert Quartin, o álbum “Victor Assis Brasil toca Antonio Carlos Jobim” (lançado em cd pela Atração Fonográfica) pode ser descrito como o encontro épico de dois titãs da música brasileira. Em comum, ambos possuíam uma incontida paixão pelo jazz e a aspiração de fazer uma música universal, sem perder de vista as peculiaridades harmônico-melódicas do samba e da bossa nova. Liderando um quinteto que contava com os mesmos músicos que o acompanharam em Montreux, no ano anterior, o saxofonista estava particularmente iluminado nesta sessão, gravada nos dias .

Solto de qualquer amarra estética e disposto a expandir as fronteiras do jazz e da música popular brasileira, Victor encontrou no repertório jobiniano o veículo mais que adequado para destilar a sua técnica invejável e a sua capacidade improvisacional aparentemente ilimitada. Perfeccionista ao extremo, jamais se contentava com um acorde que não fosse, no mínimo, irretocável.

Em “Wave”, tema que abre o disco, o arranjo torna o tema, por vezes, irreconhecível, sem jamais ofuscar-lhe a beleza. O fraseado do líder é prenhe de lirismo e criatividade, alternando os registros agudos e graves com o máximo de expressividade. O piano de Dom Salvador, outro improvisador nato, e a guitarra de Hélio Delmiro, preenchem todos os espaços da melodia e Edison Machado, soberano, mostra porque é um dos maiores bateristas brasileiros de todos os tempos.

“Só tinha de ser com você” rememora os gloriosos tempos do Beco das Garrafas, com um arranjo que reverencia todos os cânones do samba jazz. Bateria pulsante, com excepcional trabalho de pratos, baixo robusto, diálogos que beiram o impossível, discurso incisivo do saxofone e um piano ensandecido, dão a sensação de que o ouvinte se encontra em plena jam session dominical, na histórica boate Little Club.

Em “Bonita”, uma das jóias menos badaladas do repertório do maestro soberano, Victor se mostra senhor absoluto do vocabulário jazzístico, improvisando com extrema autoridade e com uma excepcional capacidade de concatenar o enorme fluxo de idéias de maneira lógica e coerente. Por outro lado, seu saxofone jamais soa mecânico ou cerebrino: sua música é feita com alma e emoção, apesar da elevada complexidade harmônica. Os parceiros que o acompanham compreendem essa intensa necessidade de expressão e jamais impões qualquer obstáculo ao vigoroso solista. Além do líder, outro destaque é Salvador, que aqui maneja, com competência ímpar, o órgão Hammond.

“Dindi” talvez seja a faixa mais arrojada do álbum, do ponto de vista estilístico, com uma introdução arrebatadora, a cargo de Salvador, novamente pilotando o Hammond. Os instrumentos vão se agregando aos poucos, primeiramente a bateria de Edison Machado, depois o etéreo sax soprano do líder, que após quase um minuto de improvisação livre começa a articular a melodia. Poucas vezes essa composição tão bela foi interpretada com tamanha ousadia, valendo destacar a guitarra à Wes Montgomery de Delmiro.

A delicada “Quartiniana”, feita em homenagem ao produtor Robert Quartin, encerra o álbum de maneira bastante tranqüila, com seu clima oriental minimalista. A reedição em cd, pelo selo Atração Fonográfica, traz, além da apresentação escrita pelo próprio Tom Jobim e que constava do LP, um emocionado e emocionante depoimento de Quartin, no qual revela a sua admiração pelo fabuloso músico e ser humano Victor Assis Brasil.

Mesmo sem concluir sua graduação em Berklee, Vitor retorna, definitivamente, ao Brasil em 1974 e decide retomar sua carreira profissional, já que era mais reconhecido no exterior do que em seu próprio país – fato que o magoava bastante. Vieram então novas turnês e apresentações pelo país, o álbum “Victor Assis Brasil Ao Vivo no Teatro da Galeria” (CID) e uma marcante participação na trilha sonora da novela O Grito, da Rede Globo, com a inclusão de quatro composições suas no disco.

Em 1976, sob a regência do maestro Marlos Nobre, apresenta a sua “Suíte para Sax Soprano e Cordas”, executada pela Orquestra Sinfônica Nacional, no templo da música erudita brasileira, a Sala Cecília Meireles. Em 1977, apresentou-se com o pianista Luiz Eça no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em um show histórico, que posteriormente seria lançado em disco.

No mesmo ano, fez shows ao lado do flautista norte-americano Jeremy Steig e, para coroar a sua obstinada luta pela causa do jazz, foi convidado por Art Blakey para ser o diretor musical do mítico Jazz Messengers – associação que, infelizmente, não se materializou, ante a ausência de tempo hábil para solucionar as intrincadas exigências legais e contratuais necessárias.

Em 1978, foi um dos destaques do I Festival de Jazz de São Paulo, deixando boquiabertos músicos como Chick Corea e Joe Farrell e merecendo rasgados elogios do crítico Leonard Feather, que, extasiado com sua performance, escreveu: “Victor Assis Brasil, um esplêndido saxofonista, não deixou que sua longa estada nos Estados Unidos confundisse seus valores, apresentando uma música firmemente plantada nos solos dos dois países. Seu ‘Love For Sale’ recebeu um tratamento altivo, contagiante, jamais incerto em seu senso de direção”.

No ano seguinte, apresentou-se no Festival de Jazz de Monterey e gravou seus dois últimos álbuns: “Victor Assis Brasil Quinteto” e “Pedrinho”, ambos pela EMI-Odeon. Victor foi um dos pioneiros na realização de workshops para jovens músicos e a sua influência pode ser sentida no trabalho de gente como Mauro Senise, Roberto Sion, Carlos Malta, Mané Silveira, Nivaldo Ornelas, Ivo Perelman, Zé Nogueira, Ion Muniz, Nailor Proveta e muitos outros.

Quando estava no ápice criativo e começava a desfrutar do merecido reconhecimento no Brasil, Victor Assis Brasil faleceu, vitimado por uma doença circulatória bastante rara, chamada periartrite nodosa, no dia 14 de abril de 1981, no Rio de Janeiro. Tinha apenas 35 anos. Seu legado, consistente em oito álbuns gravados no país e em mais de 500 composições, representa um dos momentos mais sublimes da música instrumental brasileira, capaz de ombrear-se à obra dos grandes mestres do jazz.

