
Eddie “Lockjaw” Davis pertence a uma categoria de, digamos, “cabras machos, sim senhor!” do jazz. A ela podemos relacionar portentos como Coleman Hawkins, Arnett Cobb, Don Byas, Gene Ammons, Illinois Jacquet, James Moody e mais alguns outros.
Davis, definitivamente, não se enquadra no perfil de “espírito sensível e angustiado” de um Bill Evans ou de um Keith Jarret, por exemplo. Tampouco consta que costumasse passar por crises existenciais e outras inquietudes espirituais assemelhadas. Afinal, o apelido – Lockjaw significa algo como “Mandíbula Cerrada” – não lhe foi dado à toa, tamanha a ferocidade do seu toque.
Como Sonny Stitt, cuja destreza intimidava os mais hábeis dentre os músicos, Davis também foi um emérito vencedor de incontáveis batalhas e desafios entre saxofonistas, prática comum entre os anos 40 e 50 e que fazia parte da própria mística do jazz. Mas, da mesma forma que também acontece com Stitt no sax alto, seu nome é pouco lembrado quando o assunto é sax tenor jazzístico.
De qualquer forma, o respeitado crítico Nat Hentoff assim descreve a volúpia de Lockjaw, ao vencer mais um desafio: “Após um dos seus excelentes solos, de um som incrível e de um swing trepidante, Eddie “Lockjaw” Davis erguia o seu saxofone tenor no ar, como um gladiador a brandir a sua arma no Coliseu, em Roma, celebrando a sua vitória contra o oponente”.
Edward Davis nasceu no dia 2 de março de 1922, em Nova Iorque. Autodidata, ainda na adolescência conseguiu comprar em sax tenor de segunda mão e daí em diante não parou mais. O garoto freqüentava as casas noturnas do Harlem, a fim de observar seus ídolos em ação, especialmente Coleman Hawkins e o precocemente falecido Herschel Evans.
Seu primeiro emprego foi na orquestra da boate Clark Monroe's Uptown House, no final dos anos 30. A partir do começo da década de 40, seguiram-se trabalhos com Jimmy Gorham, Cootie Williams, Lucky Millinder, Andy Kirk e Louis Armstrong. Também liderou seus próprios conjuntos, tocando em boates e casas noturnas da cidade natal e da Filadélfia.
Embora sua formação fosse o swing, Davis também soube absorver as inovações harmônicas trazidas pelo bebop, tanto é que em 1946 batizou sua banda de “Eddie Davis and His Beboppers”, que incluía Fats Navarro, Al Haig, Huey Long, Gene Ramey e Denzil Best, atração fixa do Minton’s Playhouse. Seu estilo, agressivo e cru, fez dele um dos precursores das correntes que aproximaram o jazz do R&B, como o soul jazz e o hard bop.
Em 1952 juntou-se à orquestra de Count Basie e ali permaneceria, com algumas interrupções, até a década de 70. Manteve, todavia, uma intensamente produtiva carreira solo e dentre as suas associações mais importantes, destacam-se a com Sonny Stitt (no início dos anos 50), com a organista Shirley Scott (de 1955 a 1960, cujos discos fizeram um grande sucesso comercial, para os padrões do mercado jazzístico) e com Johnny Griffin (um saxofonista tão competitivo e obstinado quanto Lockjaw, com quem co-liderou um quinteto entre 1960 e 1962).
Em sua anabolizada carreira, Davis acompanhou ou foi acompanhado por gente do quilate de Jimmy Cleveland, Al Grey, Eric Dolphy, Arthur Edgehill, J. J. Johnson, Harry "Sweets" Edison, Jack McDuff, Jerome Richardson, Horace Parlan, Red Garland, Oscar Peterson, Roy Haynes, Big Joe Turner, John Heard, Roy Eldridge, Clarence Johnston, Sam Jones, Milt Jackson, Ray Brown, Hugh Lawson, T-Bone Walker, Arthur Prysock, Melba Liston, Junior Mance, Oliver Nelson, Ray Barretto, Don Patterson, Carmen McRae, Ben Riley, George Duvivier, Jimmie Smith, Zoot Sims, Dinah Washington, Arthur Taylor, Benny Carter, Clark Terry, Paul Gonsalves, Richard Wyands, Quincy Jones e muitos outros. Sua longa discografia inclui trabalhos para a Prestige, Roullette, Savoy, Moodsville, MPS, Riverside, Pablo, RCA, SteepleChase, Enja e muitos outros selos.
