Amigos do jazz + bossa

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O FAZENDEIRO DO AR


Provavelmente você jamais ouviu falar em Council Bluffs, que fica no não menos célebre Condado de Pottawattamie, estado de Iwoa. Mas foi ali, naquela cidadezinha do centro-oeste americano, que nasceu, no dia 21 de agosto de 1928, um dos músicos mais líricos, refinados e inventivos do jazz: Arthur Stewart Farmer. No mesmo dia, hora e local, nascia um músico tão talentoso quanto, mas bem menos conhecido: seu irmão gêmeo Addison Stewart Farmer. Ao primeiro, coube desvendar os segredos do trompete, do flugelhorn e do curioso flumpet (um instrumento que mescla o design e as características dos dois anteriores). O segundo foi um disputado baixista, que além do irmão mais famoso, acompanhou Charlie Parker, Miles Davis, Mal Waldron, Sonny Criss e muitos outros.

Art desde cedo revelou um grande interesse pela música e um talento de igual calibre. Na infância e adolescência, passadas em Phoenix, Arizona, estudou piano, violino e tuba, até, finalmente, se fixar no trompete. Em meados da década de quarenta, muda-se para Los Angeles, onde toca nas orquestras de Gerald Wilson, Jay McShann, Roy Porter e Benny Carter. Associou-se durante um bom tempo com o precocemente falecido Wardell Gray e, em 1953, foi convidado por Lionel Hampton para acompanhá-lo em uma turnê pela Europa.

Seu companheiro no trompete da orquestra de Hampton era ninguém menos que o extraordinário Clifford Brown, de quem ficou amigo. De volta aos Estados Unidos, outra mudança, desta feita para Nova Iorque. A sua reputação já era considerável, razão pela qual foi requisitado por músicos do porte de Horace Silver, Art Blakey, Gerry Mulligan, Thelonious Monk, Dexter Gordon, Oscar Pettiford e Charles Mingus. Nessa época, estreita a amizade com o saxofonista Gigi Gryce, com quem haveria de produzir alguns excelentes álbuns.

Outro saxofonista, Benny Golson, seria bastante importante na vida do mais conhecido dos irmãos Farmer. Com efeito, em 1959 ambos se juntam para formar o Jazztet, um dos mais belos combos do início dos anos 60, cuja importância para o jazz pode ser medida pelo número de grandes músicos que por ali passaram: Cedar Walton, Harold Mabern, Albert Heath, Tommy Flanagan, Curtis Fuller, Phil Woods, Jim Hall e George Duvivier. Dentre os músicos descobertos pela dupla Farmer-Golson, destacam-se o pianista McCoy Tyner e o trombonista Grachan Moncour III.

A partir do início da década de 60, Art passa a se dedicar quase que integralmente ao flugelhorn. Em 1963, a perda do irmão e parceiro Addison abala seriamente o trompetista. Mas ele consegue dar a volta por cima e, em 1964, ao lado de Jim Hall, Pete LaRoca e do então iniciante Steve Swallow, gravou o interessante “To Swden With Love”, onde interpretava canções típicas do folclore sueco em ritmo de jazz. Quase dez anos antes, produziu ao lado do amigo e parceiro Gigi Gryce o excepcional “Art Farmer Quintet”, verdadeiro marco em suas carreiras.

A gravação transcorreu no célebre estúdio de Rudy Van Gelder em Hackensack, no dia 21 de outubro de 1955. Gryce assumiu o sax alto e Farmer o trompete, acompanhados pelo sempre presente Addison no contrabaixo, pelo magistral Duke Jordan no piano e pelo lendário Philly Joe Jones na bateria. Todas as músicas do álbum são de autoria do saxofonista, exceto “Forecast”, que abre o disco e que foi composta por Jordan.

