Amigos do jazz + bossa

domingo, 17 de janeiro de 2010

A COR DO POEMA SEM SOMBRA


Poema é desesperança,

Cerimônia a cingir destinos,

Em cântico, as almas fenecem

Sob o ocidente de seus desatinos


Vernáculo, inconstância par

Que brota-me em minha mente

Combinação de palavras gris

Consoante, vogal latente


Comedimento e volúpia, sempre

Pátria de olhos que se traem

Poemas são rastros, rabiscos

Abismo de amores que caem


Na construção de física tesa,

Aborda-me intrínseca a pausa,

Obstáculo de trovador

No inteiro que o tema causa


Aparo e exalto o prumo,

Da mágica lépida e casta,

Ora léxica desnecessária,

Ora lívida e livre madrasta,


Abordo o poema pleno,

Tisnados letra e sermão

Ironia que espanca o medo,

Avesso, trafega-me o chão


No óbito sujo de cores,

A tinta soergue-se, impávida

Composição de quase soneto,

Liberdade, clausura ávida


De fatos, suplícios muitos,

De triviais ressentimentos,

O poeta constrói sua morada

E encerra-se consigo dentro


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Trompetista, arranjador, educador musical e compositor, Ted Curson nasceu no dia 03 de junho de 1935, na cidade de Filadélfia. Seu interesse pela música surgiu ainda na infância e o primeiro instrumento, um trompete usado, foi ganho aos dez anos. Pouco depois, formaria, com alguns amigos, seu primeiro grupo, chamado “The Bebop Trio”. Estudou na Mastbaum High School, onde recebeu as primeiras lições de música e integrou uma orquestra onde tocavam os talentosos Al Heath, Bobby Timmons e Jimmy Garrison. Posteriormente, continuou os estudos musicais no Granoff Musical Conservatory e aos 16 anos já tocava profissionalmente na orquestra de Charlie Ventura.


Em 1956, atendendo a uma recomendação de Miles Davis, mudou-se para Nova Iorque, onde trabalhou, entre outros, com Red Garland, Eric Dolphy, Mal Waldron, Duke Jordan, Philly Joe Jones, Max Roach, John Coltrane, Archie Shepp e Gil Evans. Sua associação mais memorável foi com o contrabaixista Charles Mingus, entre 1959 e 1960, tendo participado de álbuns como “Charles Mingus Presents Charles Mingus” e “Mingus At Antibes”.


De 1960 a 1965, co-liderou um quinteto com o saxofonista Bill Barron, cujo trabalho recebeu muitos elogios da crítica especializada. Também montou os próprios combos e lançou álbuns por selos como Prestige, Fontana, Atlantic, Evidence, Arista e Chiaroscuro. Sua composição mais conhecida, “Tears For Dolphy”, foi usada na trilha sonora do filme Teorema, do diretor italiano Pier Paolo Pasolini.


Como tantos outros músicos norte-americanos, Ted se mudou para a Europa no final dos anos 60, em busca de melhores condições de trabalho. Estabeleceu-se em Copenhagen, participou de inúmeros festivais e lançou alguns álbuns por selos europeus, como o Fifty Records. Retornou aos Estados Unidos em 1976 e, durante a década de 80, comandava animadas jam sessions no clube Blue Note.


Dono de uma musicalidade incomum, Curson transita com extrema facilidade entre os estilos mais tradicionais, como o bebop e o hard bop, e as escolas ligadas ao jazz de vanguarda. Suas maiores influências são Fats Navarro e Clifford Brown. Desde o final da década de 68, o trompetista se apresenta no Pori Jazz Festival, na Finlândia, e nos últimos anos tem sido seu convidado de honra. Também é educador musical e membro do Spirit of Life Ensemble, coletivo musical baseado em Nova Jérsei e dedicado ao estudo do jaz, bem como à sua integração com a música africana e brasileira. Curson se mantém ativo até hoje e reside atualmente na cidade de Montclair, Nova Jérsei.


"Ted Curson Plays Fire Down Below", gravado para a Prestige, é um ótimo exemplo de suas qualidades. Ao lado de Curson estão Gildo Mahones (p), George Tucker (b) e Roy Haynes (d) e Montego Joe (cg). Curson possui, além da rigorosa formação musical, um conhecimento enciclopédico da história e das escolas do jazz, com trabalhos que mesclam a contagiante energia do dixieland com a complexidade do free. Fazendo jus à versatilidade do líder, a faixa-título, que também abre o disco, é um calipso, executado com muita malemolência e energia.


A balada “The Very Young” abre espaço para que Curson exiba um lirismo inconteste, com destaque para a envolvente atmosfera criada por Mahones e Tucker. A atuação de Mahones também é notável na bela versão de “Baby Has Gone Bye Bye”. “Show Me”, da dupla Lerner-Loewe, transita pela valsa e pela música flamenca, com um admirável trabalho do líder. Uma versão cativante “Falling In Love With Love”, onde aparece com muito brilho a percussão de Montego, e “Only Forever”, complementam o set.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

27 CHORUSES. E A ORQUESTRA DE DUKE ELLINGTON ESTAVA SALVA!

Chorus é o “termo latino, mas oriundo do grego khorus, que significa o coro ou o refrão, ou seja, o verso musical de uma composição ou ainda o estribilho. Tocar um chorus é tocar o verso do tema da composição. Improvisar um chorus é criar um verso musical diferente do original mantendo, contudo, a mesma base harmônica e o mesmo número de compassos daquele verso original. O plural é choruses”.