Um dos seus melhores discos foi gravado no dia 18 de abril de 1962 e se chama "Jawbreakers". A seu lado, dividindo a liderança da sessão, o fabuloso trompetista Harry "Sweets" Edison, outro músico oriundo do swing e que passou boa parte de sua vida com a orquestra de Count Basie. A sessão rítmica era formada pelos competentes Hugh Lawson (piano), Ike Isaacs (baixo) e Clarence Johnston (bateria) e o álbum foi lançado pela Riverside.
A idéia do álbum surgiu casualmente. Sweets e Lockjaw conversavam no bar do Birdland e constataram que apesar das respectivas – e quilométricas – discografias, jamais haviam gravado juntos. A Riverside encampou a idéia e o big boss da gravadora, o lendário Orrin Keepnews, produziu o disco. Mostrando a que vieram, os líderes abrem o set com o blues “Oo-Ee!”, composição cheia de groove de Edison.
A sacolejante “Broadway”, de Henry Woode, Teddy McRae e Bill Bird, é uma homenagem da dupla ao ex-patrão Count Basie. A abordagem é completamente bopper, com Isaacs fazendo uma linha de baixo antológica e os líderes duelando como se estivessem em uma arena. Destaque também para o vigoroso solo de Lawson, que na época era o pianista oficial do exigente Yusef Lateef.
“Jawbreakers”, tema que dá nome ao disco, foi composta especialmente pó Edison para esta sessão. Firmemente assentada no blues, com uma leve tintura de soul jazz, sua abertura impressiona, com a alternância entre trompete encorpado de Edison e o fabuloso sax de Lockjaw. Grandioso trabalho da sessão rítmica, especialmente de Lawson. Mostrando que também estavam atentos ao jazz contemporâneo, os líderes entregam uma caudalosa versão de “Four”, de Miles Davis. A interação entre os líderes beira a telepatia e a bateria de Johnston é simplesmente devastadora.
Mostrando que machões também sabem ser românticos, a balada bluesy “Moolah”, também de Edison, dá uma aliviada no clima “hot” e permite que se perceba a diferença de estilos entre os dois líderes: Edison é sutil e delicado em sua abordagem, enquanto Davis exibe um lirismo rascante – é como se o primeiro sussurrasse uma melodia de amor no ouvido da amada e o segundo a gritasse a plenos pulmões, desesperadamente, como se implorasse pela sua volta. O romantismo continua na estupenda versão que o quinteto faz para “I’ve Got A Crush On You”, uma das composições mais refinadas dos irmãos Gershwin, onde Sweets soa mais doce que nunca, ao usar a surdina com muita classe.
Outro standard, “A Gal In Calico”, de Arthur Schwartz e Leo Robin, ganha um arranjo alegre e vivaz. O diálogo entre Sweets, novamente usando a surdina, e Lockjaw é fabuloso e o clima é de big band dos anos 30 – swing de primeira linha. Na mesma linha, uma exuberante versão de “Close Your Eyes”, com direito a solos arrojados dos líderes e de Lawson, encerra o álbum em altíssimo astral. Para completar, a capa, que reproduz diversos potinhos de guloseimas na estante de uma mercearia, é tão deliciosa quanto o seu conteúdo.
Entre 1963 e 1964, Davis interrompeu sua carreira musical para tentar estabelecer-se como editor. Não foi lá muito bem sucedido e voltou aos palcos e estúdios, retomando a parceria com Basie. Na Europa, onde passou alguns anos, integrou-se à Kenny Clarke-Francy Boland Big Band e excursionou com a caravana Jazz At The Philarmonic, de Norman Granz. Também acompanhou Ella Fitzgerald, podendo ser ouvido no álbum "Newport Jazz Festival: Live At The Carnegie Hall", de 1973.
Em 1977 fez uma das mais memoráveis performances do Festival de Montreux, liderando um quarteto all-star que contava com o soberbo Oscar Peterson no piano, e mais Ray Brown (baixo) e Jimmy Smith (bateria). Ele faleceu no dia 03 de novembro de 1986, em Culver City, Califórnia, em decorrência de um ataque cardíaco.
O crítico Stanley Dance resumiu com precisão o que Lockjaw e seu estilo representaram para o jazz: "Eddie possuía um estilo único e muita confiança e impetuosidade. Muito inteligente, desenvolveu uma presença de palco conjugada à música, e manuseava seu instrumento com tamanha confiança que o público já ficava fascinado antes que ele começasse a tocar".
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