Amigos do jazz + bossa

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

SINTAXE PERPLEXA





Donde há de vir esse intrínseco arrefecimento?

Essa exaustão descompassada,

Esse enfado absoluto,

Se calo o poema de métrica claudicante

Ou se o digo a plenos pulmões,

Tanto faz,

Vivendo a angústia desapaixonada de qualquer instante,

Esperando o resultado do conclave inútil,

Saboreando a inquietude imóvel dos tempos oblíquos,

Permaneço aqui,

Exatamente nesse aqui de um quase agora

Onde vagueiam a decrepitude e a caducidade,

Vida que não pulsa,

Paixão que não lateja,

Hábito galvanizado,

História mínima e deserta,

Não,

Não conheci da vida

Sei apenas de entremeios e subterfúgios,

De borrifos e apalpadelas,

Inalo partículas de ar e não as almejadas golfadas de brisa tépida,

Não,

Nunca ouvi o chamado da vida,

Nem o som e nem a melodia que ela produz,

Só vivi as emoções de almoxarifado,

Conferidas e protocoladas,

Só transitei pela cartografia de sentimentos comezinhos,

Nada sei de recôncavos ou falésias, istmos ou cordilheiras,

Nem imagino quando florescem as acácias,

Sequer sei o que são acácias ou cerejeiras,

Mas sei da desesperança e do padecimento,

Reconheço o desabrigo e a indiferença,

Compreendo a instável permanência do quando

O átimo eterno e irresistível,

A sofreguidão ciclotímica da hora anterior,

O meu é um tempo encapsulado

Que não transcorre e nem deixa de se ir


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Mais um excelente músico de Chicago, Jack Wilson nasceu em 03 de agosto de 1936. No início da década de 40, mudou-se com a família para Fort Wayne, onde iniciou os estudos do piano aos 12 anos. Profundamente influenciado por George Shearing, aos 17 anos já tocava profissionalmente na banda de James Moody. Posteriormente, acompanhou durante um bom tempo a cantora Dinah Washington, além de haver tocado com músicos renomados, como Sonny Stitt e Gene Ammons. Formado em música pela Universidade de Indiana, mudou-se para Los Angeles em 1962. Tocou com Gerald Wilson, Roland Kirk, Johnny Griffin, Roy Ayers, Lee Morgan e Jackie McLean, entre outros.


Dentre seus discos, destaca-se o ótimo “The Two Sides Of Jack Wilson”. Gravado em 1964, para a Atlantic, encontra Wilson secundado pelos ótimos Leroy Vinnegar (baixo) e Philly Joe Jones (bateria). O título decorre do fato de que na época do LP, este álbum continha dois lados distintos: um com temas mais acelerados e outro com temas mais lentos. Inclui gemas de Tadd Dameron (“The Scene Is Clean”), Bud Powell (“Glass Enclousure”) e Michel Legrand (“Once Upon A Summertime”), além de duas composições do líder, as ótimas “Kinta” e “Good Time”. Wilson possui um toque refinado e bastante melódico. Vinnegar e Jones, como sempre, são uma atração à parte. “The End Of A Love Affair”, executada com grande sutileza e criatividade, revela que o pianista ouviu bastante Erroll Garner em seus anos de formação. Uma excelente porta de entrada para conhecer um pouco da arte desse talentoso pianista.


Wilson é reconhecido como um dos mais completos acompanhantes que atuaram entre os anos 60 e 90. Apesar de baseado em Los Angeles, não é tão imediatamente associado à West Coast quanto pianistas como Jimmy Rowles ou Carl Perkins, talvez por haver acompanhado muitos vocalistas em sua carreira – além de Dinah Washington, atuou ao lado de Lou Rawls, Sammy Davis Jr., Eartha Kitt, Sarah Vaughan e do trio Lambert, Hendricks & Ross. Possui um toque elegante e bastante refinado, com ecos de Red Garland, outra influência confessa. Faleceu no dia 05 de outubro de 2007.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O SAXOFONE ACADÊMICO DE GERRY MULLIGAN


Fosse um pintor e Gerry Mulligan estaria mais para o academicismo exuberante de um Rembrandt que para o vanguardismo abstracionista de um Jackson Pollock. Como o autor de “A lição de Anatomia do Dr. Tulp”, também Mulligan viveu uma sucessão de revezes e teve, por diversas ocasiões, o próprio talento questionado. Mas felizmente, em um universo marcado por injustiças históricas, ele pôde desfrutar em vida de prestígio e popularidade à altura de sua importância para o jazz.

