Amigos do jazz + bossa

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

UMA RARÍSSIMA COMBINAÇÃO DE VERSATILIDADE, TALENTO E ELEGÂNCIA


Responda rápido: quantos saxofonistas podem afirmar que dividiram os palcos e os estúdios de gravação com músicos da estatura de John Coltrane, Art Farmer, Red Garland, Ray Bryant, Clifford Brown, Jimmy Heath, Paul Chambers, Miles Davis, Percy Heath, Curtis Fuller, Philly Joe Jones, Lee Morgan, Count Basie, Tommy Flanagan, Cecil Payne, Art Taylor, Red Rodney, Bobby Timmons, Lionel Hampton, Johnny Hodges, Barry Harris, Earl Bostic, J. J. Johnson, Dizzy Gillespie, John Clayton, Wynton Kelly, McCoy Tyner, Art Blakey, Benny Goodman, Shirley Horn, Quincy Jones, Peggy Lee, Carmen McRae, Anita O'Day, Oscar Peterson, Cedar Walton, Lou Rawls, Mel Tormé, Gigi Gryce, Phil Woods, Max Roach, George Shearing, Nancy Wilson e Ella Fitzgerald? Não muitos, não é mesmo?

E quantos músicos de jazz podem se orgulhar de ter em seu portfólio de mais de 300 composições, gemas do quilate de “Killer Joe”, “I Remember Clifford”, “Along Came Betty”, “Stablemates”, “Whisper Not”, “Blues March”, “Five Spot After Dark”, “The Cool One”, “Blues On My Mind” e “The Stroller”? Bem poucos, decerto.

E se, além de talentoso saxofonista, compositor, bandleader, produtor, educador musical e arranjador, esse músico ainda tivesse acompanhado grandes nomes da música pop, como The Animals, The Mamas And The Papas, The Monkees, Diana Ross, Percy Faith e Dusty Springfield, tivesse composto trilhas sonoras para seriados televisivos bastante populares como M*A*S*H, Mission Impossible, Mod Squad, The Bill Cosby Show e The Six Million Dollar Man e ainda arranjasse tempo para receber o título de Jazz Master (em 1995), concedido pela National Endowment For The Arts? Ah sim, e se esse artista também merecesse uma homenagem por parte do festejado diretor Steven Spielberg, fazendo uma ponta em um de seus filmes (O Terminal)?

Bem, esse músico precisaria ser alguém especial. Alguém capaz de merecer o epíteto de “lenda viva” do jazz! Alguém como Benny Golson! Nascido no dia 25 de janeiro de 1929, em Filadélfia, Golson desde muito cedo revelou uma incrível aptidão musical. Aos nove anos já tocava piano com bastante destreza, mas aos catorze abandonou o instrumento após ouvir o sopro potente de Arnett Cobb, que então tocava na orquestra de Lionel Hampton. Outras influências confessas foram os saxofonistas Coleman Hawkins, Lucky Thompson e Don Byas.

De 1947 a 1950, Golson estudou música na Howard University. Embora tocasse regularmente em casas noturnas e bares da cidade natal desde meados dos anos 40, somente em 1951, conseguiu seu primeiro trabalho como profissional, na banda de R&B de Bull Moose Jackson, cujo pianista era ninguém menos que Tadd Dameron. Graças à influência de Dameron, Golson aperfeiçoou seu interesse pela composição e pelos arranjos.

O primeiro músico a gravar uma composição sua foi James Moody (“Blues March”, em 1955) e, logo em seguida, Miles Davis gravou “Stablemates”. Durante a década de 50, tocou com uma profusão de grandes nomes do jazz, destacando-se a sua associação com Lionel Hampton, Dizzy Gillespie (inclusive se apresentando no Brasil) e com os Jazz Messengers de Art Blakey, onde permaneceu entre 1958 e 1959. Golson teve uma participação importante, embora indireta, para que os Messengers gravassem o seu maior sucesso, “Moanin’”, pois foi ele quem levou Bobby Timmons, autor da composição, para o célebre combo de Blakey.

