Amigos do jazz + bossa

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O INCONFORMISTA


Yusef Lateef não gosta da palavra “jazz” pois, segundo ele, rótulos são sempre muito perigosos e acabam por impor, ainda que inconscientemente, limites à criatividade artística. Daí porque ele nunca se restringiu a estilo ou tendência, embora tenha transitado com absoluta maestria pelas mais diversas correntes do jazz e de outros estilos musicais. Para além da religião islâmica, que abraçou ainda nos anos 50, seu verdadeiro credo é a música e sua profissão de fé é levá-la ao maior número possível de pessoas.

De fato, Lateef sempre foi considerado um músico sem fronteiras. Um espírito inquieto e desprovido de preconceitos, cuja força motriz parece ser desbravar territórios musicais inexplorados. Não é à toa que foi um dos primeiros músicos norte-americanos a despertar para a riqueza rítmico-harmônica da música oriental e inserir elementos de música árabe, indiana e japonesa, por exemplo, na linguagem do jazz.

Também teve uma importância capital na utilização de instrumentos pouco comuns ao idioma jazzístico, como o oboé, o fagote, o argol (espécie de clarinete), o shanai (espécie de oboé), o koto e a flauta de bambu. Como se não bastasse, o talentoso multiintrumentista, compositor, educador musical e arranjador, foi pioneiro na busca por novas sonoridades, apontando, ainda no início da década de 60, os caminhos para aquilo que, a partir dos anos 80, seria conhecido como World Music.

William Emanuel Huddleston, seu nome de batismo, nasceu em Chattanooga, Tennessee, no dia 09 de outubro de 1920. Todavia, em 1925 sua família se mudou para Detroit, cidade que lhe despertou o interesse pela música. Em 1932, após a separação dos pais, o jovem William foi morar com o pai em um apartamento próximo ao Arcadia Cinema onde, nas noites de sábado, aconteciam animados bailes, movidos ao som do swing. Ouvir a pulsação dos grupos e orquestras que se apresentavam ali foi uma experiência mágica, que definiu o destino do garoto. Logo em seguida, ele começaria o aprendizado musical.

O primeiro instrumento desejado pelo garoto foi um trompete, mas foi desencorajado pelo pai. Decidiu-se pelo saxofone e seu pai lhe propôs um trato: pagaria metade do valor do instrumento. O garoto passou a vender jornais e a economizar cada centavo, para realizar o sonho de possuir um instrumento. Quando conseguiu juntar 40 dólares, seu pai foi a uma loja de instrumentos musicais e cumpriu a promessa: comprou-lhe, por 80 dólares, um reluzente sax alto Martin.

Aos 20 anos de idade, após concluir o ensino médio e já casado com Sadie Harper, Lateef começou a carreira profissional, tocando no grupo de Amos Woodward, atração fixa do clube Ace High. Também costumava acompanhar cantores de blues como Wynonie Harris. A educação musical era levada a sério, com aulas no Detroit Conservatory of Music, pelas mãos de professores renomados, como Alvin Walls e Teddy Buckner. No início dos anos 40, influenciado por Coleman Hawkins e sua sonoridade robusta, trocou o sax alto pelo tenor.

Em pouco tempo, já se destacava na prodigiosa cena local, onde então pontuavam nomes como Milt Jackson, Hank Jones,Tommy Flanagan, Lucky Thompson e Matthew Rucker. Posteriormente, outros grandes nomes do jazz iriam despontar na Cidade dos Motores e muitos deles tiveram a sua primeira chance profissional em grupos liderados por Lateef, como Barry Harris, Paul Chambers, Donald Byrd, os irmãos Thad e Elvin Jones, Curtis Fuller, Kenny Burrell, Doug Watkins e inúmeros outros.

Durante toda a década de 40, Lateef acompanhou ou integrou grupos e orquestras de gente como Hartley Toots, Hot Lips Page, Roy Eldridge, George Hall, Herbie Fields e Lucky Millinder. Entre 1946 e 1947 morou em Chicago, onde tocou no grupo do baixista Eugene Wright (futuro membro do quarteto de Dave Brubeck), chamado “The Dukes of Swing”. A seu lado, um pianista de temperamento extrovertido e idéias musicais arrojadas, chamado Herman “Sonny” Blount, que passaria à historia como o inclassificável Sun Ra. Em 1949, veio a grande chance de sua carreira: foi convidado por ninguém menos que Dizzy Gillespie para excursionar com sua orquestra, substituindo James Moody.

Dono de uma técnica invejável e profundo conhecedor de todas as vertentes da música afro-americanas, como o blues, o R&B, o gospel e os spirituals, Yusef não demorou muito tempo para firmar seu nome entre os mais disputados músicos da época. Ademais, o trabalho com Dizzy permitiu-lhe conviver diretamente com outros grandes músicos que ali atuavam, como J. J. Johnson, Al McKibbon, Milt Jackson, Ray Brown, Kenny Clarke, Chano Pozo, Johnny Hartman, Sabu Martinez e muitos outros.

No ano seguinte, desligou-se da orquestra de Gillespie e, após tocar algum tempo com Art Blakey, retornou a Detroit, disposto a retomar os estudos musicais. Dois fatos extremamente relevantes ocorreram naquele ano: a conversão ao islamismo, que implicou na adoção do nome islâmico Yusef Abdul Lateef, eis que até então ele usava o nome artístico de William Evans, e o ingresso na Wayne State University, onde estudaria flauta e composição. Também data do início dos anos 50 o interesse pelo oboé, tendo recebido as primeiras lições de Ronald Odemark, músico que integrava a Detroit Symphony Orchestra.