Mulligan não foi apenas um dos fundadores do cool jazz e um dos mais destacados nomes do West Coast. Foi também um compositor personalíssimo (são dele, por exemplo, “Jeru” e “Line For Lyons”), arranjador inventivo e bandleader de elevada competência, além de ter sido um dos principais nomes do sax barítono, rivalizando, em técnica e habilidade, com os maiores do instrumento, como Serge Chaloff, Pepper Adams e Sahib Shihab.

Não bastassem essas qualidades, foi um dos músicos norte-americanos mais entusiasmados com a bossa nova, tendo acolhido como um irmão o nosso maestro Tom Jobim, quando este foi tentar “fazer a América”, no início dos anos 60. Mulligan, até o fim da vida, foi um dos grandes divulgadores da música brasileira nos EUA, tendo gravado composições de diversos autores brasileiros em seus discos (chegou a gravar um álbum ao lado da cantora Jane Duboc).

A história de Gerald Joseph Mulligan, nascido em Nova Iorque, no dia 06 de abril de 1927, é bastante curiosa. Seu primeiro instrumento foi o piano, tendo recebido as primeiras lições aos sete anos. Aos onze, ganhou de presente uma clarineta e passou a se dedicar, exclusivamente, aos instrumentos de sopro. Aos dezesseis, mudou-se com a família para a Filadélfia, onde conseguiu o primeiro emprego, como auxiliar de escritório.

O suado dinheirinho, economizado por meses a fio, foi suficiente para adquirir um saxofone tenor. Além das aulas na escola, do trabalho e dos treinos ao saxofone, o jovem Gerry encontrava tempo para fazer os arranjos da orquestra da West Philadelphia Catholic High School. Em pouco tempo, estaria fazendo arranjos para as orquestras das rádios locais, a convite do pianista Elliot Lawrence. Como boa parte dos adolescentes da época, nutria uma verdadeira adoração pelo bebop e por seus principais representantes: Charlie Parker e Dizzy Gillespie.

Nessa época, o inesperado resolveu fazer-lhe uma boa surpresa. Parker e Gillespie fariam alguns shows em Filadélfia, cuja abertura ficaria a cargo da orquestra em que Mulligan tocava. Ocorre que o saxofonista que acompanhava Bird e Dizzy sofreu um acidente e o embevecido Gerry foi convidado a substituí-lo. Durante duas noites, o jovem conheceu o Nirvana musical, tocando com os ídolos.

Em 1946, de volta a Nova Iorque, foi contratado pela orquestra de Gene Krupa, ao lado de quem viajou pelo país, até se fixar em Los Angeles. No ano seguinte, após desentender-se com Krupa, Mulligan uniu-se à orquestra de Claude Thornhill e voltou para Nova Iorque. Por volta de 1948, dois fatos marcaram a vida do saxofonista: a opção definitiva pelo sax barítono e as reuniões no apartamento de Gil Evans, que então iniciava a sua vitoriosa carreira de arranjador.

Participavam dessas reuniões, além de Mulligan e Evans, alguns dos músicos mais importantes das décadas vindouras, como os pianistas John Lewis e George Russell, e o trompetista Miles Davis. Este, aliás, foi o catalisador das complexas idéias harmônicas do grupo, tendo gravado, em 21 de janeiro de 1949 o fabuloso “Birth of the Cool”. Integravam o célebre noneto: Miles Davis (trompete), Lee Konitz (sax alto), Al Haig (piano), Gerry Mulligan (sax barítono), Joe Schulman (baixo), Kai Winding (trombone), Max Roach (bateria), John Barber (tuba) e Junior Collins (trompa).

