Amigos do jazz + bossa

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O HOMEM INVISÍVEL


Foi o amigo Guen Yokoyama, dos excelentes blogs “Sobretudo, música” e “Conteúdo da lata” quem cantou a bola. Ser um pianista acompanhante de cantores ou cantoras é uma arte nobilíssima, mas, via de regra, esse ofício não vem acompanhado de um reconhecimento à altura. Ele cita os exemplos de Ralf Sharon e Laurence Hobgood, pianistas e diretores musicais de, respectivamente, Tony Bennett e Kurt Elling.

Algumas exceções ficam por conta de Hank Jones e Tommy Flanagan, que se celebrizaram por acompanhar a cantora Ella Fitzgerald, mas que obtiveram, dentro das próprias carreiras como solistas e líderes de pequenos conjuntos, a merecida reverência por parte do mundo do jazz. Hobgood é o objeto do post intitulado “Laurence Hobgood e a sina dos pianistas acompanhantes”, que analisa as dificuldades de quem, muitas vezes, tem que refrear o próprio talento para que o cantor – ou cantora – possa brilhar com mais intensidade.

Na preciosa prosa de Yokohama, que considera Elling o melhor cantor de jazz da atualidade, “não é fácil a vida de ‘segundo’ do melhor cantor de jazz. Por melhor que seja, fica em plano… secundário. Mas, aproveitando o ditado de que ‘ao lado de um grande homem sempre há uma grande mulher’, à mercê de certo chauvinismo e um tanto de misoginia, um bom pianista só valoriza o bom cantor. Tony Bennett que o diga”.

Embora tenha tocado ao lado de alguns dos maiores nomes do jazz de todos os tempos e possua credenciais impecáveis como acompanhante, o nome do californiano Richard Wyands não é dos mais conhecidos e se enquadra, à perfeição, na hipótese mencionada por Yokohama. O que é uma tremenda injustiça, pois seu talento superlativo e sua musicalidade o colocam no mesmo patamar que sumidades como Tommy Flanagan, Barry Harris, Cedar Walton, Bobby Timmons, Junior Mance, Horace Silver e outros companheiros de geração, bem mais badalados pela crítica e pelo público.

Nascido em Oakland, no dia 02 de julho de 1928, desde cedo Richard demonstrou aptidões musicais bastante apuradas, tendo iniciado os estudos de piano clássico aos oito anos. Aos catorze, recebeu aulas de Wilbert Baranco, um conhecido pianista local que, na época, tocava na banda de Jerome Richardson. O período de estudos com Baranco foi de extrema importância e foi por intermédio dele que Wyands fez a sua primeira gravação: um compacto contendo versões de “Stardust” e “Body And Soul”, realizado quase artesanalmente em um pequeno estúdio da cidade natal.

Ao final de oito meses de aprendizado, o pianista mais velho dispensou seu jovem pupilo dizendo: “Ótimo! Você trabalhou muito bem e é somente até aqui que eu posso levá-lo. A partir de agora é por sua conta”. De qualquer modo, a convivência no meio musical e as noções de harmonia e improvisação adquiridas durante aquele período seriam bastante úteis na futura carreira musical de Wyands, cujos principais ídolos eram Teddy Wilson, Nat Cole e Art Tatum.

Primeiramente, o pianista tocou em orquestras e conjuntos de sua cidade natal, de Richmond e de Bay Área, em San Francisco, para onde se mudou, em 1945, a fim de estudar no San Francisco State College. Wyands já era um jovem veterano quando concluiu o curso de música, em 1950, e não tardou a se destacar no cenário musical da Califórnia, que era dos mais estimulantes e competitivos. Ali, pode conhecer e trabalhar com gente do calibre de Charles Mingus, Cal Tjader, Jerome Richardson, Vernon Alley e Paul Desmond, entre outros.

Em 1951 foi contratado como pianista do célebre Blackhawk, tocando em cinco sets por noite, nos intervalos das atrações principais do clube. E que atrações eram aquelas! Wyands atuava durante os intervalos de shows de gente como Erroll Garner, Red Norvo, Dinah Washington, Shorty Rogers e muitos outros. Quando a estrela era Art Tatum, o jovem Richard pegava uma cadeira e punha bem perto do piano, apenas para contemplar, extasiado, o fabuloso trabalho do mago das teclas.

Sobre aquela época, o pianista relembra: “Eu procurava tocar como Teddy Wilson ou Art Tatum, mas quando Tatum era a atração eu nem me arriscava a tentar imitá-lo. Ele costumava me dizer: ‘você não pode competir comigo, mas não desista’. Realmente ninguém no mundo poderia competir com ele! Na verdade, ele era um sujeito muito bacana e acho que ele ficava feliz em me ver ali perto, pois costumava conversar comigo enquanto tocava. Eu sentava bem perto do piano e embora ele fosse cego, sabia que eu estava ali. Quando ele terminava um set eu tinha que subir ao palco, então nós não conversávamos muito nos intervalos. Mas só o fato de estar ali perto, vendo-o tocar, era uma experiência fantástica e eu não me sentia intimidado em ter que tocar depois dele”.

Em 1956, foi contratado pela cantora Ella Fitzgerald para trabalhar como pianista e diretor musical de sua banda. No ano seguinte, mudou-se para Ottawa, no Canadá, a convite do baixista Wyatt Reuther, onde passou nove meses, atuando como pianista de um clube da cidade, onde estrelas como Johnny Mathis e Carmen McRae costumavam se apresentar. Esta última gostou tanto da performance do pianista que acabou contratando-o para a sua própria banda, que então fazia uma grande excursão pela América do Norte.

Com McRae, Richard tocou em clubes de Chicago, Detroit, Filadélfia e Nova Iorque, onde o pianista decidiu se fixar, definitivamente, em 1958. Logo, logo, estava tocando com jazzistas de primeira grandeza da Grande Maçã. Um dos seus primeiros trabalhos foi no trio do baterista Roy Haynes, ao lado de quem gravou o seminal “Just Us”, em 1960, para a Prestige. Complementava a sessão o baixista Eddie De Haas.

De 1959 em diante, tornou-se um dos acompanhantes mais requisitados do cenário novaiorquino, aparecendo em concertos e gravações ao lado de Charles Mingus, Jerome Richardson, Oliver Nelson, Eric Dolphy, Flip Philips, Etta Jones, Gene Ammons, Buddy Tate, Clark Terry, Gigi Gryce, Eddie “Lockjaw” Davis, Lem Winchester, Roland Kirk, Willis Jackson, Taft Jordan, Ernie Andrews, Charlie Mariano, Zoot Sims, Benny Bailey, Freddie Hubbard, Frank Wess, Benny Carter, Milt Hinton, Maxine Sullivan, Frank Foster e uma infinidade de outros.

Uma das mais importantes associações de Wyands foi com o guitarrista Kenny Burrell, iniciada em 1964 quando este era, então, atração fixa do mítico clube “Minton’s. A partir daí, seriam quase catorze anos de uma parceria bastante prolífica, incluindo atuação em álbuns como “The Tender Gender” (Cadet, 1966), “For Charlie Christian And Benny Goodman” (Verve, 1967) e “God Bless The Child” (CTI, 1971), participações em festivais como o de Newport e o de Montreux, e excursões pela Europa, Estados Unidos e Japão.