Para dar conta das despesas do lar, arranjou um emprego como operário da Chrysler, ao mesmo tempo em que acompanhava figuras importantes do blues, como T-Bone Walker e Clarence Gatemouth Brown. Além disso, o incansável Lateef ainda encontrava tempo para estudar teoria musical, desta feita na Larry Teal’s School of Music. Ufa!

Apesar da rotina extenuante, tendo que conciliar o trabalho na fábrica com os estudos e a atuação como músico freelancer, Lateef conseguiu imprimir ainda maior dinamismo à carreira solo, criando seus próprios conjuntos e firmando-se como referência de primeira grandeza no cenário jazzístico de Detroit. Alguns de seus mais constantes parceiros, durante os anos 50, foram o trombonista Curtis Fuller, o pianista Hugh Lawson, o baterista Louis Hayes e o trompetista Wilbur Harden. Em 1956 começou a gravar seus próprios álbuns como líder, para selos como Savoy, Riverside, New Jazz, Prestige, Contemporary, Impulse e Atlantic.

Um dos melhores momentos dessa discografia é o fabuloso “Cry! –Tender”, gravado no dia 16 de outubro de 1959, nos estúdios Van Gelder, e lançado pela Prestige. À frente de um quinteto que incluía o trompetista Lonnie Hillyer, o pianista Hugh Lawson, o baixista Herman Wright e o baterista Frank Gant, Lateef utiliza, pela primeira vez em estúdio, o oboé, instrumento que já vinha sendo usado por ele em concertos ao vivo.

A atmosfera do disco é bastante reflexiva e sua sonoridade reflete a influência dos ritmos orientais, sem jamais resvalar no exotismo vulgar. Ao contrário, todas as execuções primam pelo mais elevado bom gosto, da primeira à última faixa. E a primeira é uma versão hipnótica de “Sea Breeze”, de Al Hoffman e Dick Manning, que mescla a sensualidade do oriente com a malemolência do bolero, com um resultado belíssimo. Munido do oboé, o líder cria um clima de encanto e mistério que fascina o ouvinte.

“Cry! – Tender” é, na própria definição de Lateef, um poema tonal, feito após uma visita ao hospital, onde sua esposa estava internada. A composição expressa, a um só tempo, angústia, sofrimento e esperança e essa dicotomia se revela pelo uso do oboé e do sax tenor. Hillyer, então com 20 anos, entrega um dos mais belos solos do álbum, de um lirismo enternecedor. Destaque também para a atuação de Lawson, que acentua as notas graves para criar uma maior tensão e reforçar a intensidade dos sentimentos do líder. Um tema desafiador, mas nunca hermético.

“Dopolous”, baseada no folclore grego, tem uma introdução sombria, feita por Wright, que usa tanto o arco quanto o pizzicato. A flauta é o instrumento utilizado por Lateef, autor do tema, que a emprega com maestria, criando um clima de mistério e espiritualidade. As discretas intervenções de Gant e Lawson ajudam a compor a atmosfera envolvente e lírica.

"Butter's Blues” tem uma estrutura bop mais ortodoxa, mas ainda assim traz inovações, como a bela introdução em ritmo de valsa. Os solos de Wright, Hillyer e Gant, são muito bem construídos e instigantes, mas é o líder, com o seu majestoso sax tenor, quem merece o maior destaque. Sua atuação é nada menos que soberba, uma lição de criatividade, destreza e arrojo capaz de impressionar até o mais experimentado dos ouvintes.

Quando se pensa que um standard gravado centenas de vezes não pode apresentar mais nenhuma aspecto surpreendente, Lateef e seus homens perpetram uma sensacional versão de “Yesterdays”. Novamente com o oboé, o líder é o responsável pela introdução quase etérea, que, aos poucos, dá lugar a uma interpretação bop de excelente cepa. O carismático Hillyer extravasa toda a sua habilidade técnica, elaborando um solo complexo e muito imaginativo.

Bebop de primeira linha também pode ser encontrado em “The Snow Is Green”, com suas linhas sinuosas e quase abstratas. Grandes atuações de Lawson, sempre bastante hábil e criativo, e de Wright que, com seu baixo pululante. O sax tenor de Lateef é inquieto e efusivo, com frases que remetem a outro gigante, Sonny Rollins. A lamentar apenas a curta duração da faixa, com seus pouco mais de três minutos.

Outro momento mágico é a interpretação que o quinteto faz de “If You Could See Me Now”, na qual o tenor de Lateef transborda lirismo e sensualidade. Uma das baladas mais classudas da história do jazz, a composição de Tadd Dameron ganha um arranjo que realça suas qualidades. Piano e saxofone dialogam com elegância superior e Hilyer comete um solo primoroso.

O disco encerra com a deliciosa “Ecaps”, faixa bônus onde a banda que acompanha Lateef é a seguinte: Hugh Lawson no piano, Wilbur Harden no flugelhorn, Ernie Farrow no baixo e Oliver Jackson na bateria. Bebop de elevada temperatura, com um pé no R&B, que nada fica a dever às demais faixas do disco. Harden e Lawson, precisos e nada econômicos, fazem miséria em seus respectivos instrumentos e o líder, outra vez com o tenor, mostra porque é um dos maiores nomes da história do jazz.

Um álbum extraordinário, certamente o mais sofisticado de toda a extensa obra de Lateef e que serviu como ponto de partida para o incensado “Eastern Sounds”, de 1961, provavelmente sua obra mais conhecida. Se a mistura de jazz com música oriental lhe agrada, este disco se casa à perfeição com o seu gosto. Se essa mistura lhe desagrada, este disco certamente irá fazê-lo mudar de opinião.