Costuma-se dizer no Jazz “que tal músico improvisou um certo número de choruses de um tema, quase como uma medida da capacidade de improviso, de criatividade desse músico. Uma das mais famosas apresentações refere-se aos 27 choruses improvisados pelo saxofonista tenor Paul Gonsalves, na orquestra de Duke Ellington, ao atuar no Newport Festival de 1956, no tema “Diminuendo And Crescendo In Blue”, praticamente salvando a apresentação da banda que estava, até aquele momento, meio morna, sem entusiasmo por parte do público”.


Após o início do tema, “uma moça loura levanta e se põe a dançar freneticamente. Paul Gonsalves percebeu e vai então incrementando seus choruses, iniciando uma grande empatia entre o saxofonista e a “dançarina” e que pouco a pouco vai contaminando todo o público, contando ainda com a ajuda do magnífico swing sustentado pela sessão rítmica, notadamente pelo baterista Sam Woodyard”.


A catarse e a empolgação do público foram tamanhas, “a ponto de Ellington começar a se preocupar e a gritar para Paul terminar aquilo, porque já estava indo longe demais, ou seja, a coisa estava muito “hot” e poderia incendiar. Ao terminar o solo de Paul, a banda ataca e o público, já beirando a histeria, aplaude delirantemente. Daí em diante, a banda motivada e o público entusiasmado produzem excepcionais momentos de Jazz, preservados pela Columbia e remasterizados em 2 CD’s”.


O nome do disco é “Ellington Live At Newport 1956” e é, até hoje, o maior sucesso comercial da carreira do band leader. As palavras acima são do pesquisador e jazzófilo Mário Jorge Jaques (Glossário do Jazz, p. 110/111) e dão bem a medida do impacto provocado por Gonsalves naquele histórico 07 de julho de 1956. São 14min20s de pura magia musical, de uma extasiante energia que mesmo hoje, mais de 50 anos, ainda emociona o ouvinte. A apoteótica atuação da orquestra de Ellington em “Diminuendo And Crescendo In Blue” é, sem dúvida, um dos mais grandiosos e emblemáticos momentos de toda a história do jazz e o solo de Gonsalves é o ponto alto dessa espetacular performance.


O saxofonista nasceu no dia 12 de julho de 1920, em Brockton, uma cidade próxima a Boston, Massachussets. Algum tempo depois, a família, de ascendência cabo-verdiana, se mudaria para Pawrtucket, em Rhode Island e, novamente, retornaria a Massachusetts, desta feita para a cidade de New Bedford.


Desde muito jovem, o contato de Paul com a música foi intenso. Ainda na infância, interessou-se pela guitarra, na qual tocava canções portuguesas tradicionais. Na adolescência, passou a tocar saxofone e no final da década de 30, fez as primeiras aparições como profissional, na orquestra do pianista Sabby Lewis, baseada em Boston.


Serviu ao exército na primeira metade dos anos 40, quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Ao retornar à vida civil, em 1946, retornou à orquestra de Sabby Lewis, saindo no ano seguinte para se integrar à orquestra de Count Basie. Ali a sua reputação começou a crescer no meio jazzístico, graças à sua sonoridade toda particular, nebulosa, com ecos de Lester Young.


Gonsalves ficou com Basie até 1949, quando deixou a orquestra para se juntar à de Dizzy Gillespie. Ali, travou seus primeiros contatos com o revolucionário bebop e adicionou algumas pitadas deste ao seu fraseado, por conta do intenso convívio com alguns dos mais destacados músicos do estilo, como o próprio Dizzy, Milt Jackson e Al McKibbon.


No ano seguinte, a união que iria durar pelos próximos 24 anos: foi convidado para substituir Ben Webster na orquestra de Duke Ellington e de lá jamais saiu, exceto por uma breve temporada, em 1953, quando cerrou fileiras na orquestra de Tommy Dorsey. Desde o início, Paul se tornou um dos mais destacados solistas da orquestra de Duke, com participações marcantes em diversos álbuns da banda. Além disso, era extremamente carismático nas apresentações ao vivo – ele chegava a descer do palco para tocar no meio da platéia estarrecida.


Jack Tracy, crítico musical e membro do Los Angeles Jazz Institute, conta uma história bastante reveladora do quanto Duke Ellington zelava por seus músicos e lhes preservava a integridade, inclusive moral. Durante um concerto, em 1956, um Gonsalves, aparentemente alcoolizado, simplesmente desabou no chão, para perplexidade a audiência e dos companheiros da orquestra. Ajudado pelos colegas, ele voltou a sentar na cadeira, mas quase não tocou.


Na noite seguinte, já recuperado, Paul participou normalmente da apresentação e Jack, após o espetáculo, aproveitou um momento em que o líder estava sozinho e perguntou a Ellington: “Duke, como líder você não ficou embaraçado quando Paul desmaiou no palco, bem em frente à platéia lotada?”.


O fleumático Duke deu um pequeno sorriso e disse: “Bem Jack, muitas pessoas não sabem que, quando Paul estava a serviço de seu país, lutando na Segunda Guerra Mundial, ele esteve na Índia, onde, infelizmente, contraiu uma rara doença tropical que, ocasionalmente, o faz adormecer. Por que eu deveria estar envergonhado quando alguém, que deu tanto para todos nós, padece com a indignidade decorrente da exposição à guerra?”.


De fato, embora Gonsalves abusasse do álcool e das drogas (heroína e anfetaminas), existem boas chances de que ele sofresse também de uma espécie de narcolepsia – há registros de desmaios dessa natureza em outras oportunidades, inclusive uma presenciada pelo então jovem baterista dinamarquês Alex Riel, em meados dos anos 60, durante uma apresentação no clube Montmartre, em Copenhagen.