Em meados dos anos 70, o pianista integrou-se ao quinteto do saxofonista Al Cohn e do trombonista Bob Brookmeyer. O ritmo de atuações como sideman manteve-se intenso pelas décadas seguintes e registram-se trabalhos ao lado de Esther Philips, Don Sebeski, Carl Fontana, Teddy Edwards, Warren Vaché, Louis Smith, Grady Tate, Houston Person, Ron Carter, Scott Robinson, Von Freeman, James Spaulding e Don Sickler, entre outros. No final da década de 80, Wyands fez parte da orquestra do saxofonista Illinois Jacquet.

Em 1998, quando o lendário baterista Jimmy Cobb resolveu montar uma banda com alguns dos seus ex-alunos da New School of Music, chamou o experiente Wyands para ocupar o piano, o que permitiu-lhe conviver com uma nova e talentosa geração de jazzistas, como o tenorista Eric Alexander, o guitarrista Peter Bernstein e o baixista John Webber. A banda, chamada “Jimmy Cobb’s Mob”, gravou alguns álbuns, como “Only For The Pure At Heart” (Lightyear, 1998) e o estupendo “Cobb’s Groove” (JVC, 2003), sempre com atuações notáveis do pianista.

A parceria com Cobb tem se estendido ao longo dos últimos anos e Wyands também participou do disco “Cobb’s Corner” (Chesky, 2007), no qual os dois veteranos atuam ao lado dos jovens Peter Washington (contrabaixo) e Roy Hargrove (trompete). Em 2008, o “Jimmy Cobb’s Mob” se reuniu novamente, agora sob a liderança do guitarrista Bernstein, que lançou, em seu nome, o álbum “Live At Small’s”.

Como líder, a discografia de Wyands é bastante escassa, do ponto de vista quantitativo, e registra, basicamente, álbuns para gravadoras sediadas fora dos Estados Unidos, como as dinamarquesas Storyville e SteepleChase, a holandesa Criss Cross e a japonesa DIW. Seu primeiro disco para um selo norte-americano foi “As Long As There’s Music”, de 2001, gravado para a independente Savant, tendo como acompanhantes os fabulosos Ray Drummond e Grady Tate.

Fundada por Gerry Teekens, um ex-professor apaixonado por jazz, a holandesa Criss Cross se destaca pela excelência de seu cast e é considerada pelo crítico Richard Cook como a mais legítima sucessora da Blue Note. Em seu catálogo, é possível encontrar discos de artistas consagrados como Kenny Barron, Warne Marsh, Philip Catherine, Cedar Walton, Johnny Coles, Tom Harrell, Clifford Jordan ou Slide Hampton, bem como de jovens talentos como Benny Green, Conrad Herwig, Chris Potter, David Hazeltine, Javon Jackson, Kenny Garrett, John Swana, Seamus Blake ou David Kikoski.

Uma das gemas mais preciosas desse catálogo é, sem dúvida alguma, “Half And Half”, gravado no dia 08 de dezembro de 1999, nos estúdios System Two Recordings, em Nova Iorque. Acompanham Wyands o baterista Kenny Washington e o contrabaixista Peter Washington, seus parceiros desde meados da década de 90 e que tocaram com ele no não menos brilhante “Get Out Of Town” (SteepleChase, 1997).

A encantadora “I'm Old Fashioned” abre o álbum, com a classe e o apuro melódico típicos de Jerome Kern. Composta em 1942 para o filme “You Were Never Lovelier”, estrelado por Fred Astaire e Rita Hayworth, a balada recebeu letra do genial Johnny Mercer. Aqui ele é executada em tempo médio, rivalizando em graça e beleza com versões célebres, como as de John Coltrane (no álbum “Blue Train”), e Chet Baker (no disco “Chet Baker Sings”). A performance do líder é arrebatadora, e seu toque é de um frescor e de uma leveza que transportam o ouvinte para o Nirvana musical.

Em seguida, é a vez de “Blues For Kosi”, composta pelo pianista em homenagem ao neto. É um blues acelerado, que evidencia a influência de Red Garland, com quem Wyands é freqüentemente comparado. Segundo Pedro “Apóstolo” Cardoso, o virtuosismo de Richard “desfila a quilômetros da eloqüência vazia e de clichês, o que sempre lhe permitiu ‘encontros’ desde o jazz mais tradicional até as fases mais inovadoras da arte popular maior”. O timming do baterista é perfeito, seu dinamismo contagiante e seu domínio rítmico é torrencial.

“P.S. I Love You” é uma balada romântica de Gordon Jenkins e Johnny Mercer, cuja interpretação intimista e sem maneirismos é um retrato dos mais fiéis de um artista maduro e bastante sóbrio, mas que não abre mão do lirismo. A música brasileira se faz presente na estupenda versão de “Once I Loved”, que nada mais é que a nossa querida “O amor em paz”, do maestro Antonio Carlos Jobim e do poetinha Vinícius de Moraes. A versão do trio é relaxada, mas conserva o discreto balanço da bossa nova, com destaque pêra o delicado trabalho percussivo de Kenny Washington.

Faixa que dá nome ao disco, “Half And Half” é de autoria do próprio Wyands e tem uma estrutura essencialmente bop. Não é tão acelerada, mas os improvisos calcados no blues e a colocação certeira das notas, traços marcantes na pianística do líder, estão presentes. Em “Beautiful Friendship”, de Sammy Cahn e Jules Styne, e “Time After Time”, de Gus Kahn, o pianista atua desacompanhado, mas o lirismo de sua interpretação em momento algum perde a força e a consistência.

“Daydream” é uma das mais belas composições de Duke Ellington e Billy Strayhorn. Classuda e delicada, é mais do que propícia para os devaneios harmônicos do trio, que se mostra particularmente inspirado. Em seguida, Wyands constrói uma notável interpretação de “Is That So?”, de Duke Pearson. Apoiado em uma bateria sóbria e em uma linha de baixo simplesmente inacreditável, o pianista apresenta um fraseado sedutor e equilibrado, mostrando que o hard bop ainda continua vivo e pulsante.

Para concluir em alto estilo e astral ainda mais elevado, uma extasiante interpretação de “As Long As I Live”, de Harold Arlen. Contrabaixo musculoso, bateria ágil e um dedidilhado frenético fazem da faixa uma das mais swingantes do disco, criando uma atmosfera de jam session das mais animadas. Wyands impõe à execução uma inebriante levada bop, com direito a solos intrincados do ponto de vista técnico. A poderosa pegada rítmica do baterista e seu solo exposivo são bastante estimulantes.

O pianista continua a atuar com a mesma disposição do início da carreira. Seu último trabalho foi no disco “Let’s Fly”, da cantora Amy London, gravado em 2010 para o selo Montema Music. Como bem detecta o Mestre Pedro “Apóstolo” Cardoso, este precioso músico “é dono de sonoridade cristalina, resultante de toque excepcionalmente preciso em qualquer andamento, particularmente quando em ‘up tempo’, frescura rítmica e perfeita leitura harmônica (o que explica com absoluta clareza sua participação em apresentações, temporadas, festivais e gravações com músicos de tantas “escolas” e vertentes)”.


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terça-feira, 29 de março de 2011

MELODIA SENTIMENTAL




Não há palavras para descrever o carinho e a atenção que me foram dispensados em minha recente estada em Vitória. Cheguei no dia 24, por volta das 08:00, e havia no aeroporto um verdadeiro comitê de boas vindas: meu tio Frutuoso, meu amigo John Lester e todo o staff da armada Jazzseen – o circunspecto Frederico Bravante, o elegante Tobias Serralho (que não apenas é maranhense de boa cepa, mas também um fiel devoto de São José de Ribamar), o descolado Roberto Scardua e a belíssima Paula Nadler, que despertava os olhares sequiosos dos marmanjos do pedaço.