No mesmo ano, Lateef se estabeleceria em Nova Iorque, tendo causado uma ótima impressão na fervilhante cena jazzística local, não apenas pela excelência de suas habilidades, como, sobretudo, pela capacidade para manejar, virtualmente, qualquer instrumento de sopro, incluindo alguns considerados exóticos ou mesmo alheios ao jazz. Em seus discos, a presença de elementos multiculturais é sempre muito intensa, chegando a provocar reações furiosas de alguns puristas. Por outro lado, o seu mergulho na sonoridade oriental influenciou ninguém menos que John Coltrane e a música profundamente espiritualizada que este faria a partir do início da década de 60, especialmente em sua fase na Impulse.

No início da década seguinte, apesar de haver integrado os conjuntos de Charles Mingus, Donald Byrd e Cannonball Adderley, não deixou de gravar e excursionar com seus próprios combos. Não obstante, além da carreira solo, continuou a ser um requisitado acompanhante, gravando com músicos do quilate de Doug Watkins, Miles Davis, Babatunde Olatunji, Clark Terry, Randy Weston, Grant Green, Freddie Hubbard, Art Blakey, Buddy DeFranco e muitos outros. No final da década, gravou alguns álbuns bastante impregnados de funk, soul e R&B, como “The Blue Yusef Lateef” e “Yusef Lateef Detroit’s”, que tiveram boas vendagens mas, novamente, receberam críticas acerbas por parte dos puristas.

Lateef resolveu dar continuidade aos estudos na reputada Manhattan School of Music, onde graduou-se em Teoria Musical em 1969, concluindo o mestrado em Educação Musical no ano seguinte. Em 1975 doutorou-se em Educação pela University of Massachusetts, e a sua dissertação,“An Overview of Western and Islamic Education”, é considerada obra de referência. Na área de teoria musical, destacam-se as obras “Yusef Lateef's Flute Book of the Blues”, “A Repository of Melodic Scales and Patterns” e “123 Duets for Treble Clef Instruments”.

Em 1972 começou a ensinar no Manhattan Community College, onde foi professor de futuros astros do jazz e da música pop, como o pianista Kenny Barron e o cantor Donny Hathaway. Também lecionaria em outras instituições renomadas, como na University of Massachusetts (onde foi admitido em 1987 e tinha como colegas de cátedra luminares como Max Roach e Archie Shepp), no Smith College, no Amherst College e no Hampshire College. Atuaram em seus grupos dos anos 60 e 70 músicos de primeira linha, como Kenny Barron, Albert Heath, Roy Brooks, Ernie Farrell, Cecil McBee, Bob Cunningham, Adam Rudolph, Charles Moore, Ray Barretto, Eric Gale, Richard Tee, Joe Zawinul, Ray Bryant e muitos outros.

Suas composições na área da música erudita, que incluem suítes orquestrais, sinfonias, concertos para piano e para instrumentos de sopro, foram interpretadas por orquestras de prestígio, tanto nos Estados Unidos, como a Atlanta Symphony Orchestra, a Detroit Symphony Orchestras, a Symphony of the New World e a New Century Playersquanto na Europa, como a WDR Radio Orchestra, da Alemanha. Em 1987 o disco “Yusef Lateef’s Little Symphony” recebeu o Grammy de melhor álbum na categoria “New Age”.

Nos anos 80 residiu em Zaria, na Nigéria, lecionando no Centro de Estudos Culturais Nigerianos, ligado à Universidade Ahmadu Bello, como professor convidado. Na década seguinte, direcionou seu interesse ao free jazz, tendo trabalhado com alguns dos expoentes do estilo, como os saxofonistas Archie Shepp e Von Freeman. Em 1992 criou o seu próprio selo, o YAL Records, por onde tem lançado seus discos, e uma editora, a Fana Music.

Lateef também é escritor, tendo publicado diversos romances e coletâneas de contos, como “A Night in the Garden of Love”, “Another Avenue” e “Rain Shapes”, boa parte deles lançados por sua própria editora. Também escreveu a sua autobiografia, chamada “The Gentle Giant”, em parceria com o jornalista Herb Boyd. Além da literatura, dedicou-se nos últimos anos à pintura e seus quadros estão expostos em diversas galerias dos Estados Unidos. Em 2007 foi eleito “Artista do Ano” pela University of Massachusetts e em 2010 recebeu o título de Jazz Master pela National Endowment for the Arts – NEA. Apesar da idade, Lateef se mantém ativo e continua a se apresentar em concertos e festivais pelo mundo, exibindo, às vésperas dos seus 90 anos, uma vitalidade e uma disposição invejáveis.

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sexta-feira, 30 de abril de 2010

OS TEMPOS ADORMECIDOS



Imagens pictóricas me devassam as córneas

E o teleférico transparente desaba sobre a saudade

Os reflexos do meu inferno onírico

Dispersam-se por entre o sabor azul que impregna meus dentes

Sentimentos expostos por uma alma encarcerada.

Cercado pelos oceanos invisíveis, sem jangada ou ponte

Tento esganar o pássaro incômodo da verdade

Tento escapar de sua malfazeja atenção

Procuro a escada que me revelará os mistérios andinos

Contesto, em vão, o resultado do sufrágio no firmamento

Mas a culpa, idônea, torna ainda menos palpável a noite abstrata

Excessos ocultos por sinceros disfarces.

Entalhes de pedra fingida,

Calendários de lua sem data,

Conselhos de uma voz alheia à razão.

As camas desfeitas, as malas desfeitas, a cidade sem subterfúgios

Alguém que fica, alguém que espera, alguém covarde demais para fugir

A textura do vazio é um sacramento sem alarde,

Enquanto a minha indecisão obstrui o caminho.