Além da direção musical e da participação nos históricos álbuns “Moanin’” e “Paris Concert”, ambos de 1958, Benny ainda contribuiu para o repertório da banda com músicas estupendas, como “Are You Real?” e “Blues March”. Em 1959, juntou-se a Art Farmer para criar o Jazztet, um dos mais importantes e profícuos combos dos anos 60, que perdurou até 1962 e por onde passaram Grachan Moncur III, McCoy Tyner, Curtis Fuller e muitos outros.

Ainda nos anos 50, lançou alguns excelentes discos, gravando com regularidade para selos como Prestige, New Jazz, Contemporary, Riverside e Blue Note. Um dos melhores álbuns da sua discografia foi gravado nos dias 19 e 23 de dezembro de 1957, para a Riverside, sob a produção do grande Orrin Keepnews. Chama-se "The Modern Touch" e sua capa, deliciosamente kitsch, tem aquele sabor nostálgico dos anos 50. Uma verdadeira constelação foi escalada para acompanhar Golson: Kenny Dorham (tp), J. J. Johnson (tb), Wynton Kelly (p), Paul Chambers (b) e Max Roach (bt).

O aspecto composicional de Golson tende a ser, merecidamente, incensado, ao passo que sua contribuição como intérprete, muitas vezes, é menosprezada. Trata-se de uma grande injustiça. Golson tem um fraseado suave, lírico, pouco afeito a pirotecnias. Herdeiro direto da tradição representada por Byas, Cobb, Thompson e Hawkins, ele também soube incorporar à sua forma de tocar aspectos extremamente contemporâneos e bastante intrincados, do ponto de vista técnico. Ademais, a sua execução revela um amplo domínio das linguagens pós-swing, como o bebop, o cool jazz e o hard bop, além de um profundo conhecimento do blues.

Tome-se, como exemplo, a faixa de abertura, “Out Of The Past”. Ao mesmo tempo em que paga tributo a grandes melodistas como Richard Rodgers ou George Gershwin, o saxofonista também soube imprimir à sua belíssima composição uma feição moderna, calcada no hard bop que, à época, era a vertente mais popular do jazz e do qual ele foi um dos mais inspirados compositores. Solos extasiantes de Kelly, Dorham e do próprio Golson, e uma atuação impecável de Roach transformam a audição em uma experiência bastante prazerosa.

“Reunion”, de Gigi Gryce, é um hard bop mais tradicional, feérico e incandescente, com metais tocando em uníssono e uma maravilhosa atuação do líder. O solo de Chambers, usando o arco, é soberbo e J. J. Johnson se apresenta em estado de graça. “Venetian Breeze”, também de autoria de Golson, é outro ótimo exemplo da sua inesgotável capacidade de criar belas melodias e envolvê-las em arranjos sublimes. A destacar, o fabuloso senso rítmico de Roach e o belíssimo trabalho de Johnson, que mais uma vez rouba a cena.

Apesar do nome, “Hymn To The Orient” é um hard bop bastante ortodoxo, sem qualquer vinculação à sonoridade oriental, na qual Dorham desfia sua proverbial criatividade. Uma versão lírica de “Namely You” revela uma outra faceta de Golson, a do baladeiro sensível, capaz de imprimir uma elevado grau de emotividade à sua interpretação, da mesma forma que um Benny Carter.

O blues não poderia ficar de fora, já que Golson é um blueseiro por excelência. Em “Blues On Down”, a dobradinha Wynton Kelly-Paul Chambers mostra porque é uma das mais entrosadas e versáteis sessões rítmicas da história do jazz, sem prejuízo dos belíssimos solos que ambos perpetram. O infalível Roach substitui com galhardia e criatividade ímpares o bom e velho Pilly Joe Jones (talvez o baterista que mais atuou com Kelly e Chambers) e o inspiradíssimo Golson exibe o seu fraseado sóbrio e econômico, mas que em momento algum resvala na ausência de sentimento (pecado mortal para qualquer blues que se preze). Um grande álbum, cuja capa, totalmente coerente com a estética meio kitsh dos anos 50, é um atrativo à parte.

Os anos 60 e 70 encontraram um Golson extremamente atarefado. Trilhas para o cinema e para seriados de televisão, jingles para comerciais de grandes empresas como Texaco, McDonald’s, Gillete e Chevrolet, concertos e apresentações em festivais pelo mundo e uma breve residência na Europa, entre 1964 e 1966. Foi professor em instituições afamadas, como a Berklee School, Juillard School e Manhattan School Of Music e doutorou-se em música pelo William Paterson College.