Após uma interminável série de abraços e beijinhos (estes, reservados apenas à Paula, é obvio), embarcamos para um tour gastronômico-musical pela bela orla de Vitória e Vila Velha, onde está localizado aquele verdadeiro santuário do bom gosto chamado Casa Bonita. Por conta de motivos profissionais, meu tio não pôde nos acompanhar na empreitada, mas recomendou que eu não deixasse de provar as delícias da cozinha capixaba, especialmente a moqueca de badejo.


Chegando a Vila Velha, tive a honra de ser apresentado à simpaticíssima Mrs. Lester, Fabiana, anfitriã das mais atenciosas e que logo providenciou hectolitros de café e uma quantidade amazônica de deliciosos biscoitinhos de canela. Sempre regada a um ótimo jazz, a conversa fluía com naturalidade e eu me sentia cada vez mais em casa.


Foi quando adentrou as dependências do recinto o pintor ítalo-capixaba Paulo Nardelli, cujos quadros, no Espírito Santo, são comercializados com exclusividade pela Casa Bonita. Efusivo e descontraído como um bom descendente de italianos, Paulo me pareceu alguém que já conhecia há muito tempo. Não demoramos a entabular uma animada conversa paralela, saindo um pouco do tema central – o jazz, é claro – para falarmos um pouco de artes plásticas, na medida dos meus parcos conhecimentos sobre a matéria.


Nesse momento, Lester propôs que abríssemos uma garrafa do vinho catalão Flor de Englora, safra 2006. Embora ainda fossem 11 da manhã, a proposta foi unanimemente aceita e, enquanto abria a garrafa, Lester explicava que o vinho era elaborado com 63% de Red Grenache, 32% de Carignen, 2% de Merlot, 2% de Syrah e 1% de Ull d'llebre, e era produzido pela Cellers de Baronia. Após os brindes, o líquido precioso foi degustado com sofreguidão pelos presentes e, pouco depois, rumamos, em comboio, para Vitória, onde almoçaríamos no tradicional restaurante Pirão.


Chegando ao local, encontramos o famoso Chico Brahma, um dos expoentes do Clube das Terças, que após as apresentações, desculpou-se por não nos acompanhar, já que estava indo para a sua inescapável aula de jiu-jitsu. Assim, nos estabelecemos em uma animada mesa e iniciamos os trabalhos gastronômicos, sem esquecermos de dar continuidade aos trabalhos etílicos, desta vez à base da deliciosa Antárctica Original. Sob o olhar perplexo do inacreditável Supla – o filho adolescente de Marta e Eduardo Suplicy, que, ao que tudo indica, estava em Vitória para fazer um show – Paula devorava uma casquinha de siri, enquanto os outros se refestelavam com uma saborosa entrada de frutos do mar.


Pedimos algumas moquecas, devoradas com zelo e bonomia, tomamos mais algumas cervejas e nos despedimos – afinal, estava exausto da viagem e precisava descansar um pouco. O sempre solícito John Lester ofereceu-se para levar-me até a casa dos meus tios, no bucólico Jardim da Penha, mas perdeu-se no caminho. Após 40 minutos rodando pelas intermináveis pracinhas do bairro, finalmente chegamos ao destino. Subi, tomei um banho rápido e capotei na cama, a fim de me preparar para o dia seguinte, que se afigurava longo.


Na sexta, dia 25, a primeira coisa que fiz foi uma visita ao poeta, escritor, jornalista e radialista Marien Calixte, que há mais de 50 anos comando o programa “O Som do Jazz”. É o mais antigo programa de jazz da América Latina e vai ao ar às segundas-feiras, das 20h às 22 horas, pela Rádio Universitária FM (104,7 Mhz). Meu tio, que trabalha na UFES, havia falado com ele sobre o livro e ele, gentilmente, nos convidou para uma visita à sua casa. Chegando ali, eu e meu tio tivemos a honra de conhecer um casal maravilhoso. Marien e Dona Teresinha são bem-humorados, educados, inteligentes, alegres, atenciosos e encantadores e nos cobriram de gentilezas.


Meu tio e eu ficamos quase três horas na casa dos dois, conversando e tomando um delicioso suco de pêssego, feitinho na hora. Fiquei encantado com a coleção de discos Marien, que, ao final da visita, nos presenteou com vários livros de sua autoria. Para júbilo da minha modesta pessoa, Marien disse que iria ao lançamento do Confesso e eu, é claro, fiquei embevecido.


À tarde, passeio por Vitória e Vila Velha, desta feita na companhia do meu amigo Antônio Carlos, que veio de São Luís especialmente para o lançamento. Visitamos o Convento de N. Sra. da Penha e, após um rápido happy hour no Saideira, barzinho muito gostoso na Praia do Canto, voltei pro apartamento dos meus tios para tomar um banho e trocar de roupa. Estava chegando o grande momento.


E que noite maravilhosa foi aquela! Estavam todos lá no Wunderbar Kaffee: meus tios Frutuoso e Alzira, minha prima Míriam, Dona Celina e Cristina (mãe e irmã de Alzira) e muitos amigos deles. Os amigos blogueiros Mr. Lester, Salsa, Grijó, Don Oleare, Frederico Bravante, Tobias Serralho, Roberto Scardua e Paula Nadler estavam na fila do gargarejo. O Clube das Terças compareceu em peso: Reinaldo Santos Neves, Chico Brahma, Garibaldi Magalhães, João Luiz, Pedro Nunes, Paulinho da Embratel, Fernando Achiamé e o sensacional Luiz Paixão, decano do jazz no Espírito Santo que, gentilmente, exibiu-me algumas de suas preciosidades: autógrafos de Billie Holliday, Oscar Peterson, J. J. Johnson, Kay Winding, Roy Eldridge, Ray Brown, Dave Brubeck, Buddy Rich, Illinois Jacquet, Gene Krupa e muitos outros. Compromissos anteriores impediram que o amigo blogueiro (e membro do Clube das Terças) Rogério Coimbra comparecesse ao lançamento.



Antônio Carlos levou uma galera enorme, com destaque para o simpaticíssimo Ziel (que além de super gente boa ainda toca guitarra) e o Barney (fã dos esportes radicais, que deu um tempo no paraglider para ir ao lançamento). Meu amigo Luís Cláudio Branco levou os colegas da AMATRA XVII, que compuseram uma das mesas mais animadas e concorridas da noite. Correu à boca miúda que o implacável Predador estava no local, mas, protegido pelo dispositivo de invisibilidade do detonador atômico, não se deixou ver pelos presentes. De qualquer sorte, ninguém soube explicar como o texto “A aboborização de Miles Davis”, de Garibaldi Magalhães, foi parar na minha mesa, com uma singela dedicatória: “Para Mr. Cordeiro, com um abraço do Predador”.


Duas presenças, em especial, me deixaram bastante emocionado: a do amigo Olney Figueiredo, o Figbatera (que saiu de Cataguazes apenas para prestigiar o evento), e do mestre Marien Calixte (devidamente acompanhado por Dona Teresinha). A noite foi animada pelo trio Jazz Letall, que contou com canjas do meu amigo Salsa, de vários músicos locais e do grande Figbatera, que simplesmente deu um show!!! Luiz Paixão mostrou que, aos 85 anos, ainda possui o swing e a disposição de um garoto e cantou vários standards. Realmente, uma noite inesquecível.