Houve outras versões do noneto e outras gravações foram incluídas nesse álbum histórico (em 22 de abril de 1949 e em 09 de março de 1950), com a participação de músicos como Al McKibbon, Kenny Clark, Nelson Boyd, J. J. Johnson, e outros. De qualquer forma, o cool jazz ganhou força como movimento estético e todos os seus líderes, de uma forma ou de outra, firmaram seus nomes na concorrida cena jazzística de então.

Durante algum tempo, Mulligan tocou com George Russell, Brew Moore e Kai Winding, mas não estava satisfeito com a pouca repercussão do seu trabalho. Em 1952, mudou-se para a Califórnia, onde fez alguns arranjos para a orquestra de Stan Kenton. Ali pôde, pela primeira vez, montar um combo à sua imagem e semelhança. Arregimentou o baixista Bob Whitlock, o baterista Chico Hamilton e um jovem trompetista que vinha causando furor na cena jazzística da Costa Oeste: Chet Baker. Era o primeiro dos seus (muitos) grupos sem piano – e certamente o mais mítico deles.

Baker e Mulligan se odiaram à primeira vista. O primeiro era desorganizado, intuitivo, irresponsável e genial. O segundo compensava o menor talento (que, embora considerável não merecia, de forma alguma, o adjetivo “genial”) com uma seriedade e uma dedicação férreas. Nos shows, um não falava com o outro e ambos chafurdavam no pantanoso mundo das drogas. A comunicação se dava ao nível do inconsciente – e nada poderia ser mais cool.

Enormes filas se formavam em frente ao Haig, clube onde o quarteto se apresentava e, na audiência, era comum verem-se astros e estrelas de Hollywood. Os discos vendiam horrores (pelo menos para os padrões do mercado jazzístico) e Mulligan e Baker abiscoitavam prêmios nas revistas especializadas. No ano seguinte, o inferno pareceu desabar sobre a cabeça do saxofonista. As brigas constantes com Baker desfizeram a parceria e uma prisão, por porte de heroína, deixou-o longe da ribalta por três longos meses.

Ao sair da cadeia, o ambiente era inóspito para Mulligan. Tido como não confiável, teve que recomeçar do zero. Montou um novo quarteto, com Bob Brookmeyer, em 1954, ampliado para sexteto no ano seguinte, com a entrada do fabuloso Zoot Sims. Em 1957, montou uma orquestra de relativo sucesso, com a qual se apresentou, com bastante regularidade, até o início dos anos 60.

Nesse ínterim, a Columbia, maior gravadora de jazz da época (ou, pelo menos, a mais rica e onde pontuavam luminares como Duke Ellington, Miles Davis, Thelonious Monk e Charlie Mingus), resolveu fazer uma aposta arriscada. Contratou Mulligan e lhe deu carta branca para gravar um disco do jeito que quisesse. E ele não decepcionou. O resultado, que recebeu o insolente título “What Is There To Say?” (algo como “O que mais há para dizer?”), realmente calou a boca dos detratores e é um marco na carreira do saxofonista.

A escolha dos acompanhantes foi o primeiro dos muitos acertos. Art Farmer (trompete), Bill Crow (baixo) e Dave Bailey (bateria) formam uma trinca coesa e experiente, capaz de dar asas aos modernos conceitos harmônicos do líder mas, ao mesmo tempo, hábil o suficiente para fazê-lo com um swing autêntico (e, por vezes, incontido). O repertório, mesclando standards e composições de Mulligan, Farmer e Crow, também é outro acerto. O terceiro foi a escolha do produtor, o polivalente Teo Macero.

O diálogo de abertura da primeira faixa, que dá nome ao disco, é um exemplo da sofisticação quase minimalista de Mullligan. Ele e Farmer se comunicam como velhos camaradas, um fazendo o contraponto ao outro e ambos abusando do lirismo e da delicadeza. “Just In Time”, de Jule Styne, Betty Comden e Adolph Green, recebe um arranjo swingado, mas nada esfuziante, epíteto do estilo cool, com um maravilhoso trabalho da dupla Crow e Bailey.