Após a sua morte, sua mãe conservou intactas, no apartamento da família, duas malas que havia encontrado no quarto do filho. Quando seu irmão, o pianista João Carlos Assis Brasil, decidiu abri-las, em 1988, deparou-se com centenas de partituras, que continham cerca de quatrocentas composições inéditas, compreendendo peças para piano solo, orquestra e quarteto de cordas, indo do jazz ao erudito, com uma nítida influência de compositores modernos como Satie, Debussy e Stravinsky.

O resultado dessa viagem afetivo-musical está contido no cd “Self Portrait”, lançado originalmente em 1990 pela Kuarup e relançado pela Biscoito Fino, no qual João Carlos se faz acompanhar por Paulo Sérgio Santos (clarinete e saxofone), Zeca Assumpção (contrabaixo) e Jurim Moreira (bateria). Dentre as 13 músicas escolhidas pelo pianista para compor o disco, destacam-se um tributo a Bill Evans, chamado “One for Bill”, e “Blues for Oliver”, composta em homenagem ao saxofonista e arranjador Oliver Nelson.

Em 2001, o guitarrista Alexandre Carvalho, o pianista Fernando Martins, o saxofonista Idriss Boudrioua, o contrabaixista Paulo Russo e o baterista Xande Figueiredo criaram o Quinteto Assis Brasil, dedicado à preservação da sua obra. Em 2005, ano em que Victor completaria 60 anos, o quinteto se apresentou, juntamente com o pianista João Carlos, na Sala Baden Powell, em um concerto em homenagem ao saxofonista.

Cioso de sua arte, Victor jamais se rendeu à ditadura do mercado ou aceitou submeter-se a contextos comerciais, apesar das eventuais dificuldades financeiras. Obcecado pela preservação da música de qualidade, costumava dizer que o jazz, no Brasil, só era pouco conhecido por causa da sua precária divulgação. Ele tocava apenas aquilo que lhe parecia relevante e sua honestidade, integridade artística e dedicação à música permanecem vivos, quase trinta anos depois de sua morte. Sobre ele, o querido José Domingos Raffaelli escreveu:

“Victor foi um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Tinha ainda muito a realizar, muito a oferecer, muitos projetos idealizados. Resta-nos o consolo da sua obra gravada. Uma obra inspirada, criativa e, acima de tudo, musicalmente honesta. Victor Assis Brasil deixou um grande vazio que não foi e dificilmente será preenchido, além de uma imensa saudade que não foi e não será amenizada no coração de todos os que tiveram a felicidade de conhecê-lo.”


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segunda-feira, 12 de abril de 2010

O INCANSÁVEL RAY BROWN



Raymond Matthews Brown nasceu no dia 13 de outubro de 1926, em Pittsburgh. Com apenas oito anos de idade, começou a estudar piano clássico, mas sem nenhuma empolgação. Também tentou aprender trombone, ainda na infância, mas sem qualquer sucesso. Na adolescência, resolveu se integrar à orquestra da escola e escolheu então o único instrumento disponível: o contrabaixo. Além da permuta de instrumentos, trocou também de ídolo: sai Fats Waller e entra Jimmy Blanton, que na época causava sensação na orquestra de Duke Ellington, graças à sua maneira revolucionária de tocar.

Tocando em gigs na cidade local, seu nome começou a ficar conhecido no meio jazzístico. Não obstante, somente começou a tocar profissionalmente depois de concluir o colegial, atendendo aos sábios conselhos da mãe. O primeiro emprego foi no sexteto de Jimmy Hinsley, com quem tocou por cerca de oito meses, passando a atuar na banda de Snookum Russell, sempre em Pittsburgh.

Pouco tempo depois, Brown decidiu tentar a sorte em Nova Iorque, onde chegou em 1945. Os deuses do jazz deviam gostar muito dele, pois logo em seu primeiro dia na Meca do Jazz participou de uma jam session, a convite de seu amigo Hank Jones, da qual participavam, simplesmente, Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Bud Powell, uma espécie de Santíssima Trindade do bebop.

Encantado com a técnica e a habilidade do jovem contrabaixista, Gillespie não perdeu tempo e o contratou para tocar em sua orquestra e em seus pequenos conjuntos. Na época, Ray já havia adicionado Oscar Pettiford e Slam Stewart ao rol de influências. Tocando com Dizzy, Brown conheceu Milt Jackson e John Lewis e com eles, e mais Kenny Clarke, participou da primeira formação do Modern Jazz Quartet.

Convidado por Norman Granz, integrou a caravana do Jazz At The Philharmonic, o que lhe deu enorme visibilidade. Tanto que chamou a atenção de Ella Fitzgerald, que o quis não apenas como contrabaixista, mas também como marido. Brown formou um trio (com Hank Jones no piano e Charlie Smith na bateria) para acompanhar a mulher, mas o casamento não não se sustentaria por muito tempo – os dois ficaram juntos de 1947 a 1952. Reza a lenda que nas gigs de que participava, ele chamava a atenção de todos, com seus alinhados ternos de 400 dólares (uma fortuna na época).

Separado de Ella, Ray se dedicou à carreira com ainda mais afinco. Tornou-se um dos mais requisitados músicos da época, gravando incessantemente com nomes como Frank Sinatra, Blossom Dearie, Stan Getz, Louis Armstrong, Charlie Parker, Coleman Hawkins, Sonny Rollins, Herb Geller, Hampton Hawes, Buddy DeFranco, Teddy Edwards, Tony Bennett, Phineas Newborn, Roy Eldridge, Tal Farlow, Sonny Stitt, Ben Webster, Billy Eckstine, Joe Venuti, Sonny Rollins, Sarah Vaughan, Lester Young, Fred Astaire, Lionel Hampton, Lee Konitz e muitos outros.

Sua associação mais profícua e, certamente, mais importante, foi com um pianista canadense que havia conhecido durante as excursões do projeto Jazz At The Philharmonic: o ultravirtuose Oscar Peterson. Foram cerca de 15 anos tocando no trio de Peterson, de 1951 até 1966, quando a parceria foi amigavelmente desfeita. No final dos anos 50, foi um dos professores da célebre School Of Jazz, em Lenox, Massachussetts e também dedicou-se ao aprendizado do violoncelo, gravando para a Verve o excelente álbum “Jazz Cello” (de 1960).