Nessa faixa, uma das mais belas do álbum, é possível perceber quão consistente é o fraseado do Farmer trompetista, que elabora solos de extremo bom gosto, sem resvalar para a pirotecnia gratuita. Gryce exibe uma confessa influência de Charlie Parker e também apresenta solos de alta complexidade técnica. Jordan é sempre uma atração à parte em qualquer gravação de que participe e aqui se mostra extremamente inventivo na construção das harmonias.

A balada “Evening In Casablanca”, com sua abertura que remete ao oriente, é bastante fluida, melódica. Jordan se comporta com a fleuma de um lorde inglês durante o tradicionalíssimo chá das cinco – elegância pura. Sax e trompete se amoldam a essa atmosfera lírica com competência e discrição exemplares. O clássico “Nica’s Tempo”, talvez a mais conhecida composição de Gryce, ganha uma versão menos acelerado, bastante cool em sua execução, mas com momentos altamente inflamáveis, como o magistral solo de Philly.

“Satellite” é outro grande momento. Um hard bop melodioso, tocado com muita adrenalina e uma boa dose de lirismo, que poderia ter sido composta por Art Blakey ou Horace Silver. A coesão da banda impressiona e o fôlego de Gryce e Farmer mais ainda. O solo de Jordan é soberbo, de alta complexidade e precisão. As duas últimas músicas refletem bastante a influência de ritmos latinos. Tanto “Sans Souci” quanto “Shabozz”, embora sejam reconhecidamente hard bop de ótima cepa, trazem em seu DNA vestígios das ensolaradas praias do Caribe, em grande parte graças ao excepcional trabalho de Jones. A destacar, na primeira, o ótimo trabalho do Farmer contrabaixista (que o tempo inteiro se mantém firme e discreto) e, na segunda, o belíssimo diálogo dos líderes.

Art Farmer atravessou as décadas de 60, 70, 80 e 90 como um dos mais prolíficos músicos em atividade. Em 1968 mudou-se para a Europa, onde tocou, com regularidade, big band de Kenny Clarke e Francy Boland e na Austrian Radio Orchestra. Ao mesmo tempo, executou mais alguns ótimos álbuns, incluindo um referencial tributo a Billy Strayhorn, chamado “Somethin To Live For”, de 1987. O sopro deste fazendeiro do ar calou-se para sempre o dia 04 de outubro de 1999. Para a sorte de uma infinidade de fãs do jazz, deixou como legado maior uma bem documentada obra em disco, a qual o ouvinte sempre poderá recorrer quando quiser conhecer o verdadeiro significado do adjetivo “lírico”.

13 comentários:

Salsa disse...

Mandaste bem mais uma vez, meu caro Érico. Tanto pela escolha do disco quanto pela excelente resenha (para não perder o hábito). Cinco estrelas.

figbatera disse...

Beleza de texto, álbum admirável, blogueiro "fora de série".
Sou fã do som aveludado do flugelhorn, sem desprezar o trompete, claro. Nota dez!

Érico Cordeiro disse...

Mestres Salsa e Fig,
Pois é, prá entrar no clima de Ouro Preto, nada melhor que Art Farmer, um dos trompetistas mais melodiosos e líricos do jazz. Contagem regressiva!!!
Abração!

Pedro disse...

Prezado ÉRICO:

Enxuto, preciso, completo. O máximo de informação no mínimo de espaço, sensível como sempre.
PArabéns ! ! !

Giovanna disse...

Olá. Meu nome é Giovanna e trabalho para a Noir Comunicação, uma assessoria de imprensa de Belo Horizonte (MG). Eu gostaria de lhe mandar um material sobre o Festival Tudo É Jazz, que acontecerá em Ouro Preto, aqui em Minas, em setembro. Nomes como Madeleine Peyroux e outros se apresentarão no evento. Há algum email direto que você possa me passar para que eu te encaminhe os textos? Aguardo contato no giovanna@noir.com.br. Obrigada pela atenção! Um abraço!

Edinho disse...

