Amigos do jazz + bossa

sexta-feira, 6 de maio de 2011

TALVEZ NO TEMPO DA DELICADEZA...




Richard Kamuka foi um dos mais talentosos e versáteis músicos ligados ao West Coast Jazz. Dominava como poucos o sax tenor, além de tocar com maestria sax alto, clarinete, flauta, oboé e trompa. Ele nasceu na Filadélfia, estado da Pensilvânia, no dia 23 de julho de 1930. Na adolescência, iniciou os estudos musicais na “Mastbaum School”, ao mesmo tempo em que ouvia, incessantemente, os álbuns da banda de Count Basie, por causa do seu ídolo Lester Young.


Após a conclusão do curso, o saxofonista começou a atuar profissionalmente, sobretudo em gigs na cidade natal. Sua habilidade chamou a atenção de ninguém menos que Stan Kenton, que o contratou em agosto de 1951. Kamuca integrou uma das mais poderosas formações da big band de Kenton, onde marcavam presença talentos superlativos como Maynard Ferguson, Conte Candoli, Frank Rosolino, Bill Russo, Lee Konitz, Bill Holman, Sal Salvador, Stan Levey e incontáveis outros. Como curiosidade, saliente-se que Konitz foi contratado no mesmo dia que Kamuca e os dois se tornariam grandes amigos.


Ele permaneceu na orquestra do pianista e bandleader até 1953. Mesmo sendo bastante jovem e ladeado por alguns dos maiores nomes do jazz, o saxofonista conseguiu um grande destaque como solista. Com efeito, sua participação em temas como “Portrait Of A Count”, “Prologue”, “Young Blood”, “Frank Speaking” e “Swinghouse” chamaram a atenção do público e da crítica para o seu trabalho e em pouco tempo seu nome figurava entre os mais populares músicos estabelecidos na Califórnia. Kamuca também se destacou nas gravações de “New Concepts Of Artistry In Rhythm”, certamente um dos discos mais importantes de Kenton.


Entre 1954 e 1955, o saxofonista fez parte da famosa “The Third Herd”, denominação dada àquela formação da orquestra de Woody Herman. A seu lado, figuras exponenciais como Al Cohn, Victor Feldman, Bill Perkins, Med Flory, Cy Touff, Arno Marsh, Chuck Flores, Nat Pierce, Monty Budwig, Vince Guaraldi e Phil Urso, entre outros mais.


Após a saída da orquestra de Herman, Kamuca tocou nas bandas de Chet Baker, Maynard Ferguson e Shelly Manne. Em 1957 integrou a mítica “Lighthouse All Stars”, liderada pelo contrabaixista Howard Rumsey, onde atuou ao lado dos extraordinários Charlie Mariano, Scott La Faro, Billy Higgins e Victor Feldman. A participação na banda de Rumsey, embora breve, consolidou o prestígio do saxofonista perante a comunidade musical californiana, o público e a crítica. Por causa do sucesso, em 1959 participou do filme “Kings Go Forth” (no Brasil, “Só Ficou a Saudade”), estrelado por Frank Sinatra, Natalie Wood e Tony Curtis.


No mesmo ano, gravou ao lado de Lee Konitz o clássico de Lester Young “Tickle Toe”, com direito a uma belíssima troca de “choruses” entre os dois saxofonistas. Nas incontáveis “gigs” de que participou, Kamuca registra atuações ao lado de gente como Howard Rumsey, Frank Rosolino, Charlie Mariano, Shelly Manne, Shorty Rogers, Stu Williamson, Russ Freeman, Al Cohn, Jimmy Giuffre, Victor Feldman, Monty Budwig, Stan Levey, Bob Enevoldsen, Pete Jolly, Leroy Vinnegar, Bill Perkins, Art Pepper, Jimmy Rowles e Cy Touff.


Entre 1960 e 1961 foi um dos integrantes da banda de Shelly Manne, atuando como músico fixo no clube “Shelly Manne’s Hole”. Com o grupo de Manne, o Kamuca excursionou pela Europa, em 1960. No ano seguinte, mudou-se para Nova Iorque, a fim de se integrar à “Concert Jazz Band”, criada e liderada por Gerry Mulligan. A orquestra permaneceu em atividade por 04 anos, alternando momentos de grande sucesso e outros de relativo ostracismo. Durante a temporada na Grande Maçã, o tenorista tocava com habitualidade no clube “Half Note”.