Embora tenha priorizado o lado compositor e arranjador, a partir de 1966, Golson retornou ao jazz em grande estilo, em 1975, fazendo turnês pela Europa, América do Sul e Ásia. Nas décadas de 80 e 90 participou de diversos supergrupos como o redivivo Jazztet, que voltou à ativa em 1983, e o Whisper Not Septet, com quem excursionou em 1996, além de uma reedição dos Jazz Messengers, reunida brevemente em 1999 para celebrar os 80 anos de nascimento de Art Blakey (falecido em 1990).

Nos últimos tempos, tem lançado álbuns com regularidade, destacando-se o fantástico “I Remember Miles”, de 1992, em homenagem a Miles Davis, “Terminal 1”, de 2004, e “New Time, New Tet’”, terceira versão do fabuloso Jazztet, lançado no início deste ano, em comemoração à passagem do seu 80º aniversário. Os músicos que o acompanham nesse come back estão entre os melhores da atualidade: Eddie Henderson (tp & fl), Steve Davis (tb), Mike Ledonne (p), Buster Williams (b) e Carl Allen (bt). Que ele siga seu caminho iluminado por ainda muitos e muitos anos!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MAIS VALE UM PÁSSARO NA MÃO...


Donald Byrd nasceu com o aristocrático nome de Donaldson Toussaint L'Ouverture Byrd II, no dia 09 de dezembro de 1932, na cidade de Detroit. Filho de um pastor metodista que também era músico amador, sua trajetória assemelha-se a de muitos outros jazzistas: recebe as primeiras lições de música no ginásio, muito cedo chama a atenção de uma lenda viva do jazz (no caso, Lionel Hampton, com quem chegou a se apresentar em um show em sua cidade natal), cumpre um período sabático nas forças armadas (onde, obviamente, fez parte da banda da Força Aérea) e, finalmente, se muda para Nova Iorque, em 1955.

Na Meca do Jazz, o trompetista não demora a firmar sua reputação como um dos mais confiáveis acompanhantes do mercado, sendo logo chamado a integrar os Jazz Messengers, substituindo o ídolo Clifford Brown. A partir de 1956, após deixar o célebre combo de Art Blakey, Byrd constrói um impressionante cartel de concertos e gravações com músicos como Max Roach, John Coltrane, Kenny Drew, Jackie McLean, Paul Chambers, Hank Mobley, Thelonious Monk, Kenny Clarke, Lou Donaldson, Red Garland, Phil Woods, Mal Waldron e Horace Silver.

Em uma de suas associações mais celebradas, fundou o Jazz Lab Quintet, ao lado do saxofonista Gigi Gryce. O grupo lançou alguns álbuns interessantes, mas teve uma vida bastante fugaz, entre 1957 e 1958, e seus líderes logo se separaram para se dedicar a outros projetos. Byrd então juntou forças ao velho amigo de Detroit, Pepper Adams, com quem levou adiante uma parceria das mais profícuas. Foram diversos álbuns lançados pela Blue Note entre 1958 e 1961 (quando a parceria foi amigavelmente desfeita) e todos são de altíssimo nível.

Um dos frutos mais estupendos da parceria Byrd-Pepper veio ao mundo no dia 31 de maio de 1959. “Byrd In Hand” foi o segundo álbum do trompetista para a Blue Note e da memorável sessão participaram, além do velho amigo de Detroit, Charlie Rouse no sax tenor, Walter Davis Jr. no piano, Sam Jones no contrabaixo e Art Taylor na bateria.

Dois motivos fazem com que o jazz tenha para com Byrd uma enorme dívida de gratidão: primeiro, porque foi ele quem descobriu o talento estelar de Herbie Hancock e o levou para sua banda; segundo, porque ele é o autor da extraordinária “Here Am I”, uma das composições mais arrebatadoramente belas de todos os tempos e que foi lançada neste álbum.

O disco é bastante homogêneo e reflete a enorme cumplicidade ente Byrd e Pepper, calcada no respeito mútuo e na comunhão entre concepções musicais semelhantes. O sopro viril e musculoso do trompetista se casa muito bem com o som encorpado e grave do sax barítono, proporcionando momentos de puro deleite - é o que se costuma definir como um casamento musical perfeito.