Eu sou obra sem operário, templo sem fiéis

O adjetivo impreciso, o verbo sem tempo.

As minhas pétalas,

As minhas plumas,

As minhas folhas,

A minha pele,

A minha carne

Tombaram há muito aos chãos

Mas nem a metamorfose e nem o outono

Até a mim chegaram


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O incendiário Carmell Jones é nativo de Kansas City e seu estilo vigoroso, impregnado de blues e das concepções rítmicas do grande Count Basie, reflete a cidade onde nasceu. Clifford Brown é, indubitavelmente, a maior influência deste notável trompetista, nascido no dia 19 de julho de 1936, sobre quem a crítica especializada costumava dizer que era capaz de fazer qualquer coisa com seu trompete.

O primeiro contato com a música se deu na escola, além das audições de jazz pelo rádio da família. Contrariando o pai, baterista semi-profissional que gostaria que o filho fosse saxofonista, o jovem Carmell optou pelo trompete. Passou quatro anos na força aérea, onde também se integrou à orquestra da corporação. Ao término do serviço militar, o trompetista decidiu estudar teoria musical e composição.

Freqüentou o bacharelado de música da University of Kansas por dois anos, mas abandonou o curso, desencantado com os métodos antiquados de alguns professores. Mudou-se para Los Angeles em 1960, gravando ali seus primeiros discos como líder, pela Pacific Jazz. Paralelamente, construiu uma sólida reputação como músico de estúdio, realizando trabalhos regulares para o cinema e a televisão, o que lhe permitiu trabalhar com o astro Sammy Davis, Jr. e com o arranjador Nelson Riddle.

Integrou a orquestra de Gerald Wilson, entre 1961 e 1963, e acompanhou os alguns dos maiores nomes do West Coast Jazz, como Harold Land, Shelly Manne, Teddy Edwards, Howard Rumsey, Buddy Collette e Buddy Shank. Também trabalhou com os inclassificáveis Don Ellis, Charles McPherson e Booker Ervin, mas sua associação mais conhecida foi com o pianista Horace Silver, cujo quinteto integrou de 1964 a 1965, tendo participado das gravações do excepcional “Song For My Father”.

Após participar do Stuttgart Jazz Festival, em 1965, resolveu se estabelecer na Alemanha, já que o panorama musical norte-americano era pouco receptivo a músicos de jazz. Ali, integrou a orquestra da Rádio SFB, em Berlin, onde tocou com grandes nomes do jazz europeu, como Heinz von Hermann e Ake Persson, e com jazzistas americanos residentes ou de passagem pela Alemanha, como Herb Geller, Leo Wright, Slide Hampton e Joe Harris .

No Velho Continente, trabalhou com as orquestras de Quincy Jones, Stan Kenton e Oliver Nelson, quando em turnê pela Europa. Em 1980, decidiu retornr à Kansas City natal, onde morreu no dia 02 de junho de 1990, aos 57 anos, em decorrência de complicações causadas pelo diabetes.

Um dos seus mais representativos trabalhos de Jones é “Jay Hawk Talk”, gravado para a Prestige no dia 08 de maio de 1965. A seu lado, um time de peso, que inclui o pianista Barry Harris, o saxofonista Jimmy Heath, o baixista George Tucker e o baterista Roger Humphries – um quinteto bastante coeso e que atua com enorme volúpia.

A ligação de Jones com o hard bop é evidente, mas ele não esconde a afinidade com outros estilos, como o bebop, o soul-jazz e o West Coast. Versões musculosas de “What Is This Thing Called Love” e “Just In Time” são uma amostra dessa versatilidade. O sofisticado Harris contribui para tornar a versão de “Willow Weep For Me”, um nostálgico blues de Ann Ronell, uma das mais elegantes de todos os tempos. Três composições do líder completam o set, com destaque para “Dance Of The Night Child” e “Beepdurple”, nas quais Jimmy Heath mostra porque mereceu o apelido de Little Bird e o líder apresenta solos magistralmente bem construídos.

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Ninguém acertou o desafio do 1º ano do Jazz + Bossa. Assim, o desafio continua de pé. Boa sorte aos amigos navegantes!

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domingo, 25 de abril de 2010

DESCENDO A RUA DA LADEIRA


Todo mundo conhece o maestro, pianista, compositor e arranjador Antonio Adolfo, embora às vezes nem se dê conta disso. De fato, olhando-se uma foto do músico de ar circunspecto e temperamento aparentemente arredio, ninguém diria que ele é um fabuloso “hit maker” e que suas músicas foram – e ainda são – cantadas de norte a sul do país. Aos olhos do observador comum, por exemplo, ele parece mais um compenetrado professor de conservatório, opinião que, de certa forma, não está de todo errada. Mas basta ouvir os primeiros acordes de “Sá Marina”, o mais estrondoso sucesso de sua vitoriosa carreira, para que essa idéia se dissipe: Antonio Adolfo é puro ritmo, alegria, diversão e musicalidade!

E “Sá Marina” é apenas uma das centenas de composições que brotaram do seu piano iluminado. Esse talentoso carioca, nascido no bairro de Santa Teresa no dia 10 de fevereiro de 1947, desde muito cedo apaixonou-se pela música e por ela foi correspondido. Sua mãe, Yolanda Maurity, era violinista da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e professora de música. Seu irmão mais novo, o cantor e compositor Ruy Maurity, fez um enorme sucesso durante a década de 70.

