Amigos do jazz + bossa

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

TRÊS IRMÃOS


A rigor, não é algo raro o fato de que diversos membros de algumas famílias se dediquem à mesma atividade. Na música, então, esse fato chega a ser bastante corriqueiro, sendo que no jazz existem verdadeiras dinastias como a dos Marsalis. Todavia, não é propriamente comum coexistirem três irmãos extremamente talentosos dividindo o mesmo teto (e, muitas vezes, o mesmo palco), razão pela qual os irmãos Heath (Percy, Albert e Jimmy), Jones (Thad, Hank e Elvin) e Montgomery (Buddy, Monk e Wes) sempre mereceram bastante atenção dos amantes do jazz.


Para além da mera curiosidade genética, os irmãos Montgomery realmente mandavam muitíssimo bem. Nascidos em Indianápolis, Monk (William Howard), Wes (John Leslie) e Buddy (Charles) construíram boa parte de suas respectivas carreiras atuando juntos. Dos três, o que adquiriu maior notoriedade foi o irmão do meio, Wes, que chegou a ser aclamado pelo crítico Ralph Gleason como “a melhor coisa que aconteceu com a guitarra depois de Charlie Christian” e foi um dos maiores inovadores da guitarra jazzística.


Decerto, Charlie Christian, o gênio que aboliu o papel meramente rítmico da guitarra e que deu ao instrumento características melódicas, é a maior influência de Wes, que somente aprendeu a tocar aos 19 anos, idade em que a maioria dos músicos de jazz geralmente já apresenta um estilo próprio. Reza a lenda que Montgomery teria sido proibido de ensaiar em casa, por conta do barulho, que incomodava a vizinhança. A solução foi trocar a palheta pelo dedo polegar, numa técnica que dava ao seu toque uma sonoridade bem menos agressiva e muito mais melodiosa.


Mesmo começando tarde seu aprendizado, o enorme talento fez a diferença e Wes não tardou a se profissionalizar, fazendo o circuito de clubes e casas noturnas de Indianápolis. Ingressou na orquestra de Lionel Hampton no final dos anos 40, ali permanecendo por cerca de dois anos. Voltou à cidade natal no início dos anos 50, desdobrando-se em um emprego de operário em uma fábrica de aparelhos de rádio durante o dia e, durante a noite, como guitarrista em bares e casas noturnas, como o Turf Bar e o Missile Room.


É nesse período que Monk, Wes e Buddy formam o grupo Mastersounds, nome que foi posteriormente trocado para Montgomery Brothers e cuja formação incluía o baterista Benny Barth e o pianista Richard Crabtree. O combo faz algumas gravações esparsas (a destacar, o excelente “Fingerpickin’”, de 1957, creditado a Wes,) e chegou a se apresentar em cidades como Chicago e San Francisco, despertando o interesse de Cannonball Adderley, que o assistiu no clube Missile Room. O saxofonista, encantado com a originalidade de Wes, indicou-o ao célebre produtor Orrin Keepnews, dono da Riverside Records.


Contratado pela Riverside em 1959, o estilo altamente fluido e inventivo de Wes causou enorme impacto no meio jazzístico – no mesmo ano ele seria agraciado com o prêmio “New Star”, concedido pela prestigiosa revista Down Beat. Álbuns como “The Incredible Jazz Guitar” (1960), “Movin’ Along” (1961) e “Full House” (1962) se tornaram referência obrigatória para várias gerações de jovens guitarristas como George Benson, Doug MacDonald e o brasileiro Hélio Delmiro.


Ele ainda gravaria pelos selos Verve e A&M, onde desfrutaria de enorme sucesso comercial – seria, portanto, extremamente criticado por esta opção – e, ao logo da carreira, teria como acompanhantes músicos da estatura de Tommy Flanagan, Wynton Kelly, James Clay, Sam Jones, Victor Feldman, Louis Hayes, Hank Jones, Jimmy Cobb, Johnny Griffin, Paul Chambers e Freddie Hubbard.


Todavia, embora Wes fosse a estrela da família, o talento dos outros irmãos Montgomery não merece ser desprezado. O baixista Monk, mais velho, foi um dos precursores no uso do baixo elétrico, tendo tocado com Lionel Hampton (onde conheceu Quincy Jones, Gigi Gryce e Clifford Bbrown, seus parceiros na orquestra), Red Norvo, Jack Wilson, Art Farmer, Hampton Hawes e Kenny Burrell. Embora utilizasse habitualmente o baixo acústico, sua atuação com a versão eletrificada do instrumento era realmente inovadora, merecendo do crítico Nat Hentoff a observação de que ele “soava como um pequeno exército”.