“Witchcraft”, composição de Cy Coleman e Carolyn Leigh eternizada por Frank Sinatra, é reelaborada de maneira bastante criativa, com a dupla Jones e Taylor atuando com uma coesão singular, tingindo essa balada com uma discreta textura de blues e liberando Davis, Byrd, Pepper e Rouse para que cometam ótimos solos.

“Here Am I” é uma jóia preciosíssima, apta a figurar na galeria dos maiores clássicos do jazz, como “Four”, “Daahoud”, “Oleo”, “Blue Train”, “Epistrophy”, “Confirmation”, entre outras mais. Uma canção impressionista, climática, insinuante, lírica, cheia de alternâncias harmônicas que inebriam os ouvidos e fazem com que quem a ouça não consiga concentrar sua atenção em outra coisa, até o fim de seus 8min26seg de beleza em estado puro. Destacar um único músico ou um único solo seria injusto com os demais – é um daqueles momentos tão sublimes, onde a integração entre os músicos é tão intensa e perfeita, que as palavras se tornam insuficientes ou inúteis. É ouvir para crer!

Davis, que além de habilíssimo pianista também é um compositor de mão cheia, contribui com duas músicas: “Bronze Dance” e “Clarion Calls”. A primeira é um engenhoso hard bop de contornos latinos, assentado sobre a pulsante bateria de Taylor. O portentoso sopro de Pepper é responsável por grandes momentos e Rouse, demonstrando a sua enorme capacidade como solista, presenteia o ouvinte com um solo nada menos que magistral. A segunda é bastante melódica, envolvente, centrada no diálogo entre o líder e Pepper.

Duas outras composições do trompetista completam o set. Na acelerada “Devil Whip”, ecos de Parker e dos mestres da Rua 52, em um bebop consistente e desafiador. A atuação do trompetista é soberba – uma combinação muito feliz de técnica e inventividade. Em “The Injuns”, baseada no clássico “Cherokee”, Byrd paga tributo aos primeiros habitantes dos Estados Unidos, adotando em algumas passagens uma batida quase tribal, bastante distinta e inteligente. Rouse constrói um solo arrasador e a sessão rítmica, como de praxe, atua simbioticamente. Um disco altamente recomendável e bastante representativo de um artista com uma folha de excelentes serviços prestados ao jazz e um dos seus mais bem dotados improvisadores.

Diga-se, ainda, que Byrd se destaca de boa parte dos seus pares por conta da educação formal – é graduado em música pela Wayne University e possui mestrado pela Manhattan School Of Music e doutorado pela Columbia Teachers College, além de ser formado em direito e em administração. Também possui uma sólida carreira como educador musical, tendo sido professor em diversas universidades e fundado o Departamento de Música Negra da Howard University. Em 1962 passou algum tempo na França, estudando com a célebre compositora Nadia Boulanger e esse convívio influenciou o trompetista a lançar o aclamado “A New Perspective”, um curioso mix de elementos do gospel, do jazz e da música erudita, com direito a coral e tudo.

Nos anos 70 aderiu à corrente fusion, lançando vários, e comercialmente muito bem sucedidos, álbuns sob esse formato. Recebeu muitas críticas por sua opção, mas pode se orgulhar de ter sido o primeiro músico do cast da Blue Note a vender mais de um milhão de cópias de um disco (“Black Byrd”, de 1972). Em 1974 criou o grupo Blackbyrds, também dedicado ao fusion e integrado por alguns de seus melhores alunos, que gozou de bastante sucesso na época.

Afastou-se dos palcos e estúdios no início dos anos 80, para se dedicar exclusivamente à advocacia e ao ensino, mas a partir de 1987, com o lançamento de “Harlem Blues”, retornou à vida artística, tocando com Joe Henderson, Kenny Garrett e com um companheiro dos tempos de Detroit, o guitarrista Kenny Burrell. A partir de então, seus álbuns voltaram ao bom e velho hard bop, mas não deixou de dialogar com estilos mais comerciais, como o funk e o rap (chegou a excursionar com o rapper Guru).