Érico,
muito tenho me alegrado com as suas deliciosas resenhas e algumas ( poucas !!!) músicas que tem me mandado . Como acho, que tenho de retribuir á altura das maravilhas que me manda ...

Link : http://www.sendspace.com/file/8gzesu
Este LP,Oscar Peterson - Big 6 At Montreux (1975), que o grande pianista Ruffo me mandou , gravado no Montreux Jazz Festival 1975, é uma jam session festivo em que o pianista Oscar Peterson apresenta o Vibrafonista Milt Jackson , o guitarrista Joe Pas , Toots Thielemans na gaita, o baixista Niels Pedersen e o baterista Louis Belson . Os meninos têm muito espaço de solo em dois blues, a balada "Here's That Rainy Day" e a" Poor Butterfly." Uma vez que estes músicos são muitos competitivos, além de ser complementares, algumas faíscas voam quando eles desafiam uns aos outros nos maravilhosos solos .
Esse disco é uma festa , feito para alegrar o seu dia .

Abraços Sonoros ,

Érico Cordeiro disse...

Caros Apóstolo, Giovanna e Edinho,
Obrigado pelas visitas. Desculpem o atraso na resposta, é que durante a semana estou trabalhando em Pinheiro (uma cidade próxima a São Luís) e a internet é bloqueada para comentários - só à noite, quando vou a alguma lan house posso respondê-los ou quando estou em São Luís, como agora.
Um grande abraço aos três (Edinho e Giovana já mandei um e-mail)!

pituco disse...

signore érico,
valeô a visita lá no meu sítio...(na verdade um rancho,comparado a esse teu blog e aos da rede de amigos linkados..rs).

tô ouvindo mr.fazendeiro...sopro piramidal...o solo no tema nica's é bacanudo mesmo.

e hoje é dia do sopro...rs...acabo de ouvir,entre outros trocentos cds da seção de jazz da megastore tower records, ben webster 'autumn leaves'...uau.

bom, ali tb não existe na letra W nem nas seletas prateleiras dos contrabaixistas,mr. willie wilson,o esquecido...esquisito, não é verdade?...enfim, continua a busca.

vale lembrar que tá uma liquidação danada por lá...hehehe

amplexossonoros e pacíficos

Érico Cordeiro disse...

Que inveja, Mr. Pituco-san,
Pois faça a festa e depois nos diga quais foram as últimas aquisições.
Parece que o cd vai acabar mesmo, um amigo foi a Miami recentemente e disse que lá a quebradeira é geral e que os preços dos discos estão muito baixos (pena que no Brasil as pessoas não aprendam, cd aqui custa uma fortuna e importado, então, é uma facada do Jason).
Valeu e um abração!!!!

Leo disse...

Aí, Érico...

Estou fazendo a visita prometida. Gostei bastante do teu blog (já conhecia, mas nunca tinha comentado)...

Virei sempre aqui, para ouvir essas ótimas músicas (comentei nessa postagem porque tinha pouquinho comentário - rs).

Um abraço a você e aos demais companheiros de "viagem".

Érico Cordeiro disse...

Valeu Mestre Léo,
Seja bem-vindo e até o dia 30 na reunião do CR.
Abração!

José Domingos Raffaelli disse...

Prezado Érico,

A propósito de Art Farmer - o protótipo do bom gosto e da refinada musicalidade -, quando Benny Golson tocou no Free Jazz Festival de 2001 liderando um sexteto no tributo a Art Blakey, disse-me textualmente o seguinte ao relembrar os tempos do Jazztet:
"Ninguém tocava uma balada como Art Farmer, ele sabia extrair miraculosamente toda sua essência melódica com elegância de estilo e supremo bom gosto".

Penso que ninguém contestaria essa declaração.

Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Caro Mestre,
Subscrevo as palavras do Golson (acho que capaz de rivalizar com Farmer, só um Chet Baker muito inspirado e olhe lá).
Aliás, Golson será objeto de postagem em breve aqui na casa.
Abração!

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