“News From Blueport” é um mergulho nas águas do Mississipi, ao estilo Mulligan. Ou seja, o tema, composto por Farmer, é executado com doses generosas de elegância e sofisticação. O trompetista e o saxofonista travam verdadeiras batalhas em seus solos, desafiando-se reciprocamente, sem que haja um vencedor – este é, certamente, o ouvinte, extasiado com tamanha exibição de talento e criatividade.

Nas três composições de sua autoria (“Festive Minor”, “As Catch Can” e “Utter Chaos”), observa-se melhhor a preocupação estilística que revela o acadêmico Mulligan. Nada aqui é óbvio, com falsos começos, reviravoltas, notas espaçadas e todos os recursos que só um verdadeiro mestre é capaz de manusear com brilho e distinção. Em “As Catch Can”, deve-se atentar para o lancinante solo de Farmer e o vigoroso trabalho de Bailey. Em “Utter Chaos”, o conhecimento enciclopédico de Mulligan permite-lhe trafegar pelo dixieland, pelo cool e até pelo jazz modal do antigo companheiro George Russell.

Bill Crow assina a animada “Blueport”, cujo destaque é a fabulosa integração entre trompete e saxofone, navegando com a maior segurança em um sinuoso bop-blues, com citações aos heróicos tempos do swing. O arranjo, desta que é a mais longa faixa do álbum, é nada menos que soberbo, com espaço para que todos brilhem, inclusive o discreto compositor.

E, finalmente, há “My Funny Valentine”. Não há outra explicação para que essa música tenha sido incluída no álbum, a não ser o fato de que Mulligan, que não havia digerido a saída de Chet Baker do seu grupo, desejava provar, a todo custo, que poderia ir muito longe, mesmo sem o Anjo Caído do jazz. Bom, temos no trompete o lírico (e baladeiro até a medula) Art Farmer e a pergunta que se faz é: Chet quem?

Um disco que atesta a maturidade de um grande artista e revela bastante sobre os seus múltiplos talentos: uma vez posto à prova, Mulligan conseguiu perpetrar uma pequena obra-prima do jazz, à altura do que melhor se fez nos imorredouros anos 50. Não é à toa que guias respeitáveis como o Allmusic e o Penguin dediquem ao álbum tantas (e merecidas) estrelas.

O exigente Mulligan gravou discos antológicos, ao lado de lendas vivas do jazz, como Duke Ellington, Thelonious Monk, Ben Webster, Dave Brubeck, Paul Desmond, Johnny Hodges e Stan Getz. Era capaz de dialogar, fluentemente, tanto com músicos historicamente ligados ao swing quanto com os boppers mais arrojados. Dentre os selos para os quais trabalhou, destacam-se: Prestige, Pacific Jazz, Capitol, Columbia, Verve, CTI, Chiaroscuro, Concord e Telarc, entre outros.

Ainda na década de 50, participou, interpretando a si próprio, do filme “I Want To Live”, de Robert Wise, que renderia a Susan Hayward o Oscar de melhor atriz e ao próprio Mulligan um dos seus melhores discos (executando, ao lado de grandes nomes do West Coast, a maravilhosa trilha sonora de Johnny Mandell). Outra trilha sonora da qual participou foi a do filme “The Subterraneans”, esta composta por Andre Prévin.

Foi um dos músicos mais ativos dos anos 60 aos 90, gravando incessantemente e participando de concertos e festivais ao redor do mundo. Em 1974, lançou “Summit”, gravado na Itália, ao lado do extraordinário Astor Piazzolla e, em novembro do mesmo, reencontrou o antigo parceiro e desafeto Chet Baker para um concerto antológico no Carnegie Hall, o qual foi lançado em disco pela CTI – um belo e emocionante acerto de contas com o passado dos dois.

Gerry Mulligan morreu no dia 20 de janeiro de 1996, devido às complicações causadas por uma infecção no joelho, após ser submetido a várias cirurgias. Tinha 68 anos. Sobre ele, o amigo Dave Brubeck disse a célebre frase: “Em Mulligan, ouvimos o passado, o presente e o futuro do jazz”. Alguém aí vai querer contestar as palavras do mestre?