Mais tarde, round midnight, eu Salsa, Fig e a esposa ainda encontramos forças para encerrar a noite em grande estilo, no barzinho Devassa, onde devoramos deliciosos pasteizinhos de tutu. A volta para casa foi uma aventura: peguei carona na motocicleta do Salsa e atravessamos a ponte Ayrton Senna a 120 por hora! Ele carregando o Antenor (seu inseparável sax tenor) e eu lutando para não perder o equilíbrio, com a Maria Callas no colo. Bem, a Maria Callas é o sax soprano do Salsa, portanto, nada de pensamentos licenciosos...



No sábado, uma pequena viagem a Domingos Martins, um maravilhoso happy hour no Wunderbar Kaffee (com as excelsas presenças do Salsa, do Fig e de sua esposa) e, à noite, uma deliciosa bacalhoada no apartamento de Mr. Lester, cuja bem aquinhoada coleção de CDs é capaz de provocar inveja em qualquer jazzófilo. Ali tivemos a honra de ouvir um delicioso duo de saxofones: Lester no alto e Salsa no tenor, acompanhados da elegante guitarra de Pedro Nunes.



No domingo, fui até Guarapari com meus tios e Cristina, e comemos deliciosas moquecas de camarão e de badejo, no Curuca. Na segunda, com o coração apertado, voltei a São Luís. Mas Vitória e os inúmeros amigos que fiz por lá, voltaram comigo e estão muito bem agasalhados em um cantinho do meu coração.


Obs.: Esta postagem foi escrita ao som do álbum “Interferências”, do pianista italiano Turi Collura, que me foi dado de presente pelo João Luiz Mazzi (ele também me brindou com o disco “Filigrana”, de sua irmã Ester Mazzi). No disco, Collura está acompanhado por Ney Conceição no baixo acústico, Daniel Garcia nos saxofones, Nelson Faria e Giancarlo Collura nas guitarras, Guilherme Dias Gomes e Daniel Dias nos trompetes, Rafael Barata na bateria e João Schmid nos vocais.


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quarta-feira, 23 de março de 2011

CONFESSO QUE OUVI EM VITÓRIA-ES



No dia 25/03, sexta feira, a partir das 19:30, estarei em Vitória-ES, para fazer o lançamento do livro "Confesso que ouvi" na capital capixaba. O evento será no Wunderbar Kaffee, cujo endereço é: Av. Rio Branco, 1305 - esquina com a Chapot Presvot - Praia do Canto.
Convido todos os amigos do Espírito Santo, ao tempo em que agradeço, de coração, o apoio e o empenho dos blogueiros capixabas (e amigos fraternos) Francisco Grijó, John Lester, Luiz "Salsa" Oliveira, Osvaldo Oleare e Rogério Coimbra. Também mando um agradecimento todo especial ao queridos tios Frutuoso e Alzira Cordeiro, que têm sido incansáveis na divulgação do livro. Tenho certeza de que será uma noite bastante agradável e o som vai ficar por conta do saxofonista Salsa, craque na escrita e na música.

sexta-feira, 18 de março de 2011

ELE É O BOM, É O BOM, É O BOM...


Quando o saxofonista Scott Hamilton apareceu para o mundo, em meados dos anos 70, o jazz vivia uma série crise de identidade. Se, por um lado, o fusion, que combinava (muitos) elementos do rock com (poucos) elementos do jazz, deu a figuras como Miles Davis, Joe Zawinul, Freddie Hubbard, Donald Byrd ou Wayne Shorter status de pop stars, por outro lado boa parte das obras enquadradas nessa vertente peca por apresentar qualidade artística inversamente proporcional ao talento desses grandes músicos.

Na contramão do fusion, o free jazz ainda conservava uma aura transgressora, rebelde e politizada, semelhante àquela que permeou o nascimento do bebop. Todavia, o estilo mantinha uma sintaxe tão hermética que parecia prescindir da presença do público para existir enquanto expressão artística. Com o free, o jazz mergulhou em um mundo sombrio e deu a impressão de que seus músicos, sempre com a cara enfezada e um ar sisudo, haviam perdido a capacidade de rir de si mesmos, de se divertir.

Antes que Wynton Marsalis viesse, qual um cavaleiro medieval, resgatar a alegria e a espontaneidade do jazz, livrando-o da padronização pasteurizada representada pelo fusion e do experimentalismo autista simbolizado pelo free, Hamilton despontou, sem tanto alarde, nos meios musicais norte-americanos e deixou clara a sua mensagem: “it don’t mean a thing, if it ain’t got that swing”! Ou seja, o jazz significa muito pouco se abolir o swing.

De lá para cá, muita coisa mudou no panorama jazzístico. Os Young Lions dos anos 80, capitaneados por Wynton Marsalis, passaram a dar as cartas e influenciaram dezenas de novos músicos. Abriu-se espaço para neotradicionalistas como Javon Jackson, Brad Mehldau, Mulgrew Miller, Benny Green, Geoff Keezer, Charles Fambrough, Robin Eubanks, Wallace Roney, Terence Blanchard, Eric Alexander, Marcus Roberts, Jesse Davis, Kenny Garrett, Terel Stafford, Ken Peplowski, Antonio Hart, Peter Bernstein, Curtis Lundy, James Carter, Mike LeDonne, Grant Stewart, Francesco Cafiso e incontáveis outros.

Chegando aos quarenta anos de carreira, Scott pode se orgulhar de ter contribuído para consolidar esse panorama alentador, embora a sua importância, infelizmente, ainda não seja devidamente reconhecida. De qualquer forma, ninguém pode tirar-lhe o mérito de ser o principal herdeiro da tradição iniciada por Lester Young e Coleman Hawkins, o que não é pouco.

Hamilton nasceu no dia 12 de setembro de 1954, na cidade de Providence, Rhode Island e sua intimidade com a música se manifestou desde muito cedo. O jazz fazia parte do cotidiano, pois seu pai, um apaixonado pelo swing, dispunha de uma alentada discoteca, essencialmente baseada nas grandes orquestras dos anos 30 e 40. Aos cinco anos recebeu as primeiras lições bateria, aos seis aprendeu alguns rudimentos de piano e aos oito começou os estudos de clarinete, mas somente aos dezesseis passou para o saxofone tenor.

Em pouquíssimo tempo, já fazia parte de orquestras locais de R&B e sua sonoridade rica e encorpada chamou a atenção de ninguém menos que Roy Eldridge. Por indicação do trompetista, Scott foi tentar a sorte em Nova Iorque, em 1976. Um dos seus primeiros empregos ao chegar à cidade foi na banda de Hank Jones, que era atração fixa do Michael’s Pub. Em seguida, trabalhou com Benny Goodman e com as cantoras Anita O’Day e Rosemary Clooney.

Foi naquele período que gravou, pelo pequeno selo Famous Door, o seu primeiro disco como líder, chamado “Swinging Young Scott” (1976), acompanhado pelo trompetista Warren Vaché, pelo pianista John Bunch, pelo contrabaixista Michael Moore e pelo baterista Butch Miles. Embora a repercussão do disco tenha sido branda, seu talento logo despertou a atenção do baterista Jake Hanna, que assistiu a uma apresentação sua no clube Condon’s e ficou extasiado.