Aos sete anos, iniciou seus estudos com a professora Paulina D’Ambrozzio e o seu primeiro instrumento foi o violino. Em seguida, vieram as aulas de teoria musical no Conservatório de Música Lorenzo Fernandes. Aos 15 resolveu aprender piano, tendo sido aluno dos respeitados pianistas Amyrton Vallim e Heitor Alimonda. Aos 16 anos já fazia parte do seleto grupo de músicos que encantava as noites cariocas com as concorridas jams no Beco das Garrafas, em Copacabana – a Rua 52 tupiniquim e berço esplêndido do samba jazz.

Nessa época, integrou um grupo semi-profissional chamado “Samba a Cinco”, juntamente com alguns colegas do Colégio São Francisco, e consta que para entrar nas boates, sempre contava com a boa vontade dos porteiros, pois somente maiores de 21 anos podiam freqüentar aqueles ambientes. Além da música erudita, o pianista passava horas ouvindo jazz e marchinhas de carnaval, e esse ecletismo sem preconceito acabou por apontar-lhe os caminhos que, futuramente, traçaria dentro da música.

Mestre na mistura de samba, bossa nova e jazz, o jovem pianista era figurinha carimbada nas boates Little Club e Bottle’s, freqüentadas por bambambãs da estirpe de Baden Powell, Hector Costita, Sérgio Mendes, Paulo Moura, Edson Machado, J. T. Meirelles, Raul de Souza, Edson Maciel, Milton Banana, Sérgio Barrozo, Durval Ferreira, Rubens Bassini, Luís Carlos Vinhas, Tião Neto, Bebeto Castilho, Dom Um Romão, Airto Moreira, Wilson das Neves e outros.

Sua estréia profissional não poderia ser mais auspiciosa: em 1964, convidado por Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, atuou no musical “Pobre Menina Rica”, onde conheceu o baixista argentino “Cacho” Pomar e o baterista Nélson Serra, seus futuros companheiros no Trio 3-D (o nome do trio homenageia a primeira composição do pianista, chamada “Tema 3-D”).

Já sob a denominação de Trio 3-D, Adolfo, Cacho e Nélson acompanharam a cantora Leny Andrade e o trombonista Raul de Souza no show “Estamos aí”, em cartaz no Beco das Garrafas. O primeiro disco do trio, denominado “Tema 3-D”, foi gravado em gravado pela RCA, em 1964, e impressiona o fato de que Adolfo tivesse apenas 17 anos à época (o baterista Nélson era um pouco mais velho: tinha 18 anos).

Além de tocar piano, o abusado garoto ainda se responsabilizou pelos arranjos das 12 faixas, sendo que em cinco delas Nélson foi substituído pelo legendário Dom Um Romão. Outras participações especiais são do violonista Arísio Rubim (que atua em todo o disco) e, em três faixas, um certo trompetista chamado Claudinho, sobre quem não há maiores informações nas notas do disco, mas que não é outro senão o grande Cláudio Roditi, que, aos 17 anos (mesma idade de Adolfo), debutava nos estúdios.

Uma versão vigorosa de “Consolação”, de Baden Powell e Vinícius, abre o disco de maneira bastante efusiva, na qual o fabuloso trabalho de Dom Um Romão é o grande destaque. Impressionante também é o completo domínio que o jovem Adolfo possui do seu instrumento, elaborando improvisações de alta complexidade.

“Clouds”, de Durval Ferreira e Maurício Einhorn, traz uma amostra do talento do trompetista Claudinho, cujo sopro delicado se casa à perfeição com o belo arranjo elaborado por Adolfo. “Céu e mar” é uma das jóias mais raras da ourivesaria de Johnny Alf e faz com maestria a convergência entre o samba e o jazz, misturando a malemolência do primeiro com o swing do segundo. Adolfo se mostra um pianista maduro, para quem a pouca idade não é obstáculo à excelência técnica e à inventividade.

Um dos grandes instrumentistas brasileiros, Oscar Castro Neves contribui com a sestrosa “Samba do som”, tema que agrega elementos do samba tradicional, do jazz e da bossa nova, com uma levada insinuante. Dois outros cânones da bossa nova são revistos de maneira irreverente e despretensiosa: “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinícius, e “Samba de uma nota só”, de Tom e Newton Mendonça. Em ambos, a mistura de vitalidade e frescor dá a tônica, sendo que na primeira o trabalho de Pomar é esplendoroso.

Composição que dá nome ao disco e inspirou o nome do trio, “Tema 3-D” é uma balada com levada de bossa nova, tranqüila e relaxada. Essa mesma atmosfera continua em “Manhã sem você”, composta pelo violonista Arísio Rubim, na qual Claudinho demonstra que já era, aos 17 anos, um músico de muita sensibilidade. O repertório da bossa nova é mais uma vez revisitado, com uma elegante versão de “A morte de um deus de sal”, da dupla Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal.

Cacho tem uma voz afinada, bastante agradável e envolvente, mostrando que Dick Farney fez escola ao sul do Trópico de Capricórnio. Canta a deliciosa “Fly Me To The Moon” em um inglês impecável e a bela “O amor em paz” em um português nem tanto. Nesta última, seu solo ao baixo é belíssimo e o trompete de Claudinho, discreto, ajuda a criar um clima de “Beco das Garrafas, Hora Cero”.

Fecha o disco mais uma pérola da dupla Baden e Vinícius, “Berimbau”. Mais uma vez o talento superlativo de Romão empolga o ouvinte, brindado com uma execução vibrante e transbordante de swing. Fantásticas as atuações do líder e do argentino Pomar, com direito a solos criativos, exuberância técnica e energia em doses cavalares. Um dos grandes momentos da música instrumental brasileira e retrato dos mais bens acabados da efervescência musical vivida pelo país no início dos anos 60.