Apesar de todos os problemas pessoais, Paul era um músico bastante requisitado, tendo acompanhado grandes nomes do jazz, como John Lewis, Dinah Washington, Quincy Jones, Stan Getz, Ray Charles, Stan Getz, Jimmy Hamilton, Ella Fitzgerald e muitos outros.


Sua carreira como líder é altamente recomendável, e inclui discos na companhia de Sonny Stitt, Johnny Hodges, Roy Eldrige e Earl Hines, para selos como RCA Victor, Argo, Impulse, Black Lion e Fantasy. Um dos seus dos mais belos álbuns é, certamente, “Gettin’ Together!”, gravado para o selo Jazzland, no dia 20 de dezembro de 1960, com produção de Orrin Keepnews.


A seu lado, jovens músicos, como o pianista Wynton Kelly, o baixista Sam Jones, o baterista Jimmy Cobb e o cornetista Nat Adderley (que atua apenas em cinco das oito faixas). O sopro do líder é altamente envolvente, mas conserva às vezes um certo distanciamento, uma postura cool em relação ao que está tocando. A primeira faixa é “Yesterdays”, clássico de Jerome Kern e Otto Harbach, executada com um swing delicado e reflexivo, dá bem a dimensão dessa característica de Gonsalves.


“J. And B. Blues” é um bebop robusto e abrasador, ao estilo Parker, sendo que nesta faixa – e em diversos outros momentos do álbum – o tenor de Gonsalves soa como se fosse um alto. Incandescente também é a performance de Adderley, cujo solo esbanja volúpia e criatividade. Kelly, com seu ataque rápido e bastante calcado no blues, é outro destaque.


Na espectral “I Surrender Dear”, de Harry Barris e Gordon Clifford, Paul demonstra a sua antológica capacidade de tocar baladas, criando um clima soturno, ideal para quem deseja encharcar a alma de whisky e com ele afogar todas as mágoas.


Um diálogo alucinantemente rápido entre o líder e o acrobático Adderley é o que nos reserva “Hard Groove”, outra incursão pelos intricados meandros do bebop. Herdeiro de Bud Powell, Kelly dignifica a sessão, com seu solo dardejante. Grande performance de Cobb, sempre bastante vigoroso.


Blues verdadeiramente impecável, a releitura de “Low Gravy”, do pai fundador Jelly Roll Morton, é uma excepcional manifestação criativa do quinteto, com momentos brilhantes de cada um dos seus integrantes. Em seus quase oito minutos de puro virtuosismo, nos quais o baixo de Jones chega a hipnotizar o ouvinte, o tempo parece parar. Aqui, apenas a música tem importância e todo o resto pode esperar.


Mais uma balada feita para machucar os corações dos incautos, “I Cover The Waterfront” comete a proeza de ombrear-se à versão imortalizada por Lady Day, tida por muitos como definitiva. O saxofone de Gonsalves, com suas notas alongadas e pungentes, lembra o lirismo viril de um Stan Getz, seu admirador confesso. Kelly é fundamental para garantir a atmosfera bluesy e desolador da composição de Edward Heyman e Johnny Green.


A eloqüência de Gonsalves nos andamentos médios sempre foi louvada por seus pares – especialmente por seu amigo e companheiro de orquestra Johnny Hodges. “Gettin’ Together”, faixa que dá nome ao disco, é uma excelente oportunidade para comprovar quão acertada é a opinião de Hodges. Nenhuma nota, nenhum acorde é desperdiçado ou lançado a esmo – a lógica das harmonias que transbordam do saxofone é cristalina e quase palpável.


Para encerrar a sessão, uma interpretação demolidora de “Walkin’”, cavalo de batalha de Miles Davis que ganha uma roupagem vibrante, digna das melhores jam sessions. A sintaxe bop, forjada nos tempos da orquestra de Gillespie, ecoa com veemência e a vitalidade que Gonsalves imprime em seus solos guarda paralelo com a sua atuação em Newport. O inspiradíssimo Kelly, com a sua técnica invejável, revolve todas as possibilidades harmônicas do tema e o incansável Cobb, descarrega sobre a pobre bateria algumas toneladas de adrenalina. O patrão Ellington certamente aprovaria o resultado final desse disco estupendo.


Falando em Ellington, o pianista tinha por Gonsalves um sentimento paternal, aliado a uma enorme dívida de gratidão pela arrebatadora performance de 1956. Muitas vezes, após ser perguntado sobre fatos relacionados ao seu início de carreira, Duke emendava com o seu bom-humor típico: “O quê? Isso não é da minha época. Como você sabe, eu nasci em Newport”. E a ligação entre esses dois homens perdurou além da própria vida de ambos.


O saxofonista faleceu no dia 15 de maio de 1974, em decorrência de um ataque cardíaco (há quem afirme que a causa mortis foi uma overdose), em Londres, e seu corpo foi levado para a mesma agência funerária de Nova Iorque em que repousava Duke, morto no dia 24 de maio (temendo agravar seu já delicado estado de saúde, Mercer Ellington, filho do pianista, não lhe contou sobre a morte de Gonsalves). Ao lado deles, estava também o esquife em que jazia o trombonista Tyree Glenn, outro ex-integrante da orquestra de Ellington, que faleceu no dia 18 daquele maio sombrio.