Imediatamente, Hanna entrou em contato com Carl Jefferson, fundador da Concord, que não hesitou em contratar o jovem saxofonista. Era 1977 e naquele mesmo ano Scott lançou seu primeiro disco pela gravadora: “Scott Hamilton is A Good Wind Who Is Blowing Us No Ill”. Fã de Ben Webster, Illinois Jacquet, Zoot Sims, Gene Ammons e Eddie “Lockjaw” Davis, Hamilton despejou esse rosário de influências em um álbum coeso e completamente imerso na melhor tradição jazzística, que naquela época parecia estar esquecida.

Contando com uma sessão rítmica das mais experientes, integrada pelo pianista Nat Pierce, pelo baixista Monty Budwig e pelo baterista Jake Hanna, além da participação do trompetista Bill Berry, a estréia não poderia ser mais auspiciosa. O álbum ajudou a resgatar o interesse do mercado pelo jazz acústico e mereceu do crítico Leonard Feather as seguintes palavras: “Em tempos de tanta poluição sonora a nos esmagar, ele é, quase que literalmente, um alívio para os ouvidos doloridos, um bálsamo para desfazer os danos auditivos”.

Não que Hamilton desconhecesse a força criativa de saxofonistas mais modernos, como Sonny Rollins ou John Coltrane. Apenas, a música que esses titãs faziam não se encaixava nas suas próprias concepções musicais. Ele explica: “Eu sempre toquei da maneira como toco agora. Eu escutava Trane, mas nunca ouvi nada que realmente quisesse aproveitar em minha própria forma de tocar. E isso sempre foi algo consciente. Eu jamais pensei em tocar de outra maneira ou em outro estilo”.

Tocar com músicos de gerações anteriores é uma constante na carreira do saxofonista. Além do veterano pianista John Bunch, que integrou um dos seus primeiros quartetos e o acompanhou em seu primeiro disco como líder, Scott pode se orgulhar de parcerias com luminares como Al Cohn, Ruby Braff, Buck Pizzarelli, Woody Herman, Tony Bennett, Gerry Mulligan, Flip Phillips, Maxine Sullivan, Herb Ellis, Buddy Tate, Ray Brown, Jimmy Witherspoon, Vic Dickenson, Jo Jones, Red Norvo e Dave McKenna.

No final dos anos 80 fixou-se em Londres, tornando-se atração constante em clubes locais como o Pizza Express Jazz Club e o Ronnie Scott’s. Também fez parte de inúmeras bandas all-stars, como a Concord Jazz All Stars, a Concord Super Band e a George Wein’s Newport Jazz Festival All Stars. Fez parte da célebre “World's Greatest Jazz Band”, fundada por Dick Gibson, Yank Lawson e Bob Haggart, da qual também fizeram parte, entre outros, Vic Dickenson, Carl Fontana, Bud Freeman, Peanuts Hucko, Ralph Sutton e outros expoentes.

Seu passaporte registra passagens pelos quatro cantos do mundo e incontáveis países: Suécia, Alemanha, Canadá, Portugal, Japão, Escócia, França, Espanha, Itália, Polônia, Suíça e Holanda são apenas alguns deles. Já se apresentou em alguns dos festivais mais importantes do planeta, como Nice, Estoril, Irvine, Angra do Heroísmo, Toronto, Brecon, Northsea, Fujitsu-Concord e JVC Jazz Festival.

O público que acorre a esses espetáculos tende a concordar com o que escreveu o crítico John Barrett Jr., da Jazz Review: “O que eu mais gosto em sua forma de tocar é a sua consistência, sua habilidade para interpretar velhos standards da forma como essas canções foram originalmente concebidas e, ainda assim, apresentar alterações sutis e refrescantes, que as tornam novas outra vez”.

No início da carreira Scott teve sérios problemas com o álcool, que quase comprometeram o seu sucesso profissional. Felizmente, em 1982, ele deixou a bebida e conseguiu manter as rédeas da vida e da carreira. Em sua longa e frutífera associação com a Concord, ele já atuou em quase 100 gravações, seja como líder, seja como acompanhante. Nessa condição, atuou em álbuns de gente como Ed Bickert, Susannah McCorkle, Ken Peplowski, Cal Tjader, Charlie Byrd, Gene Harris, Gerry Mulligan e Ernestine Anderson.

Como líder, é bastante difícil escolher apenas um de seus discos, tamanha a qualidade do material que ele, habitualmente, produz. Mas existe um disco tão encantador que, dificilmente, os fãs de Hamilton deixarão de incluir entre as melhores coisas feitas pelo saxofonista. Trata-se de “After Hours”, gravado nos dias 18 e 19 de dezembro de 1996, no estúdio Sound On Sound, em Nova Iorque, com produção de John Burk.

Mais uma vez, Scott se encontra à frente de um quarteto, formação que parece preferir a qualquer outra. Seus acompanhantes são ninguém menos que os fabulosos Tommy Flanagan no piano, Bob Cranshaw no contrabaixo e Lewis Nash na bateria, uma sessão rítmica de sonho. Com uma sessão rítmica dessa, seria difícil para um músico apenas mediano ter uma performance ruim. Quando o líder é um gigante em seu instrumento, então, o resultado não poderia ser menos que soberbo!

“Beyond the Bluebird” é uma balada de autoria de Flanagan, com uma pegada bluesy cativante. Conjugando a simplicidade do blues com a estética refinada de quem acompanhou Ella Fitzgerald por mais de dez anos, Flanagan exibe uma técnica magistral e a elegância do seu toque encontra no sopro potente e resoluto de Scott um parceiro à altura. O talento descomunal de Nash é o complemento mais que propício a essa verdadeira exibição de gala dos dois titãs.

A adoração de Hamilton pelo swing é mais que conhecida. Mas ele também é um exímio bopper, como se pode perceber na espetacular versão de “Woody' N’ You”, de Dizzy Gillespie. Com um ataque rápido e vigoroso, ele improvisa com avidez e arrojo desconcertantes. Tal como fazia o ídolo Hawkins, Scott serpenteia pelas veredas do jazz moderno com tamanha desenvoltura que parece ter sido um habituée das noitadas no Minton’s Playhouse, nos anos 40. A faixa tem um discretíssimo acento latino, que lhe confere um charme adicional, e mais uma atuação de tirar o fôlego de Nash.

“Blues in My Heart” foi composta por Benny Carter e a interpretação do quarteto é reverente, quase circunspecta. O contrabaixo poderoso de Cranshaw dá um aspecto sombrio ao tema e contrasta com o piano límpido e arisco de Flanagan. Trata-se de um blues em seu estado puro, no qual Scott exibe um fraseado musculoso, gutural e absolutamente imerso na tradição de Coleman Hawkins ou Don Byas.

“Bye Bye Blues” é uma balada em tempo médio de autoria de Dave Bennett, Chauncey Gray, Fred Hamm e Bert Lown. A abertura vibrante e colorida fica a cargo de Nash, que ao longo de todo o tema demonstra uma vitalidade invejável, e logo em seguida os demais instrumentos se integram de maneira bastante harmônica. A melodia é simples e despretensiosa, com os quatro atuando em uma atmosfera de puro relaxamento.