Kamuca gravou com Zoot Sims, Al Cohn e Jimmy Rushing, até ser contratado por Gary McFarland. Algum tempo depois, em 1966, o saxofonista formou um quinteto ao lado do trompetista Roy Eldridge. A parceria obteve um grande sucesso de público e de crítica e os dois permaneceram juntos até 1971. Embora bem sucedido em sua empreitada com Eldridge, Richie não abandonou as atividades de freelancer e se manteve em atividade, sendo bastante requisitado nos estúdios.


Em 1972, de volta a Los Angeles, foi contratado para tocar na banda do programa “The Merv Griffin TV Show”. Também tocou na orquestra do trompetista Bill Berry, uma espécie de resposta californiana à bem-sucedida Thad Jones & Mel Lewis Orchestra e com formação semelhante. O saxofonista também mantinha seus próprios grupos, por onde passaram feras do naipe de Blue Mitchell, Jimmy Rowles, Donald Bailey, Mundell Lowe, Monty Budwig e Nick Ceroli, entre outros.


Em 1975, nova mudança e, outra vez, para Nova Iorque. Ali, juntou-se ao grupo do altoísta Lee Konitz, com quem fez diversas apresentações. Gravou, ainda, alguns discos para a Concord, os quais, infelizmente, se encontram fora de catálogo. Um dos pontos culminantes de sua pequena (do ponto de vista quantitativo, é claro) discografia é “Richie Kamuca Quartet”, gravado em junho de 1957 para a extinta gravadora MOD (em cd, o álbum foi lançado pela VSOP). Aqui, o saxofonista lidera um poderoso quarteto, integrado pelo pianista Carl Perkins, pelo baixista Leroy Vinnegar e pelo baterista Stan Levey.


“Just Friends” ganha um arranjo veloz e contagiante. A introdução, a cargo do piano sacolejante de Perkins, dá bem a medida do swing imposto pelo quarteto. O líder improvisa com bastante graça e personalidade, e seu fraseado é vibrante e alegre. Em seguida, “Rain Drain”, de autoria do próprio Kamuca, faz uma releitura do blues, sem perder a referência à dicção do bebop. O quarteto acelera o tema sendo que a execução de Perkins é memorável. Grandes atuações também de Vinnegar e Levey, que garantem o sustentáculo rítmico com competência.


Em “What's New?”, de Burke e Haggart, podemos constatar a força de Lester Young na formação de Kamuca. O arranjo é sóbrio, melodioso e de grande intensidade emocional. “Early Bird” é uma homenagem de Perkins a Charlie Parker. Sua estrutura é sofisticada, remetendo a “I’m Begginning To See The Light”, de Duke Ellington, Johnny Hodges e Harrry James, e o balanço da dupla Levey-Vinnegar é sincopado e vivaz. O líder, como de hábito, constrói solos de grande riqueza harmônica e de complexidade técnica invulgar.


A esplêndida “Nevertheless (I'm in Love with You)”, de Bert Kalmar e Harry Ruby, é uma balada em tempo média, executada com fluidez e classe pelo quarteto, com destaque para as intervenções cheias de groove do pianista, que tempera o tema com discretas pitadas de blues, e para o elegante fraseado de Kamuca. Merece atenção, também, o primoroso solo de Vinnegar.


Em “My One And Only Love”, composta por Guy Wood e Robert Mellin, o saxofonista imprime uma sonoridade sofrida, lamentosa, criando uma atmosfera de abandono de que contrasta com a letra otimista e que traz versos como “Só de pensar em você / Meu coração começa a cantar / Como uma brisa de abril/ Nas asas da primavera”. O lirismo de Perkins, discreto em suas intervenções mas absolutamente preciso, também merece aplausos.


“Fire One” é um blues irreverente, de autoria de Perkins, cuja performance é sublime. O breve solo de Vinnegar também chama a atenção, embora o destaque absoluto fique por conta de Kamuca, cuja maestria se revela em uma execução límpida e sem arestas. “Cherokee”, de Ray Noble, é a mais acelerada das faixas, na qual o quarteto alcança uma velocidade supersônica. Exibindo a influência parkeriana, Kamuca é implacável, conjugando um fraseado bop de primeira linha com o frescor e a vibração típicos da West Coast. Um disco bastante representativo da arte e do talento desse grande tenorista e que, para sorte dos jazzófilos, ainda está em catálogo.