Em 1965, seria lançado o seminal “Trio 3-D convida”, com participações especialíssimas de Raul de Souza, Eumir Deodato, Paulo Moura e Edson Maciel. Mais tarde, o trio se transformaria em Conjunto 3-D, com substituição de Cacho por Manoel Gusmão e a adição do guitarrista Hélio Delmiro e dos cantores Eduardo Conde e Beth Carvalho. Após quatro álbuns gravados, o grupo foi desfeito em 1968 e cada um dos seus ex-integrantes foi cuidar da própria carreira.

Em 1967 Adolfo conheceu o letrista Tibério Gaspar, de quem se tornou amigo e com quem manteve uma prolífica parceria, inaugurando a chamada “toada moderna”, juntamente com outros jovens renovadores da música brasileira, como Danilo e Dori Caymmi, Paulo Tapajós, Marcos e Paulo Sérgio Valle e outros. A dupla Antonio Adolfo/Tibério Gaspar foi responsável por grandes sucessos dos anos 60 e 70, como Sá Marina, Manequim, Tema Triste, Caminhada (que chegou à final do II Festival Internacional da Canção), Teletema, Juliana (2ª colocada na fase nacional do IV Festival Internacional da Canção) e do BR-3 (a grande vencedora do V Festival Internacional da Canção, com a interpretação memorável de Tony Tornado).

No final dos anos 60, o pianista fundou o grupo Brazuca, que, entre outras inovações, foi pioneiro na incorporação de elementos de música eletrônica à música brasileira. Sua formação original incluía o guitarrista Luiz Cláudio Ramos, o baixista Luizão Maia e o baterista Vítor Manga (substituído por Paulinho Braga), além de um trio de vocalistas.

Em 1971 lançou o seu primeiro álbum solo, chamado simplesmente “Antonio Adolfo” e entre 1971 e 1972, contratado pela Editora Larry Music, morou nos Estados Unidos, aproveitando a oportunidade para estudar com David Baker, na Indiana University. No início dos anos 70, Antonio Adolfo acompanhou Elis Regina em duas excursões à Europa. Em uma delas, decidiu ficar na França, a fim de estudar com a renomada compositora francesa Nadia Boulanger.

Além disso, manteve-se em feérica atividade, como acompanhante e arranjador, executando trabalhos para Elis Regina, Edu Lobo, Leci Brandão, Maria Bethânia, Ângela Rô Rô, Erasmo Carlos, Elizeth Cardoso, Emílio Santiago, Raul Seixas, Fátima Guedes, Quarteto em Cy, Marcos Valle, Fagner, Nara Leão, Ruy Maurity, Caetano Veloso, Nara Leão, Sueli Costa, Rita Lee, Vinícius Cantuária, Chico Buarque e Zezé Motta. Em 1975, chegou a acompanhar o astro Mick Jagger, na gravação da canção “Scarlet”, feita no Rio de Janeiro e que contou com a participação, entre outros, do baixista Dadi, do baterista Paulinho Braga e do guitarrista Luiz Cláudio Ramos.

Em meados dos anos 70, Adolfo vinha encontrando enorme dificuldade para gravar seus próprios discos, apesar de ser um músico renomado e um compositor de sucesso. Por isso, em 1977 decidiu fundar o selo Artezanal, responsável pelo primeiro disco totalmente independente lançado no país, apropriadamente chamado de “Feito em Casa”, sucedido por “Encontro Musical” (1978), “Viralata” (1979) e “Continuidade...” (1980), que obtiveram enorme repercussão junto à crítica especializada e vendas bastante satisfatórias.

Compôs trilhas sonoras para diversos filmes, como “Sonho sem fim”, de Lauro Escorel, “Memórias de um gigolô”, de Jece Valadão, “Balada dos infiéis”, de Geraldo Santos Pereira e “Ascensão e queda de um paquera” de Vitor de Mello. Também criou trilhas para o teatro, como as dos musicais infantis “Passa passa passará”, de 1984, e “Astrofolias” de 1985, ambas em parceria com Xico Chaves e Paulinho Tapajós.

Em 1985, ministrou uma oficina de música na Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal, ao lado de Pascoal Meirelles, Hélio Delmiro e outros. A experiência foi tão marcante que, no mesmo ano, o pianista criou o Centro Musical Antonio Adolfo, para se dedicar a uma de suas grandes paixões: a educação musical. O resgate da memória musical brasileira também é uma preocupação constante na vida do pianista, que já gravou álbuns dedicados à obra de Ernesto Nazareth, João Pernambuco e Chiquinha Gonzaga (o disco “Chiquinha com jazz”, lançado em 1997 pela gravadora Kuarup, foi vencedor do Prêmio Sharp de 1998).

Durante vários anos foi o representante da International Association For Jazz Education - IAJE para a América Latina. Também escreveu diversos livros sobre técnica pianística, teoria musical, arranjo e composição, além de ministrar, regularmente, cursos e oficinas nos Estados Unidos (onde fundou a Antonio Adolfo School Of Music, em Miami) e em diversos países da Europa. Pai da cantora Carol Saboya, o pianista lançou recentemente os álbuns “Antonio Adolfo & Carol Saboya ao vivo/Live” (2006) e “Lá e cá – Here And There” (2101).

Autor de uma belíssima matéria sobre o maestro, que termina com uma deliciosa entrevista, o blogueiro e jornalista Paul “Brasil” Constandinides escreveu o seguinte:

“Tranqüilidade e amabilidade são qualidades que podem ser conferidas ao pianista e compositor carioca Antonio Adolfo. Aos 61 anos de idade, seu talento e sua música única traduzem o esplendor da musicalidade brasileira num sentido direto e com uma capacidade ampla de revelar as nuances e as texturas que esta música adquiriu nas últimas décadas. Bossa Nova? Brazilian Jazz? Toada Moderna? MPB? Choro? Slow Samba? Para definir a música de Antonio Adolfo é preciso entender as variantes rítmicas rompidas e as incorporações musicais realizadas entre os anos 50 e 70 nos centros urbanos do sul do Brasil. O piano de Antonio Adolfo faz parte de uma história, é historia e faz história.”