O trompetista também costuma se apresentar em festivais pelo mundo e não pensa em aposentadoria, ainda mais que agora pode ser chamado, literalmente, de “Jazz Master” – em 2000 foi agraciado com a mais prestigiosa honraria concedida aos músicos de jazz pela The National Endowment For The Arts. Fly away, big Byrd.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

TODAS AS CORES DO CAMALEÃO


Lou Donaldson, não sei por que cargas d’água, me lembra aqueles sujeitos gaiatos, que estão sempre com uma piada na ponta da língua e um sorriso no rosto. Se fosse um sambista, tenho certeza, estaria mais para a malandragem bem humorada de um Bezerra da Silva que para a fidalguia discreta de um Paulinho da Viola. A razão de tal associação talvez seja porque Donaldson é o protagonista de uma das capas mais cafajestes da história do jazz: no álbum “Good Gracious”, o saxofonista olha, pra lá de indiscretamente, o avantajado “derriére” de uma opulenta senhora que passa por ele.

Contudo, é necessário reconhecer que não foi por essa pitoresca razão que ele inscreveu seu nome entre os maiores jazzistas de todos os tempos. Pelo contrário. Apesar do jeitão moleque e irreverente, esse aplicado discípulo de Charlie Parker e Johnny Hodges tem uma trajetória musical tão rica quanto a sua alentada discografia, que chega facilmente a algumas boas centenas – entre as gravações como líder e como sideman. E é por elas, e não pela capinha pra lá de safada, que ele merece ser lembrado.

Nascido no dia 1º de novembro de 1926, em Badin, Carolina do Norte, Donaldson começou a tocar aos 15 anos. Embora sua mãe fosse professora de piano, nunca se interessou por esse instrumento, dedicando-se primeiramente à clarineta, que logo foi trocada pelo sax alto (um acidente durante um jogo de baseball, que ocasionou uma lesão em um dos dedos da mão esquerda, acelerou essa permuta).

Entrou para a marinha em 1945 e teve a oportunidade de aperfeiçoar seu estilo na banda da armada, ao lado cobras criadas como Clark Terry e Willie Smith. Em 1952 mudou-se para Nova York, tendo tocado com estrelas do porte de Milt Jackson, Charles Mingus, Blue Mitchell, Thelonious Monk, Jimmy Smith e Horace Silver. Seu fraseado inventivo e cheio de groove chamou a atenção de Art Blakey, que o convidou para integrar os seus Jazz Messengers em 1954, tendo participado da gravação do soberbo “A Night At Birdland”, ao lado de ninguém menos que Clifford Brown.

No início da década de 50 assinou contrato com a Blue Note, selo para o qual gravou algumas dezenas de discos, nos mais diversos contextos, embora a ligação com a gravadora tenha sofrido um breve hiato entre 64 e 67. Dentre seus colaboradores mais habituais, destacam-se o pianista Horace Parlan, o organista John Patton, o guitarrista Grant Green, o percussionista Ray Barreto e o baterista Ben Dixon.

Além da influência confessa de Parker e Hodges, Donaldson também tem uma fortíssima ligação com o blues e foi um dos primeiros e mais bem-sucedidos criadores do chamado soul jazz. Também ajudou a descobrir diversos talentos, como o saxofonista Stanley Turrentine e o pianista Gene Harris. Entre seus álbuns mais badalados, estão os excelentes “Lou Takes Off”, ao lado do excepcional Sonny Clark, de 1957 e “Blues Walk”, de 1958.

Gravado no dia 27 de abril de 1961, “Gravy Train” é outro ponto alto na discografia de Donaldson. Neste álbum, ele divide o estúdio com o pianista Herman Foster (mais um regular colaborador), o baixista Ben Tucker, o baterista Dave Bailey e o percussionista Alec Dorsey, em uma sessão bastante relaxada, calcada em diversos standards e em duas composições do próprio líder. Trata-se de um disco de transição, fazendo a ponte entre o bebop que caracterizava os seus primeiros álbuns e o soul jazz que iria marcar a sua produção a partir do terço final da década de 60.

A música que dá nome ao disco paga tributo à tradição do blues, destacando-se o delicioso aproach percussivo e o solo irrepreensível do líder. “South Of The Border”, popular na voz de Frank Sinatra, merece um delicioso arranjo que acentua sua levada latina. Grande solo de Herman Foster, com o saxofonista demonstrando seu característico poder de adaptação a qualquer contexto rítmico.