Outro disco bastante recomendado, e quem também pode ser encontrado nas melhores lojas virtuais, é o fantástico “West Coast Jazz In Hi-Fi”, gravado em 1959 para a Contemporary, no qual Kamuca divide a liderança com o não menos talentoso Bill Holman, que além do sax barítono se encarrega dos arranjos. A dupla se faz acompanhar por um verdadeiro “Estado-Maior” do West Coast Jazz: Conte Candoli e Ed Leddy nos trompetes, Frank Rosolino no trombone, Vince Guaraldi no piano, Monty Budwig no contrabaixo e Stan Levey na bateria.


Em fevereiro de 1977 o saxofonista descobriu que tinha câncer. Pouco depois, foi organizado um concerto beneficente para angariar fundos para o tratamento, já que Richie era bastante querido no meio artístico. Entre os amigos que participaram do evento, destacam-se Tony Bennett, Doc Severinsen, Milt Jackson e Steve Allen. Abatido pela doença, Kamuca ficou praticamente sem atuar, vindo a falecer no dia 22 de julho daquele mesmo ano, ou seja, apenas um dia antes de completar 47 anos. Em 1978, Lee Konitz dedicou-lhe o disco “Tenorlee”, onde trocou o habitual sax alto pelo tenor, homenageando, dessa forma, o falecido amigo.


Para encerrar, sempre é bom recorrer ao Mestre Pedro “Apóstolo” Cardoso que, a respeito da técnica e do estilo de Kamuca, leciona: “Pela influência inicial do “Pres” e sendo músico formado na escola do “bebop”, seu fraseado marca a exata confluência dessas duas vertentes, com a melodia rica, fina, provida de intensa e grande variedade rítmica, com espantosa habilidade para construir frases de bela e apenas aparente simplicidade, que pode levar a uma sonoridade “dura” se a emoção assim o encaminha”.



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25 comentários:

Alê disse...

Que delícia de ouvir

PREDADOR.- disse...

Acho que você, mr.Cordeiro, foi acometido por uma hérnia de CD pois Disco é coisa muito antiga. Desculpe o "chiste", espero sua pronta recuperação e voltarei com mais calma para "opinar" sôbre o Kamuca. Ânimo!

Sergio disse...

Ô, seu mr, Érico, e eu brincando e vc mesmo doente? Melhoras djá que o mundo do jazz não sobrevive tão saudável sem a vossa digníssima pessoa sã.

pedrocardoso@grupolet.com disse...

Estimado ÉRICO:

Como é bom ouvir KAMUCA, com sua soberba e sempre maravilhosa simplicidade ! ! !
Como sempre diz Mestre LULA, "o JAZZ é tão simples".
Bela postagem e bela gravação, com um "Just Friends" que nos torna simplesmente amigos.

John Lester disse...

Mestre Cordeiro, não bastasse texto escorreito e seleção musical de excepcional compleição, você ainda tem a petulância de terminar a resenha com este texto medular de Mestre Apóstolo? Sacanagem!

Grande abraço, JL.

Érico Cordeiro disse...

Caros Alê, Predador, Sérgio, Apóstolo e Lester,
As presenças de vocês são reconfortantes e me deixam muito feliz!
Ainda no "estaleiro", mas as dores diminuíram bastante, embora ainda seja muito complicado executar tarefas corriqueiras, como andar ou sentar. Vim rapidamente aqui para agradecer, dar um alô aos amigos e dizer que o jazzbarzinho vai permanecer firme e forte - ainda que o ritmo das postagens diminua um pouco.
Abração!

Celijon Ramos disse...

Bom dia, Érico!
Que bom é levantar e já indo enchendo o corpo todo pelo som inebriante de Kamuca. O som mole que dá vontade de comer.
Um abração e melhoras mais que rápidas!

MaJor disse...

Gosto muito do Kamuca um grande músico, endossando Apóstolo: - "em sempre maravilhosa simplicidade". Pena que se foi tão cedo.
Abraços
Mario Jorge

John Lester disse...

Não existe arte sem dor.

Grande abraço, JL.

Salsa disse...

esse eu não tenho...

www.amsk.org.br disse...

Caro e querido Érico,

daqui de Portugal, encomenda entregue com sucesso.

A figura é linda e muito gente fina, é um Falcão real.

5 bjs da Cozinha dos Vurdóns ... depois nos falamos mais.

PREDADOR.- disse...