Outra associação importante, embora esporádica, foi com o guitarrista Barney Kessel e o baterista Shelly Manne, em um trio apropriadamente denominado “The Poll Winners”, que lançou alguns ótimos álbuns pela Contemporary, entre o final dos anos 50 e o início dos 70. Em 1964, Ray ganhou o Grammy de melhor composição de jazz por “The Gravy Waltz”, uma parceria com o pianista Steve Allen. Em 1966, mudou-se para Los Angeles, onde atuou como músico de estúdio, fazendo trabalhos para o cinema e a televisão.

Um dos seus trabalhos mais conhecidos foi a trilha sonora do desenho animado “O tamanduá e a formiga” (1969/1970), onde integrava uma banda all-star, que incluía Billy Byers, Pete Candoli, Shelly Manne e Jimmy Rowles. Também produziu shows no Hollywood Bowl e criou, juntamente com Jack Ackerman e Stanley Wilson, a trilha sonora para o filme “Husbands” (1970), de John Cassavetes, estrelado pelo próprio diretor e mais Ben Gazzara e Peter Falk.

Aliás, os anos 70 foram de intensa atividade para o baixista. Foi o escolhido por Duke Ellington para acompanhá-lo no fenomenal álbum “This One’s For Blanton”, um emocionante tributo a Jimmy Blanton, em 1972. Também foi um dos fundadores do grupo L. A. Four, com quem gravaria e excursionaria com regularidade entre 1974 e 1982. A seu lado, o guitarrista Laurindo Almeida, o saxofonista Bud Shank e o velho parceiro Shelly Manne, que em 1977 seria substituído pelo talentoso Jeff Hamilton (hoje muito conhecido, por integrar a banda da cantora Diana Krall).

Escreveu vários livros didáticos, sendo que um deles, “Ray Brown's Bass Method - Essential Scales, Patterns and Excercises”, é considerado obra de referência sobre o contrabaixo jazzístico. Também participou, como sideman, de inúmeros álbuns para a Concord e a Pablo, gravadora fundada e dirigida por Norman Granz. Reencontrou o antigo parceiro Oscar Peterson em vários concertos na edição do Festival de Montreux de 1977, onde ambos acompanharam nomes como Clarke Terry, Eddie Lockjaw Davis e Roy Eldridge. Todas essas apresentações foram lançadas em vídeo, pela série “Norman Granz' Jazz in Montreux”.

Um dos mais fantásticos discos do baixista é “Something For Lester”, que muitos críticos consideram um trabalho de transição entre aquilo que Ray fazia nos trios de Oscar Peterson e aquilo que viria a fazer em seus próprios trios nas décadas de 80 e 90. Curiosamente, o álbum foi gravado nos dias 22 e 24 de junho de 1977, mas somente foi lançado em 1979, como uma homenagem ao produtor Lester Koenig, fundador da Contemporary e falecido em 1977.

Ao lado de Brown, dois dos mais espetaculares músicos de qualquer era: Cedar Walton no piano e Elvin Jones na bateria. Walton, que também é um talentoso compositor, contribui com dois temas de sua autoria: a incendiária “Ojos de Rojo”, que abre o disco, e a não menos eletrizante “Something In Comon”.

Na primeira, que pode ser descrita como um bebop ortodoxo com discretas tintas latinas, são perceptíveis os ecos de Bud Powell e na segunda, cuja abordagem é mais contemporânea, há algo de Horace Silver, especialmente na forma como Walton percute as teclas do seu piano. Em ambas, a qualidade técnica dos músicos chega às raias da perfeição – Elvin chega a usar as escovas em “Something In Comon”, mas não abre mão de sua proverbial vitalidade e Brown é um portento, tanto no acompanhamento como nos admiráveis solos que comete.

No blues “Slippery”, de autoria do líder, o baixista fica à vontade para esticar as notas ao máximo, o que acarreta uma sonoridade volumosa e articulada. Sua fluência encontra eco na abordagem funky de Walton, forjada por anos nos Jazz Messengers. Jones revela a sua faceta lírica, priorizando o aspecto melódico em detrimento do rítmico, com um resultado surpreendente.

Uma das mais belas – e menos conhecidas – composições dos irmãos Gershwin, “Love Walked In” é uma balada em tempo médio, com uma extraordinária performance de Walton, que possui um domínio quase sobrenatural das 88 teclas. Brown e Elvin atuam com discrição, mas sem qualquer acanhamento, sendo que o vigoroso solo do líder merece uma audição mais atenta. Talvez a mais relaxada faixa do álbum, cuja inclusão foi sugerida pelo próprio Lester Koenig.

Dois standards dos mais notáveis – “Georgia On My Mind”, de Hoagy Carmichael, e “Little Girl Blue”, de Richard Rodgers e Lorenz Hart – ganham versões excepcionalmente belas. Na primeira, Brown conduz a melodia com a delicadeza de um ourives, até o momento em que o trio começa a subverter a harmonia da canção, impondo-lhe um andamento mais acelerado. Jazz da melhor estirpe, com improvisações ensolaradas e um Elvin Jones em estado de graça, enquanto a graciosidade do toque de Walton é inexprimível em palavras.

Na segunda, a introdução elaborada por Brown diz tudo acerca dos seus predicados técnicos: ele é, sem dúvida alguma, um dos maiores baixistas que o jazz já produziu em qualquer época. Meticuloso, o líder constrói cuidadosamente o arcabouço melódico, enquanto o piano e a bateria vão se insinuando pelas frestas da canção – decerto é a faixa mais lírica do disco.

Para encerrar, uma devastadora versão de “Sister Sadie”, clássico do hard bop de autoria de Horace Silver. O início é fabuloso, com Brown dialogando ora com Jones e ora com Walton. O trio atua com tamanho entusiasmo – o termo avidez seria mais apropriado – que dá uma nova dimensão à palavra groove. Pode parecer heresia, mas o ouvinte não chega a sentir falta dos metais em brasa de Junior Cook e Blue Mitchell, que dividiram o palco com Silver na versão original, no álbum “Blowin' the Blues Away”. Simplesmente fantástico!

Nos anos 80 e 90 Brown continuou a trabalhar compulsivamente, excursionando e gravando com a energia e o ânimo de um iniciante. Acompanhou com regularidade a cantora Ernestine Anderson e integrou a big band do pianista Gene Harris, que por sua vez retribuía a gentileza gravando diversos discos como sideman no Ray Brown Trio. Em 1992, recebeu o título de Jazz Master, conferido pela NEA – National Endowment for the Arts.