Reza a lenda que durante a noite, enquanto permaneciam no local, aguardando o momento de serem enterrados, os três entoavam os versos de “How Could You Do A Thing Like That To Me?” (composição de Glenn e que significa “Como você pôde fazer uma coisa dessas comigo?”). Noites agitadas aquelas! Mas em se tratando de Ellington e de Gonsalves, tudo é possível.

domingo, 10 de janeiro de 2010

NOME: ART BLAKEY. PROFISSÃO: REITOR DA UNIVERSIDADE DO JAZZ

O professor entra na sala de aula, ajeita os óculos sobre o nariz e olha ao redor. Dá um sorriso discreto para si mesmo, abre a lista de freqüência e começa a chamada:


- Horace Silver? Presente!


- Clifford Brown? Presente!


- Lou Donaldson? Presente!


- Curley Russell? Presente!


- Kenny Dorham? Presente!


- Hank Mobley? Presente!


- Doug Watkins? Presente!


- Jackie McLean? Presente!


- John Gilmore? Presente!


- Benny Golson? Presente!


- Barney Willen? Presente!


- Johnny Griffin? Presente!


- Wayne Shorter? Presente!


- Donald Byrd? Presente!


- Lee Morgan? Presente!


- Freddie Hubbard? Presente!


- Bill Hardman? Presente!


- Chuck Maggione? Presente!


- Wynton Marsalis? Presente!


- Bobby Timmons? Presente!


- Cedar Walton? Presente!


- Lucky Thompson? Presente!


- John Hicks? Presente!


- Keith Jarrett? Presente!


- Valery Ponomarev? Presente!


- Curtis Fuller? Presente!


- Reggie Workman? Presente!


- James Williams? Presente!


- Wallace Rooney? Presente!


- Terence Blanchard? Presente!


- Mulgrew Miller? Presente!


- Peter Washington? Presente!


- Lonnie Plaxico? Presente!


- George Cables? Presente!


Bom, a aula já poderia começar e o seu título bem que poderia ser: “como montar a maior usina de talentos da história do jazz e permanecer na crista da onda por quase 35 anos?”. Nenhum outro ser humano poderia responder a essa pergunta com mais propriedade que o professor Arthur Blakey. Não, não... não apenas professor! Se há um título que Mr. Blakey merece é o de reitor. Reitor da Universidade do Jazz. Conheçamos um pouco de sua trajetória!


A vida de Art Blakey tinha tudo para dar errado. O pai abandonou a mãe, grávida, poucos momentos depois do casamento (logo após a cerimônia, o cafajeste saiu para comprar charutos e nunca mais deu as caras). Como se não bastasse, a mãe morreu quando o garoto, nascido no dia 11 de outubro de 1919, em Pittsburgh, tinha apenas cinco meses. O pequeno Art foi, então, criado por uma amiga da família, em cuja casa havia um velho piano.


O primeiro contato com a música foi, de fato, com o piano, que ele aprendeu tocar na igreja adventista freqüentada pela família adotiva e que praticava em casa. Com apenas 11 anos, foi trabalhar em uma mina de carvão, a fim de ajudar nas despesas do lar. Aos 14 anos, casou-se e aos 15 já tinha um filho para criar (ao todo, seriam oito rebentos). Embora a rotina de trabalho fosse exaustiva, o jovem Art, não abandonou a escola e nem o piano.


No início da década de 30, com a dificuldade decorrente da Crise de 1929, Art se viu obrigado a arrumar mais um emprego, para dar conta das despesas domésticas. Juntou-se à orquestra que animava as noites de clubes como o Ritz e o Democratic, mantendo, ao mesmo tempo, a extenuante atividade nas minas de carvão. Essa rotina perdurou por cerca de dois anos, até que os proprietários do Democratic Club resolveram montar ali um musical que haviam visto em Nova Iorque.


Trouxeram as partituras e distribuíram entre os músicos. Blakey, que não sabia ler partitura, estava em apuros. Pediu um tempo para aprender, de ouvido, as músicas do score mas, para seu azar (e para a sorte do jazz, como veremos mais adiante) havia um outro pianista de Pittsburgh disputando o mesmo posto e que, embora também não tivesse conhecimento de teoria musical, sabia de cor todas as músicas do show. Seu nome: Erroll Garner que, é claro, ficou com o emprego.


Indignado, Blakey pediu uma chance aos patrões, alegando que tinha família para sustentar e que havia passado um bom tempo na orquestra. Do alto de sua sensibilidade, um dos donos da boate – um gângster conhecido no submundo local, que andava o tempo inteiro com um vistoso revólver na cintura – lhe disse: “Quer ficar na banda? Então assuma a bateria”. Sem muita alternativa, Blakey obedeceu e, até o resto da vida, a bateria foi a sua companheira mais constante. A bordo dela, percorreu o país acompanhando a pianista Mary Lou Williams.


Após tantas peripécias, Art se mudou para Nova Iorque no início dos anos 40. O primeiro emprego foi na orquestra do lendário Fletcher Henderson. Com ela, durante uma excursão pelo sul dos Estados Unidos, Blakey pôde conhecer a face mais cruel e estúpida do racismo: após uma discussão banal com um policial, na Geórgia, o baterista foi preso e covardemente espancado. A violência foi tanta que ele precisou ser submetido a uma cirurgia, para implantação de uma placa de metal no crânio.


Observava e aprendia com os grandes bateristas das orquestras de swing, especialmente Chick Webb e Big Sid Catlett, vindo a se tornar amigo de ambos. Em 1944 já, na orquestra de Billy Eckstine, Blakey conheceu Charlie Parker e Dizzy Gillespie, que também pontuavam ali. O contato com aqueles jovens e revolucionários músicos foi fundamental para que Blakey começasse a modernizar a sua forma de tocar, tornando-se, em pouco tempo, um dos três bateristas mais importantes do bebop, ao lado de Kenny Clarke e Max Roach.