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

INTEGRIDADE E AMOR À MÚSICA: A RECEITA DE IKE QUEBEC


Ike Abrams Quebec pode ser considerado um saxofonista da velha escola. Contemporâneo de Coleman Hawkins (e discípulo confesso deste), Arnett Cobb, Don Byas, Illinois Jacquet, Gene Ammons e Ben Webster, sua sonoridade é bastante próxima da destes titãs. À exceção de Hawkins, nenhum destes músicos é considerado um inovador, mas não há dúvidas de que todos, historicamente ligados ao swing, ajudaram abrir caminho para a revolução do bebop (e alguns deles mergulharam de cabeça no novo estilo, como foi o caso de Ammons).

Nascido em Newark, Nova Jérsei, no dia 17 de agosto de 1918, seu primeiro instrumento foi o piano, trocado pelo sax tenor ainda no início dos anos 40. Segundo o próprio Ike, a troca, que se revelou bastante acertada, ocorreu porque ele jamais conseguiria tocar como o ídolo Teddy Wilson. De qualquer forma, o swing ganhou um dos seus mais confiáveis músicos, capaz de alternar grasnados e sussurros com igual competência, e a sua antológica capacidade de tocar baladas o coloca no mesmo nível do já citado Ben Webster e de Benny Carter.

Ainda nos primórdios da década de 40, Ike acompanhou Frankie Newton, Cab Calloway, Hot Lips Page, Roy Eldridge, Jonah Jones, Trummy Young, Ella Fitzgerald, Bucky Clayton, Benny Carter, Roy Eldridge e o próprio Coleman Hawkins. Nesse período, conheceu Kenny Clarke, aproximando-se, graças à amizade com o baterista, do pessoal do bebop, que então deixava pontuava nos clubes da histórica Rua 52.

Também nessa época, iniciou uma relação bastante estreita com a Blue Note. Primeiro, gravou alguns singles em 45 rpm para o selo, onde se destacam “Blue Harlem”, “Facin’ The Face” e “Everything Happens To Me”. O ótimo relacionamento com Alfred Lion permitiu a Quebec que levasse para a gravadora duas das mais promissoras estrelas que então pontuavam no circuito bop de Nova Iorque: Thelonious Monk e Bud Powell.

No início dos anos 50, Quebec amargou o ostracismo, por conta de seu envolvimento com as drogas. Realizou pouquíssimas gravações, mas, ao final daquela década, o saxofonista retornaria ao meio musical em grande estilo e se consolidaria como um dos mais importantes executivos da gravadora, assumindo as funções de A&R (Artists and Repertoire) e se responsabilizando pelos arranjos de diversos álbuns.

Também atuou como sideman em discos de importantes nomes da Blue Note, como Jimmy Smith, Grant Green, The Three Sounds e Sonny Clark, e gravou alguns belíssimos álbuns pela gravadora em seu próprio nome. Um deles é o fabuloso “Blue And Sentimental”, gravado nos dias 16 e 23 de dezembro de 1961, nos estúdios de Rudy Van Gelder.

Os acompanhantes são Grant Green (guitarra), Paul Chambers (contrabaixo) e Philly Joe Jones (bateria), sendo que em uma faixa (“Count Every Star”) a formação é a seguinte: Grant Green (guitarra), Sonny Clark (piano), Sam Jones (contrabaixo) e Louis Hayes (bateria). A qualidade do som, como todos os discos da série RVG (este foi reeditado em 2007, após permanecer um bom tempo fora de catálogo) é esplendorosa.

Quebec surgiu para o jazz durante a era do swing, mas a sua formação musical congrega muito do blues e de outras manifestações tradicionais da música negra norte-americana, sobretudo os spirituals. Green é um guitarrista que bebeu em fontes semelhantes, daí a interação entre os dois ser virtualmente telepática. Na faixa título (de Count Basie), por exemplo, a dupla eleva o blues tradicional a um padrão de requinte melódico difícil de ser atingido, onde o tom lamentoso do saxofone casa com perfeição com a aveludada guitarra de Green.