Seus trios, a bem da verdade, eram um celeiro de novos talentos. Por ali passaram, entre outros, pianistas como Benny Green, Monty Alexander e Geoff Keezer, bateristas como Jeff Hamilton, Karriem Riggins e Greg Hutchison, e guitarristas como Ron Eschete, Ulf Wakenius e Russell Malone. Os álbuns desse período foram lançados basicamente pela pela Concord e pela Telarc, que lançaria o formidável “Superbass” (1997), onde Brown, secundado pelos fiéis escudeiros Benny Green e Greg Hutchison, atua com dois de seus mais talentosos discípulos: John Clayton e Christian McBride.


Não é exagero afirmar que Brown elevou o contrabaixo jazzístico a um novo patamar de excelência e estendeu as possibilidades harmônicas do instrumento, tanto quanto o ídolo Jimmy Blanton havia feito na década de 40. Além disso, tocava com um prazer e uma entrega contagiantes. Tanto é que praticamente morreu sobre o palco: no dia 02 de julho de 2002 um ataque cardíaco fulminante abateu-o enquanto descansava, antes de um concerto, em Indianápolis. Por sua enorme folha de serviços prestados ao jazz, Brown foi indicado, postumamente, para o Jazz Hall of Fame da revista Down Beat, em 2003.


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quinta-feira, 8 de abril de 2010

BETWEEN THE DEVIL AND THE DEBUSSY



Não, não, não! O sujeito que você vê na capa do álbum “Looking Back” não é o ator Tim Robbins, embora a semelhança seja bastante grande. Na verdade, trata-se de um dos maiores pianistas da história do jazz, embora, lamentavelmente, não seja dos mais conhecidos: Steve Kuhn. Para se ter uma idéia de sua importância e de suas habilidades, foi o primeiro nome escolhido por John Coltrane, quando este decidiu abandonar Miles Davis e priorizar a sua carreira solo. A parceria não rendeu os frutos esperados e o nosso herói foi substituído por ninguém menos que McCoy Tyner.

Conheçamos um pouco mais sobre a vida e a carreira deste talentoso músico, nascido no dia 24 de março de 1938, em Nova Iorque. Sua família era de origem húngara e o garoto foi criado no Brooklin. Aos cinco anos já recebia as primeiras lições de piano clássico. Desde muito cedo, apaixonou-se pelo boogie-woogie (Meade Lux Lewis, James P. Johnson e Pinetop Smith são citados por ele como fundamentais em sua formação musical) e pelo jazz, que lhe chegavam pelas ondas do rádio, e costumava fazer improvisações sobre temas de Bach e Mozart, seus compositores favoritos, sendo que até hoje é comum em seus discos a inclusão de composições eruditas, interpretadas de maneira jazzística.

Os estudos prosseguiram na adolescência, agora em Boston, para onde sua família havia se mudado no início dos anos 50, sob a tutela da renomada educadora Margareth Chaloff, que o apresentou aos pianistas russos Vladimir Horowitz e Andrej Gavrilov. Naquela cidade, Kuhn envolveu-se intensamente com a cena musical, acompanhando, com inacreditáveis 14 anos, grandes músicos locais como Serge Chaloff (o talentoso baritonista, filho de Margaret e precocemente falecido em 1957), Herb Pomeroy, Joe Gordon e Charlie Mariano ou com visitantes ilustres como Coleman Hawkins, Chet Baker (que o convidou para excursionar em Paris, quando o pianista tinha apenas 15 anos, mas os pais deste, sabiamente, não permitiram) e Vic Dickenson.

Formado em Artes pela Harvard University, em 1959, Kuhn jamais abandonou sua paixão pelo jazz. Tanto é que, naquele mesmo ano, matriculou-se na mítica Lennox School of Music, tendo como colegas de turma Ornette Coleman, Don Cherry, Larry Ridley e o hoje esquecido Gary McFarland (um talentoso vibrafonista, compositor e arranjador, com quem Kuhn desenvolveria uma interessante parceria na década seguinte e que morreria, tragicamente, envenenado com metadona em 1971), e tendo professores do gabarito de John Lewis, Max Roach, Herb Pomeroy, George Russell, Ray Brown, Gunther Schuller, Milt Jackson e Bill Evans (talvez a sua influência mais evidente, juntamente com Lennie Tristano e Red Garland).

De volta a Nova Iorque, em 1959, o pianista foi convidado por Kenny Dorham para integrar sua banda. A associação durou quase dois anos, interrompida brevemente por conta de um convite irrecusável: em 1960, Steve foi procurado por John Coltrane, que na época montava o seu próprio quarteto e precisava de um pianista. Com o vistoso salário de 135 dólares por semana (então uma belíssima quantia, especialmente para um músico de jazz), Kuhn trabalhou com o saxofonista por cerca de dois meses, durante uma temporada no clube Jazz Gallery, no East Village.

Embora Kuhn fosse, do ponto de vista técnico, um pianista excepcional, não houve a esperada convergência de idéias e, musicalmente, a parceria não funcionou a contento. Todavia, a ruptura foi pacífica e ambos continuaram amigos – a seriedade que Trane devotava à música impressionou o jovem pianista tão intensamente que as poucas semanas de convívio seriam para ele uma lição para o resto da vida.

O substituto de Steve foi o fenomenal McCoy Tyner e o quarteto liderado por Coltrane entrou para a história do jazz como um dos mais poderosos e criativos combos de todos os tempos. Quase 40 anos depois, Kuhn prestaria uma emocionada homenagem ao saxofonista, ao gravar um álbum quase que inteiramente dedicado às suas composições, chamado “Mostly Coltrane” (ECM, 2009), ao lado de Joe Lovano, David Finck e Joey Baron.

Vida que segue, Kuhn voltou ao grupo de Dorham, juntando-se, em seguida, a Stan Getz (1961 a 1963) e Art Farmer (1964 a 1966). Sobre os tempos com Getz, que vivia um período de elevada popularidade, por conta de seus álbuns de bossa nova com Charlie Byrd, o pianista recorda: “Éramos tratados como pop stars”. Como sideman, dividiu palcos e estúdios com Pete La Roca, Oliver Nelson, Laurindo de Almeida, Scott LaFaro, Bob Brookmeyer, Bill Barron, Phil Woods, Lee Konitz, John Rae, Bobby Jaspar, Ray Brown, Grady Tate, Joe Henderson e outros.