A balada “What's New?” é uma das canções mais espetaculares do repertório de Billie Holiday, tendo sido composta por Johnny Burke e Bob Haggart em 1939. A abordagem do quarteto cria um clima luxuriante e, ao mesmo tempo, opressivo, merecendo atenção a sofisticação harmônica que Flanagan imprime ao tema. O sopro enfumaçado de Hamilton simboliza bem o abandono e o desencanto de que trata a letra da música.

A sacolejante “You're Not the Kind”, de Will Hudson e Irving Mills, teve em Fats Waller um dos seus primeiros intérpretes, mas foi imortalizada por Sarah Vaughan. A abordagem do quarteto é descontraída, alegre e sumamente despojada, merecendo todos os encômios a extraordinária sensibilidade de Hamilton para recriar antigas composições e atingir uma entonação que consegue ser, ao mesmo tempo, surpreendente como exige o verdadeiro jazz e bastante agradável aos ouvidos, sem resvalar nos maneirismos e obviedades do chamado “smooth jazz”.

Com um pezinho no blues, “Black Velvet”, de James Mundy e Al Stillman, é uma balada em tempo médio carregada de lirismo. A sonoridade cheia e calorosa, que é a assinatura do saxofonista, interage em altíssimo nível com o refinamento lírico de Flanagan. Soberbos na sessão rítmica, Cranshaw e Nash parecem se divertir bastante, com direito a solos breves, porém intensos. A destacar, o animadíssimo diálogo entre saxofone e bateria na parte final do tema, ao estilo “pergunta e resposta”.

A bossa nova está presente, na interpretação excitante de “How Am I To Know?”, de autoria de Jack King e da escritora (e letrista bissexta) Dorothy Parker. Arranjo elegante, empatia absoluta entre os músicos, improvisos ousados, excelente senso de tempo e um swing cativante são as características mais evidentes dessa faixa. A atuação do líder é irrepreensível, propiciando ao ouvinte um delicioso banquete sonoro. Destaque também para primoroso o solo de Cranshaw.

“Some Other Spring” é um clássico de Arthur Herzog e Irene Kitchings e também fez parte do repertório de Lady Day. É a mais introspectiva do disco, com direito a uma execução fantasmagórica de Flanagan, cujo dedilhado emula um sussurro. Hamilton realça o clima sombrio, com uma interpretação contida e de elevado conteúdo emocional.

A sonoridade robusta e dinâmica de Hamilton cai como uma luva na crepitante “Steeplechase”, de Charlie Parker. Como era característica primordial em Bird, também Hamilton faz a arte de tocar saxofone parecer a coisa mais simples do mundo. Sua sonoridade ecoa tranqüila, lúdica, despojada, mesmo durante os solos mais complexos. As arrojadas harmonias concebidas por Flanagan e a percussão arrebatadora de Nash são os outros destaques do tema. Um disco para figurar como destaque absoluto em qualquer coleção e, mais importante, para ser ouvido milhares e milhares de vezes.

Em 2005, Hamilton comemorou seu retorno a Nova Iorque em grande estilo, ao se juntar a Bill Charlap, Peter Washington e Kenny Washington, um dos mais prestigiados trios da atualidade, nas gravações de “Back In New York”, também para a Concord. Em 2007 foi eleito o melhor saxofonista da primeira edição do Ronnie Scott’s Jazz Awards. Em fevereiro de 2008 fez uma elogiada série de shows no Lincoln Center, em Nova Iorque.

Com seu bigode e sua indumentária que lembram um dândi, Hamilton já foi comparado a um personagem de seu xará Scott Fitzgerald, que retratou como ninguém a atmosfera irreverente e hedonista dos anos 20. Talvez não seja por acaso que as músicas da época sejam tão caras ao saxofonista, sobre quem o crítico Lloyd Sachs escreveu: “Quanto mais eu ouço esse jovem veterano, mais me convenço de que hoje existem pouquíssimos jazzistas capazes de produzir um som tão admirável”.

Casado com a japonesa Manami, Hamilton tem brindado o ouvinte de jazz com jóias do quilate de “East Of The Sun” (de 1993, cujo repertório foi escolhido pelos leitores da revista japonesa “Swing Journal”), “Organic Duke” (de 1994, onde atua ao lado do organista Mike LeDonne, em um repertório quase que exclusivamente baseado em composições de Duke Ellington) e “On Red Door” (de 1998, um dueto com o guitarrista Bucky Pizzarelli, no qual ambos prestam tributo ao grande Zoot Sims).

Todos esses discos foram lançados pela Concord, mas o saxofonista também tem lançado, nos últimos anos, álbuns pelas pequenas gravadoras Woodville e Arbors. Scott também tem feito parcerias com músicos da nova geração, como o saxofonista inglês Alan Barnes e o pianista italiano Rossano Sportiello. Seu quarteto atual é integrado pelos músicos britânicos John Pearce (piano), Dave Green (contrabaixo) e Steve Brown (bateria).

Por meio das palavras do crítico Dave Gelly, pode-se depreender um pouco da magia que torna a sonoridade de Hamilton tão especial: “Escutar a seqüência de um solo de Scott Hamilton é como ouvir um bom papo em seu fluxo total. Primeiro vem a voz, o som inimitável, depois vem a certeza de seu saxofone tenor, o estilo informal e, finalmente, a fluência incrível e seu comando eloqüente da linguagem do jazz”.

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sábado, 12 de março de 2011

CORAÇÕES PSICODÉLICOS


A árvore genealógica de Charles Lloyd registra ancestrais Cherokees, mongóis, irlandeses e africanos. Tamanho grau de miscigenação talvez possa explicar a sonoridade e as opções musicais desse fabuloso saxofonista, em cujo dicionário palavras como fronteiras e preconceito parecem não existir. Nascido em Memphis, Tennessee, no 15 de março de 1938, sua relação com a música sempre foi muito intensa. Ao mesmo tempo em que as ondas do rádio faziam chegar a seus ouvidos os acordes do blues, do jazz e da country music, ele era um ouvinte atento da tradição do gospel e dos spirituals, que ouvia na igreja batista freqüentada pela família.

Aos 10 anos recebeu o primeiro saxofone e logo começou a extrair do instrumento os primeiros sons, influenciado pelos ídolos Charlie Parker, Coleman Hawkins e Lester Young. A educação musical formal viria pelas mãos de Irving Reason, mas Lloyd também estudou piano com o extraordinário Phineas Newborn, um dos mais célebres jazzistas de Memphis. Freqüentou a Manassas High School, onde, ainda na infância, fez amizade com os trompetistas Booker Little e Louis Smith e com o pianista Harold Mabern.

Mais tarde, tornou-se amigo e parceiro, em incontáveis jams, dos saxofonistas Frank Strozier e George Coleman, que também se tornariam importantes músicos de jazz. A interação com músicos desse quilate foi definitiva para a formação de Lloyd e lhe abriu a mente para outras sonoridades. O resultado é que, em pouco tempo, ele começou a se destacar como um saxofonista bastante original e cheio de idéias novas.

Como bem ensina o Mestre Pedro “Apóstolo” Cardoso: “O som de Lloyd é cálido, colorido e expressionista, permanecendo seguramente ancorado nos anos 70 do século passado, tendo como característica de originalidade a de situar-se na encruzilhada do “free-jazz” com as raízes folclóricas (pela própria origem em sua terra natal), de modo a atingir público mais amplo que o dos amantes do jazz”.

