Amigos do jazz + bossa

segunda-feira, 26 de julho de 2010

REPOUSO


Quanto ódio adormecido havia ali,

Destilado em séculos estanques,

Devoções anônimas, premências adormecidas,

Sentimentos descascados em volta da velha casa

Agora tudo era luto e ausência de fé

A indiferença se acomodava entre a elegância e a desfaçatez

Seu cheiro era inebriante e convidativo

E crescia no ventre dos dois o embrião pulsante do desamor

O papel de parede esmaecido era a alegoria da insanidade

O antigo jardim malcuidado e cheio de hera

O pórtico enferrujado e sem cor

Todos os fracassos íntimos

Guiavam-se pelos corredores sombrios

Nem a vasta retórica,

Nem a insigne temática,

Eram suficientes para remir tantas misérias

Trânsfuga resoluto da própria dor,

Náufrago da grande epopéia oceânica,

A confissão silenciosa era apenas outro nome para a hipocrisia

O encanto do desejo não deixa ninguém incólume

Mas tampouco se eterniza

Universo de fugacidade e estilhaços

Cólera e mansidão refletidas no mesmo espelho fragmentado,

Noites sobre a terra, faunos no quintal

Manchas violáceas sob os lençóis intocados

A inevitável solução do enigma

Não passa do silêncio estrepitoso de um diálogo mudo

Campos minados, chávenas e beirais

Alaridos sorrateiros, fábulas sem moral

Começo e fim sem ambivalências ou metáforas

Cerradas as cortinas do antigo palco

Enxugadas as lágrimas circenses

Apagados os holofotes da indiscrição

As pompas fúnebres sempre anunciam

O início certeiro da decomposição

É o corpo,

É sempre o corpo...

Que jaz agora no estuário

Onde primeiro morreu a alma

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Nascido em 05 de dezembro de 1949, em Roma, Enrico Pieranunzi é um pianista, compositor, arranjador e educador musical italiano de grandes recursos técnicos e altamente inventivo, considerado por público e crítica como um dos mais proeminentes herdeiros de Bill Evans, pelo lirismo de seu fraseado e pelo repertório delicado. Contudo, percebe-se em sua maneira de tocar que ele também bebeu na fonte de McCoy Tyner e Keith Jarrett, que formam com Evans a trinca de suas influências mais relevantes.

O aprendizado veio cedo, pois com apenas cinco anos já recebia as primeiras lições de piano clássico. O pai era guitarrista e transmitiu ao filho o amor pela música. Na adolescência, apaixonou-se pelo jazz, graças aos discos de Charlie Parker, que ouvia com devoção. Aos 19, integrou-se ao quarteto do trombonista Marcelo Rosa e, a partir de então, tem construído uma das mais fulgurantes e sólidas carreiras do jazz europeu.

Tocou com nomes importantes, como Art Farmer, Enrico Rava, Marc Johnson, Chet Baker, Philip Catherine, Johnny Griffin, Kenny Wheeler, Lee Konitz, Phil Woods, Gabriele Mirabassi, Paul Motian, Benny Bailey, Curtis Fuller, Peter Erskine, Sal Nistico, Billy Higgins, Tony Scott, Kai Winding e Jim Hall, entre dezenas de outros. Sua alentada discografia vem sendo construída em selos como Enja, Challenge Records, Timeless, Soul Note e CAM Jazz, e vem crescendo a uma média de um álbum por ano desde 1975, quando lançou o primeiro disco como líder.

“Special Encounter” é, sem sombra de dúvida, um dos discos mais fabulosos de sua carreira. Gravado para a CAM Jazz entre os dias 6, 7 e 8 de março de 2003, em Roma, ele reúne os talentos de Pieranunzi, Charlie Haden (baixo) e Paul Motion (bateria). Três músicos de concepções harmônicas semelhantes, unidos em torno de um repertório de standards e composições de Haden e de Pieranunzi. A atmosfera do disco é altamente introspectiva e elegante ao extremo, com uma atuação bastante sutil de Motion e Haden.

“My Old Flame”, que o pianista já havia gravado na companhia de Chet Baker e Lee Konitz, abre o disco de maneira absolutamente hipnotizante. Em “You’ve Changed”, imortalizada por Billie Holiday, o piano delicado e lírico de Pieranunzi se insinua pungentemente por entre as frestas da melodia, em uma apoteose lírica de rara beleza. O arranjo minimalista de “Why Did I Chose You” evoca as madrugadas insones em que as dores de amores atormentam a alma.