Dois temas de Quebec – “Minor Impulse” e “Like” – exibem um pouco da sua habilidade composicional. Ambas têm em comum o ligeiro acento de blues e a complexidade harmônica, tributária dos melhores dias da Rua 52. A sincronia entre Paul Chambers e Philly Joe Jones é outro ponto que merece atenção – a base rítmica é vibrante, mas em nenhum momento se mostra invasiva.

Green apresenta uma composição de sua lavra, o denso e comovente “Blues For Charlie” (uma justíssima homenagem ao mestre Charlie Christian), completamente imerso na tradição eletrificada de Chicago – não faria feio no repertório de guitarristas viscerais como B. B. King, Albert King ou Buddy Guy. A destacar, o fato de que, em alguns momentos, Green consegue fazer sua guitarra soar muito parecida com um órgão, e o solo devastador de Quebec.

Há espaço também para as baladas dolorosamente românticas, uma das especialidades de Quebec. “Don't Take Your Love From Me”, por exemplo, vem impregnada de melancolia e lirismo. É como uma daquelas confissões de amor mal sucedido, em que o amante preterido, encharcado de dor e tristeza, transfere para os incontáveis copos de uísque e maços de cigarro toda a frustração e raiva de quem se vê desprezado.

Em outra balada nada menos que espetacular, “Count Every Star” (aqui é o piano plangente de Clark que ajuda a manter o clima enfumaçado das madrugadas insones), o diálogo da solidão outra vez se faz presente. O dedilhar da guitarra de Green capta a fragilidade dos amores perdidos e a enorme elegância de Quebec parece repetir a célebre frase de Vinícius de que são demais os perigos dessa vida para quem tem paixão. Clark acaricia as 88 teclas com uma volúpia delicada, elegante, como somente os grandes entre os grandes são capazes de fazer.

E a paixão e a entrega total e absoluta à música são características muito marcantes na obra de Quebec. Basta ouvir a alegria contagiante que ele imprime na tradicionalíssima “That Old Black Magic”, pérola da ourivesaria de Harold Harlen e Johnny Mercer. A guitarra mezzo-órgão de Green enche de groove a faixa, e o líder toca com um vigor e uma histamina típico de um garoto em início de carreira. O veterano Jones dá uma aula de swing, ritmo e precisão, elaborando um trabalho espetacular com os pratos.

O entusiasmo continua na releitura de “It's Alright With Me”, conduzida em um tempo mais rápido que o habitual, com um Quebec destilando solos incendiários, como se possuísse sete fôlegos. Philly Joe fica mais que à vontade em contextos assim e manda muitíssimo bem, abusando das viradas. Green atira doses fartas de gasolina no incêndio e mostra porque é dos mais talentosos e inspirados guitarristas de todos os tempos.

Para quem quiser entender um pouco mais sobre a linha evolutiva do jazz, suas raízes fincadas no blues, o swing e as revoluções que o sucederam – como o bebop e o hard bop – esse álbum é nada menos que obrigatório. Ike Quebec soube transitar por todas essas nuances e, ao final dessa viagem musical, deu de presente aos amantes do jazz um dos mais belos exemplos da grandiosidade da arte popular maior.

Lamentavelmente, Quebec morreria poucos pouco mais de um ano depois dessas sessões, no dia 16 de janeiro de 1963, em Nova Iorque, em decorrência de um câncer no pulmão – ironia máxima para alguém cujo sopro sempre foi extremamente robusto e vigoroso. Foi substituído, com igual brilhantismo, por Duke Pearson no departamento de A&R da Blue Note e praticamente todos os seus poucos – mas indispensáveis – álbuns foram relançados pela gravadora.

Sobre o saxofonista, o crítico Leonard Feather escreveu: “Embora tenha permanecido em relativa obscuridade, ele nunca foi obrigado a voltar para casa, ou a usar a pintura, a carpintaria ou o volante de um táxi como um meio de subsistência. A música foi e ainda é sua profissão e sua vida. Os discos em 45 RPM lançados pela Blue Note nos anos 40 são um importante lembrete dessa convicção”. Uma trajetória de integridade e amor à música.

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