Também com a orquestra de Eckstine, Blakey descobriu ser possível confrontar o racismo e não se submeter às suas ignominiosas regras. Parker, Dizzy e companhia possuíam uma atitude arrogante e insubmissa, completamente diferente dos músicos das gerações anteriores. O bebop nada mais era que uma manifestação musical dessa atitude.


Em 1947, já completamente à vontade com o novo idioma proposto por Bird e Dizzy, Blakey começou a tocar com o arredio Thelonious Monk, firmando uma amizade que duraria pelo resto de suas vidas. Nesse mesmo ano, fez a sua primeira gravação como líder, à frente de uma orquestra que contava com Fats Navarro e Miles Davis. No final da década de 40, passou uma longa temporada na África, onde se encantou com a riqueza da sonoridade local e travou contato com a filosofia e as religiões orientais. Voltou de lá convertido ao islamismo e adotou o nome Abdullah Ibn Buhaina.


Nos anos 50, Blakey já era um dos mais reputados bateristas de Nova Iorque, tocando regularmente com Miles Davis, Clifford Brown, Buddy DeFranco (com quem permaneceu entre 1951 e 1953), Zoot Sims, Milt Jackson, Stan Getz, J. J. Johnson, Bud Powell, Paul Bley, Sonny Rollins, Cannonball Adderley e muitos mais.


Participou ativamente da criação do hard bop, uma releitura harmonicamente menos complexa, mas extremamente energética, do bebop. O novo estilo, que temperava as harmonias do bebop com fartas doses do velho swing, de blues e de gospel, deu as cartas naquela década e ganhou adeptos como John Coltrane, Miles Davis, Sonny Rollins e outros luminares.


Em 1954 formou o “Art Blakey Quintet” e em 1955, co-liderou o “Horace Silver And The Jazz Messengers”. No primeiro combo, tocavam Lou Donaldson, Clifford Brown e Horace Silver. No segundo, além dos líderes, atuavam o trompetista Kenny Dorham e o saxofonista Hank Mobley. Ambas as embrionárias experiências foram decisivas para a efetiva criação do futuro Art Blakey And Jazz Messengers, em 1956, e as duas formações deixaram registros antológicos: “A Night At Birdland, Vols. 1 & 2” (1954) e “At The Café Bohemia, Vols. 1 & 2” (1955), ambos lançados pela Blue Note.


A partir de 1956, Blakey conduziu os Messengers (cujo primeiro álbum, denominado “The Jazz Messengers” foi lançado pela Columbia naquele ano e que viria a ser um dos combos mais populares e bem sucedidos da história do jazz) pelos 35 anos seguintes. “Moanin’”, composta por Bobby Timmons e lançada em 1958, no álbum homônimo, é até hoje um dos temas mais conhecidos da história do jazz


O incansável baterista ainda encontrava tempo para atuar como um requisitado acompanhante e manter a carreira solo, onde se destacam álbuns como “A Jazz Message” (que apesar do nome nada tem a ver com a banda – aqui Blakey está secundado por Sonny Stitt, Art Davis e McCoy Tyner) e “Holiday For Skins” (um tour-de-force percussivo, com a participação dos bateristas Philly Joe Jones e Art Taylor e de percussionistas como Sabu Martinez e Ray Barretto).


Uma das formações mais interessantes e duradouras dos Messengers incluía, além do líder, o saxofonista Wayne Shorter, o trompetista Freddie Hubbard, o pianista Cedar Walton, o baixista Reggie Workman e o trombonista Curtis Fuller. E foi esse sexteto que, no dia 16 de junho de 1963, anunciado pela estridente voz de Pee Wee Marquette, subiu ao palco do Birdland para um show memorável.


Para a felicidade dos jazzófilos, o concerto foi gravado e lançado em disco pela Riverside, com produção de Orrin Keepnews. E quem esteve no clube naquela noite certamente jamais esqueceu a performance do grupo, que abriu a sessão com “One By One”, belíssimo tema de Shorter, que então se firmava como uma espécie de co-lider e principal compositor dos Messengers. Trata-se de um blues com pitadas de funk, com uma seqüência quase psicodélica de solos do autor, de Hubbard e de Fuller.


“Ugetsu”, palavra japonesa que significa fantasia, é uma verdadeira fábula musical de autoria de Walton, com uma deliciosa combinação de melodia assobiável com solos incandescentes, especialmente o de Hubbard e o de Shorter. Blakey não poupa as baquetas e cabe a Workman, o ancoradouro, segurar o tsunami sonoro que emana de dos outros cinco instrumentos. Ao longo de toda a execução, que faz uma discreta citação a “It Never Entered My Mind”, pode-se ouvir a manifestação entusiasmada da platéia, ao final de cada solo.


Fuller contribui com a tórrida “Time Off”, epítome do hard bop nervoso, na qual Hubbard e Blakey, explosivo como nunca, roubam a cena. Outro tema vigoroso, “Ping-Pong”, é uma das quatro composições de Shorter presentes no álbum e possui um swing oblíquo, repleto de modulações, com riffs que se estendem ao infinito, com evocações à música latina. A fabulosa atuação do líder, impetuosa e dinâmica, merece ser destacada.


Não poderia faltar um standard nesta auspiciosa apresentação e a escolhida foi a sofisticada “I Didn't Know What Time It Was”, de Richard Rodgers e Lorenz Hart. Belas intervenções de Walton, cuja introdução é soberba, e de Blakey, tocando com chamosa discrição. Mas o destaque absoluto é o saxofone de Shorter, indomável e harmonicamente imprevisível, mesmo em uma balada intimista como esta.