Esse flerte com os ritmos latinos volta a se evidenciar, agora de maneira mais contida, na bela interpretação de “Candy”. Mais uma vez é digno de nota o piano impecável de Foster, que além de excelente acompanhante também é um solista de grande personalidade. “Avalon” recebe um belíssimo arranjo bopper, com Donaldson pagando tributo à sua influência maior – podem-se perceber ecos de Bird, sobretudo nos registros mais agudos. A percussão de Dorsey, cheia de swing, ajuda a fazer dessa canção uma das mais marcantes do disco.

“Twist Time” é um hard bop tocado em um andamento mais cadenciado, com uma discreta tonalidade de blues. O trabalho do baixo e da bateria dignificam a excepcional abordagem de Donaldson, que conta também com as preciosas intervenções do pianista para criar o clima bluesy. “The Glory Of Love”, um clássico eternizado pela orquestra de Benny Goodman, ganha uma leitura menos ortodoxa, quase soul, calcada no ótimo entrosamento da sessão rítmica e na sonoridade quente e viril do líder.

O destaque absoluto do álbum é a fabulosa versão de “Polka Dots And Moonbeans”, com Donaldson mostrando que poderia soar tão pungente e lírico quanto Ike Quebec e Stanley Turrentine, dois dos mais célebres baladeiros que pontuavam na Blue Note à época. Um arranjo insinuante, que privilegia as delicadas texturas sonoras da canção de Johnny Burke e Jimmy Van Heusen, com absoluto destaque para o sopro melífluo e cristalino do saxofonista. Ouvindo essa arrebatadora versão é que se percebe, de forma incontestável, que mesmo um standard tão gravado como esse pode adquirir novas nuances e ser reinventado, quando os músicos que fazem a sua releitura possuem os predicados dos envolvidos nesta gravação.

Com um domínio absoluto de todos os dialetos que compõem o idioma jazzístico, Lou Donaldson sempre foi um músico capaz de atuar, com habilidade incomum, em qualquer contexto, embora alguns críticos não o vejam com bons olhos, sobretudo a partir do final da década de 60, quando lançou vários discos com uma abordagem pop e de grande apelo comercial.

Para além dessa discussão, o mais importante é percebê-lo como um autêntico camaleão, capaz de transitar, sem maiores problemas, do swing ao soul jazz, do cool ao bebop, do blues ao hard bop, como se fosse um verdadeiro fundador de cada um desses estilos – o que é absolutamente verdadeiro no caso do soul jazz.

Para a felicidade dos amantes do jazz, esse bem humorado octogenário continua em intensa atividade, tocando regularmente em clubes e festivais mundo afora. Tanto é que “recentemente, aos 84 anos, ele foi requisitado para tocar nos principais clubes de Nova Iorque, numa maratona de shows em comemoração aos 70 anos da gravadora que o lançou, a Blue Note”, conforme nos faz saber o antenado Vagner Pitta (do blog Farofa Moderna). Que suas cores vivas continuem brilhando ao sol por incontáveis verões!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

HOME SAINT DOESN’T MAKE MIRACLE


Publicado há alguns anos, o livro “The Cow Went To The Swamp” (A vaca foi pro brejo) é uma hilariante coleção de expressões idiomáticas em português, vertidas para o idioma de Shakespeare de forma absolutamente literal. Há desde uma prosaica “Casa de ferreiro, espeto de pau” (creio que traduzida como “Blacksmith’s house, skewer stick”) até a inacreditável “Rodar a baiana” (algo como “To whril the woman from Bahia”). Millôr Fernandes, autor do livro, antecipava-se em algumas décadas ao precário serviço prestado pelo Babel Vista e pelo Google Tradutor!

Li esse livro há muitos anos e não o encontrei em minhas prateleiras – acho que emprestei para alguém e não peguei de volta. Assim, não sei dizer se a expressão “Santo de casa não faz milagre” consta do compêndio, mas o pianista Kenny Drew é um caso típico dessa modalidade de santo, tão comum em nossas plagas. Ou, melhor dizendo, “home saint doesn’t make miracle”, já que ele precisou sair do país para obter o reconhecimento que os Estados Unidos jamais lhe deram.