Ao mesmo tempo, iniciava uma personalíssima carreira solo, formando seu primeiro trio ao lado de Steve Swallow e Pete LaRoca. Dois marcos em sua discografia são: “Country and Western Sound of Jazz Pianos” (Dauntless Records, 1963), onde fazia uma releitura jazzística de temas country e de blues como “Trouble In Mind”, ao lado da pianista Toshiko Akiyoshi, dos baixistas Dave Izenzon e John Neves, do guitarrista Barry Galbraith e do baterista Pete Laroca e o elogiado “The October Suite” (Impulse, 1966), uma hipnótica viagem pelo jazz e pela música erudita em parceria com Gary McFarland, compositor de todos e temas e responsável pelos arranjos.

Em 1967, desencantado com a cena musical norte-americana, sua elegância e sofisticação musical o impeliram para a Europa, fixando-se em Estocolmo. Ali, priorizou o aspecto composicional, flertou descaradamente com o jazz de vanguarda e começou a usar o piano elétrico e o sintetizador. Retornou aos Estados Unidos em 1971, tendo sido uma das principais atrações do Festival de Newport daquele ano. Em 1974 iniciou uma prolífica associação com o selo ECM, cujos discos contavam com as presenças de importantes músicos europeus e brasileiros, como Jan Garbarek, Arild Andersen ou Oscar Castro-Neves. Notável também a sua longeva parceria com a cantora Sheila Jordan, que renderia uma infinidade de concertos e alguns álbuns entre os anos 70 e 90.

A partir da década de 80, Kuhn retorna ao jazz mais ortodoxo e eminentemente acústico, montando alguns dos mais primorosos trios de sua carreira, por onde passaram luminares como os baixistas Ron Carter, Eddie Gomez, David Finck e Miroslav Vitous e bateristas do naipe de Al Foster, Buster Williams, Jack DeJohnette e Lewis Nash. A sua discografia inclui álbuns para selos como Blue Note, Evidence, Venus, Postcards Records e Concord, pelo qual lançou o estupendo “Looking Back”.

Gravado em outubro de 1990, no RPM Sound Studio, o álbum apresenta a costumeira qualidade sonora das produções da Concord e um repertório primoroso. Ao lado do pianista, os ótimos David Finck (baixo) e Lewis Nash (bateria), dois dos seus mais constantes parceiros nos anos 90. A faixa de abertura, que também dá nome ao disco, é uma composição do líder, muito bem assentada na tradição bop, com melodia rica, excelentes solos e uma discreta citação a “Moment’s Notice”, de Coltrane.

A reverencial “The Duke”, de Dave Brubeck, é interpretada com toda a liturgia que o autor e o homenageado requerem. Kuhn impõe algumas texturas orientais à sua interpretação, mas realça o caráter eminentemente bluesy do tema, com uma extraordinária atuação de Nash. Duas composições do brasileiríssimo Antônio Carlos Jobim (“How Insensitive” e “Zingaro”), ganham arranjos discretos e elegantes, mas que revelam a intimidade de Kuhn com a música brasileira.

Exímio executante de baladas, Kuhn extrai um lirismo quase dramático da belíssima “Stella By Starlight”, em uma interpretação pungente – econômica em alguns momentos – mas cheia de emotividade. Finck e Nash são dois estupendos acompanhantes e os solos de ambos, especialmente do primeiro, congregam uma técnica primorosa com a entrega e o arrebatamento exigidos pelo líder.

“Alone Together”, de Howard Dietz e Arthur Schwartz, é outro standard que já mereceu centenas de versões, e que aqui ganha um arranjo vivaz, colorido, mostrando que, para além do enorme gabarito técnico, Kuhn é um pianista intuitivo e sem qualquer tipo de preconceito musical, intercalando às sofisticadas harmonias da canção uma breve, porém marcante, citação a “Eleanor Rigby”, dos Beatles. O frenético Nash protagoniza um dos mais eloqüentes solos do disco, enquanto o baixo de Finck é pura vibração.

“Gee Baby, Ain't I Good to You” é um blues poderoso, composto em 1929 por Don Redman e Andy Razaf, no qual o pianista destila sua técnica primorosa e seu elevado sentido rítmico, resultando em uma abordagem envolvente e sofisticada. Fink, mais uma vez, rouba a cena, com seu solo torrencial. Uma versão minimalista de “Baubles, Bangles and Beads”, em ritmo de valsa, é o veículo perfeito para mostrar a enorme familiaridade do pianista com a música erudita. Com efeito, até hoje o pianista inclui em seus discos versões de temas eruditos e não nega a profunda influência que a música de Ravel e Debussy exerceu sobre ele.

A contagiante “Will You Still Be Mine” é outro momento sublime, na qual o trio destila muita energia, coesão e entrosamento, atuando com tamanha intensidade que o ouvinte tem a impressão de estar em um enfumaçado clube de Nova Iorque. Para encerrar, uma releitura impressionista da balada “Emmanuel”, do compositor francês Michel Colombier, transbordante de lirismo e nostalgia. Caso você não tenha nenhum disco de Steve Kuhn em suas prateleiras, esta é uma excelente oportunidade para conhecer o trabalho deste fabuloso pianista.

Steve Kuhn continua morando em Nova Iorque e se mantém em plena atividade, tocando regularmente em clubes da Grande Maçã. Um dos seus discos mais recentes, “Live At Birdland” (ao lado dos velhos amigos Ron Carter e Al Foster), foi gravado em 2006, ao vivo, no famoso clube nova-iorquino. Também costuma excursionar pelo mundo, participando de festivais e concertos, sobretudo pela Europa e Japão. Em entrevistas recentes, afirmou que tem um sonho: trabalhar com o arranjador alemão Claus Ogerman. Esperamos que esse sonho se realize – de preferência sob a forma de um álbum dedicado à obra do nosso maestro soberano Tom Jobim!

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domingo, 4 de abril de 2010

O “MR. T” ORIGINAL


O cabelo moicano, a cara de poucos amigos, a disposição de resolver nos punhos qualquer parada e a proeza de ter sido o único boxeador da história a nocautear Rocky Balboa fizeram do ator Laurence Tureaud, o popular Mr. T, um ícone dos anos 80. A fama foi guindada a proporções estratosféricas quando o ator estrelou, ao lado de George Peppard, o seriado Esquadrão Classe A (onde fazia o Sargento B. A.), produzido pela NBC entre 1983 e 1987 e exibido ad nauseum pelo SBT. Todavia, o apelido não é nem um pouco original. A rigor, o primeiro Mr. T é um talentoso saxofonista (fontes muito bem informadas contam que o ator ganhou, no braço, o direito de usar o apelido), que também se orgulhava de ser chamado de “Sugar Man”.