O caçula, Buddy, também era um músico bastante versátil – tocava piano e vibrafone – e iniciou sua carreira profissional ao lado do cantor Big Joe Turner, no final dos anos 40. Também acompanhou Miles Davis e Slide Hampton, além de haver gravado alguns bons discos como líder, ao lado nomes como Cláudio Roditi, Eddie Harris, Ron Carter, Lenny White e David “Fathead” Newman. Integrou o supergrupo “Riverside Reunion Band”, juntamente com Barry Harris, Nat Adderley, Jimmy Heath e outros.


No disco “Groove Yard”, gravado para a Riverside em 1961, os três irmãos são acompanhados pelo baterista Bobby Thomas (pouco conhecido, mas que tocou com Paul Desmond, Hubert Laws e Stan Getz). O blues “Back To Bock”, de Buddy, abre o álbum de maneira bem cadenciada, com Wes adotando o fraseado relaxado e quase intimista que caracteriza a sua forma de tocar. “Just For Now”, outra composição do pianista, possui uma pegada mais acelerada, fazendo uma discreta citação à música oriental e com direito a um excelente solo de Thomas. “If I Should Loose You” é outro grande momento do álbum, merecendo uma execução altamente lírica.


O guitarrista mostra sua faceta de compositor na swingante “Doujie”, bebop de elaborada concepção harmônica, onde o piano ondulante de Buddy se destaca. “Heart Srings” é outro blues, de autoria de Milt Jackson (maior influência de Buddy ao vibrafone), com Wes extraindo da sua guitarra a atmosfera lamentosa que a composição exige e Monk construindo o arcabouço melódico com uma exuberância invulgar.


O West Coast está muito bem representado, graças às sacolejantes composições de Carl Perkins (“Groove Yard”) e Harold Land (“Delirium”). Nesta última Thomas, mais uma vez, rouba a cena, com um solo esfuziante e de grande complexidade. Uma versão arrasadoramente funky de “Remember”, de Irving Berlin, fecha o disco de forma magistral – uma demonstração de que as inovações estilísticas de Wes podiam ser aplicadas a qualquer contexto, até mesmo em um velho standard da década de 20.


Wes morreu, prematura e inesperadamente, no dia 15 de junho 1968, com apenas 43 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Monk faleceu em 20 de maio de 1982, em Las Vegas, onde levava uma vida tranqüila como disk-jóquei de uma rádio local. Buddy permaneceu entre nós até 14 de maio de 2009, desfrutando de uma pacata e merecida aposentadoria. Três vidas unidas pelo sangue e pelo jazz.


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26 comentários:

Celijon Ramos disse...

Bela trinca de manos, meu caro.
Ainda bem que chegou a vez de meu querido Wes. Tenho uma grande admiração pela suavidade que Wes nos impõe a partir de sua guitarra. É inovador e cativante.
Foste na mosca. Seus irmãos,como disseste, são grandes talentos, pena que às vezes ofuscadsos pelo brilho do mano mais famoso. Seu texto lhes recupera a grandeza, e nisso revela grande valor didático.

Érico Cordeiro disse...

Mano Compadre,
Seja bem-vindo!!!
Sabia que você ia gostar - e acho que nosso amigo Victor também (ele é fã do Wes).
Pena que os dois irmãos não tenham tido o mesmo reconhecimento, não é mesmo?
Valeu!!!!

José Domingos Raffaelli disse...

Caro Érico,

Começo a desconfiar que você não dorme. Como encontra tempo para conciliar seus afazeres profissionais e manter esse fluxo espantoso de resenhas sobre discos de jazz ? Gostaria de conhecer seu segredo, pois, mesmo afastado das lídes jazzísticas por razões alheias à minha vontade, não consigo tempo extra para escrever sobre a música dos músicos. Recentemente, para redigir um texto de um CD de Duke Ellington que a Biscoito Fino lançará após o carnaval, literalmente tive de fazer serão.....

Excelente sua abordagem sobre os irmãos Montgomery. Wes foi um gênio, assim como Charlie Christian e Django Reinhardt, que o antecederam. Vários críticos importantes incluem pioneiro Eddie Lang nessa lista.

A título de curiosidade, embora você e os demais confrades sabem, o primeiro solo de guitarra elétrica gravado na história do jazz foi de Eddie Durham em "Hittin' the Bottle", com a notável e inovadora orquestra de Jimmie Lunceford, em 1935. Além de guitarrista, Durham foi um excelente trombonista e arranjador de primeira água, mas nunca teve o reconhecimento que deveria - pelo menos em minha opinião.

Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Mestre Raffaelli,
Seja muito bem vindo e obrigado pelas palavras gentis. Quanto às resenhas, eu também dou os meus serões (rs, rs, rs) - na verdade, aproveito os finais de semana e feriados e tento escrever o máximo de resenhas possíveis (no carnaval eu pretendo escrever umas cinco ou seis - já separei alguns discos).
E que notícia maravilhosa essa!!!! Duke Ellington pela Biscoito Fino - tudo a ver. Acho que a melhor gravadora do Brasil é uma vasa vocacionada para lançar aqui os grandes álbuns de jazz (comprei o disco do Tommy Flanagan com o Hank Jones que saiu recentemente e é ótimo).
Dê mais detalhes da empreitada, Mestre.
Um fraterno abraço!

Paul Brasil (Paul Constantinides) disse...

tres vidas ligadas pelo sangue e pelo jazz; e reunidas aqui pelo mensageiro do jazz na seara virtual e real.
grande brother érico.
ouvir este som no fim da manhã de sexta me enche de contentamento.
tá valendo.
abs
paul

José Domingos Raffaelli disse...

Caro Érico,

O CD que a Biscoito Fino editará intitula-se DUKE ELLINGTON AND HIS ORCHESTRA / LIVE IN ZURICH, SWITZERLAND 2.5.1950

1. SUDDENLY IT jUMPED
2. RING THEM BELLS
3. CREOLE LOVE CALL
4, PARADISE
5. AIR CONDITIONED JUNGLE
6. HOW HIGH THE MOON (solo de Don Byas como convidado)
7. THE TATTOED BRIDE
8. TAKE THE "A" TRAIN
9. FRANKIE & JOHNNY
10. ROCKIN' IN RHYTHM
11. VIOLET BLUE
12. SAINT LOUIS BLUES
13. S' WONDERFUL
14. THE JEEP IS JUMPIN'

*Harold Baker, Al Killian, Nelson Williams, Ernie Royal e Ray Nance (trompetes)

*Lawrence Brown, Quentin Jackson e Ted Kelly (trombones)

*Jimmy Hamilton, Johnny Hodges, Russell Procope, Alva McCain e Harry Carney (saxes)

*Duke Ellington (piano) e Billy Strayhorn (piano em "Take the "A" Train")

*Wendell Marshall (baixo)
*Sonny Greer e Butch Ballard (bateria)
*Kay Davis (vocal)

Bom carnaval, porém com muito jazz, e keep swinging,

Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Mestres Paul e Raffaelli,
Ao primeiro, obrigado pelas palavras generosas - puxa, mensageiro do jazz, eu?!?!? Fico honrado!!!
E ao segundo, obrigado pelas informações - aguardemos, pois, a chegada de mais um grande lançamento da Biscoito Fino na seara jazzística e que venham muitos mais!!!
E um ótimo Jazznaval para os dois!!!!

citadinokane disse...

Mano Érico,
Sigo aqui aprendendo, humildemente... Apresento-me como pescador de ilusões e só.
abraços,
Pedro

Érico Cordeiro disse...

Grande Citadinokane,
Estamos todos no mesmo barco, meu amigo! O barco dos eternos aprendizes! E assim vamos caminhando, pescando aqui e ali as ilusões que fazem a vida um ofício menos árduo, não é mesmo?
Grande abraço!

pituco disse...

érico san,

invariavelmente...piramidal resenha

aí no brasil temos também vários irmãos atuando juntos na música (não apenas em duplas sertanejas...rsrsrs)...os godoys, peixotos, valles e machados...não é isso?

não somos excepcionais como os supracitados e os da resenha, mas meu irmão também é do ramo...rs

abraçsons gelados e pacíficos
ps.tô curtindo a nova versão pra postar aúdios...sonzaço que tá rolando agora...rs

Érico Cordeiro disse...

É isso aí, Mr. Pituco,
Aqui também temos os nossos irmãos talentosos também. Falando nisso, e seu irmão, parece que ele mora em Seattle, né? Tem um pianista brasileiro que mora lá, o Jovino Santos Neto.
Grande abraço, meu embaixador - e o GCast parece que não está fazendo a menor falta, não é?

Walter Carrilho disse...

Ei, absolutamente sensacional o comentário lá em casa. Gostei de ver que aqui a música rola de verdade, sem caês e afins. abs

Érico Cordeiro disse...

Valeu, Walter,
E aquele post é sensacional!
Abração!

MaJor disse...