“On The Ginza” é outra referência ao Japão e homenageia o bairro de Tókio famoso por suas lojas e shoppings de luxo. É mais um tema de Shorter, bastante complexo e desafiador, na medida exata para os seus solos inebriantes. Complexidade que também está presente nas exuberantes performances de Walton, Hubbard e Fuller.


A assinatura de Shorter também está presente na hipnótica “Eva”, uma balada de contornos impressionistas e altamente reflexiva. O clima volta a esquentar com “The High Priest”, outro petardo de Fuller, com direito a metais em uníssono, solos cativantes e uma devastadora atuação do autor do tema. Blakey destroça a bateria, com sensacionais viradas e um trabalho com o bumbo que honra o apelido de “Thunder” (Trovão).


Encerrando o disco, “The Theme” é uma pequena vinheta de autoria não creditada, com pouco mais de um minuto, na qual os músicos se esbaldam, após uma exaustiva, mas muito proveitosa, noite de trabalho. Um disco memorável, à altura dos melhores que o combo produziu para a Blue Note (essa mesma formação é responsável por pérolas preciosíssimas como “Free For All” e “Mosaic”, no qual Workman dá lugar a Jymmie Merrit) e que dignifica qualquer discoteca.


Os Messengers foram uma das primeiras bandas de jazz a excursionar no Japão, onde foram recebidos como pop stars. Blakey, incansável, sempre desempenhou com muita galhardia o papel de embaixador do jazz. Apesar do seu intenso envolvimento com a heroína, que lhe trouxe sérios problemas nas décadas de 50 e 60, conseguiu manter a carreira nos trilhos e, até o fim da vida, foi um dos mais ardorosos defensores da causa do jazz.


Durante a edição de 1964 do Festival de Newport, Blakey protagonizou, ao lado de Max Roach, Elvin Jones e Buddy Rich um eletrizante duelo de bateristas. Em 1971, ele excursionou com os Giants of Jazz, grupo de all-stars que incluía Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Kai Winding, Sonny Stitt e Al McKibbon. Em 1976, o baterista foi indicado para o Newport Jazz Festival Hall of Fame. No final da década de 1970, Art recebeu em seu grupo um trompetista sério e com jeitão de intelectual, filho de um conhecido pianista de New Orleans. Seu nome: Wynton Marsalis, o homem que resgatou do limbo a tradição jazzística, então sufocada por toneladas de sintetizadores, batas indianas e baixos elétricos.


Em 1981 foi a vez de Blakey ser indicado para o Down Beat Jazz Hall of Fame. As homenagens e honrarias foram uma constante na década de 80, incluindo-se o prêmio Grammy de melhor performance instrumental de jazz, para o álbum “New York Scenes”, em 1984, e o título de Doutor Honoris Causae concedido pelo Berklee College of Music, em 1987.


Os anos de estrada, contudo, começaram a cobrar o seu preço. Blakey foi perdendo, progressivamente, a audição – embora continuasse a tocar praticamente até o fim da vida. No dia 06 de outubro de 1990, ele finalmente perdeu a luta contra o câncer de pulmão, que travava já há alguns anos. Mas as homenagens não cessariam com a morte: em 2005 ele receberia, postumamente, o Grammy Award For Lifetime Achievement.


Os músicos relacionados no início desta resenha possuem duas coisas em comum: todos foram agraciados com um enorme talento musical (que em alguns deles chega à genialidade) e todos passaram pelos Art Blakey’s Jazz Messengers (ou por seus embriões Art Blakey Quintet e Horace Silver’s Jazz Messengers). Nenhum deles deixou de reconhecer o quanto Blakey foi importante em suas vidas e em suas carreiras.


O baterista, uma das mais importantes e influentes figuras da história do jazz, pode se orgulhar da extensa linhagem de grandes músicos que acolheu em seu grupo e de talentos que ajudou a descobrir. Se o jazz é uma grande escola, os Messengers só podem ser considerados uma universidade e Blakey, o seu animadíssimo reitor. E, se você quiser continuar a chamada, a lista é quase infinita. Duvida?


- Jymmie Merrit? Presente!


- Sam Dockery? Presente!


- Reggie Workman? Presente!


- Joanne Brackeen? Presente!


- Bobby Watson? Presente!


- Bill Pierce? Presente!


- David Schnitter? Presente!


- Charles Fambrough? Presente!


- Dennis Irwin? Presente!


- Brandford Marsalis? Presente!


- Donald Harrison? Presente!


- Kenny Garrett? Presente!


- Bill Hardman? Presente...


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O PROFESSOR


Se há uma profissão nobre, dentre tantas que existem, ela é, certamente, a de professor. É por meio dela que a humanidade transmite o conhecimento às gerações vindouras, conservando-o como o nosso bem imaterial mais precioso. No jazz tampouco é diferente. Embora alguns dos maiores músicos do estilo tenham sido autodidatas, nenhum deles escapou da necessidade de algum tipo de estudo ou prática – mesmo que não tenha sido uma educação musical formal, mas apenas “dicas” ou “toques” com músicos mais experientes ou habilidosos.

Por outro lado, não é pequeno o número de jazzistas que passaram por escolas ou conservatórios e receberam uma esmerada e sólida formação musical. Muitos deles foram afortunados e puderam estudar com o lendário Barry Harris. Pianista, compositor, arranjador e, sobretudo, educador musical, Harris tem sido fundamental na formação de centenas de jazzistas e por suas mãos passaram muitas gerações de jovens músicos.

