Amigos do jazz + bossa

sábado, 25 de abril de 2009

UM PASSEIO PELO CLUBE DA ESQUINA


Estive em Belo Horizonte na semana passada. Suas ladeiras, sua gente, sua história, seus artistas... Tudo me comoveu muito e acionou os mecanismos da memória. Lembrei da época em que comecei a gostar de música popular brasileira (por volta dos meus 14 anos só gostava de rock) - e isso se deu muito por causa dos mineiros: Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini e, sobretudo, o gênio Milton Nascimento (nascido no Rio de Janeiro por acidente, tornou-se o carioca mais mineiro do universo).

Voltei prá casa e ouvi, dezenas de vezes, o CD Clube da Esquina II. Não basta que este disco tenha uma das capas mais belas e arrebatadoras da história da música popular brasileira. Não basta que os experimentos harmônicos apenas sinalizados em trabalhos anteriores de Milton tenham aqui alcançado sua maturidade e influenciado, por exemplo, o experimentalismo radical do Uakti. Não basta que em poucas vezes na história da música brasileira uma constelação de astros tenha se envolvido em um projeto tão pessoal e, ao mesmo tempo, tão universal. A singeleza comovente dos meninos debruçados no muro, captada em um fundo sépia que torna a foto atemporal, apenas atiça a curiosidade dos ouvintes e serve como uma prévia do conteúdo do disco.

E o que vem a seguir é, nada mais, nada menos, que o mais confessional dos cantores brasileiros, em um dos seus discos mais brilhantes. Milton desnuda sua alma para o ouvinte e faz dele seu cúmplice. É impossível não ficar perplexo diante de tanta sensibilidade e tanto despudor. Quando Milton canta, em Dona Olímpia, “vê se não esquece de chorar”, para logo em seguida implorar “vê se não esquece de voltar” , qualquer pessoa que já tenha sofrido por amor – e que tenha odiado o objeto desse amor por quase um segundo – se vê ali, indefeso e enredado no universo inevitável das dores de amores. Mas o disco não fala só de amor. Todos os sentimentos humanos – nobres e ignóbeis – estão escancarados ali.

Canções eternas como “Credo”, “Nascente”, “Paixão e fé”, “Mistérios”, “Tanto”, “O que foi feito de Vera”, “Testamento”, “Maria, Maria”, “Reis e rainhas do maracatu”, entre outras, vão invadindo a sensibilidade do ouvinte e fazendo deste disco um trabalho inesquecível. As músicas vão se sucedendo e quase todas elas servem para elevar o espírito de quem acredita em espíritos e de quem não acredita neles. Cada faixa parece exclamar, como um silencioso grito, que Minas está viva!!!!

Muito viva, por sinal. O Clube da Esquina, manifesto estético-musical-hedonista-contemplativo do qual Milton é sócio fundador e que dá nome ao disco, está lá em sua integralidade. Entre os músicos que participam das gravações, estão Flávio Venturini, Lô Borges, Beto Guedes, Novelli, Wagner Tiso, Mauro Senise, Tutti Moreno, Nélson Ângelo, Toninho Horta, Danilo Caymmi, entre muitos outros. O clima de congraçamento e amizade pode ser percebido nas músicas e nas fotos que ilustram o encarte, que são um espetáculo à parte. Esses músicos – embora nem todos sejam mineiros – conseguem impregnar de uma universal mineirice cada nota, cada acorde, e ajudam Milton a escrever uma das mais emocionantes páginas da MPB, com direito a harmonias elaboradas, improvisações inesquecíveis e tessituras melódicas improváveis.

Não fosse suficiente essa verdadeira constelação de instrumentistas, o disco também conta com as participações, nos vocais, de pesos pesados da MPB, como Chico Buarque, Joyce, Flávio Venturini, Boca Livre, Dori Caymmi e, em especial, Elis Regina, que protagoniza com o anfitrião, em “O que foi feito de Vera”, um dos duetos mais emocionantes de sua carreira. Milton poucas vezes esteve tão bem acompanhado e, menos ainda, esteve tão à vontade em uma gravação – tímido inenarrável que é. Ademais, falar da qualidade das composições é até covardia. As músicas foram criadas por mestres da estirpe de Fernando Brant, Márcio Borges, Violeta Parra, Chico Buarque, Ronaldo Bastos, Toninho Horta, Pablo Milanes, entre muitos outros. O próprio Milton assina, sozinho ou em parceria, boa parte das canções. Além disso, qualquer disco que traga consigo um poema musicado de Drummond merece ser ouvido com atenção redobrada – e a versão de “Canção amiga”, feita por um inspirado Milton, é simplesmente enternecedora.