“Earlier Sea”, composta pelo líder, é uma balada levemente sombria, com uma discreta tintura latina. “Miradas”, também de Pieranunzi, é uma tentativa muito bem sucedida de recriar a atmosfera jobiniana, em seus momentos mais intimistas, na qual merece atenção a leveza da percussão de Motian.

As fabulosas “Waltz For Ruth” e “Hello My Lovely”, ambas de Haden, são outros destaques do álbum. Nesta última, a atuação do baixista beira perfeição, com direito a um dos solos mais sublimes do disco. Para quem não está familiarizado com o refinado universo musical de Pieranunzi, este álbum é uma excelente porta de entrada.

Por tantas qualidades, Pieranunzi é dos músicos mais requisitados da atualidade e atração constante em festivais de jazz do mundo inteiro. Versátil ao extremo, sente-se bastante à vontade nos mais diversos contextos, atuando com idêntica desenvoltura em solo, duos, trios ou quartetos. Transita entre o jazz e a música erudita com a mesma intimidade e é professor do conceituado Conservatorio di Musica Licinio Refice, em Frosinone, região central da Itália.

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22 comentários:

APÓSTOLO disse...

Estimado ÉRICO:

Bela escolha sobre um "chefe-de-escola".
Um craque em estado de graça.
Parabéns pela escolha ! ! !

Érico Cordeiro disse...

Mestre Apóstolo,
Prazer em tê-lo a bordo!
Como grande fã de Evans, tinha a certeza de que o Pieranunzi - discípulo dos mais talentosos - estava em alta conta junto a você!
Esse disco é lirismo puro. E como o fraseado do pianista "casa" bem com as sutilezas de Motian e Haden.
Como diria o amigo salsa, é som pra mais de metro.
Abração!!!!

Sergio disse...

Tá danado, hein, seu Érico. Discaço. Foi ouvir da 1ª vez e imediatamente preparar capa e tudo que o álbum tem direito.

Aliás o que ele não tem direito é de ficar prisioneiro de um HD, só no virtual, a mercê de uma memória escassa, sem identidade visual.

E o texto... Dava para abrir um tremendo romance.

Moonlight disse...

Moi bonito, grazas pola información.

Érico Cordeiro disse...

Caros Sérgio e Moonlight,
Bienvenidos!
Sabia que esse disco ia fisgar você, meu amigo, que anda a suspirar pelos cantos e a deixar no sonicbarzinho loas ao amor.
Nada melhor que ouvir o Pieranunzi ao lado da mulher amada (rs, rs, rs). Acho que ela não vai resistir.
Abração!

Sergio disse...

Rapaz, boa lembrança. Missão complexa essa. Para fins de assepsia na extração do pop (aquele mesmo) inoculado na gênese, o que você me sugere, bisturi ou fórceps?...

Como se comporta um candidato a padrasto De um irmão do bebê do Rosemary?

Só sei que tou lá, firme e forte, seu San. E haja amor, porque dizer simplesmente que aquilo que alguém passou a vida cultuando é uma grossa porcaria, imagina o tamanho da insensibilidade!

Tou aberto a conselhos, amigo.

Érico Cordeiro disse...

A coisa tá braba, Mr. San.
E conselho nessa hora é o que a "vítima" menos precisa (rs, rs, rs).
Quanto ao irmãozinho do bebê de Rosemary, tenta levar numa igreja, talvez dê certo - xiiiii vou até parar de brincar com coisa séria.
Abração!

Paul Brasil (Paul Constantinides) disse...

master Erico
um belo poema. denso e esculpido em palavras reflexivas com um senso de observação descritiva.
interessante.

qto ao Enrico Pieranuzi. q belo eh!!!

abs
paul

Sergio disse...

Só rindo, Mr.. Só rindo.

Mas o diabo, não é pai do rock?

figbatera disse...

Hummmm! Que beleza!

Érico Cordeiro disse...

Caros Paul (obrigado pelas palavras gentis e que bom que você gostou do poema), Sérgio e Fig,
Valeu as presenças.
Sexta, de volta a Saint Louis, "posso estar anteciPando" - basta informar.
Quanto a essas paternidades, melhor deixar o Tinhoso fora da conversa - vai que ele aparece prá pedir um exame de dna?
Abração aos três!!!!!

HotBeatJazz disse...