Um dos maiores pianistas do hard bop, Kenny Drew nasceu em Nova Iorque, no dia 28 de agosto de 1928. Com apenas cinco anos, já tomava as primeiras lições de piano e aos oito já executava concorridos recitais. Ainda na infância, apaixonou-se pelo jazz, graças às audições dos discos de Fats Waller e Art Tatum, suas primeiras influências. Na escola, continuou o aprendizado do piano, mas o vírus do jazz já o havia contaminado irremediavelmente.

Em meados da década de 40, outra guinada em sua orientação musical: sai o booggie wooggie e o swing e entra o bebop professado por Bud Powell, Thelonious Monk e Charlie Parker. Juntamente com o também pianista Walter Bishop Jr. e outros amigos de infância, como Sonny Rollins, Jackie McLean e Art Taylor, Kenny começou a tocar no circuito dos clubes da Grande Maçã. O programa preferido desses jovens e talentosos músicos era ver os ídolos Parker, Monk e Powell, nas infinitas jams que rolavam na mítica Rua 52.

Em 1950, Drew participou de suas primeiras gravações, acompanhando o “Howard McGhee's All Stars”, com quem já tocava regularmente desde o ano anterior. Em seguida, vieram trabalhos com Charlie Parker, Sonny Stitt, Jackie McLean, Grant Green, Tina Brooks, Coleman Hawkins, Kenny Dorham, Sonny Rollins, Lester Young, Zoot Sims, Milt Jackson, Art Blakey, Buddy DeFranco, Ben Webster, Clifford Brown, Dinah Washington, Buddy Rich, Art Farmer, Paul Chambers, Dexter Godon (participou do aclamado “One Flight Up,” gravado em Paris, em 1964) e John Coltrane (acompanhou Trane no seminal “Blue Train”).

Embora fosse um músico de relativo prestígio no circuito de Nova Iorque, Drew ainda passava longe de distribuir autógrafos pelas ruas. Por essa razão, em meados dos anos 50 o pianista resolveu se mudar para Los Angeles. Montou um quarteto com Joe Maini, Leroy Vinnegar e Lawrence Marable e gravou alguns discos pela Pacific e pela Jazz West, acompanhando nomes como Jack Sheldon, Jane Fielding, Paul Quinichette, Sonny Criss e Chet Baker.

Em 1957, acompanhou a cantora Dinah Washington em uma turnê, que culminou com o seu retorno a Nova Iorque. Atuou como sideman em inúmeras gravações para a Blue Note e outros selos importantes, voltou a tocar no circuito dos clubes de jazz e chegou a substituir o pianista Freddie Redd na peça “The Connection”, cujo elogiado score musical havia sido composto por Redd.

Embora já tivesse lançado alguns discos como líder, para selos como Norgran, Pacific, Jazz West e Riverside, o grande disco da carreira de Drew foi produzido pela mesma Blue Note da qual ele era um dos mais prolíficos sideman. “Undercurrent” foi gravado nos estúdios Van Gelder, no dia 11 de dezembro de 1960. Com Drew, estavam Freddie Hubbard no trompete, Hank Mobley no sax tenor, Sam Jones no baixo e Louis Hayes na bateria. Todas as composições são do pianista.

Na faixa de abertura, também chamada “Undercurrent”, Drew e Jones conduzem uma introdução matadora – baixo e piano dialogando na estratosfera, até a entrada dos demais instrumentos. O azeitado quinteto abriu a caixa de ferramentas (“opened the tool box”) e produziu um bebop moderno – há mesmo breves citações da clássica Be-bop, de Gillespie – rápido, certeiro, inebriante, com Hubbard em estado de graça.

“Funk-Cosity” mantém o alto nível composicional. Demonstrando ser bastante versátil, Drew elaborou um hard bop vigoroso, cheio de modulações e bastante influenciada pelo blues. O piano do líder é soberbo, denso, cheio de clima. Hubbard e Mobley resolvem pintar os canecos (“to paint the mugs”) e estabelecem diálogos fabulosos, enquanto os experientes Hayes e Jones mantêm-se firmes na condução rítmica.