Por tantas qualidades, o disco conserva quase os mesmos frescor e vitalidade da época em que foi gravado, no ano de 1978. Tais características ficaram ainda mais perceptíveis após a remasterização feita no lendário estúdio Abbey Road, guindado à posteridade graças às gravações dos Beatles. O único senão fica, exatamente, por conta de algumas canções – poucas, é verdade – como “Ruas da cidade” e “E daí?” – que parecem panfletárias demais, politizadas ao extremo, e destoam da atmosfera idílica do restante do disco. São músicas datadas e que envelheceram mal, mas esse fato se torna irrelevante quando se analisa a obra por inteiro. Por outro lado, o discurso da “latinidad”, revelado em músicas como “Casamiento de negros” e “Cancion por la unidad de Latino America”, ainda se apresenta belo e surpreendentemente contemporâneo. Em tempos de Hugo Chávez e sua truculência verborrágica, nada melhor que Violeta Parra e Pablo Milanes para aproximar os “hermanos” – afinal, “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”.

Importante salientar, também, que o disco foi o último trabalho de Milton na gravadora EMI, onde o cantor viveu a melhor fase de sua carreira e onde lançou discos antológicos como “Geraes”, “Clube da Esquina”, “Milagre dos Peixes”, “Minas”, entre outros. Se alguém tem dúvidas sobre a capacidade deste disco em enternecer e arrebatar os corações, ouça com atenção os versos de “Paixão e fé”:


“Velejar, velejei
No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens”...


Esses versos, decerto, são capazes de comover até o mais renitente dos ateus e resumem a dimensão quase divina da obra de Milton. Canções como essa inscrevem, definitivamente, o “Clube da Esquina 2” na galeria das melhores coisas já feitas em nossa música popular em todos os tempos e fazem desse disco uma obra essencial.

8 comentários:

Fafá disse...

Querido Érico,
Finalmente, temos você aqui no mundo virtual também. Parabéns!
São textos assim,belos, emocionantes, que fazem a diferença nesse mundo real e virtual também valerem à pena.
Sei que neste espaço, teremos assuntos interessantes e inteligentes.
Estou contente...rs
Beijos

Érico Cordeiro disse...

Valeu Comadre! Finalmente fui abduziddo pela grande nave-net. Seja o que Deus quiser...

Salsa disse...

Vamos lá, um brinde por mais um bom espaço para boas conversas sobre o que mais gostamos: música e adjacências. Longa vida!
Parabéns, meu caro, pelo bom texto e pela escolha do homenageado. Esse disco é realmente um marco para a nossa música e, como todo bom clássico, ele não perde a validade.

Érico Cordeiro disse...

Obrigado pelas palavras gentis, Salsa.
O Jazzigo, o Jazzseen e o CJUB são a minha fonte de inspiração - a credibilidade, o ótimo astral, os excelentes textos - isso tudo me levou a criar o blog.
Mudando de assunto, estou te devendo, né? Mas essas duas últimas semanas foram muito "aperreadas" (como se diz por aqui). Vamos tentar colocar São Luís no mapa do jazz, ok?
Grande abraço.

Celijon Ramos disse...

Parabéns Érico!
O artigo sobre o Clube da Esquina II é rico em sentimentos que sua viagem fez relembrar. O bom também é recolocar esse tipo de música brasileira na pauta, digo, audição.Mas,também, cuida muito bem dos delhalhes ( sonoridade e letras) que fizeram deste disco um clássico da nossa música.
O texto e gostoso de ler. Sei que virão bem mais da fonte e logo logo.

Um grande abraço, querido!

Érico Cordeiro disse...

Obrigado, Celi.
Conto com vocês para ajudar a por o blog prá funcionar.
Beijo grande!

Tatiana disse...

Érico
Muitíssimo obrigada pelo belo texto. Sublime.

Érico Cordeiro disse...

Eu é que agradeço as palavras generosas. Valeu mesmo!!!!

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