Quer um exemplo? Charles McPherson, Paul Chambers, Lonnie Hillyer, Marco Marzola, Joe Henderson, Danny Grissett, Rodney Kendrick e Wendell Harrison, entre incontáveis outros, foram seus alunos. Além disso, esse pianista fabuloso acompanhou ou foi acompanhado por Dizzy Gillespie, Miles Davis, Louis Hayes, Thad Jones, Al Cohn, Paul Chambers, Benny Golson, Dexter Gordon, Sonny Criss, Ron Carter, Cannonball Adderley, Lee Morgan, Elvin Jones, Yusef Lateef, Hank Mobley, Coleman Hawkins, Max Roach, Carmell Jones, James Moody, Kenny Dorham, Sam Jones, Lester Young, George Mraz, Don Cherry, Pepper Adams e uma infinidade outros músicos.

Barry Doyle Harris nasceu no dia 15 de dezembro de 1929, em Detroit, no seio de uma família humilde, mas altamente musical. Aos inacreditáveis quatro anos, recebia da mãe, pianista amadora, as primeiras lições de música, aperfeiçoando o aprendizado ainda durante a tenra infância – primeiramente com o pastor da igreja que a família freqüentava, Rev. Neptune Holloway, e, em seguida, na Northeastern High School. Nesta escola, foi colega de classe e se tornou amigo de Berry Gordy, um talentoso pianista que faria história como fundador da gravadora Motown.

O amor pelo jazz explodiu nos primórdios da década de 40, quando assistiu a um concerto de Charlie Parker. Para o jovem Harris, nenhum outro estilo musical seria capaz de lhe emocionar quanto o jazz – seu destino estava selado. A partir daí, a audição, por horas a fio, dos discos de Art Tatum, Bud Powell, Al Haig e, sobretudo, Thelonious Monk (de quem seria um grande amigo futuramente) e Tadd Dameron, tornou-se parte importante de sua formação musical.

Profundamente envolvido com a cena musical da Cidade dos Motores, Harris logo cedo partiu para a extenuante rotina de gigs e concertos em clubes e casas noturnas. Ao seu lado, diversos e talentosos músicos locais abrilhantavam as noites de Detroit, como Tommy Flanagan, Yusef Lateef, Kenny Burrell, Curtis Fullar, Donald Byrd, Doug Watkins, Pepper Adams e os irmãos Hank, Thad e Elvin Jones. Em 1950, acompanhando o saxofonista Wild Bill Moore, o pianista viveu a sua primeira experiência nos estúdios. O primeiro disco como líder, “Breakin’ It Up”, seria gravado em 1958, para a Argo.

A reputação de Harris espalhou-se para além de Detroit e muitos músicos, quando em turnê pela cidade, iam à sua casa, para participar das concorridas jams que rolavam ali, sob o olhar acolhedor da matriarca da família. Dentre eles John Coltrane, na época integrando o quinteto de Miles Davis, e Cannonball Adderley, com quem Harris viria a trabalhar mais tarde.

Até 1956 ele permaneceu na cidade natal, onde além de exibir o talento em clubes como o Rouge Lounge, o Blue Bird Inn e o Baker’s Keyboard Lounge, também iniciou a carreira de educador. Naquele ano, a convite de Max Roach, que procurava um substituto para o precocemente falecido Richie Powell, mudou-se para Nova Iorque e, embora tenha tido uma boa receptividade, tocando com Lee Konitz e Ben Webster, preferiu retornar para Detroit.

Somente em 1960, quando se uniu por alguns meses ao quinteto de Cannonball Adderley, é que Harris se estabeleceria, agora definitivamente, em Nova Iorque, onde reside e trabalha até hoje. A partir daí, além dos próprio grupos (geralmente trios), o pianista teve associações relativamente duradouras com os combos de Yusef Lateef, Thad Jones e Coleman Hawkins (a quem acompanharia por praticamente toda a segunda metade da década de 60, com a parceria sendo desfeita apenas com a morte de Hawk, em maio de 1969). Também se firmou como um reputado professor, referência em educação musical na Grande Maçã.

Em 1969 gravou, para a Prestige, aquele que muitos consideram a sua obra-prima: “Magnificent”. O respeitado Penguin Guide atribuiu-lhe quatro estrelas, além de conceituá-lo como um imaculado recital. E o disco é, de fato, uma preciosidade de rara beleza. Para acompanhá-lo, Harris convocou o baixista Ron Carter, egresso do grupo de Miles Davis, e Leroy Williams, um baterista experiente que já havia trabalhado com Benny Green, John Gilmore e Gene Ammons.

Gravado em sessão única, no dia 25 de novembro, nos estúdios da RCA (Nova Iorque), o disco teve produção de Don Schlitten. Metade do repertório de oito músicas é de autoria de Harris, que transita com desenvoltura exemplar entre as raízes do bebop e os limites estéticos propostos pelo post-bop. Duas composições de Parker, uma de Coleman Hawkins e um standard completam o álbum.

“Bean And The Boys”, uma rara incursão de Hawk pelos movediços caminhos do bebop, abre o disco, em uma justa homenagem ao velho amigo e parceiro. Williams é um baterista de recursos técnicos soberbos e de extrema vitalidade, cujo solo é bastante energético. O cerebral Carter faz o mais do que eficiente contraponto às surpreendentes harmonias desenhadas por Harris, no esplendor da forma física e da criatividade.

“You Sweet And Fancy Lady” é uma balada insinuante, bluesy e agridoce, na qual cabem tanto as escovinhas quanto as baquetas de Williams ou os delicados arpejos e notas graves e metálicas de Harris, autor do tema. “Rouge”, também saída da ourivesaria do pianista, é uma balada mais ortodoxa, quase sombria. Sua atmosfera, melancolicamente romântica, traz ecos de Duke Ellington e o líder, desta feita, apresenta uma abordagem econômica.