Mais esfuziante ainda, “Lion’s Den” tem um balanço digno de um Horace Silver, cheia de groove. Hubbard provoca Mobley com o seu trompete mágico e o saxofonista, que não era de engolir sapos (“to swallow frogs”), responde à altura. O toque de Drew é límpido e seu solo é uma aula magna de ritmo, leveza e agilidade. A dupla Jones-Hayes, entrosada por anos no quinteto de Cannonball Adderley, é uma usina de ritmo e precisão.

Outro grande momento é “The Pot’s On”, rico em idéias e em combustibilidade. O combo chuta o pau da barraca (“kick the tent pole”) e manda ver um tema altamente inflamável, tributário do soul-jazz feito por Bobby Timmons e Lee Morgan. Os metais duelam a maior parte do tempo e Mobley demonstra porque merece estar no panteão dos grandes tenoristas das décadas de 50 e 60. O solo de Hubbard é de uma intensidade contagiante e o de Drew não fica nada a dever àquilo que de melhor se fez no piano hard bopper de qualquer tempo. A conferir, a exuberante performance de Hayes.

Como se pode presumir pelo título, “Groovin’ The Blues” é um bem acabado blues, no qual o destaque absoluto é, mais uma vez, o sax de Mobley. Seu elaboradíssimo solo, plangente e cheio de riffs, deveria ser objeto de estudos pelos jovens saxofonistas – há citações a Parker e a Rollins. A atmosfera do Delta do Mississipi aparece com maior intensidade na abordagem do líder, que não deixa almoço prá janta (“not leave lunch to dinner”). Sam Jones imprime a sua marca, ao perpetrar um solo magistral e a bateria de Hayes, soturna como uma encruzilhada de New Orleans ameia-noite, compõe o clima de maneira irretocável.

Emulando o grande Erroll Gardner, Kenny transborda elegância e lirismo na belíssima “Ballade” – no que é ajudado, sobremaneira, pelo trompete impressionista de Hubbard. Um disco fabuloso, tido e havido como um dos pontos altos da discografia de Drew – e poucos jazzófilos haverão de contestar essa afirmação, pois o que é do homem, o bicho não come (“what is man’s, the animal doesn’t eat”).

Em 1961, Drew tomou a decisão que muitos dos seus compatriotas acabaram tomando nos anos 60 e 70: picou a mula (ou melhor, “stinged the mule”) em direção ao Velho Continente. Ali foi recebido de braços abertos e recomeçou a carreira, atingindo uma popularidade até então inédita. Fixou residência em Paris e, em 1964, mudou-se para Copenhagen, onde abriu uma editora musical e um pequeno selo, chamado Matrix, e tornou-se o pianista por excelência do Café Montmartre, um dos mais tradicionais clubes de jazz da Europa.

Excursionou pelo mundo inteiro, participando de festivais e concertos, tornando-se um dos mais queridos jazzistas do disputado mercado japonês. Nessa época, acompanhou ou foi acompanhado por diversos “expatriados”, como Johnny Griffin, Harry “Sweets” Edison, Dexter Gordon, Art Taylor e Slide Hampton, além de ter tocado com grandes nomes do jazz europeu, como Stéphane Grappelli, Philipe Catherine e Jean-Luc Ponty.

Também compôs, juntamente com Dexter Gordon, a trilha sonora do filme “Pornografi”, uma espécie de pornô-musical, dirigido por um certo Ale Ege, em 1971. Além disso, gravou diversos álbuns para selos como Xanadu e, sobretudo, SteepleChase e firmou uma consistente parceria com o baixista dinamarquês Niels-Henning Ørsted Pedersen, de quem se tornaria grande amigo. Drew faleceu no dia 04 de agosto de 1993, em Copenhagen.

Talvez a maior obra de Drew, para além de sua fenomenal discografia, tenha sido o também pianista Kenny Drew Jr., que herdou do pai o talento superlativo – é considerado um dos pianistas mais brilhantes e laureados da nova geração. Drew Jr. vem mantendo o ótimo nome da família e já gravou ao lado de feras como Stanley Jordan, Michael Mossman, Steve Slagle, Ron McLure, Stanley Turrentine, Warren Vaché e Sadao Watanabe. Afinal de contas, “filho de peixe, peixinho é” – ou melhor, “fish’s son, little fish is”.

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