Ô¬Ô

Mr. Érico,

Signori Pieranunzzi é mestre completo. Com esta cozinha, digna dos melhores bistrôs, aí a coisa fica ao nível de teu belo poema.
Só tem artista por aqui.

Abração

PS: coloquei um Bob Gordon bem raro lá no hotbarzinho, vais amar.

Érico Cordeiro disse...

Grande Mauro!
Você sabe que é sempre muito bem-vindo no jazzbarzinho.
Pena que aqui em Pinheiro City não posso ouvir o Bob Gordon - já dei uma passada no jazzbarzinho, mas, infelizmente, só vou poder ouvi-lo na sexta.
Tenho o Jazz Immortal, com o Clifford Brow, e o Octet, do Maynard Ferguson, onde o Gordon atua - vou ouvi-los agora mesmo, em sua homenagem (tão no inseparável I-pod, essa maravilha da tecnologia).
Volto lá no hotbarzinho daqui a pouco, ok?
Abração e obrigado pela presença e pelas palavras generosas - você é um gentleman!

HotBeatJazz disse...

Seu Érico,
(deixo aqui a resposta ao teu comentario lá no HBJ)

seus tímpanos estão sempre sendo acariciados pela melhor música produzida no planeta. O Jazz for Moderns foi, tb para mim, uma grata surpresa. Muito bom mesmo!
Clifford está chegando aqui na série das bolachinhas, com seus dois primeiros álbuns como líder, ainda nesta semana.
E acaba de cair em minhas mãos, um quarteto fantástico, em gravação ao vivo de 2010, sente só:
01. Announcement (0:42)
02. My Funny Valentine (7:34)
03. My Foolish Heart (9:54)
04. Broken Wings (12:28)
05. Beatrice (7:51)
06. Change (2:08)
07. You've Changed (10:12)
08. Speak Low (9:07)

Personnel:
Philip Catherine (guitar);
Enrico Pieranunzi (piano);
Hein van de Geyn (double bass);
Joe Labarbera (drums).
nome do álbum? Philip Catherine - Concert In Capbreton

vale uma pandeada não? assim q eu conseguir respirar, pq a música é de tirar o fôlego!!

grande abraço

Érico Cordeiro disse...

Mestre mauro,
Já dei uma passada no Amazon e vi o bichinho. Capinha muito bacanuda, com os quatro abraçados, alegres - deve ter sido um showzaço.
Bom, acho que vou mandar buscar o disquinho qualquer hora dessas - quatro feras, com um repertório colossal.
De qualquer forma, só poderei receber o "mimo" na sexta, por isso não precisa ter pressa, ok? Abração!

Valéria Martins disse...

Que linda letra/poema, Erico! Eu já tinha ouvido falar nesse músico, mas não sabia muita coisa. Obrigada,

Beijos

Érico Cordeiro disse...

Querida Valéria,
Seja muito bem vinda - é sempre muito bom contar com sua presença no jazzbarzinho.
Obrigado pelas palavras gentis. Quanto ao Pieranunzi, pode ir atrás sem susto, porque ele manda muito bem (esse álbum postado é muito bacana mesmo).
Abraços fraternos e uma ótima semana!

Andre Tandeta disse...

Grande Erico! Sempre um texto bacana acompanhado de musica da melhor qualidade.
Desculpe se não tenho aparecido.Na verdade não estou nos meus melhores momentos,coisas dificeis de aceitar e entender .
Abraço

Érico Cordeiro disse...

Meu caro Tandeta,
Nem sei o que dizer - saber que você, embora esteja atravessando momentos difíceis encontra tempo para visitar o jazz + bossa, somente me fazem ter a certeza de que levar adiante o blog vale a pena!
Obrigado pela presença e espero que os eventuais problemas sejam superados o mais rapidamente possível e que você possa vir com mais freqüência a esta casa que é sua também!
Um abraço fraterno e solidário.

pituco disse...

érico san,

tutti buona gente...signori pieranunzi e os feras c.haden e paul motion...ma che sonzaço

abraçsons

Érico Cordeiro disse...

Grazie, Bello!!!!

Benvenuto, mio caro amico!
Questo Enrico è un favoloso pianista. Egli è in ottima compagnia.
Ancora di più, mio ambasciatore!!!!

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Patrocínio: personal traduleitor Tabajara!

Anônimo disse...

I regret, but I can help nothing. I know, you will find the correct decision. Do not despair.

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