A carreira profissional começou ainda na adolescência, primeiramente tocando em orquestras locais de R&B, tendo acompanhado grandes nomes do blues, como Roscoe Gordon, Willie Mitchell, Roosevelt Sykes, B.B.King, Howlin' Wolf e Johnny Ace, entre outros. Em 1956, com apenas 18 anos, o saxofonista resolveu se fixar na Califórnia, tendo estudado composição e regência na University Of Southern Califórnia, onde foi aluno do renomado Halsey Stevens, uma das maiores autoridades norte-americanas em Bartok.

Nos horários de folga, Lloyd participava de gigs em clubes de Los Angeles, tendo se aproximado de um grupo de jovens músicos que desejava revolucionar a cara do jazz. Eram eles Ornette Coleman, Charlie Haden, Eric Dolphy, Billy Higgins, Scott La Faro, Don Cherry, Paul Bley e Bobby Hutcherson, entre outros. Mas o jazz mais ortodoxo também tinha espaço na agenda de Lloyd e ele foi integrante, durante algum tempo, da orquestra do trompetista Gerald Wilson.

Lloyd também se dedicou à educação musical e trabalhou como professor até 1961. Após deixar a orquestra de Wilson, uniu-se ao grupo do baterista Chico Hamilton, onde substituiu o amigo Eric Dolphy, e ali permaneceu até 1963. Na banda de Hamilton, Lloyd aperfeiçoou seu talento composicional e também passou a elaborar arranjos. Também foi ali que conheceu o guitarrista húngaro Gabor Szabo, de quem se tornaria amigo e um constante parceiro musical nos anos vindouros.

Entre 1964 e 1965, integrou o sexteto de Julian “Cannonball” Adderley, onde substituiu o grande Yusef Lateef. No grupo também atuavam os talentosos Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Naquela época, Lloyd passou a adotar também a flauta e lançou seus primeiros discos como líder, para a Columbia. O primeiro deles foi “Discovery!” (1963), produzido por George Avakian e que contava com as presenças do pianista Don Friedman, dos baixistas Richard Davis e Eddie Kahn e dos bateristas J. C. Moses e Roy Haynes.

Essa foi a primeira vez que o trabalho de Lloyd chamou a atenção da crítica especializada, mas essa formação durou pouco tempo. A influência mais visível, durante esse período, é John Coltrane, não tanto no aspecto da sonoridade, mas, sobretudo, por causa da extrema familiaridade com ritmos orientais e pela ousadia na busca por novos caminhos musicais.

Em seguida, ele formou um novo grupo, agora tendo a seu lado os amigos Gabor Szabo e Ron Carter e ficando a bateria a cargo de Pete LaRoca ou Joe Chambers. Apesar da boa receptividade, o guitarrista deixou o grupo porque, segundo ele, precisava retomar as suas raízes musicais. Em uma entrevista, Szabo declarou que a saída se deu amigavelmente, apenas por razões puramente musicais: “Charles tocava de uma maneira muito mais furiosa e energética que eu. Eu era mais econômico com as notas e, então, resolvi deixar o grupo e desde então tenho liderado os meus próprios conjuntos”.

Em novembro de 1964, o saxofonista foi a estrela do documentário “Jazz Discovery: Charles Lloyd”, produzido por Avakian e exibido pelo canal KQED-TV, de San Francisco. Entre 1965 e 1966, Lloyd tentou diversas formações, incluindo parcerias com Herbie Hancock, Steve Kuhn, Reggie Workman e Tony Williams. Também formou um quarteto, ao lado de Joe Zawinul, Sam Jones e Louis Hayes, seus companheiros no grupo de Cannonball, mas essas experiências não frutificaram.

Somente em fevereiro de 1966 o saxofonista encontraria parceiros irmanados em concepções musicais semelhantes às suas. Eram eles o pianista Keith Jarrett, o baterista Jack DeJohnette e o contrabaixista Cecil McBee (posteriormente substituído por Ron McClure), todos na casa dos vinte anos e, em comum, possuíam, além da formação técnica espetacular e do amplo conhecimento das mais diversas sintaxes do jazz, uma completa aversão ao conservadorismo e um apetite aparentemente insaciável pelo novo.

Graças à intervenção de George Avakian, o quarteto foi contratado pela Atlantic Records, onde gravou quase uma dezena de álbuns, boa parte deles centrada nas composições de Lloyd e de Jarrett. A receptividade de público e de crítica foi espetacular, sendo que “Forest Flower” (1966) ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas, uma cifra espantosa para os modestos padrões do jazz, e tocou exaustivamente nas rádios FM dos Estados Unidos.

As influências do quarteto são as mais diversas, incluindo pitadas de bebop, fusion, post-bop, blues, avant-garde, rock, psicodelismo e soul jazz. No mesmo ano em que foi formado, o grupo se exibiu, com estrondoso sucesso, nos festivais de Monterey (onde foi gravado “Forest Flower”), Newport e Antibes, na França. No ano seguinte, Lloyd e seus comandados romperam paradigmas ao se apresentar no célebre Fillmore Auditorium, casa de espetáculos de San Francisco, que até então era reservada exclusivamente para cantores e grupos de rock, como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Cream e Grateful Dead.

A influência psicodélica está presente não apenas no título do álbum, como também na capa colorida, que reproduz a estética hippie tão em voga na época. Os integrantes do quarteto se vestiam a caráter, usando batas e camisolões floridos, além de pulseiras e acessórios típicos da contracultura. Os Estados Unidos viviam o pesadelo do Vietnã e a postura desafiadora de Lloyd e seu grupo encontrava ampla ressonância entre os jovens. Não é à toa que o grupo costumava sair em turnê com bandas de rock psicodélico, como Grateful Dead, Jefferson Airplane, The Byrds e Paul Butterfield Blues Band.

O show no Filmore foi realizado no dia 27 de janeiro de 1967 já com Ron McClure no lugar de Cecil McBee e, posteriormente, foi lançado em LP com o título “Love-In”. O disco é uma miscelânea de informações musicais, cujo resultado final é bastante coeso e surpreendentemente acessível. A faixa de abertura é a coltraneana “Tribal Dance”, cuja estrutura fugidia e dissonante exige do líder e, sobretudo, de Jarrett uma entrega absoluta. A comunicação entre os membros do grupo é telepática, com destaque para a exuberância polirrítmica de DeJohnette.

Usando a flauta, Lloyd faz da sussurrante “Temple Bells” uma verdadeira viagem espiritual, que remete à atmosfera dos templos indianos. É uma composição do líder, minimalista, onde os demais instrumentos são apenas sugeridos. O clima esquenta com o blues “Is It Really The Same?”, de autoria de Jarrett, no qual Lloyd volta ao tenor com toda energia. Sua sonoridade não é tão rascante quanto a de Coltrane ou de Rollins, mas é profundamente original, sobretudo na maneira como ele alonga as notas mais agudas. Seus solos possuem uma profundidade e um vigor que estimulam os companheiros a dar o máximo de si. Como resultado dessa permanente exigência, a atuação de Jarrett não é menos impactante e vigorosa, mas já exibindo, todavia, indícios do pianista cerebral que viria a se tornar nos anos seguintes.

A interpretação de “Here, There and Everywhere”, da dupla Lennon e McCartney, é enternecedora. Lloyd passeia, completamente à vontade, pelo pop sofisticado dos garotos de Liverpool e o resultado é uma interpretação limpa, sem arabescos, completamente centrada na simplicidade e na beleza da melodia. Jarrett encontra espaço para improvisar e seu solo, conciso, revela que quando existe concatenação de idéias, o discurso harmônico dispensa a profusão de notas.