Stanley Turrentine – esse sim, o Mr. T original – nasceu no dia 05 de abril de 1934, em Pittsburgh. O gene musical integrava o DNA da família já de há muito. Seu pai, Thomas Turrentine, tocava saxofone na orquestra de Al Cooper e sua mãe era professora de piano. O irmão mais velho, Tommy Turrentine, também se tornaria um requisitado músico, tendo optado pelo trompete e acompanhado, entre outros, Benny Carter, Earl Bostic, Charles Mingus, Billy Eckstine, Dizzy Gillespie, Count Basie, Sonny Clark e Lou Donaldson.

Aos 11 anos, incentivado pelo pai, Stanley começou os estudos musicais e suas primeiras influências foram Don Byas, Ben Webster e Illinois Jacquet (que chegou a conhecer pessoalmente, aos 12 anos, e que lhe incentivou a perseverar nos estudos musicais). Sua primeira experiência profissional, no início dos anos 50, foi na banda do guitarrista Lowell Fulson, onde também tocava um certo pianista cego, que entraria para a história do jazz, do blues, do R&B, do soul, do pop, do country, do... bem, deixa prá lá. Enfim, o nome do sujeito era Ray Charles! Os dois ficaram amigos e Turrentine costumava fazer a transcrição, para partitura, das composições de Charles.

Após sua saída da banda de Fulson, Stanley estudou algum tempo com Carl Arter. Em 1953, mudou-se para Cleveland, onde tocou com o pianista Tadd Dameron. Em seguida, integrou a orquestra de Earl Bostic, substituindo ninguém menos que John Coltrane. Ali permaneceu até sua convocação para o exército, tendo servido entre 1956 e 1958. Na corporação, integrava uma orquestra que ficou conhecida como “The Uncle Sam's All Stars”.

De volta à vida civil, o saxofonista estabeleceu-se em Filadélfia e foi convidado por Max Roach a juntar-se à sua banda, em março de 1959, permanecendo ali por mais de um ano e chamando a atenção do mundo do jazz para o seu sopro musculoso e cheio de groove, profundamente arraigado no blues. Turrentine também participou das gravações do elogiado álbum “Abbey Is Blue” (Riverside, 1959), da cantora Abbey Lincoln, então casada com Roach.

Nessa época, conheceu a organista Shirley Scott, com quem se casaria em agosto de 1960. A sociedade conjugal também renderia uma prolífica parceria musical, com diversos discos lançados pela Blue Note. Turrentine chegou à gravadora por intermédio de Lou Donaldson e ali permaneceria até o final dos anos 60, com um pequeno intervalo em 1966, quando lançou o álbum “Let It Go”, pela Impulse.

Além de diversos álbuns como líder, o saxofonista, que se tornaria um dos mais bem-sucedidos artistas do catálogo da Blue Note, atuaria em dezenas de sessões, acompanhando gente da estatura de Horace Parlan, Dizzy Reece, Art Taylor, Ike Quebec, Jimmy Smith, Duke Jordan, Donald Byrd, Horace Silver, Duke Pearson, Kenny Burrell, Thad Jones, McCoy Tyner e muitos outros.

O primeiro disco de Turrentine para a Blue Note, como líder, foi gravado em 18 de junho de 1960, nos estúdios Van Gelder, em Englewood Cliffs. Para acompanhar o saxofonista, foram recrutados o pianista Horace Parlan, velho amigo de Turrentine desde os tempos de escola, em Pittsburgh, o baixista George Tucker, precocemente falecido em 1965, com apenas 38 anos, e o baterista Al Harewood, cuja quilométrica folha de serviços inclui atuações ao lado de Art Farmer, Dexter Gordon, Gigi Gryce, Benny Golson, Yusef Lateef, Grant Green, Curtis Fuller, Lou Donaldson e outros.

O tema que dá nome ao álbum é um blues acelerado, e abre os trabalhos de maneira bastante animada, evidenciando o alto grau de entrosamento do quarteto. “Journey Into Melody” é uma balada altamente sentimental, composta pelo inglês Robert Farnon e marcou a juventude do saxofonista, pois era o tema de abertura de um dos seus programas de rádio favoritos, em Pittsburgh. Turrentine é um mestre nesse tipo de interpretação, com seu sopro adocicado e envolvente. A atmosfera romântica é reforçada pelo piano econômico de Parlan.

“Return Engagement” é um título bastante apropriado para celebrar a volta ao clima festivo. Composto por Parlan, que dá uma aula de swing em seu solo, o tema é um bebop leve, sem grandes elucubrações harmônicas e altamente assobiável. Extraordinárias atuações de Harewood e de Turrentine, ambos exibindo uma elevada capacidade de improvisação.

Composta por Stanley em homenagem à filha, “Little Sheri” é um blues em andamento mais rápido que o usual, mas bastante sincopado, e o solo do líder é vigoroso, áspero e groovy até não mais poder. Parlan usa sua técnica refinada, com um toque quase metálico, para dar profundidade ao tema, enquanto a cozinha Tucker-Harewood marcha em uníssono, de maneira equilibrada e quase solene.

Uma das mais conhecidas composições de Clifford Brown, “Tiny Capers” ganha um arranjo alegre e relaxado, com destaque absoluto para os solos de Turrentine, sempre muito fluentes e criativos. Em outra investida do líder pela seara do blues, “Minor Chant” tem como pontos altos uma elevada dose de swing, uma linha de baixo inspirada e uma discreta sensualidade.

“Tin Tin Deo”, de Chano Pozo, é, talvez, o tema mais conhecido e gravado do jazz latino. A competência do quarteto, em especial de Parlan e Turrentine, injeta sangue novo e imprime ao tema uma vitalidade surpreendente, tirando qualquer ranço de obviedade que pudesse contaminá-lo. Os solos do saxofonista são fabulosos e altamente desafiadores.

Outro tema bastante conhecido, “Yesterdays”(de Jerome Kern e Otto Harbach) recebe um arranjo calcado no blues, que a rejuvenesce e a torna bastante estimulante. O piano de Parlan e o baixo de Tucker realçam as características dramáticas da composição, enquanto as intervenções de Turrentine e Harewood são ensolaradas, fazendo uma espécie de contraponto sonoro entre sombra e luz. Um take alternativo de “Little Sheri” completa o set deste disco obrigatório, considerado pela crítica especializada como uma verdadeira obra-prima.