O pai do bebop e influência primeira de Harris está presente na enigmática “Ah-Leu-Cha”, cuja execução, bastante pessoal, traz alguns elementos de Bach. Magistral a performance de Carter, que se mostra um acompanhante intenso e desafiador. Monk, outra influência capital, aparece aqui como o inspirador da quebradiça “Just Open Your Heart”, com seus exatos seis minutos de arrebatadora beleza, em grande parte decorrente do toque fugidio, quase oblíquo, que Harris utiliza. Williams se vale das escovas para imprimir uma textura percussiva bastante sutil, enquanto o solo de Carter é de uma complexidade invulgar.

Blues, soul e o velho boogie-woogie não poderiam faltar no alentado receituário do professor. Lembrando a sua espetacular participação no clássico álbum “The Sidewinder”, de Lee Morgan, Harris injeta uma avassaladora dose de groove em “Sun Dance” – os companheiros de viagem mantêm-se firmes no volante do bólido, que não faria feio no repertório de um Stanley Turrentine ou de um Lou Donaldson.

Uma das mais lindas baladas do cancioneiro americano, imortalizada por Nat King Cole e Ella Fitzgerald, entre outros, “These Foolish Things (Remind Me Of You)” recebe um arranjo notável, ao mesmo tempo sóbrio e comovente. Não se espere aqui a cornucópia de arpejos de um Art Tatum ou Erroll Garner, mas o feeling e a emotividade estão presentes, de maneira elegante e discreta, como, aliás, é a marca registrada de Harris – certamente não poderia ser outro o pianista que, na letra, pilota o “tinkling piano in the next apartment” e que tantas recordações traz ao nostálgico personagem retratado na canção.

Bird volta à cena na musculosa versão de “Dexterity”, cuja execução vigorosa e reverente nos transporta até as esfuziantes noites da Rua 52, com seus clubes enfumaçados e onde os então Young Lions Parker, Powell, Dizzy e Monk assombravam o mundo do jazz com suas harmonias trepidantes. A faixa encerra este álbum, que merece não apenas ser conhecido, mas reverenciado, e que representa, sem dúvida, o ápice criativo de um artista verdadeiramente magnífico.

A partir dos anos 70, Harris foi morar em Weehawken, Nova Jérsei, em uma propriedade da baronesa Pannonica de Koenigswarter, mesmo local em que residiu, até o fim de seus dias, o ídolo e amigo Thelonious Monk. Sobre a capacidade técnica de Monk, aliás, ele dá um contundente depoimento: “Um monte de gente diz que Monk não possui técnica. Posso dizer que eles estão errados sobre essa questão, porque ele realmente a tinha. Eu o vi tocar um monte de vezes e tentei tocar como ele, mas nunca consegui.”.

De 1982 a 1987, esteve à frente do Jazz Cultural Theater, espécie de centro cultural, restaurante, clube de jazz e escola de música, localizado em Manhatan. Muitos jazzistas de peso se apresentaram ou ministraram oficinas ali, como Frank Foster, Jack Wilson, Chris Byars, Charles Davis e Clifford Jarvis (com quem manteve um quarteto durante algum tempo, na década de 80).

Sobre a paixão pela educação musical, suas palavras soam proféticas e certeiras: “Nós temos que cultivar o público, para que a música possa sobreviver. Temos que envolver as pessoas, especialmente as crianças, e fazê-las gostar do jazz. (...) Eu aprendo muito com os meus alunos. Eles ajudam a me manter vivo”. Sua discografia como líder é relativamente esparsa, mas bastante consistente e de um nível impressionantemente alto – por selos como Riverside, Xanadu, Riverside, Milestone, Concord, Candid, Enja e JazzLips – e inclui tributos aos ídolos Thelonious Monk e Tadd Dameron.

Integrou o fabuloso escrete de músicos responsáveis pela trilha sonora do filme “Bird”, dirigido por Clint Eastwood, ao lado de Walter Davis Jr., Charles McPherson, Ron Carter, John Guerin, Ray Brown e Jon Faddis – e graças à tecnologia digital, é o próprio Charlie Parker quem toca o saxofone alto. Também participou do documentário “Thelonious Monk: Straight, No Chaser”, uma produção do incansável Eastwood, sobre a vida e a carreira do Mad Monk.

Os inúmeros prêmios e títulos, como o de Jazz Master, conferido pelo The Afro-American Museum, e o de Doutor Honoris Causae, dado pela Northwestern University, atestam o seu prestígio como músico e educador. Em 2000, Harris teve o seu nome imortalizado no American Jazz Hall of Fame, mantido pelo New Jersey Jazz Society Institute.

Aclamado como um dos últimos puristas do bebop, Harris passou incólume por todas as ondas que sacudiram o jazz nos últimos 50 anos. Sua integridade artística pode ser resumida em uma única frase: “Você precisa gostar de tocar. Era assim que os músicos do passado tocavam e por isso é que sua música é eterna. Eu sinto que toco jazz para divertir o ouvinte e você não consegue fazer isso se não estiver se divertindo também”.

Para a nossa felicidade, continua, aos 80 anos, tocando regularmente em clubes como o Village Vanguard, ao lado do seu mais recente trio, formado pelo baterista Leroy Williams e pelo baixista Ray Drummond. Também se apresenta, com habitualidade, em festivais mundo afora e seus workshops e cursos no Lincoln Square Neighborhood Community Center, em Nova Iorque, são bastante concorridos.


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