Depois disso, não é preciso dizer mais nada, a não ser: muito obrigado por tudo, maestro!

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Hoje, dia 25 de abril de 2010, o Jazz + Bossa comemora o seu primeiro aninho. Nesses 365 dias, muitas alegrias me foram proporcionadas, especialmente por conta das amizades criadas, de gente dos mais variados locais do Brasil e do mundo. O blog teve 25.000 acessos, chegou à casa de 132 seguidores e, ao longo de 108 postagens, recebeu mais de 2.000 comentários (contando com os meus, é claro). E por se tratar de uma data especial, o Jazz + Bossa presta a sua homenagem a um músico tmbém muito especial: o nosso querido maestro Antonio Adolfo.

Portanto, só tenho a agradecer o apoio, o carinho e as presenças de todos os amigos que fazem, junto comigo, o Jazz + Bossa e que dão sentido à existência do blog. Também gostaria de agradecer aos diversos blogs co-irmãos, guerrilheiros virtuais na luta pela música de qualidade, sendo que não ousarei nominá-los, pois corro o enorme risco cometer alguma injustiça, esquecendo de citar algum deles.

Por fim, para comemorar esse primeiro aninho, o Jazz + Bossa propõe um blindfold test: o primeiro amigo que acertar os nomes de três dos oito músicos que atuam na faixa postada na radiolinha abaixo receberá, gratuitamente, “sem qualquer custo de armazenagem, frete, seguro ou capatazia”, um exemplar novinho em folha – lacrado – do cd “Drums Around The Wolrd”, do mago das baquetas Philly Joe Jones, que conta com as participações estelares de Lee Morgan, Cannonball Adderley, Benny Golson, Wynton Kelly e muitos outros. Boa sorte a todos!

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terça-feira, 20 de abril de 2010

LEVANDO A VIDA NA FLAUTA


Apesar do talento exponencial, Jerome Richardson não é dos músicos mais conhecidos na história do jazz. Seu nome dificilmente constará dos compêndios e enciclopédias com grande destaque, merecendo apenas algumas breves linhas em todos eles. A discrição que pautou sua vida e sua música faz com que, ao se falar dos maiores flautistas do jazz, lembremos sempre de nomes como Herbie Mann, Yusef Lateef, Frank Wess, Hubert Laws, James Spaulding ou James Moody, o que é uma grande injustiça. E olha que a flauta era apenas um dos instrumentos que ele dominava com rara habilidade!

De fato, esse multiinstrumentista é uma daquelas jóias raras que, por capricho dos deuses do jazz, acabou por não receber o devido reconhecimento do grande público, embora seja pouco provável que alguém nunca tenha ouvido uma de suas milhares – isso mesmo, milhares! – de gravações como sideman, em álbuns de jazz, blues, pop, rock, e até mesmo de música brasileira. É bom que se diga, no entanto, que poucos músicos mereceram de seus pares tamanho respeito e admiração, como se vai ver a seguir.

Ele nasceu em Sealy, Texas, mas seus registros indicam que nasceu em Oakland, Califórnia (para onde seus pais haviam se mudado logo após o nascimento), no dia 15 de novembro de 1920. Seu aprendizado musical começou aos oito anos, quando começou a tocar sax alto. Na adolescência, estudou no San Francisco State College, ao tempo em que, com apenas 14 anos, já fazia apresentações profissionais, na região de Bay Area, em San Francisco.

Johnny Hodges e Ben Webster eram os seus heróis e o jazz a coisa mais importante em sua vida. Em 1940 descobriu a flauta, que passou a receber as suas maiores atenções a partir de então. Tocou por algum tempo com a orquestra de Jimmy Lunceford e de 1942 a 1945 esteve na marinha e integrou a banda da corporação, liderada por Marshall Royal, o grande saxofonista da orquestra de Count Basie.

Ao sair da marinha, Richardson tocou com Lionel Hampton, de 1949 a 1951, e com Earl Hines, de 1952 a 1953. Na época, começou a tocar também o sax tenor e o sax barítono. Montou o seu primeiro combo naquele período, no qual pontuava o baixista George Morrow, que posteriormente ganharia certa notoriedade ao integrar os grupos de Max Roach.

Em 1954 desembarcou em Nova Iorque, onde se firmaria como um requisitado músico de apoio, trabalhando com Lucky Millinder, Cootie Williams, Oscar Pettiford, Ella Fitzgerald, Cal Tjader, Frank Sinatra, Kenny Clarke, Michel Legrand, Nat Adderley, Peggy Lee, Chico Hamilton, Nancy Wilson, Miles Davis, Billy Eckstine, Horace Silver, Lena Horne, Gerry Mulligan, Milt Jackson, Gerald Wilson, Maxine Sullivan, Ray Brown, Sarah Vaughan, Oliver Nelson, Billie Holiday, Gil Evans, Dizzy Gillespie, Zoot Sims, Ray Charles, Wes Montgomery, Billy Taylor e Eddie Lockjaw Davis, entre incontáveis outros.

Montou um quarteto que se tornou atração fixa do célebre Minton’s Playhouse, em 1955 e que incluía o pianista Hank Jones, o baixista Wendell Marshall e o baterista Shadow Wilson. Costumava substituir Buddy Collette nas temporadas do quinteto de Chico Hamilton no Basin Street, quando o saxofonista, por algum motivo, não podia viajar até Nova Iorque.