Que falar de Richie Kamuca, mr.Cordeiro! Foi um excelente tenorista, relegado a músico de terceira linha pelos "críticos americanos" e pouco conhecido dos apreciadores do jazz. Discografia pequena como líder, atuou como side man das grandes "feras" do jazz. A relembrar, suas participações com Shelly Manne, em 1961, no Manne-Hole(mencionado por você nesta postagem) e também com o mesmo Shelly Manne, em 1959, no Black Hawk, sempre com apresentações espetaculares. O disco resenhado por você, "Richie Kamuca Quartet", é uma dessas raridades em que atua como líder, além de ser uma ótima gravação. Resenha perfeita e mais uma vez, uma bela escolha mr.Cordeiro. Espero que você continue apresentando os "benditos", deixando os "malditos" em segundo plano. Aproveitando a onda de filmes(DVD)de mr.Lester, gostaria de lembrar que Richie Kamuka participou de uma seção com Shelly Manne Quintet, em um vídeo(lançado em DVD)da série Jazz Scene USA, apresentado por Oscar Brown Jr. Imperdível!

Yohana SanFer disse...

Obrigada pela visita e convite! Seu blog é muito rico!

Érico Cordeiro disse...

Prezados amigos,
Que saudades de todos.
Feliz por saber das notícias daqui e d'além mar, mas ainda meio fora de combate.
Abraços a todos.

pedrocardoso@grupolet.com disse...

Estimado ÉRICO:

Imperdível a indicação do "PREDADOR", já que nesse "Jazz Scene" (como sempre apresentado pelo mais que simpático Oscar Brown Jr.) temos Kamuka muito bem acompanhado por Conte Candoli ao trumpete, um magnífico Russ Freeman (um mago dos acordes em bloco nas 88), Monty Budwig no baixo e, claro, Shelly Manne à bateria.
Assunto muito sério ! ! !

MJ FALCÃO disse...

Meu caro amigo Érico!
Fiquei feliz com a prenda que você me mandou pelas nossas comuns amigas que finalmente já não são só "virtuais" para mim!
Elas são "o máximo"! De simpatia, inteligência e alegria comunicante...
O seu livro foi uma grande e boa surpresa: nem queria acreditar! Foi grande delicadeza a sua (faz lembrar o toque do Richie Kamuca...).
Muito obrigada! Vou ler com muito interesse.~
Já agora, boas melhoras. Vi que não anda bem.
A coluna é a minha maior inimiga também! Uma vez caí a descer uma escada de caracol -ao fundo da qual havia uma poça de água...- e estive um mês de cama.
Nunca mais ficou boa.
Coragem e boas melhoras!
Abraço fraterno do falcão
Adorei o Kamuca, para já!

Olhos de mel disse...

Acho bem interessante porque esses assuntos não são divulgados e desconhecemos grandes mestres.
Beijos

Érico Cordeiro disse...

Caros amigos,
Agradeço as presenças e, ainda no estaleiro, mando um abraço a todos.
Como o show não pode parar, tem postagem nova no jazzbarzinho.
Um fraterno abraço a todos!

José Domingos Raffaelli disse...

Caros correligionários,

Richie Kamuca foi um músico talentoso que deixou a marca da sua criatividade em seus solos, embora jamais fosse considerado um "nome" importante pela maioria dos críticos.

Entre os CDs que ele gravou, em "West Coast Jazz in Hi-Fi" perpetuou um antológico solo na belíssima balada "The Things We Did Last Summer".

Outro excelente item é "PRIMITIVE CATS" co-liderado por Cy Touff, o único bass trumpeter do jazz moderno.

Sua participação em "JUST FRIENDS/TENORS HEAD ON" é brilhante, ao lado de Bill Perkins.

Outro destaque é "THE BROTHERS",com Al Cohn e Bill Perkins.

Keep swinging,
Raffaelli

Érico Cordeiro disse...

Caros MJ Falcão, Apóstolo, Olhos de mel e Raffaelli,
Parece que as coisas estão se normalizando com a coluna - pelo menos as dores passaram, embora ainda sinta bastante quando fico sentado em certas posições e quando caminho.
Valeu pelas presenças - o Predador só dá indicação nota 10, mestre Apóstolo - e pela força durante esse período de férias não programadas.
Realmente o Kamuca dificilmente é mencion ado mesmo nos compêndios mais completos - é um verdadeiro underrated (gostaria de conhecer seus discos na Concord, mas parece que eles não foram lançados em cd).
Pelo menos tenho conseguido escrever alguma coisa (no notebook, meu companheiro dmais constante nesse período) e em breve teremos novas postagens.
Abraços!

Anônimo disse...

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zelvia dwi disse...

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