A partir de meados dos anos 60, sua produção foi, maciçamente, direcionada ao chamado soul-jazz. Álbuns como “Hustlin’”, “Rough 'N' Tumble” (que trazia covers de composições de Ray Charles, Burt Bacharach e Sam Cooke), “Common Touch” e “The Look Of Love” (com direito a “Here, There And Everywhere”, dos Fab Four) alcançaram ótimas posições nas paradas de R&B e asseguravam a Turrentine uma posição de destaque no cast da Blue Note.

O sucesso comercial encaminhou-o para o selo CTI, de Creed Taylor, por onde lançou alguns álbuns que ultrapassaram a casa do milhão de cópias vendidas. “Sugar”, de 1970 (que contava com um elenco estelar, incluindo, entre outros, George Benson, Freddie Hubbard Ron Carter, Airto Moreira, Hubert Laws e Billy Cobham), permaneceu nas paradas de sucesso por vários meses e rendeu a Turrentine, além do ódio dos puristas, alguns milhões de dólares no bolso. Além das excelentes vendagens de seus discos, o saxofonista era uma das principais atrações da “CTI All Stars”, banda formada por músicos da gravadora e que fazia turnês regularmente.

Separado de Shirley Scott no início da década de 70, Turrentine, apesar do sucesso comercial, não se negava a acompanhar gente como Milt Jackson, Bob James, Richard Tee, Idris Muhammad, Eric Gale, Cedar Walton, David “Fathead” Newman, Billy Taylor e Ahmad Jamal, velho amigo dos tempos de Pittsburgh e que foi aluno da mãe de Stanley, na cidade natal de ambos.

Também acumulou diversas indicações ao prêmio Grammy e continuou a vender discos em profusão, como o badalado “Don't Mess With Mr. T”, de 1973, também lançado pela CTI. Na Fantasy, para onde foi em meados dos anos 70, repetiu o sucesso comercial, mantendo a velha estratégia de interpretar músicas de astros pop, como Michel Legrand, Stevie Wonder, Laura Nyro, Bob Dylan e Marvin Gaye, com arranjos espertos, a cargo de Gene Page ou de Wade Marcus.

Com as mudanças do mercado fonográfico e a perda de apelo comercial do soul-jazz, Turrentine gravou de forma bastante esporádica nos anos 80. Manteve-se ativo, contudo, na rotina de apresentações em pequenos clubes e festivais de jazz. A partir dos anos 80, Turrentine abandonou a linha fusion, passando a se dedicar ao chamado smooth jazz, lançando álbuns por selos como Prestige, Concord e Elektra.

De qualquer modo, mesmo em contextos mais comerciais, o saxofonista manteve intacta a sua personalíssima identidade musical e o seu fraseado flexível e doce. Além disso, sempre foi considerado um excepcional acompanhante de vocalistas. Astrud Gilberto, Dianne Reeves, Diana Krall, Lou Rawls, Marlene Shaw e Oscar Brown Jr., por exemplo, foram alguns dos que tiveram a honra de vê-lo tocar em seus discos.

Em 1984 retornou à Blue Note, tendo gravado alguns discos, ao lado de velhos conhecidos como Jimmy Smith e George Benson, mas sem o mesmo impacto comercial de outrora. Talvez o seu melhor momento nessa década tenha sido o álbum “The Gene Harris Trio Plus One” (lançado em 1985 pela Concord), sob a liderança do pianista Gene Harris e que contava com a excelsa participação de Ray Brown no baixo e Mickey Roker na bateria.

Os anos 90 foram um pouco melhores, do ponto de vista da produção essencialmente jazzística, destacando-se os álbuns “More Than A Mood” (Musicmasters, 1992), onde toca com feras como Freddie Hubbard, Cedar Walton, Ron Carter e Billy Higgins, e “If I Could” (também da Musicmasters, de 1993), onde atua ao lado de Hubert Laws, Roland Hanna, Ron Carter e Grady Tate, com arranjos de Don Sebesky.

Ele então já havia se mudado, juntamente com a esposa Judith, para a cidade de Fort Washington, no estado de Maryland, e tocava com freqüência em clubes de Washington D. C., especialmente no Blues Alley. Para tristeza dos fãs do jazz, Turrentine faleceu no dia 12 de setembro de 2000, após sofrer um AVC devastador, em Nova Iorque. Seu corpo foi enterrado no Pittsburgh's Allegheny Cemetery, em sua cidade natal.

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

VOSSA EXCELÊNCIA REVERENDÍSSIMA, O BISPO DO JAZZ



Nascido no Harlem no dia 10 de abril de 1927, no Harlem, em uma família extremamente musical, Walter Bishop Jr. é um dos maiores pianistas do bebop – embora também tenha feito interessantes incursões pelo hard bop e pelo soul jazz. O pai, Walter Bishop Sr., era um compositor que gozou de alguma popularidade nas décadas de 20 e 30, tendo sido amigo de Fats Waller, Eubie Blake e Andy Razaf. Sua composição mais conhecida é “Swing, Brother, Swing”, gravada por Billie Holiday, Count Basie e Willie “The Lion” Smith.

Crescendo em um ambiente tão estimulante, era natural que o pequeno Bishop desenvolvesse um enorme interesse pela música. Dentre os amigos de infância, muitos futuros astros, como Kenny Drew, Jackie McLean, Sonny Rollins e Art Taylor. Abandonou os estudos ainda na adolescência, para se tornar músico profissional, unindo-se a uma banda de R&B que tocava em bailes e casas noturnas do Harlem.

Em 1945 entrou para o exército, permanecendo ali por cerca de dois anos. Em 1947, após cumprir o serviço militar, Bishop passa a freqüentar os clubes de Nova Iorque, especialmente o Minton’s, e se encanta, particularmente, com a exuberância de Bud Powell, que toma o lugar de Nat Cole e Art Tatum no rol de influências do jovem pianista. Nessa época, começaram a aparecer os primeiros convites para acompanhar alguns dos principais nomes do jazz que se apresentavam em Nova Iorque.