Érico, ótima resenha como sempre. Wes foi um dos maiores guitarristas do jazz e o que mais me impressiona nele é o balanço, o suingue, fantásticos, além naturalmente do ataque em suas interpretações. Junto-me ao Raffa para cumprimentá-lo pelo seu ataque nas resenhas, sei bem o trabalho que dá e o tempo gasto em pesquisa, e tal...
Abraços Mario Jorge

Érico Cordeiro disse...

Prezado MaJor,
O trabalho vem acompanhado de muito prazer, pois sempre que elaboro uma resenha ouço sem parar o disco postado, além de mergulhar na fascinante vida desses grandes artistas - é sempre uma leitura muito bacana, especialmente quando temos fontes tão bem escritas e feitas com tanto carinho quanto o obrigatório Glossário do Jazz.
Depois é só partilhar com os amigos aqui no barzinho!!! Falando nisso, hoje terminei a resenha sobre o Pepper Adams (como estou com uma folguinha, ele vai pintar daqui a uma ou duas semanas).
Obrigado pela visita e pelas palavras sempre muito generosas!

Adriana Godoy disse...

É muito gratificante vir aqui e encontrar essas riquezas musicais. Parabéns por seu trabalho. Volto. beijo.

Érico Cordeiro disse...

Oi, Adriana,
Gratificante é abrir a caixa de comentários e ler uma mensagem tão bacana como a sua. Pois volte sempre e sempre, porque o barzinho jazz + bossa fica aberto 24 horas por dia e funciona até no carnaval.
Valeu!!!!

Tobias Serralho disse...

Prezado Érico, a cada dia melhoram seus textos e escolhas de faixas. Qual será o limite, fico me perguntando. E obrigado pela visita ao Jazzseen, blog que também alimenta simpatia pelas famílias de músicos de jazz. Um abraço,

Tobias.

pituco disse...

oi, érico san,

esbaldando-se nas umbigadas?...rs

sim, o jovino (que tocou com o hermeto e coisa e tal) mora por lá sim...inclusive, produziu e tocou um cd do meu irmão...parece que há um galera brazuca bacanuda naquelas plagas.

abraçsons a 0ºC

Érico Cordeiro disse...

Caros Tobias e Pituco,
Sejam muito bem-vindos. Obrigado pelas palavras generosas, Mestre Serralho, jazzófilo e gourmet de primeira linha!
Seu Pituco, mandei um e-mail pro Jovino e ele respondeu - super simpático. Como é o nome do seu irmãoo? Vou falar prá ele. Já separei alguns discos da fera no Amazon e hora dessas eu peço.
Abração aos dois!

Adriana Karnal disse...

é uma aula de música ....gostei do seu jazz.

Érico Cordeiro disse...

Oi, Adriana,
Seja muito bem-vinda e junte-se à nossa confraria!O barzinho jazz + bossa agradece a sua presença e suas palavras gentis e espera que você volte sempre!
Um fraterno abraçoi!

Andre Tandeta disse...

Erico,
Wes Montgomery é um dos meus idolos.
Conheci quando era bem novo,uns 11 ou 12 anos.Entrei numa loja de discos com uma graninha contada,economias de mesadas de varios meses ,pra comprar um disco que nem lembro mais qual era.Cheguei na loja e estava tocando um disco de Wes com Jimmy Smith("Further Adventures of Jimmy And Wes") e esse disco é um dos que mais ouvi e ouço até hoje,ilha deserta total. Alem dos muitos outros que Wes gravou destaco tambem um que se chama " Bumpin'",o cara era um genio.
Parabens,irmão,voce e seu blog estão cada vez melhores.
Abraço

Érico Cordeiro disse...

Grande Tandeta,
Seja muito bem-vindo! Engraçado é que eu pedi esse disco na semana passada no Amazon (tô ansioso pela chefgada do bichinho). Tem um outro disco do Wes e do Jimmy Smith, o "The Dynamic Duo" (esse eu tenho), que é muito bom, embora não muito badalado - tem um monte de gente boa, como o Grady Tate, o Clark Terry e os arranjos são do Oliver Nelson!
Valeu, mestre das baquetas, pratos, escovinhas e adjacências!

pituco disse...

oi érico,

o nome do meu irmaõ é kiko freitas...mas não o baterista, não...rs...são homônimos apenas.

segue link do myspace do meu irmão...

http://www.myspace.com/kikofreitas

e há uma postagem nova no meu blogdopituco...sobre o novo lançamento do chico pinheiro...mas não o jornalista,não...hehehe

abraçsonoros desse lado do frio

Érico Cordeiro disse...

Valeu, Mr. Pituco.
Já já dou uma passada por lá!
Abração.

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