Em 1959 excursionou pela Europa com a orquestra de Quincy Jones, que apresentava então o musical “Free And Easy”, de Harold Arlen. Além das atividades como músico de estúdio, Richardson trabalhava como integrante fixo das orquestras do Teatro Roxy e do programa televisivo “The Hit Parade”. Na Broadway, participou das montagens de diversos musicais, incluindo “Ain't Misbehavin’”, “Black & Blue”, “Jelly's Last Jam” e outros. Uma de suas associações mais importantes no período foi com Charles Mingus, que o chamou para tocar sax barítono em seu álbum “Mingus Dinasty”, de 1959.

Uma das raras oportunidades de ouvirmos Richardson como líder é o ótimo “Midnight Oil”, gravado no dia 10 de outubro de 1958 e lançado pela Prestige. Ao seu lado estão o trombonista Jimmy Cleveland, o pianista Hank Jones, o guitarrista Kenny Burrell, o baixista Joe Benjamin e o baterista Charlie Persip. A produção ficou a cargo de Esmond Edwards e a engenharia de som coube ao mago Rudy Van Gelder.

Abrindo o disco em altíssima temperatura, “Minorally” é um bebop musculoso, de autoria do próprio líder, que aqui usa o sax tenor (nas outras faixas, ele toca apenas a flauta). O sexteto atua com enorme competência e os solos de Richardson são um primor de fluência e bom gosto. Burrell é, certamente, um dos mais técnicos e inventivos guitarristas da história do jazz e seu solo, impregnado de blues, é uma aula de vitalidade. Grandes momentos de Cleveland e Jones, merecendo destaque a bateria furiosa de Persip.

O irresistível swing de “Way In Blues” ecoa na cabeça do ouvinte por horas. O líder – e compositor – esgrime a flauta com enorme destreza e consegue imprimir ao tema bastante groove, no que é ajudado, sobremaneira, pela guitarra energizada de Burrell. A inusitada mistura de flauta e trombone resulta em uma sonoridade alegre, realçada pela maestria da inspirada sessão rítmica, especialmente Jones.

“Delerious Trimmings” é mais uma composição de Richardson, que começa lentamente para, aos poucos, ir acelerando. Belíssimo trabalho do baixista Benjamin e do endiabrado Persip, que aqui alivia a mão e usa as escovas com enorme talento. Como de costume, Burrell e Cleveland tocam um absurdo e o fleumático Jones perpetra talvez o solo mais elegante do álbum.

A clássica “Caravan”, de Duke Ellington, Irving Mills e Juan Tizol, ganha uma versão magistral. Impressionante como a flauta soa misteriosa e dá outro sentido harmônico a uma das composições mais conhecidas e gravadas de todos os tempos. A introdução, a cargo de Benjamin, Jones e Persip, é demolidora. Richadson parece um encantador de serpentes e o som que extrai do seu instrumento é verdadeiramente hipnótico, enquanto Burrell e Cleveland providenciam doses extras de histamina.

Pagando tributo aos heróicos tempos do swing, o grupo resgata “Liric”, do clarinetista Artie Shaw. Maravilhoso o diálogo entre Jones e Richardson e o solo de Burrell é simplesmente primoroso. É a única faixa sem a presença de Cleveland e encerra o disco de maneira mais que gratificante, com sua atmosfera dançável e alegre. Pena que além deste, Richardson somente tenha lançado, em seu próprio nome, mais três álbuns: "Roamin' With Richardson", de 1959, pela Prestige, "Going To The Movies", de 1962, pela United Artists e "Groove Merchant", de 1967, pela Verve.

Richardson também foi um dos fundadores e principais integrantes da Thad Jones-Mel Lewis Orchestra, entre 1965 e 1970, onde tocava flauta, sax alto, tenor e soprano. Sua amizade e lealdade para com Jones se estenderia para além da morte deste, em 1986. No final dos anos 80, ele organizou diversos concertos e tributos dedicados à música de Thad, até mesmo para arrecadar fundos para a família do falecido músico, que na época passava por dificuldades financeiras.

Em 1971 voltou para a Califórnia, trabalhando com o velho amigo Quincy Jones em projetos para o cinema e a televisão. A música brasileira não era estranha a Richardson, que participou de sessões com o maestro Tom Jobim, com o pianista Sérgio Mendes e com a cantora Astrud Gilberto, além de ter gravado com o maestro Moacir Santos e com Hermeto Paschoal, em seu álbum “Yogurt”, de 1972. Também participou de álbuns de grandes nomes da música pop, como Steely Dan, The Four Tops, Bee Gees, Mama Cass Elliot, Neil Diamond, Earth, Wind And Fire, Harry Belafonte e outros.

Em meados dos anos 80, retornou a Nova Iorque, onde tocou regularmente com Art Farmer, Clifford Jordan e Slide Hampton, além de ter liderado seus próprios conjuntos. Estima-se que tenha participado de inacreditáveis 4.000 gravações ao longo da carreira, tornando-se, certamente, um dos músicos mais prolíficos de todos os tempos. Além disso, Richardson também era compositor e arranjador e, nos últimos anos, também passou a cantar.

Faleceu no dia 23 de junho de 2000, em Englewood, Nova Jérsei, em decorrência de um ataque cardíaco. Sua grandeza e seu espírito solidário não se extinguiram nem mesmo com a morte. Atendendo a um pedido seu, a família requereu que quaisquer donativos feitos à sua memória fossem encaminhados à Dizzy Gillespie Foundation, dedicada a descobrir e apoiar jovens talentos musicais.

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