Bishop tocou com Art Blakey (com quem fez a sua primeira gravação, em 1947), Charlie Parker (seria, de 1950 até 1955, um dos pianistas preferidos de Bird), Gene Ammons, Oscar Pettiford, Eric Dolphy, Stan Getz, Wild Bill Moore, Doc Cheatham, Kai Winding, Milt Jackson, Miles Davis, Lee Konitz, Zoot Sims, Kenny Dorham, Jackie McLean, Hank Mobley, Kenny Clarke, Curtis Fuller, Clark Terry, Blue Mitchell, Junior Cook, Paul Gonsalves, Charlie Rouse, Sonny Rollins, Max Roach, Terry Gibbs, Cecil Payne, Roland Kirk e outros.

Embora sua atuação como acompanhante seja muito bem documentada e seu conceito entre os músicos de jazz seja elevadíssimo, Bishop jamais teve a mesma popularidade que outros pianistas ligados ao bebop ou ao hard bop, como o próprio Bud Powell, Oscar Peterson ou Horace Silver. Em 1963, seu trio dividia o palco do Five Spot Café, em Nova Iorque, com niguém menos que Thelonious Monk e seu quarteto. No ano seguinte, Bishop excursionou com o vibrafonista Terry Gibbs.

Ainda na década de 60 montou talvez o seu trio mais conhecido, com Jimmy Garrison e Granville T. Hogan, e que era atração fixa nas noites de segunda feira do Birdland. No final da década, resolveu se dedicar mais à teoria musical, tendo estudado na Juilliard School Of Music, onde foi aluno de Hall Overton (um pianista e compositor pouco conhecido, mas que trabalhou com Jimmy Raney, Teddy Charles e Stan Getz).

Dentro da sua pequena (mas bastante consistente) discografia como líder, um dos momentos mais interessantes é, certamente, é “The Walter Bishop Jr. Trio”, gravado entre 1962 e 1963 e lançado pela Prestige. Além do pianista, atuam no álbum o baixista Butch Warren (mais conhecido por seu trabalho ao lado de Thelonious Monk) e os bateristas Granville T. Hogan (veterano da banda de Earl Bostic, que no disco atua em apenas quatro faixas) e Jimmy Cobb (integrante regular dos grupos de Miles Davis, nas 12 faixas restantes).

Uma característica comum a todas as faixas é a duração relativamente curta: poucas excedem os três minutos. Há diversas composições do líder, além de diversos standards. “Tell It The Way It Is” (de Bishop e de Addison Amor) e “Things Ain’t”What They Used To Be” (de Duke Ellington) são temas calcados no blues, mas tocados com o swing de quem possui uma inquestionável vocação bop.

A dupla Rodgers e Hart ganha uma versão fabulosa de “Falling In Love With Love”, na qual o destaque absoluto é o piano de Bishop, que evoca as harmonias impossíveis do ídolo Bud Powell e revela o seu lado de improvisador nato. Sensacional a participação de Cobb. A sacolejante “33rd Off 3rd” é outro grande momento, com sua contagiante mistura de blues e R&B.

Dentre os muitos standards, merecem atenção mais detida a musculosa versão de “Summertime” (dos irmãos Gershwin), com uma intensa pegada bluesy mas com muito swing, além de “Love For Sale” e “Easy To Love”, duas das mais belas composições de Cole Porter, que ganham arranjos bastante energéticos (a primeira, com um delicioso tempero latino, acrescido pela batida mágica de Cobb).

O trio faz uma tentativa de exploração da bossa-nova em “Dottie’s Theme” (outro tema de Addison Amor), mas não é lá muito bem sucedido. Melhores performances podem ser ouvidas nas incendiárias “Dinkum”, “Getting Off The Ground” e “Easy Walk”, as duas últimas de autoria do pianista, que recorda, com muita inventividade e alta dose de swing, os tempos em que atuou com Bird.

“The Bishop Moves” é uma interessante incursão pelo hard bop, com as nervosas baquetas de Hogan pulsando alucinadamente e Bishop tingindo de blues esse ótimo tema. A balada “I Thought About You”, de Jimmy Van Heusen e Johnny Mercer, ganha um arranjo reverente, quase confessional, com citações de “Straight, No Chaser”, de Monk.

Completam o set “Take One Of My Pills”, “Theme On A Legend” e a belíssima “Our Romance Is Over”, uma balada sentimental e delicada, executada com a leveza e a melancolia que o título exige. Um grande músico, cuja obra – se não pode ser enquadrada entre as mais originais do jazz – é extremamente honesta e clama por ser reconhecida. Poucos discos são mais que indicados para começarmos a conhecer melhor o talento desse pianista tão talentoso do que este “The Walter Bishop Jr. Trio”.

No começo da década de 70 mudou-se para Los Angeles, onde deu aulas de música em diversas escolas locais. De volta a Nova Iorque, em 1975, integrou a big band de Clark Terry e o Supersax. Também tocou com o velho amigo Blue Mitchell e escreveu um livro sobre a improvisação jazzística, chamado “A Study in Fourths”.

Nos anos 70 flertou com o R&B e o soul jazz. Lançou o elogiado "Soul Village", de 1977, pela Muse Records, ao lado de Randy Brecker e no qual tocava piano Fender Rhodes. Também merece registro a participação no álbum “Child’s Dance” (1973), dos Jazz Messengers, onde dividia o piano com George Cables, Cedar Walton e John Hicks.

Na década de 80, Bishop, que também era poeta e costumava recitar seus poemas nos shows que fazia, foi professor da Hartt Scholl (departamento de música, dança e teatro da Universidade de Hartford). Nesse período, uma das associações mais constantes foi com o saxofonista Bob Mover, ao lado de quem fez diversas turnês, incluindo aclamadas participações em festivais na França e em Israel. Em sua temporada na Europa, é importante destacar a sua participação na Paris Reunion Band, banda formada em 1984, para homenagear Kenny Clarke e sua obra, em uma formação que incluía Nathan Davis, Joe Henderson, Woody Shaw, Nat Adderley, Curtis Fuller, Jimmy Woode e Idris Muhammad.

Walter Bishop Jr. permaneceu em atividade até o final dos anos 90, se apresentando habitualmente no circuito de clubes de Manhattan e participando com regularidade de festivais, como o Charlie Parker Jazz Festival (foi uma das atrações mais aplaudidas da edição de 1995, tocando com a Larry Ridley's Jazz Legacy Ensemble, cuja formação incluía o trompetista Virgil Jones e James Spaulding no sax alto). Ele faleceu, em conseqüência de um ataque cardíaco, no dia 24 de fevereiro de 1998, em Nova Iorque.

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