O quarteto entra em clima de festa com o tema que dá nome ao disco, soul jazz de primeiríssima linha, dançável e vibrante. Composta por Lloyd, que também aqui toca flauta, a faixa é impregnada de groove, com uma percussão infecciosa e uma linha de baixo sensacional. Atente-se para a vitalidade com que Jarrett investe contra as teclas do piano, e seu solo, intricado e contagiante, revela uma energia quase selvagem.

Da lavra de Jarrett, “Sunday Morning” é um blues estilizado, que flerta com o rock e traz elementos de soul jazz e stride. O líder não participa da sessão e o pianista brilha, em uma atuação impetuosa, percussiva e de enorme criatividade. Para encerrar, um medley composto por “Memphis Dues Again” e “Island Blues”, temas mais ásperos e pouco ortodoxos. O primeiro situa-se no limiar do free jazz, sendo, basicamente, uma livre improvisação do líder, a bordo do sax tenor. O segundo é uma fanfarra, com pitadas de blues e dixieland, e é bem menos hermético que o anterior. Um disco para ser descoberto e que conjuga ímpeto criativo, visceralidade e ousadia em igual medida. Certamente, ajuda a compor a trilha sonora de uma era mas pode ser ouvido nos dias de hoje sem maiores sobressaltos. A música que emana dele é atemporal.

Saudado como o último grande inovador a emergir nos anos 60, Lloyd passou o restante da década em permanente lua-de-mel com público e crítica. Excursões pela Europa eram uma constante – entre 1966 e 1968 foram nada menos que seis viagens, incluindo aí países do Leste Europeu, então extremamente fechados e nada receptivos a qualquer contato com o ocidente. Seu quarteto foi um dos primeiros grupos norte-americanos a excursionar pela extinta União Soviética, em 1969. Também tocou na Ásia e no Oriente Médio, roteiros então pouco usuais para músicos de jazz.

Lloyd era um dos poucos músicos de jazz a praticamente abolir as apresentações em clubes e pequenas boates, tamanho o interesse que seus concertos despertavam no público. Hoje pode parecer exagero, mas na segunda metade da década de 60 apenas Coltrane e Miles Davis desfrutavam de prestígio comparável ao seu. A prova disso, além dos milhões de álbuns vendidos e das turnês com lotação esgotada, foi a sua eleição, em 1967, como “Jazz Artist Of The Year”, pela revista Down Beat.

No entanto, nem tudo eram flores. As divergências internas eram intensas e em 1968 foi a vez de DeJohnette deixar o posto, sendo substituído pelo não menos talentoso Paul Motian. No ano seguinte, abalado pelo falecimento de sua mãe e envolvido com drogas, Lloyd dissolveu o quarteto e partiu para uma profunda viagem rumo ao autoconhecimento. Embora não tenha abandonado completamente a música – chegou a lançar alguns discos nos anos 70, por selos como KAPP e A&M e atuou como sideman em álbuns de artistas como Roger McGuinn, Beach Boys, Canned Heat e The Doors – o saxofonista diminuiu sensivelmente o seu ritmo de trabalho.

Passou a se dedicar à meditação transcendental e deixou Malibu, na Califórnia, indo residir em Big Sur, cidade californiana onde também viviam outros artistas extremamente inquietos e originais, como os escritores Langston Hughes, Henry Miller, Lawrence Ferlinghetti e Jack Kerouac. Também retomou as atividades como educador musical e passou a se dedicar ao sax soprano. Ao lado do cantor Mike Love, vocalista dos “Beach Boys”, e do produtor Ron Albach, Lloyd criou a produtora “Lovesongs”.

Em 1977 mudou-se para a França e, mais tarde, para a Suíça. Na Europa, em 1981, foi apresentado pelo percussionista Tox Drohar a um jovem pianista de apenas 18 anos chamado Michel Petrucciani. A química entre os dois foi imediata e após alguns trabalhos em duo, resolveram formar um quarteto que incluía o baixista Palle Danielsson e o baterista Ship Theus. Com essa formação, Lloyd e Petruccianni gravaram, em 1982, dois álbuns: “Michel” e “Montreux 82”, ambos para a Elektra. O grupo ainda gravou, no ano seguinte, o álbum “A Night In Copenhagen” (Blue Note), que conta com a participação do vocalista Bobby McFerrin em duas faixas.

Em 1985, ele reuniu-se a Michel Petrucciani, Jack DeJohnette e McBee para um concerto no Town Hall, em Nova Iorque, em comemoração à volta da Blue Note Records ao mercado fonográfico. No ano seguinte, o saxofonista sofreu uma Diverticulite de Meckel, doença rara e, em boa parte dos casos, fatal. Embora tenha sofrido uma cirurgia que lhe retirou parte do intestino, felizmente superou os problemas de saúde e voltou a tocar pouco tempo depois.

A partir da sua união com Petrucciani, Lloyd voltou com tudo ao cenário jazzístico e, tal como havia feito na década de 60, tornou-se um emérito descobridor de novos talentos. Por seus grupos passaram nomes hoje consagrados, como Jason Moran, Brad Mehldau, Eric Harland, John Abercrombie, Larry Grenadier e Geri Allen, entre muitos outros. Segundo o crítico suíço Yvan Ischer “ver e ouvir Charles Lloyd em ação é sempre um evento, não apenas porque este saxofonista percorreu até hoje inúmeras encruzilhadas, mas, sobretudo, porque ele possui uma verdade inquebrantável que faz dele um músico completamente original. É isso o que chamamos graça”.

Em 1989 iniciou uma prolífica associação com o selo alemão ECM. Seu primeiro disco pela nova gravadora foi “Fish Out Of Water”, onde o saxofonista se faz acompanhar por uma sessão rítmica escandinava, formada pelos suecos Cobo Stenson (piano) e Palle Danielsson (baixo) e pelo norueguês Jon Christensen (bateria). Seus álbuns pela ECM se caracterizam por uma sonoridade introspectiva e profundamente espiritualizada. Via de regra, são recebidos com entusiasmo pela crítica, como é o caso de “Lift Every Voice” (2002), “Rabo de Nube” (2008 – vencedor do prêmio de melhor álbum do ano da revista Jazz Times, em votação da crítica e do público) e “Mirrors” (2010).

Ele se mantém em intensa atividade, tocando e gravando com regularidade. Em 2006, por exemplo, foi a principal atração do Festival de Monterey, onde comemorou o quadragésimo aniversário de sua primeira apresentação no local. Em 2010 realizou concertos na África do Sul e Austrália. Para o ano de 2011 sua já estão agendadas apresentações na França, Bélgica, Romênia e no North Sea Jazz Festival, na Holanda.

Mais uma vez recorrendo aos enciclopédicos conhecimentos do Mestre Apóstolo, pode-se dizer que Lloyd “possui amplo domínio técnico dos instrumentos que toca de forma bem extrovertida, com amplo vibrato, poderoso volume, fraseado bem irregular com destaque para as fugas na direção dos ‘sobre agudos’, pela contínua busca de notas artificiais no sax tenor e na flauta. É um obstinado tecelão de climas passionais como conseqüência dos ‘ostinatos’ que executa ‘obstinadamente’. Sem erro, podemos incluir Llloyd entre os maiores e melhores difusores da estética coltraneana”.

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